Tampas: Inovações visam garantir mais segurança

Inovações garantem mais conforto, segurança e sustentabilidade

Aparentemente simples, uma tampa resulta de uma equação complexa, hoje em dia, de solução ainda difícil pela necessidade de aliar às indispensáveis considerações sobre eficácia e custo também as ponderações propostas pelos princípios da sustentabilidade e pelas práticas da economia circular.

Entre os componentes dessa equação estão a necessidade de assegurar que a tampa proteja o produto, garantindo ao consumidor essa proteção, facilite seu uso, e minimize desperdícios, além de ajudar a destacá-lo e diferenciá-lo dos concorrentes.

“Atualmente um sistema de fechamento deve também estimular a reciclagem e o reuso do produto, para favorecer a economia circular; tudo isso sem prejudicar a produtividade”, observa Gustavo Alvarez, CEO da America Embalagens – denominação assumida no ano passado pela America Tampas – e coordenador da Cofatamplas (Câmara Setorial dos Fabricantes de Tampas Plásticas), da Abiplast.

“É, resumindo, um produto complexo, cujo uso precisa ser simples”, define.

Minimização do uso de matéria-prima e redução da quantidade dos componentes das tampas são apontados por Alvarez como caminhos a serem seguidos para uma resolução atual dessa equação. Trilhando-os, a America Embalagens desenvolveu uma tampa que elimina os usuais selos de alumínio das embalagens de maionese (solução desenvolvida para uma embalagem do tipo doy pack, para de um cliente da Argentina, onde muitas maioneses são comercializadas nesse gênero de embalagem flexível que se mantém em pé nas prateleiras).

Alvarez: economia circular orienta os desenvolvimentos ©QD Foto: iStockPhoto
Alvarez: economia circular orienta os desenvolvimentos

“No lugar do selo, colocamos um lacre”, relata Alvarez (que em lugar de tampas, prefere usar a expressão “sistemas de fechamento”, justamente pela complexidade dessas soluções).

Resinas recicladas pós-consumo (PCR) também ganham mais espaço nessa indústria. Para a marca de produtos de higiene pessoal TRESemmé, da Unilever, a America Embalagens desenvolveu uma tampa feita de PP reciclado.

“Nesse caso, o grande desafio é que o desenho do molde não era feito para PCR, cuja processabilidade é bem diferente”, explica o diretor da empresa. “Todas as nossas novas tampas já são desenhadas para poder utilizar também PCR.”

O uso mais intensivo de materiais reciclados como uma das atuais vertentes do processo de evolução das tampas é corroborado por Assunta Napolitano Camilo, diretora do Instituto de Embalagens. Busca-se também, ela complementa, reduzir a quantidade de matéria-prima por meio de designs mais eficientes, otimização de processos de fabricação e uso de materiais mais leves.

Assunta: mais práticas, tampas assumem funções inteligentes ©QD Foto: iStockPhoto
Assunta: mais práticas, tampas assumem funções inteligentes

“Na Alemanha, a Garnier lançou um condicionador para cabelos sem necessidade de enxague que é acondicionado em uma bisnaga de PE que têm aparência de papel e com tampa ultrafina, feita de PP”, exemplifica.

A diretora do Instituto de Embalagens nota evoluções também em quesitos como conveniência e praticidade – por exemplo, pela incorporação de tecnologias de abertura e fechamento fácil, como abas ou dispositivos de abertura – e pela oferta de práticas funcionais, como a dosagem do produto, mais precisa e ao mesmo tempo mais sustentável.

“A marca Fairy, da Procter & Gamble, ainda não comercializada por aqui, adotou uma frasnaga com tampa dosadora para o consumo mínimo de detergente, promovendo o uso consciente do produto”, especifica Assunta.

Tampa feita de PP reciclado requer desenho compatível ©QD Foto: iStockPhoto
Tampa feita de PP reciclado requer desenho compatível


Novas exigências em tampas

Já em uso em outros países, podem chegar brevemente ao Brasil as tampas denominadas tethered (amarrada, em inglês) que se mantêm presas às garrafas por alças. Por decisão da União Europeia, a partir de julho deste ano essas tampas serão obrigatórias nas garrafas PET não retornáveis de até três litros, para que elas não se percam e sejam destinadas à reciclagem juntamente com as próprias garrafas.

