Indústria de tintas prevê volume maior de vendas

Indústria prevê volume maior de vendas e usa tecnologia digital para entender clientes

A indústria brasileira de tintas está preparada para oferecer volume suficiente de tintas para atender a demanda nacional que promete crescer neste e nos próximos anos.

Depois de amargar um recuo de 4,0% no volume comercializado em 2022, o setor registrou uma recuperação estimada em 3,4% no ano passado, que permite projetar uma trajetória ascendente.

“Nossa indústria mostrou uma forte resiliência ao crescer 3,4% em 2023, com bom desempenho em todos os segmentos”, ressaltou Marcos Alleman, presidente do conselho diretivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas e Vernizes (Abrafati).

Ainda mais porque os prognósticos divulgados no início do ano passado não eram animadores, a começar pela previsão de aumento de PIB em torno de 1%. “O PIB avançou 3% em 2023, contrariando as expectativas, um ótimo resultado que se refletiu também na venda de tintas”, considerou.

Da mesma forma, 2024 começa com expectativas brandas por parte, por exemplo, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que prevê elevação do PIB de 1,7%.

Tintas: Indústria prevê volume maior de vendas ©QD Foto: iStockPhoto
Alleman prevê crescimento de vendas de 2% a 2,5% neste ano

“Sou otimista, o Brasil tem um potencial de mercado muito grande e temos espaço para crescer mais do que no ano passado”, afirmou.

“Os preços dos insumos que o setor de tintas consome voltaram aos patamares tradicionais e isso ajuda a reduzir os custos e também os preços de venda.” A Abrafati estima que as vendas de tintas em 2024 registem novo crescimento, agora entre 2,0% e 2,5%.

Alleman pondera que alguns desafios exigirão esforços combinados entre governo, empresas e consumidores. A começar pelas taxas de juros, ainda muito elevadas por aqui. Como observou, o custo alto de capital afeta diretamente os varejistas de tintas e materiais de construção, que repassam o custo financeiro para o consumidor final, afetando as vendas. “Os juros começaram a cair no segundo semestre do ano passado, ainda estão altos, mas já há uma sinalização de reduções futuras dos juros, o suficiente para melhorar o ambiente de negócios”, avaliou.

Outro desafio está no avanço do uso de técnicas de inteligência artificial (IA) no setor. “O IA mudará a forma como se trabalha, precisamos acompanhar esses movimentos e aprender juntos, isso tem um potencial transformador enorme”, ressaltou Alleman.

A diversidade no setor também precisa ser incluída no planejamento das empresas, de modo a permitir um conhecimento maior e mais amplo das demandas do mercado conforme cor, gênero e idade, entre outros. “Segundo o IBGE, 25% da população brasileira tem 50 anos ou mais e essa parcela consome 23% de todos os bens e serviços no país”, apontou. O setor já aprendeu a lidar com a convivência de várias gerações de pessoas no ambiente de trabalho das empresas do setor, aproveitando bem as características de cada faixa etária. O desafio que se coloca agora é como lidar com a diversidade etária no consumo de tintas, com propostas diferentes de valor em cada geração.

Nessa perspectiva, Allemann considera que o mercado de tintas no Brasil tende a evoluir e as companhias produtores devem ser mais ousadas em seus planejamentos. “Entendo que 2024 e 2025 serão melhores do que 2023 para o setor, pois partem de uma base de negócios melhor, com custos e preços mais baixos, e com a reforma tributária aprovada, embora ainda exija regulamentação; tudo isso é positivo”, avaliou.

A Abrafati, como apontou, contribuirá para a capacitação setorial, acompanhando também o avanço dos aspectos regulatórios, de branding, meio ambiente, sustentabilidade, governança e inovação. “O crescimento sustentável é o único possível”, ressaltou. Ele ressaltou a importância do Programa Setorial da Qualidade (PSQ), que completa 20 anos de operação, para o reconhecimento pelo mercado da qualidade das tintas certificadas.

