Tampas – Demanda aquecida incentiva renovação do setor

A onda das multinacionais que aportaram no país respingou entre os fabricantes de tampas plásticas. A época não poderia ser mais propícia. O mercado está em franco crescimento. A atividade econômica do país está em expansão. Quando há um aquecimento, eleva-se o consumo e, por consequência, a demanda por embalagens e tampas vai na mesma toada.

A Védat Tampas Herméticas, empresa brasileira líder na fabricação de tampas e acessórios para a indústria farmacêutica, foi adquirida em março do ano passado pela alemã Gerresheimer, mas só agora dá por concluída a

Plástico, Paulo de Castro Reis, responsável pelo marketing e relações institucionais, Demanda aquecida incentiva renovação do setor
Reis: empresa alemã mantém linha de indústria nacional

transição, ou seja, já se sente apta para começar a colher os louros de ter na retaguarda uma das maiores companhias do mercado mundial de embalagens para a indústria farmacêutica.

Em cifras, o investimento da Gerresheimer reflete a intenção de duplicar as vendas da alemã em países emergentes, passando a registrar faturamento de 200 milhões de euros até o próximo ano. A saber: em 2010, a Védat gerou receita de 106 milhões de reais.

Aqui no Brasil o portfólio inclui tampas plásticas, frascos PET e outros acessórios plásticos para a indústria farmacêutica, porém também atende o segmento de bebidas não alcoólicas – bagagem trazida da Védat. “A Gerresheimer é 100% farmacêutica, mas considerou interessante manter esse nicho aqui na América do Sul”, alega Paulo de Castro Reis, responsável pelo marketing e relações institucionais da empresa. A linha de produtos engloba tampas de vários tamanhos e modelos, com destaque para as invioláveis e os tipos “child proof” (CRC). Produzidas com PP elas prometem segurança e confiabilidade às embalagens farmacêuticas.

O mercado farmacêutico atrai por seu volume. A Diamond, empresa de apoio estratégico de negócios, fez um estudo desse setor em âmbito global e diagnosticou que no final de 2010 essa indústria representava entre 950 e 1.300 milhão de unidades.

Novas frentes– Ao constatar a abertura do mercado para novos investimentos, a Mirvi Brasil, empresa criada em 1999, e detentora da liderança no segmento de óleo comestível, no ano passado, decidiu desbravar o concorrido e gigantesco setor de bebidas. A empreitada começou de forma tímida, em 2009, com um projeto de tampas especiais para sucos, leites e chás, e dois anos depois entrou forte nas bebidas, focando inicialmente o mercado de águas. “Agora o céu é o limite, vamos ampliar cada vez mais o portfólio”, anuncia o gerente de vendas Marcelo Adell. Instalada em Cabreúva-SP, a fábrica tem capacidade produtiva para cerca de 400 milhões de tampas por mês e opera com a tecnologia de sua matriz, a espanhola Betapack. “Dobramos nossa capacidade produtiva, apostando nesse mercado

Plástico, Demanda aquecida incentiva renovação do setor
Companhia investe em peças para o mercado farmacêutico

novo”, declara.

Segundo Adell estima, o mercado nacional de óleo comestível consome algo em torno de 2,5 bilhões de unidades/ano, enquanto o de bebidas chega a 15 bilhões de unidades/ano. “Esse volume justifica nossa entrada no mercado de água”, comenta.

Com o foco no mercado de tampas para tubos laminados para a indústria de higiene pessoal (no caso, os cremes dentais), a Quattro Industrial, localizada em Barueri-SP, entrou no mercado de tampas plásticas em 1987 e durante muito tempo se limitou a esse segmento (com modelos tradicionais e cilíndricos, que permitem que o tubo fique de cabeça para baixo em pé).

Recentemente, ao perceber a abertura do setor para atuar em novas frentes, expandiu seus negócios para as tampas destinadas a tubos extrudados. “O mercado de creme dental está crescendo”, comenta o diretor Vlamir Gorgati. Especula-se que um novo player aportará no país. Com capacidade produtiva para transformar 120 toneladas de resinas ao mês, a empresa fabrica a tampa (PP) e os ombros da embalagem (PE). O mercado nacional de creme dental está estimado em 140 milhões de unidades/mês.