Na Europa, mesmo antes da entrada em vigor da legislação, existiam garrafas de uso único utilizando tampas tethered, por exemplo, no mercado de água, relata Luiz Duarte, diretor de marketing da Aptar Closures (divisão da multinacional Aptar dedicada à produção de tampas e sistemas de dispensação para mercados como alimentos, bebidas, higiene pessoal e beleza e cuidados do lar).

“A legislação brasileira vem avançando bastante, já se discute até a possibilidade de uso das tampas tethered também por aqui”, observa Duarte.

Entre os desenvolvimentos que expõem a atual evolução da tecnologia das tampas, ele cita o sistema non-detachable tamper evident, uma espécie de lacre que permanece preso à tampa, e que garante a inviolabilidade das embalagens sem a necessidade de uso de materiais adicionais, como sleeves. “Esse sistema é utilizado em lançamentos recentes na Europa, como acontece com nossa tampa Rocket, utilizada para águas e bebidas com envase a frio”, diz o profissional da Aptar (referindo-se ao nome da tampa non-detachable tamper evident da empesa)

No universo da economia circular, ele prossegue, há avanços em vertentes como a redução do peso das tampas, sua produção em um único material sem o uso de liners, e tampas feitas de resinas recicladas, que a própria Aptar já fornece para produtos de limpeza e higiene pessoal. E há, complementa Duarte, também a busca por soluções que melhorem a experiência do consumidor, e atendam às necessidades de diversidade e inclusão dos diversos públicos consumidores, por exemplo, com a inclusão de elementos de reconhecimento tátil – informações em Braille, por exemplo –, ou com tampas que possam ser abertas com uma única mão, como já acontece com as tampas flip top, que podem ser utilizadas em mais categorias de produtos, além dos usuais produtos de higiene pessoal.

Tampas tethered (para pouches) estão disponíveis também no portfólio da Gualapack, multinacional de origem italiana que além produzir diversos tipos de bicos e tampas para embalagens flexíveis atua nas demais etapas dos processos industriais relacionados a esse gênero de embalagens, começando pela produção dos laminados e chegando às embalagens propriamente ditas e ao fornecimento de máquinas de envase e formatação. Além de facilmente recicláveis – são feitas apenas de PE ou PP –, as tampas tethered da Gualapack são oferecidas também em uma versão com um apelo extra, na forma de pequenos itens que podem ser colecionados.

Esse apelo lúdico aparece em outros dois desenvolvimentos da empresa: as tampas denominadas spin caps, que giram como um pião, ou podem ser usadas para jogar dados, e brick caps, que após o uso se transformam em peças de um jogo de blocos de construção que permitem às crianças montar objetos (similar ao conhecido brinquedo Lego). “De certa forma, isso ajuda a diminuir o descarte, possibilitando a continuidade do uso das tampas como brinquedos colecionáveis, e aumentando ainda mais seu valor”, destaca Sara Souza, da área de marketing da Gualapack.

Lançadas há cerca de um ano, as tampas tethered e as que também são brinquedos da Gualapack já estão sendo utilizadas na Itália. “Acho que elas têm grande potencial de uso em categorias de produtos refrigerados, como iogurtes e bebidas lácteas”, projeta Vanessa Jimenez, gerente comercial da empresa.

No mercado brasileiro, embalagens flexíveis com tampas (stand up pouches, principalmente) preponderam em categorias como bebidas e lácteos. Mas podem ganhar espaço também em outros produtos. “Aqui ainda estamos em processo de migração de embalagens rígidas para flexíveis, que têm grande potencial de crescimento pelos benefícios de custo e transporte”, argumenta Vanessa.

Tampa dosadora evita uso excessivo de detergente ©QD Foto: iStockPhoto
Tampa dosadora evita uso excessivo de detergente

O grupo paranaense Tampaflex está lançando uma empresa: a Plasgreen, que a partir de abril fornecerá tampas de PE e PP que, com o uso de aditivos, tornam-se biodegradáveis, ajudando os clientes a reforçar seu apelo de sustentabilidade. “Temos o selo que confirma essa biodegradabilidade”, destaca Paulo Roberto Mudrek, gerente comercial da Plasgreen.