Allemann também comentou que o desempenho dos negócios tem revelado diferenças regionais marcantes. “Norte e Nordeste estão crescendo acima da média nacional no consumo de tintas e na atividade econômica, enquanto o Centro-Oeste acompanha a evolução do agronegócio e as regiões Sul e Sudeste já podem ser consideradas maduras, embora o volume consumido por elas seja muito elevado”, comentou. Apesar disso, a região Sudeste apresentou aumento de 5,6% nas vendas de tintas decorativas imobiliárias em 2023.

Na abertura do Abrafati Show 2023, em dezembro, o consultor e CEO da consultria internacional ChemQuest, Daniel Mourad, considerou 2023 como um ano difícil para a indústria em escala global.

Tintas: Indústria prevê volume maior de vendas ©QD Foto: iStockPhoto
Mourad: tintas assumem novas funções nas suas aplicações

“A demanda caiu em relação a 2022 e os estoques ficaram altos; os preços dos insumos derivados de óleo e gás despencaram, e as margens ficaram apertadas em toda a cadeia produtiva”, apontou, salientando que o preço dos insumos químicos não voltará aos valores anteriores à crise pandemia, tendo sido majorados pela inflação.

Apesar disso, ele prevê o crescimento de vendas e faturamento setoriais até 2026. Dados da ChemQuest indicam que o consumo mundial de tintas e vernizes chegou a 47 bilhões de litros em 2022, que se transformaram em US$ 192 bilhões em vendas. “Em 2026, essa demanda pode subir a 52,9 bilhões de litros, com faturamento de US$ 234 bilhões”, ressaltou.

A América do Norte segue sendo a maior consumidor global, com média de 17 litros/habitante/ano. A América Latina pode chegar à média de 12 l/hab/ano até 2026, enquanto a Ásia alcançará entre 7 e 8 l/hab/dia. “A média europeia de 2022 foi de 8,3 litros, mas é preciso verificar que parte ocidental do continente tem consumo per capita igual ao da América do Norte, enquanto a parte oriental tem um padrão de consumo equivalente ao da América Latina”, explicou.

Mourad comentou que está em curso um processo de deglobalização, com muitas indústrias investindo no nearshoring, ou seja, em comprar mais insumos de fornecedores instalados próximos aos seus clientes. “A América Latina poderia se aproveitar disso, mas as regulamentações dos EUA e da Europa atrapalham muito” comentou.

Mourad considera igualmente a retração econômica global que se iniciou após a pandemia da Covid-19. “O PIB mundial caiu de 3,5%, em 2022, para 3,0%, em 2023, e deve chegar a 2,9% neste ano, isso decorre das altas taxas de juros adotadas pelos bancos centrais para derrubar a inflação, que já está voltando aos índices anteriores à pandemia”, ressaltou.

Ele apontou diferenças importantes entre regiões e países, com destaque pra a Ásia, com forte expansão, bem como a África Subsaariana. “A América Latina, porém, está crescendo pouco”, lamentou. A China está com deflação e passa por um momento difícil para negócios, o que representa um risco, pois o país é o maior fornecedor global de produtos químicos.

Mourad apontou tendências mundiais para o desenvolvimento das tintas, a começar pelo desenvolvimento de cores adequadas aos anseios dos consumidores. Além disso, ele ressaltou que as tintas estão assumindo funções adicionais nas suas aplicações. “Alguns produtos pedem tintas condutivas, há procura por tintas que sejam capazes de absorver odores, ou abater poluentes do ambiente, como óxidos de nitrogênio, ou ainda ter efeito antimicrobiano ou inseticida, por exemplo”, comentou.

Outra funcionalidade diz respeito à possibilidade de a tinta contribuir para a redução do consumo de energia no aquecimento ou resfriamento de residências e escritórios. “Além disso, as tintas e vernizes devem ser ambientalmente corretas, cada vez mais, bem com seus fabricantes”, afirmou.

O consultor identificou que a área de óleo e gás é uma das maiores consumidoras de tintas protetivas e especiais, um mercado com expectativa de crescimento médio combinado anual de 5,6% até 2026. “Quando o preço do barril de petróleo está acima de US$ 60, as petroleiras investem na proteção e manutenção das estruturas de produção, quando o valor está abaixo disso, elas simplesmente deixam apodrecer as estruturas”, comentou. Há investimentos importantes em combustíveis de fontes renováveis e em novas fontes de energia, também consumidoras dessa família de tintas.

