Universo da extrusão é pequeno e concentrado

Alguns tipos de peças extrudadas ganharam espaço nos últimos dez anos em segmentos econômicos variados, em especial na construção civil. Também merecem destaques componentes para as indústrias moveleira e de eletrodomésticos da linha branca. No caso da indústria automobilística, são usados com frequência perfis com design sofisticado, projetados para solucionar o difícil dilema de contar com componentes leves e com resistência mecânica elevada. Entre outras aplicações.

A produção de peças do gênero exige moldes complexos, bem mais dos que os utilizados na extrusão de tubos, fornecidos pelos fabricantes dos equipamentos. O cenário contribuiu com a saúde financeira das empresas especializadas nesses tipos de matrizes. Não se trata de mercado muito pulverizado, como ocorre com os ferramenteiros voltados para a operação de injeção. As encomendas também são bem menores do que as do universo dos injetados.

O número de empresas tradicionais no ramo da extrusão talvez não chegue a dez, todas com porte de pequeno a médio. Elas se concentram na Região Sul e em São Paulo e atendem clientes do país inteiro e também da América do Sul. São os casos, por exemplo, das ferramentarias Astrotec, Pickler, Raltec e Pewa.

Uma ressalva: a última década foi favorável, mas os resultados de 2013 não entusiasmam. Entre os representantes dessas empresas não há muito otimismo em relação ao número de encomendas para este ano. Alguns acreditam em crescimento, mais pelo desempenho pífio obtido em 2012 do que pelo vigor da economia. Lembram com saudades do ano de 2010, quando obtiveram resultados para lá de entusiasmantes.

Os clientes mais assíduos são os transformadores de peças feitas de PVC, em especial os fabricantes de forros. Para esse nicho, o desafio dos fornecedores tem sido o de produzir moldes mais produtivos, pelos quais duas ou mais peças são obtidas ao mesmo tempo. Os forros no Brasil, conforme a região, costumam ter 100 mm ou 200 mm de largura. Também no campo do PVC, destaque para a produção de divisórias, portas sanfonadas, cantoneiras para a indústria moveleira e esquadrias para janelas. Outras matérias-primas são usadas com parcimônia, o número de moldes produzidos é bem menor. São os casos do polipropileno, polietileno, poliestireno, policarbonato ou do poliuretano.

A concorrência da indústria asiática, em especial a chinesa, motivo de tantas reclamações por parte dos especialistas em moldes de injeção, no caso da extrusão incomoda menos. Ela existe, mas os fabricantes brasileiros garantem que a qualidade dos importados deixa muito a desejar, é compatível com os preços praticados. Os bons moldes vindos do exterior custam caro. Além disso, por exigir assistência técnica constante, o nicho favorece os fabricantes brasileiros.

Passo a passo – As ferramentarias de moldes para extrusão têm cotidiano similar. Ricardo Kunde, projetista da Pickler, de Joinville-SC, fala sobre o passo a passo de cada projeto. “Não desenhamos nem somos responsáveis pelo desenho do produto”, explica. Por isso, a boa funcionalidade da peça fica por conta da competência dos transformadores. Isso não significa a ausência total de palpites. “Às vezes auxiliamos os clientes com algumas sugestões para facilitar a confecção da ferramenta e o processo de extrusão.”

Definido o produto a ser fabricado, parte-se para o orçamento. Nesse momento, por exemplo, são definidas as dimensões da ferramenta e os materiais a serem usados na sua confecção. “Sempre usamos o aço 420 como material principal. Conforme a necessidade, os moldes também contam com componentes de alumínio, latão, aço inox e cobre-berílio.” Um estudo detalhado define a lista dos materiais a serem comprados.

As principais máquinas usadas no processo de construção da matriz são as de usinagem, como fresadoras convencionais e CNC, equipamentos de eletroerosão a fio e de penetração e torno. Usinadas as peças, seguem-se as etapas de montagem e ajustes, estes últimos muitas vezes feitos com a ajuda de retíficas planas. “Como em qualquer projeto mecânico, a precisão depende de cada situação. Normalmente trabalhamos com tolerância de dimensões na casa dos 0,05 mm”, conclui.

Os moldes, então, vão para os testes, feitos na própria ferramentaria ou, quando elas não contam com equipamentos compatíveis com o projeto, nas dependências do cliente. Os prazos para completar essa epopeia variam caso a caso. Nos projetos mais sofisticados, o prazo gira em torno de 60 dias.