“Vejo muito potencial para essa linha principalmente na indústria de café e doces, que irá utilizá-la em sobretampas de embalagens rígidas. Mas ela pode ser utilizada também em outros produtos, como alimentos para animais domésticos”, acrescenta.

Compõem o grupo do qual faz parte a Plasgreen as empresas Tampaspet e Hidrotamper, fabricantes de tampas para água, alimentos, vinhos, químicos e solventes, basicamente feitas de PE (polietileno) e PP (polipropileno). “Lançamos no ano passado tampas de 101 mm e 127 mm, mais utilizadas pela indústria de suplementos alimentares, que cresceu muito nos últimos anos. E devemos lançar este ano a tampa de 74 mm, mais utilizada em embalagens de fibralata, ou cartonada, um tipo de embalagem tubular feita de papel cartão e aplicada em diversos setores: indústria alimentícia, cosméticos, têxtil, entre outros”, ressalta Mudrek.

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Resinas para tampas

A expansão do uso de PE e PP reciclados em diversas categorias de produtos, exceto alimentos, é ressaltada por Rafael Vilela Laurini, engenheiro de aplicação na Braskem; empresa que, atenta a esse movimento, lançou recentemente um grade de polietileno contendo até 50% de PCR, utilizado ao longo do ano passado para produzir mais de 30 milhões de tampas para frascos de óleo lubrificante automotivo.

Tampas: Inovações visam garantir mais segurança ©QD Foto: iStockPhoto
Laurini: PE bimodal oferece resistência à pressão interna

“Também disponibilizamos um portfólio para tampas em polipropileno pós-consumo nas cores branca, preta e ‘natural’ (minimamente pigmentada)”, destaca Laurini.

Como desafio a ser vencido no processo de produção de embalagens mais afeitas à economia circular, ele cita a criação de tampas flip-top, hoje majoritariamente feitas de PE, para que, em conjunto com uma bisnaga ou frasco de PE, seja entregue ao mercado uma embalagem monomaterial.

“A barreira técnica a ser vencida nesse caso é a resistência à fadiga, uma vez que tampas flip-top possuem dobradiças integrais”, destaca Laurini. “Mas já tivemos algumas aprovações iniciais de clientes e temos outros projetos em andamento”, acrescenta.

Laurini enfatiza: a utilização de grades aditivados com agentes de deslizamento desenvolvidos especialmente para tampas contribui bastante para a maior eficácia no fechamento, além de proporcionar melhor experiência ao consumidor, pois reduz em média 50% o torque necessário para a abertura. “No caso de bebidas carbonatadas, seja água ou refrigerantes, quando o produto exerce pressão sobre a embalagem, a eficácia é garantida não só pelo design e funcionalidade da tampa, mas também pela alta resistência mecânica e ao stress cracking dos polietilenos de tecnologia bimodal da Braskem, normalmente empregados nessa aplicação”, destaca.

Também a Dow fornece PE para a produção de tampas de embalagens de diferentes gêneros de produtos. E seu portfólio de resinas para tampas inclui o Surlyn, um ionômero copolímero de etileno e ácido metacrílico parcialmente neutralizado com íons metálicos.

Tampas: Inovações visam garantir mais segurança ©QD Foto: iStockPhoto
Alma: ionômero Surlyn pode ser reciclado na cadeia do PE

“A ligação iônica modifica a estrutura cristalina, de modo que a maioria dos ionômeros é muito transparente, semelhante ao vidro, e altamente resistente a solventes”, explica Alma Lizarraga, gerente de marketing da Dow América Latina.

O Surlyn, além da transparência e da resistência, tem outras propriedades que o tornam interessante para aplicações em perfumes e cosméticos. Algumas delas: flexibilidade em paredes finas; excelente resistência a impacto, abrasão e raios UV; muito boa adesão metálica; e permite efeitos como a aparência de marfim, pedra ou mármore.

“Ele é capaz de preencher grandes espessuras de parede e oferece alta transparência em espessuras de mais de 5 mm, bem como excelente brilho, índice de refração semelhante ao de uma pedra preciosa ou de vidro, além de proporcionar liberdade de design”, ressalta Alma.