Tintas: Indústria prevê volume maior de vendas ©QD Foto: iStockPhoto
SETOR REGISTRA RECUPERAÇÃO DE VENDAS (em milhões de litros)

Também a área de infraestrutura apresenta deficiências na América Latina, exigindo investimentos que redundam no aumento do consumo de tintas na área de indústria geral (incluindo construção pesada e transportes). No caso do Brasil, essa é uma das linhas de investimento prioritárias no plano anunciado pelo governo federal em janeiro, ainda carente de detalhamento. A demanda nesse segmento está garantida.

A produção automobilística deve crescer entre 4% e 5% no mundo, com aumento na participação de veículos elétricos. Mourad explica que os carros elétricos constituem uma oportunidade para os fabricantes de tintas, com novas aplicações que podem exigir desenvolvimentos, caso da pintura de baterias e conversores, além de incluir algumas funcionalidades.

A repintura automotiva tem um belo futuro, a julgar pela crescente taxa de acidentes registrada no mundo. “Mas o uso de dispositivos de segurança, a exemplo de sistemas de direção automática, pode reduzir a taxa de acidentes em 30% em 25 anos”, disse o consultor. A tendência é de os reparos serem feitos de forma mais rápida e superficial, sem se estender além da área atingida.

Indústria de tintas: Mudanças necessárias

A Abrafati vem aprimorando a elaboração de suas estatísticas sobre o mercado de tintas e vernizes. Em 2022, contratou a FIA/USP para controlar seu sistema de dados. Além disso, a associação notara que os números apresentados para o grupo de tintas industriais ficavam sempre aquém dos volumes movimentados pelo mercado.

Com o objetivo de obter mais transparência nesse mercado, a Abrtafati buscou apoio da consultoria Rácz & Yamaga para reavaliar esse mercado e também dividir as informações em oito subsegmentos: indústria geral, manutenção e marítima, tintas em pó, madeira, embalagens metálicas, veículos especiais, autopeças e plásticos.

Com o apoio da consultoria, verificou-se que o volume de tintas industriais produzido em 2022 chegou a 347 milhões de litros, com uma diferença de 80% em relação ao volume anteriormente divulgado pela associação (de 185 milhões de l). Como o crescimento das vendas de tintas industriais chegou a 3,5%, o volume do segmento somou 359 milhões de litros, ou seja, 20% da produção total de tintas no país. As tintas decorativas imobiliárias seguem na liderança, com 75% do volume produzido pela indústria.

Washington Yamaga, sócio da Rácz & Yamaga, calcula que o setor de tintas e vernizes no Brasil tenha crescido entre 3% e 3,5% em 2023, alcançando um faturamento de US$ 4,9 bilhões.

Tintas: Indústria prevê volume maior de vendas ©QD Foto: iStockPhoto
Yamaga: mercado passa por uma fase de desconcentração

“As perspectivas para 2024 são positivas, mas não muito, as tintas automotivas originais (OEM) devem reagir com novos mercados aqui e no exterior, mas as demais categorias terão crescimento baixo, inferior ao registrado em 2023”, avaliou.

Esse cenário se justifica a despeito de ser este um ano eleitoral, quando os cofres públicos se abrem para atrair eleitores. “A classe média está muito pressionada pelas dívidas contraídas com juros muito altos e seu poder de consumo foi corroído também pela inflação, isso é ruim para as tintas imobiliárias e para produtos de consumo”, comentou. Yamaga salientou que mais de três quartos do consumo de tintas imobiliárias no Brasil é destinado a pequenas reformas e manutenção de casas e escritórios.

No ano passado, o mercado de tintas imobiliárias começou andando de lado, situação de foi se revertendo ao longo do período, em especial no último trimestre. “Novembro teve resultados espetaculares em relação a 2022, e o ano terminou bem, com alta de volumes produzidos”, avaliou Yamaga.

Ele observa que está crescendo a participação de indústrias de tintas regionais, mais focadas nos seus clientes. “Essa proximidade com os clientes é fundamental, mais do que os custos logísticos”, avaliou. A produção descentralizada permite oferecer mais serviços e entregar com mais rapidez os itens adquiridos. “O programa Minha Casa, Minha Vida está sendo retomado e contribui para melhor distribuir geograficamente a produção do setor, sempre lembrando que as obras do MCMV exigem tintas certificadas pelo Programa Setorial da Qualidade (PSQ)”, afirmou. Outra característica mais recente desse segmento é o aumento da participação das marcas de tintas dos próprios distribuidores.