Plástico Moderno, Pewa destaca em seu portfólio os moldes para PVC
Pewa destaca em seu portfólio os moldes para PVC

Pioneira, parte I – A Pewa, de São Paulo, é uma das pioneiras no Brasil no ramo. Está no mercado há 21 anos e conta com doze funcionários. “Nosso diferencial é a experiência”, revela Wagner Pereira, sócio fundador. “A nossa empresa é familiar, meu pai trabalha com moldes de extrusão há mais de meio século, desde os anos 60. Eu comecei há 21 anos. Conhecemos muito os problemas do cliente”, justifica ele.

Entre as empresas atendidas, os fabricantes de forros de PVC são os mais assíduos. “Os moldes de maiores dimensões que fizemos foram para forros com 600 mm de largura”, informa. No exterior, são construídos moldes maiores. “No Brasil, as extrusoras usadas têm capacidade entre 300 e 400 kg/h, em outros países os fabricantes dos equipamentos produzem de 500 a 600 kg/h.”

O PVC é de longe o material mais utilizado pelos clientes da Pewa. “É o nosso carro-chefe.” A empresa também trabalha com outros plásticos, como polietileno, policarbonato ou poliuretano. “Tudo é uma questão de conversa. Construímos os moldes por encomenda, estudamos qualquer proposta feita pelos compradores.”

De acordo com Pereira, os fabricantes de ferramentas chineses estão começando a incomodar. “A concorrência não acontece de forma tão agressiva quanto no caso dos moldes de injeção.” Para ele, a qualidade dos asiáticos deixa a desejar. “Quando a qualidade é boa, os preços são iguais.” Outro fator que ajuda a indústria nacional é a possibilidade de prestar assistência técnica. “A operação de extrusão não é tão exata como a injeção. Os moldes precisam de ajustes quando vão para as máquinas.”

Sobre o atual ritmo de vendas, o sócio fundador da empresa se sente um tanto inseguro para fazer previsões. “O ano estava bom, mas no último mês houve uma pequena queda de procura.” Ele arrisca, como palpite, um crescimento de 30% em relação ao ano passado. “2012 foi um ano muito fraco”, ressalta.

Plástico Moderno, Astrotec aposta na oferta de ferramentas produtivas para forros
Astrotec aposta na oferta de ferramentas produtivas para forros

Pioneira, parte II – Outra empresa com muitos anos de atuação é a Astrotec, de Joinville-SC. Fundada em 1994, fornece moldes para transformadores de perfis plásticos espalhados pelo Brasil e também para países integrantes do Mercosul. Com dezenove funcionários, projeta ferramentas para peças a serem produzidas em todas as resinas. A empresa faz do projeto da matriz aos primeiros testes de funcionamento, operação para a qual conta com extrusora própria.

“Nossos principais clientes são os fabricantes de forros de PVC. Este mercado tem crescido bastante nos últimos cinco anos”, informa Vilmar Carlos Dresch, administrador industrial. Nesse nicho, a moda é oferecer ferramentas mais produtivas, que permitam a fabricação de até três peças por vez. A empresa também atende com bom volume a indústria moveleira, de linha branca e de esquadrias. A indústria automobilística faz encomendas, mas em pequeno número. Dresch mostra otimismo para um mercado com bom potencial de crescimento para os próximos anos, o de esquadrias para janelas. “As esquadrias começaram a ser usadas com maior intensidade há dez anos e este é um nicho promissor.”

Plástico Moderno, Para Dresch, esquadrias para janelas despontam como um nicho promissor
Para Dresch, esquadrias para janelas despontam como um nicho promissor

Na opinião do administrador, os chineses estão começando a incomodar. “Eles praticam preços muito baixos”, queixa-se. Para ele, no entanto, o maior problema vem da cobrança feita pelos transformadores. Trata-se de um fato que incomoda fornecedores de todos os tipos de produtos e serviços. “Às vezes os clientes preferem pagar menos por uma ferramenta de menor qualidade. Nós não trabalhamos assim”, analisa. Para 2013, difícil fazer uma estimativa. “Está dando para se manter, mas os negócios estão irregulares, vivemos períodos de alta e de baixa. A perspectiva não é muito positiva.”

Sêxtuplas – A principal característica do mercado determinou a estratégia da Raltec, de São Leopoldo-RS, no mercado desde 2005 e com 42 funcionários. “Somos especializados em perfis de PVC, só trabalhamos com PVC”, explica o diretor Arley Lemos de Moura Júnior. Entre os moldes, a grande maioria é voltada para a produção de forros. Matrizes para portas sanfonadas e para a indústria moveleira também fazem parte da rotina.