Além disso, diz a profissional da Dow, o Surlyn é material compatível com o fluxo de reciclagem do polietileno. Recentemente recebeu a companhia das linhas Surlyn CIR (produzida por reciclagem química) e Surlyn REN (proveniente de resíduos orgânicos, como óleo de cozinha usado).

“A LVMH Beauty é a primeira empresa usuária dessas novas marcas e deverá utilizá-las na fabricação de tampas de perfumes e potes cosméticos”, relata Alma, referindo-se ao grupo controlador de grandes marcas do mercado mundial da beleza e do luxo, como Dior, Kenzo e Louis Vuitton.

Etiqueta inserida na tampa permite conferir qualidade e rastrear produto embalado ©QD Foto: iStockPhoto
Etiqueta inserida na tampa permite conferir qualidade e rastrear produto embalado

Tendências e mercado

Tampas, argumenta Assunta, do Instituto de Embalagens, devem ser hoje projetadas de modo a serem abertas e fechadas mais facilmente por consumidores de todas as idades, algo possível com recursos como formas mais ergonômicas, texturas antiderrapantes e mecanismos de abertura suave.

Também estão se tornando mais “inteligentes”, oferecendo funcionalidades adicionais, como indicadores de frescor, monitoramento de temperatura e até sistemas de dosagem controlada. “A United Caps lançou a Bump Cap, uma tampa composta por diferentes elementos que evidenciam que o produto está fora das condições ideias de consumo, como a mudança da aparência de sua superfície”, exemplifica Assunta, referindo-se a um fabricante de tampas instalado em diversos países europeus e asiáticos.

A brasileira Unipac lançou uma embalagem para produtos químicos que, com uma etiqueta aplicada a um selo localizado em sua tampa, dá acesso a um aplicativo que disponibiliza informações que confirmam a autenticidade do produto, além de permitir a rastreabilidade, gestão de inventário e inserção de conteúdos como a Ficha de Informações de Segurança de Produto Químico (FISPQ), entre outros.

“Com o aumento da demanda por conveniência, as tampas antivazamento estão se tornando populares, especialmente para bebidas e alimentos líquidos. Elas são projetadas para evitar vazamentos e derramamentos mesmo quando as embalagens são transportadas ou armazenadas de forma inadequada”, diz Assunta.

Para Alvarez, da America Embalagens, a demanda por tampas plásticas pode se expandir pelo próprio avanço das embalagens feitas de polímeros.

“Esse avanço já acontece no mercado dos atomatados, onde a Elefante lançou uma embalagem plástica rígida para seu extrato de tomate”, especifica o diretor da America Embalagens, empresa que assumiu essa denominação após a aquisição, no ano passado, da paranaense Plast&Pack, que produz também embalagens para lácteos cremosos e requeijão, entre outros, além de tampas.

Entre os mercados nos quais a demanda por tampas vive fase mais aquecida, Alvarez cita a indústria de lácteos, bem como a fabricação de bebidas, embora por motivos mais sazonais. No mercado dos produtos para limpeza, a demanda é maior em segmentos como inseticidas e repelentes, em decorrência de fatores como calor intenso e dengue.

“Mas, de maneira geral, não há muitos desenvolvimentos; não vejo grande número de novos projetos, mas sim atualizações de demandas já existentes”, ressalta.

Transparência elevada abre mercado de luxo para Surlyn ©QD Foto: iStockPhoto
Transparência elevada abre mercado de luxo para Surlyn

Laurini, da Braskem, visualiza um “crescimento orgânico” do mercado de tampas, com tendência de expansão em segmentos como a indústria de bebidas, que tem influências mais relevantes de fatores de sazonalidade e clima. “Mas o maior destaque é a performance do segmento de home e personal care, que teve crescimento expressivo no último ano; e a tendência é que esse segmento siga evoluindo”, ressalta.

Também Alma, da Dow, aponta um crescimento orgânico dessa indústria, que acompanha a evolução do PIB. Mas ela nota um crescimento mais expressivo em segmentos como tampas para os agronegócios e para as “bebidas saudáveis”, como água e isotônicos.

“O mercado de cosméticos, especialmente, tem feito grandes esforços nos últimos anos na adoção de materiais que promovam a sustentabilidade e no desenvolvimento de soluções que promovam a reciclabilidade e a circularidade dos materiais”, finaliza.

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