Tintas : Vendas seguem aquecidas em todos os segmentos

Mas alto custo dos insumos preocupa

A indústria de tintas no Brasil não tem do que reclamar.

Os dados relativos a 2021 indicam aumento forte, de 5,8%, no volume de vendas, alcançando a marca de 1.715 milhões de litros.

Os números de 2020 já registraram incremento de 3,5%, portanto, apesar da pandemia (e até por causa dela), pode-se dizer que o setor está em voando em céu de brigadeiro.

Em 2020, porém, o crescimento foi todo obtido no segmento das tintas imobiliárias, justificado pela adoção do regime de trabalho de casa, como medida de prevenção contra o novo coronavírus.

A produção de veículos automotores havia despencado por causa da interrupção do suprimento de peças e conjuntos, além da retração dos compradores, fazendo encolher a demanda de tintas automotivas originais (OEM) em 28%.

Por sua vez, os resultados de 2021 foram bons em todos os segmentos, tendo a linha automotiva registrado o melhor desempenho, com alta de 12%, sem recuperar totalmente a queda do ano anterior.

Os números positivos podem gerar uma falsa impressão de que tudo está perfeito no setor.

Aguarda-se para meados do ano a informação sobre os resultados financeiros das empresas do setor para se verificar se a rentabilidade acompanhou o volume comercializado.

Pode haver surpresas, pois os custos de produção subiram muito em 2021, a começar pelos insumos químicos – quase todos dolarizados –, mas também em energia elétrica, embalagem e transportes.

O comportamento da taxa cambial abriga grandes preocupações, como explicou a economista Zeina Latiff durante o Fórum Abrafati, em novembro passado.

Na ocasião, o comércio internacional iniciava uma reacomodação, superando as dificuldades provocadas pelas interrupções logísticas.

Após uma depressão inicial causada pela pandemia, a economia global exibiu uma vigorosa recuperação em “V”, apontou, devendo iniciar agora uma desaceleração.

Na avaliação da economista, o governo Biden, nos Estados Unidos, exagerou nos estímulos econômicos, alimentando a inflação e exigindo uma resposta firme da autoridade monetária, o Federal Reserve (FED), com aumento dos juros.

“Esse movimento poderá provocar turbulências nos mercados de todo o mundo”, avisou.

No caso brasileiro, a situação é piorada pela alta volatilidade cambial, maior do que a média dos países considerados emergentes.

“Deveríamos estar com o dólar a R$ 4,20 e estamos, em novembro, a R$ 5,50, isso é ruim”, lamentou.

Para Zeina, é fundamental que o próximo presidente da república, a ser eleito em 2022, emita sinais que contribuam para estabilizar a política e a economia, aumentando a previsibilidade.

“Isso ajudará o valorizar o real frente ao dólar; estamos em ano eleitoral, enquanto não houver uma definição sobre o próximo governo a volatilidade permanecerá”, comentou.

Além do dólar, a economista alertou que o país não avançará enquanto não forem promovidas as reformas estruturais esperadas há anos.

“A atividade econômica, principalmente a industrial, sente muito o peso do custo Brasil que lhe retira a competividade”, salientou.

Ela citou a barafunda tributária, altamente complexa e com alíquotas elevadas, como responsável pela existência de um contencioso tributário equivalente a 75% do PIB, gerando insegurança jurídica.

Ela apontou que o desempenho do setor industrial no Brasil é pífio, desde o governo Fernando Henrique Cardoso vem apenas acompanhando a média mundial, mas fica muito abaixo do registrado pelos demais países emergentes.

“Temos obtido excelentes resultados no setor agrícola, mas é importante termos uma atividade industrial forte porque o setor tem multiplicadores econômicos e sociais muito relevantes”, considerou.

A importação de produtos industrializados havia caído no início da pandemia, mas voltou a crescer, e supera a produção local desde 2010, como explicou.

Tintas - Vendas seguem aquecidas em todos os segmentos ©QD Foto: iStockPhoto
TODOS OS SEGMENTOS AMPLIARAM VENDAS EM 2021

Ela apontou que o setor de tintas apresenta situação mais favorável do que a média da indústria brasileira, por estar menos exposto à concorrência global.

Em 2020 e em parte de 2021, houve injeção de R$ 65 bilhões na economia por meio do Auxílio Emergencial, que agora será reduzido e pode repercutir na demanda por produtos de consumo.

Nesse panorama, 2022 tende a ser mais difícil que 2021, com juros mais altos e restrições de crédito. “Não estou muito preocupada, temos o exemplo do governo Temer que conseguiu sair de uma crise pior do que essa, deixada pelo governo Dilma Roussef; basta arrumar a casa”, apontou.