Plástico Moderno, Júnior não considera a concorrência chinesa uma ameaça ao seu negócio
Júnior não considera a concorrência chinesa uma ameaça ao seu negócio

Um mercado no qual a empresa está de olho é o de esquadrias para janelas. “O mercado está encubado, vem crescendo, embora ainda devagar.” Não por acaso, ela fez parceria com técnicos austríacos com o objetivo de ficar pronta caso o bom potencial se confirme. “Já estamos preparados para atender a esses tipos de pedidos.”

Moura Júnior se orgulha de um feito da Raltec. “Em 2008 nos tornamos a primeira do Brasil a fazer um molde que produzia três forros de uma vez. Antes, só existiam ferramentas para duas peças.” Com esse tipo de matriz, cresceu a produtividade do transformador. “Eles podem contar com linhas que aproveitam melhor a capacidade das máquinas.” A empresa quer reforçar essa marca. Está lançando ferramentas sêxtuplas para forros com 100 mm de largura. “Queremos ser conhecidos pelo desempenho de nossos produtos.”

O diretor da empresa não se mostra preocupado com a concorrência chinesa. “Existe a concorrência, mas nem de longe ela é forte como no caso da injeção.” A assistência técnica age a favor dos brasileiros no caso das ferramentas mais sofisticadas. “As voltadas para esquadrias requerem acompanhamento diferenciado, para os chineses, por exemplo, é impraticável acompanhar os tryouts”, garante. Além disso, falta conhecimento técnico. “Os asiáticos não conseguem fazer moldes com alta produtividade.”

As vendas no primeiro semestre, para a Raltec, estão dentro da média dos últimos tempos. “O ano de 2010 foi imbatível, tivemos um grande crescimento.” O ano passado foi fraco e este ano não está muito animador. A torcida é para o crescimento das atividades da construção civil, melhor cliente da empresa.

Picos sazonais – A Pickler, no mercado desde 2009 e com quinze funcionários, vive em condições semelhantes às de suas concorrentes. A empresa projeta moldes para peças feitas em resinas variadas. O principal mercado é o mesmo. “A área mais forte é a da construção civil, em especial os forros e acabamentos. Também atendemos bastante pedidos para portas sanfonadas”, conta Kunde. Moldes para esquadrias de janelas são encomendados em menor escala. Para o projetista, o programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, estimulou a produção de perfis de PVC.

Outros mercados importantes são o de refrigeração, supermercadista e automobilístico. Os negócios em 2013, no entanto, não estão muito alentadores. “O mercado está ‘morno’. Temos serviço suficiente para nos mantermos ocupados, porém abaixo do esperado.” Os dois últimos anos têm sido assim, com picos sazonais. “Acredito que no total do ano ficaremos com produção inferior à do ano passado.” Os concorrentes asiáticos atrapalham, porém em proporção menor do que em outras atividades. “O grande trunfo dos asiáticos é o preço e o prazo de entrega. Os fabricantes nacionais têm maior qualidade, além da assistência técnica no cliente.”

Kunde destaca a diversidade dos pedidos. “Às vezes, fechamos pacotes que incluem dois ou dez moldes.” Também variam bastante os tamanhos e a complexidade. “Existem moldes que levamos 60 dias para a entrega, outros em quinze dias estão na linha de produção.” Praticamente todos são pré-testados na empresa com extrusora própria e material fornecido pelo cliente. “Somente nos casos de limitação do nosso equipamento não fazemos os testes internos. Nesses casos, damos toda assistência ao cliente na sua planta até o início da produção.”

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As indústrias brasileiras de ferramentas e abrasivos se uniram para constituir a Associação Brasileira das Indústrias de Ferramentas e Abrasivos (Abfa), entidade nacional criada para fortalecer o setor. A pauta do seu presidente, Milton Rezende, inclui reivindicações aos órgãos governamentais de ordem técnica e econômica, em razão da substituição da produção doméstica por importados e, principalmente, pela desindustrialização brasileira. Uma das principais iniciativas da associação será fazer com que o CB-60, o Comitê Brasileiro de Ferramentas Manuais e de Usinagem, criado em 2008 pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), torne-se um critério para os produtos importados entrarem no mercado nacional. O presidente do Sindicato da Indústria de Abrasivos (Sinaesp), Reinaldo Monteiro, reclama que o país permite a entrada de ferramentas e abrasivos que colocam em risco a integridade física dos operadores dessas ferramentas, pois não há nenhum tipo de exigência em relação à qualidade desses produtos provenientes do exterior. O presidente da Abfa estima que uma ferramenta produzida no Brasil custe de 25% a 30% mais que a mesma produzida nos Estados Unidos, Japão ou Europa.

M.A.S.R.

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