Violino feito de acrílico produz som de qualidade com baixo custo

A expressão “isso soa como música” é usada quando nos referimos a alguma notícia agradável, que traz felicidade a quem a escuta. Um exemplo: a reciclagem de plásticos “soa como música” para os defensores da natureza. Um projeto desenvolvido pela Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos-SP, tem como proposta dar a esse exemplo um caráter literal. Com o uso de plásticos reciclados, a instituição de ensino começou a produzir violinos em suas dependências, violinos de acrílicos.

Quando a produção atingir um número razoável de instrumentos, eles começarão a ser comercializados a estudantes de música com reduzido poder aquisitivo. O violino de madeira é oferecido ao mercado com preços que vão de R$ 300, para iniciantes, a R$ 8 mil, para profissionais. Mas existem modelos diferenciados cujo valor pode chegar a até R$ 2 milhões. “No caso dos modelos para iniciantes, para muitas famílias investir R$ 300 em um instrumento é algo praticamente impossível”, informa o professor Vitor da Silva Rosa, coordenador do laboratório de operações unitárias e vice-coordenador do programa de mestrado e doutorado em engenharia mecânica da instituição de ensino.

Silva Rosa conta como surgiu a ideia do projeto. “Eu tive contato com a música muito cedo”, lembra. O desejo dele quando jovem era tocar violino, porém não conseguiu, pois não contava com instrumento disponível. O tempo passou e a música perdeu espaço para a engenharia química. “Há três anos, uma amiga estava vendendo um violino de madeira e resolvi comprá-lo”. Ele começou a estudar e há um ano foi apresentado ao violinista e maestro Rômulo de Oliveira Ramos Moreira, que trouxe a ideia de construir instrumentos de cordas com material reciclável.

A preferência pelo acrílico

O professor achou a proposta muito interessante, pois permite transformar resíduos em um produto de valor, além de possibilitar que um maior número de pessoas possa ter acesso ao estudo da música. Com a autoridade de suas funções na universidade, Silva Rosa transformou a sugestão do maestro em projeto de pesquisa e extensão para alunos de graduação em engenharia. Em um primeiro momento, a ideia seria fazer os violinos com PET, mas algumas características dessa resina não se adaptaram bem às condições de produção existentes na universidade.

A opção passou a ser o acrílico. “O acrílico possui algumas facilidades de trabalho que, quando comparado ao PET, deixa o processo mais econômico”. É uma matéria-prima muito usada nas atividades do Laboratório de Operações Unitárias da universidade, com ele são confeccionados diversos itens. “O acrílico é um material nobre, cujas sobras não podem ser desperdiçadas”, revela Álvaro Luiz Moreira Conrado, técnico do laboratório de operações unitárias.

Violino feito de acrílico produz som de qualidade com baixo custo ©QD Foto: iStockPhoto
Instrumento nasceu de um projeto da Unisanta

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Projeto do violino com plástico reciclado

Os primeiros passos do projeto consistiram em entender como um violino de madeira tradicional é construído. Observou-se que por mais que a construção do instrumento siga algumas normas padrão, cada luthier (profissional responsável pela construção e manutenção de instrumentos de corda com caixas acústicas) tem sua característica e modo de produção. Com o conhecimento teórico adquirido, foi iniciado o estudo do acrílico para determinar espessura, contornos do corte e conformação para a construção de um protótipo viável.

Seguiram-se as primeiras medidas práticas. “Inicialmente foram retiradas as medidas de um violino convencional. Após esse processo, fiz um croqui para ter um esboço de como ele ficaria”, conta Conrado. O desenho foi passado para um programa para servir de referência na criação. “Logo após, foram feitos os primeiros cortes das peças na cortadora a laser, como um teste”. O projeto foi sendo aperfeiçoado para que pudesse dar continuidade à colagem das partes.

Surgiram as primeiras unidades, testadas e aprovadas por Emmanuele Baldini, spalla (primeiro violino, músico que atua como ponto de equilíbrio e harmonia entre o maestro e os componentes de uma orquestra) da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). Baldini se mostrou impressionado com a qualidade sonora obtida. “Se entrar em produção, o violino de acrílico pode abrir as portas para vários jovens ao mundo da música”, avaliou.

A intenção agora é expandir o projeto para outros instrumentos de corda, como as violas clássicas, violoncelos e contrabaixos, todos que por terem portes maiores do que o violino apresentam preços ainda mais elevados. “No futuro, com os protótipos desses demais instrumentos finalizados e devidamente testados por músicos profissionais, iniciaremos a comercialização desses produtos”, informa Silva Rosa.

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