Zeina comentou que o Brasil pode tirar proveito da chamada transição energética e descarbonização da economia, por contar com matriz elétrica mais limpa que a maioria dos países e também dispor de grande variedade de opções “verdes” para substituição de derivados de petróleo.

“Exploramos mal essa imagem lá fora, uma pena porque a agenda ambiental veio para ficar; é natural que ocorra alguma redução de produtividade durante a fase de transição e pode haver aumento de custos, mas tudo isso abre oportunidades para o Brasil”, salientou.

Avanço no ESG – Atenta às questões atuais ambientais, sociais e de governança (a agenda ESG), a Abrafati buscou auxílio do Instituto Akatu de Consumo Consciente para elaborar um plano de ação e auxiliar as indústrias do setor a melhorar seus indicadores.

Segundo Hélio Mattar, presidente do Akatu, a adoção de boas práticas de ESG traz muitos benefícios para as empresas, entre eles, impulsionar a geração de tecnologias inovadoras; facilitar o acesso ao crédito; adequação de produtos e processos para certificações; e melhorar a reputação das companhias.

“A economia circular, tão em voga, exige integração com outros setores econômicos para funcionar bem, as boas práticas auxiliam esse relacionamento”, comentou.

A parceria entre Akatu e Abrafati começou com estudos de casos de associações setoriais de outros países, como Canadá, Inglaterra e Estados Unidos.

Com esses dados, será possível apoiar as empresas associadas a avaliar a sua estratégia interna de ESG e adotar um plano de evolução.

“Precisamos conhecer de perto todo o ecossistema do setor e manter o engajamento de todos os envolvidos direta ou indiretamente, incluindo fonecedores”, disse.

Os próximos passos consistem na consolidação dos temas mais relevantes em ESG para o setor, desenvolver um posicionamento oficial da Abrafati, ponderar os indicadores e criar uma regra interna da associação para orientar a estratégia das associadas. “Isso deve ser concluído durante 2022”, informou.

Mattar salientou que está sendo criada uma régua, uma forma de medição do desempenho setorial em ESG. Com base nessa regra, ajustada pelos indicadores mais significativos para o setor, será possível avaliar de forma objetiva o desempenho de cada empresa, de forma transparente.

“A transparência nos resultados e objetivos perseguidos elimina a possibilidade de greenwashing [divulgação de práticas pouco efetivas, apenas para polir a imagem]”, ressaltou.

Mercado firme – A segunda onda da Covid-19, que apareceu em meados do ano passado, foi um balde de água fria no ânimo da indústria de titnas.

“Esperávamos que esse pesadelo já tivesse sido superado no começo de 2021, a segunda onda afetou o mercado, criando dificuldades inéditas”, comentou Freddy Carrillo, presidente da Sherwin-Williams no Brasil (está voltando para Cleveland (EUA), sendo substituído em fevereiro próximo por Nilton Rezende, até então diretor financeiro da empresa).

Com a alta do dólar, os custos de produção dispararam e se refletiram no aumento do preço das tintas ao consumidor final, afetando o consumo. “Mesmo assim, conseguimos bons resultados, as vendas foram bem distribuídas ao longo do ano; em 2020, só o segundo semestre foi bom.”

Carrillo observa 2022 com otimismo cauteloso. “Há condições apra o crescimento do Brasil, o que é bom para o setor, mas o consumo per capita de tintas ainda é muito baixo”, lamentou.

Ele espera bons negócios a partir dos vários projetos de infraestrutura que estão sendo ativados, em especial no saneamento básico. Ainda persiste um déficit habitacional entr 7 milhões e 8 milhões de unidades, que representa um potencial de mercado importante para as tintas.

“Em 2022, ainda permanece um backlog logístico enorme, as indústrias precisam garantir seus suprimentos de insumos”, comentou.

Alan Souza, diretor da Iquine, fabricante de tintas com forte participação nos mercados do Norte e Nordeste do Brasil, apontou que essas regiões sentiram muito a falta do Auxílio Brasil em 2021.

“As vendas ficaram abaixo das de 2020, quando o Nordeste teve auxílio para 35 milhões de pessoas, é um impacto forte”, disse. “Esperamos que os resultados de 2022 sejam mais favoráveis, com o bom desempenho do agronegócio e a recuperação do turismo.”

Otimista quanto ao desempenho em 2020, Souza, porém, alerta para a necessidade de promover uma precificação adequada das tintas. “O dólar pode disparar elevando os custos, enquanto os clientes querem estabilidade de preços”, disse.