“Há uma forte desconcentração de mercado em curso; antigamente as quatro grandes companhias respondiam por mais da metade da produção setorial; hoje, quase 80% do mercado brasileiro é suprido por trinta fabricantes, principalmente os de médio porte”, ressaltou. “As grandes perderam um pouco do mercado.”

Yamaga considera que a pulverização setorial é coerente com o mercado mundial, no qual as cinco maiores companhias detém 33% do faturamento. “Por aqui, isso chega a 53%, é mais concentrado até porque as grandes empresas estão por aqui há muito tempo”, comparou. Porém, mesmo com fusões e aquisições pesadas, a desconcentração avança. “Na Índia está a oitava maior fábrica de tintas do mundo, a Asian Paints, que é uma empresa familiar”, mencionou.

Os avanços tecnológicos também favorecem a desconcentração. “O mercado está usando cada vez mais as novas tecnologias, isso permite atuar em mercados de alto valor agregado que são mais atrativos, porém exigem muito talento do fabricante”, comentou. Nesse sentido, o avanço dos resineiros independentes em produtos antes considerados “complexos”, como epóxi, poliuretano e acrílicos especiais, está oferecendo oportunidades.

Yamaga considera que o mercado de tintas de baixa qualidade está cada vez mais limitado aos consumidores de renda muito baixa. “O mercado rejeita produtos ruins, os pintores e até o atendentes das lojas têm qualificação e influenciam os clientes a valorizar a qualidade”, comentou. “As fábricas de tintas também evoluíram, com a ajuda do PSQ.”

Ele não concorda com a afirmação de que as tintas sejam caras por causa dos preços das matérias-primas e insumos usados nas formulações. “Produtores do Chile e da Colômbia usam os mesmos insumos e a tinta de lá é melhor, e aqui a embalagem é mais barata e a escala de produção é maior”, explica.

Tintas: Indústria prevê volume maior de vendas ©QD Foto: iStockPhoto

Problemas a resolver

O setor de tintas precisa estar atento a algumas questões pendentes, que podem prejudicar o seu desenvolvimento, segundo Yamaga. Ele considera boas as normas atuais do setor, capazes de incentivar o aumento da qualidade, ao lado do PSQ.

Ao mesmo tempo, ele critica classificar as tintas pela faixa de preço. “Econômica, standard e premium são categorias que não dizem nada; lá fora é interior, exterior, banheiro, telhado e outras, que informam melhor o consumidor sobre o uso da tinta e valoriza a qualidade”, defendeu. “Comprar uma tinta econômica e usar para exterior pode dar errado.”

Na sua visão, é melhor avaliar as tintas pelo seu rendimento final e não mais por demão. Isso dá uma orientação melhor para o comprador. “A norma atual de rotulagem é correta, permite entender o que está dentro da lata.”

A classificação tradicional pode prejudicar alguns avanços tecnológicos. Yamaga comentou que as formulações base água estão dominando o mercado em muitos países. “No Chile já é assim, tinta brilhante é para ferragens, tinta fosca para paredes, tudo base água, as formulações base solvente são indicadas para aplicações específicas”, disse. E também o mercado tende a preferir tintas que possam aderir a qualquer tipo de substrato.

Contar com normas adequadas é fundamental para o setor, especialmente no tocante à sustentabilidade. “Os preços devem refletir a qualidade do que se compra”, disse Yamaga. “Mas, no caso das tintas ‘verdes’, ainda falta regulamentação.”

Na sua visão, a avaliação hoje está mais focada no produto final, porém é fundamental considerar a origem das matérias-primas usadas na sua composição. “Aqui no Brasil temos produção adequada de solventes ‘verdes’, mas os demais ingredientes são quase totalmente importados; a cadeia de suprimentos precisa ser avaliada também”, recomendou. “As grandes companhias já estão fazendo isso, auditando seus fornecedores, essa ideia vai chegar na distribuição química.”

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