Agnaldo Bergamo, diretor comercial da Eucatex, ressaltou que o interior do Brasil é a região com o maior crescimento econômico nos últimos cinco anos.

“Durante a pandemia, o interior aumentou ainda mais sua importância e deve crescer ainda mais, puxado pelo agronegócio, além do surgimento de empresas novas e das que se transferem para lá, saindo dos grandes centros urbanos”, salientou.

Além disso, o trabalho de casa também levou para o interior um contingente de profissionais de alto poder aquisitivo, que passou a investir em reformas e construções por lá.

Douver Martinho, presidente das Tintas Universo e do Sindicato da Indústria de Tintas do Estado de São Paulo (Sitivesp, que completou 80 anos de existência em 2021), considerou que a pandemia causou grande preocupação em todo o mundo, provocando fortes mudanças.

“Durante esse período, os consumidores mostraram maior percepção da qualidade das tintas, portanto manter a seriedade do Programa Setorial de Qualidade, o PSQ, é fundamental”, ressaltou. Para ele, os resultados do ano passado foram positivos tanto em volume, quanto em qualidade da produção. “E, partir deste ano, também em ESG”, finalizou.

Expectativas positivas – Os dados coletados sobre 2021 permite traçar um panorama animador para os próximos anos, como explicou o presidente-executivo da Abrafati, Luiz Cornacchioni.

Tintas - Vendas seguem aquecidas em todos os segmentos ©QD Foto: iStockPhoto
Presidente-executivo da Abrafati, Luiz Cornacchioni

“O hábito de cuidar melhor de casa ganhou força em 2020, foi mantido em 2021 e deve permanecer daqui por dainte; além disso, houve um grande número de lançamentos imobiliários nos últimos dois anos, esses empreendimentos devem entrar na fase de acabamento, demandando tintas, a partir de 2022”, avaliou.

O ano passado também registrou a recuperação da demanda automobilística. Embora a repintura tenha se mantido estável em 2020, ela ampliou em 5% sua demanda em 2021.

“As montadoras conseguiram superar em parte o problema do suprimento de peças e aumentaram a produção, isso puxou as vendas de tintas OEM, sempre lembrando que o valor unitário dessas tintas é elevado”, considerou.

Além disso, as tintas para a indústria em geral registraram aumento de vendas de 4%, um bom resultado.

Cornacchioni apontou que os custos de produção foram bem mais altos em 2021, resultado do impacto na cadeia de suprimentos e da variação cambial muito forte.

“Esperávamos até um resultado melhor para 2021, mas o desempenho do último trimestre foi ruim e impediu a obtenção de números ainda mais positivos”, disse.

Em dezembro, o setor obteve uma vantagem importante em relação ao dióxido de titânio, insumo fundamental para as formulações.

“Conseguimos renovar até 2028 o mecanismo da lista de exceções da tarifa externa comum (Letec), do Mercosul, permitindo importar o pigmento com alíquota de 8%, contra os 12% originais”, informou o presidente-executivo. Isso tirou do setor o encargo de negociar a cada ano a renovação do mecanismo.

“Melhor ainda, não haverá cotas de importação, como vem sendo feito desde 2020, permitindo aos fabricantes de tintas distribuir suas compras ao longo do ano.”

A previsão da Abrafati para 2022 recomenda cautela.

“Não esperamos manter percentuais de crescimento em volume tão altos, devemos ficar em torno do desempenho do PIB mais 2%”, afirmou Cornacchioni.

Ele explicou previsão pela queda de renda da população, com o endividamento das famílias elevado, o que inibe consumo de bens duráveis, como os automóveis, e dos imóveis.

É preciso considerar que se trata de um ano eleitoral, quando o bolso dos titulares de cargos executivos tende a ser mais flexível.

“No segmento de indústria geral, pode haver um reflexo positivo pela execução de obras públicas, mas não deve ser muito maior”, avaliou.

Ele não vê ameaças sérias ao setor no campo regulatório, nem no ambiental, uma vez que as indústrias vêm desenvolvendo trabalhos importantes em qualidade e ESG, com o apoio da Abrafati.

“É bom lembrar a todos que realizaremos de 21 a 23 de junho, no São Paulo Expo, a 17ª edição do Abrafati Show, que reúne o Congresso Internacional de Tintas e a Exposição Internacional de Fornecedores para Tintas, apoiando a união da cadeia produtiva e permitindo a transferência de conhecimento e a o fortalecimento das relações entre os profissionais do setor”, ressaltou.

Ele observou que todos os cuidados sanitários serão obedecidos, com os protocolos atualizados pela equipe do Hospital Albert Einstein. “Esperamos todos lá”, concluiu.

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