Os investimentos no mercado de sistemas de fechamento também vêm de empresas que tradicionalmente atuam em outras áreas. A Videolar anunciou em meados do ano passado o início da produção em larga escala de tampas para garrafas plásticas. Essa decisão refletiu a intenção de expandir sua atuação no setor de transformação de plásticos, no qual tem destaque como fabricante de estojos para CD e DVD. A empresa abastece o comércio de atacado e varejo com 10 milhões de peças por mês, o equivalente a 70% do mercado nacional. Com o aporte de R$ 12 milhões, a empresa criou um portfólio de tampas com formatos utilizados em garrafas de refrigerante e água mineral, fabricadas por meio do sistema de moldagem por compressão.

Possível revés – O bom momento vivido pelo setor, no entanto, segundo alguns fabricantes de tampas, está comprometido. Eles temem perder a competitividade por conta do aumento da alíquota de importação dos moldes.

No ano passado, a Câmara Setorial de Ferramentarias e Modelações (CSFM) da Abimaq conseguiu que a alíquota de importação dos moldes utilizados nos processos de moldagem por injeção ou compressão (NCM 8480.71.00) fosse aumentada pelo Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex), passando de 14% para 30%.

A resolução, publicada no Diário Oficial da União no dia 18 de fevereiro, entrou em vigor no dia 1º de março de 2011. Mas o que para os ferramenteiros parece ser a solução ante a perda de competitividade da indústria nacional em relação aos moldes importados (sobretudo os asiáticos), para os fabricantes de tampas trata-se justamente do contrário. “Esse tema tem dominado a nossa agenda há cerca de um ano, porque nosso setor é diretamente afetado por essa decisão, negativamente”, aponta Gorgati, diretor da Quattro Industrial e vice-coordenador da Câmara Setorial dos Fabricantes de Tampas Plásticas (Cofatamplas), criada em 2009 pela Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).

Ele alega que boa parte do mercado nacional continuará importando moldes e, consequentemente, vai ser obrigada a pagar mais por isso. No final, essa conta não vai fechar, segundo o diretor. E ser competitivo tem sido condição de sobrevivência. Gorgati teme a chamada “desindustrialização” do setor. Houve um período em que era o único fornecedor da Unilever para os seus cremes dentais da marca Close-up. No ano passado, a multinacional passou a trazer a peça pronta da Índia, além de comprar da Quattro. “Deixamos de vender uma parte importante da nossa produção”, comenta. Ele diz que, se tiver que repassar o aumento da alíquota dos moldes para seus produtos, ficará ainda mais enfraquecido perante a concorrência internacional.

Segundo ele, as tampas de maior valor agregado necessitam de moldes de alta cavitação e demandam altos níveis de produtividade. “Existe um gap tecnológico muito grande entre a oferta dos ferramenteiros brasileiros e os estrangeiros. Quem produz tampas, precisa de moldes técnicos. Eu, por exemplo, só tenho moldes da Europa e da América do Norte, pois os nacionais não atendem aos padrões internacionais”, afirma.

Gorgati cita o caso da sua produção de tampas cônicas convencionais para tubos laminados. O molde em questão é canadense e possui 72 cavidades. “Quando começamos a fabricar essas tampas o ciclo de produção era de oito segundos, enquanto a opção nacional levava o dobro desse tempo”, argumenta.

Hoje, segundo a Câmara Setorial de Ferramentarias e Modelações (CSFM), da Abimaq, na voz de Alexandre Fix, presidente da entidade e também diretor da Polimold, a história não é bem assim. De acordo com ele, muitas foram as melhorias empregadas pelos ferramenteiros nacionais. Gustavo Alvarez, presidente da America Tampas, concorda com esse avanço. “Vimos que muitas ferramentarias estão melhorando o seu parque produtivo, contudo, para fabricar tampas de maior valor agregado, temos de buscar moldes no exterior”, argumenta Alvarez.

Fix se compromete a mostrar a tecnologia embutida atualmente na produção nacional e, em parceria, julgar a capacidade local de fabricar ou não o molde. “Na maioria das vezes, é possível fazer esse acordo, pois em muitos casos o ferramenteiro consegue atender à exigência do fabricante de tampas”, argumenta. Porém, admite que, em algumas aplicações, ainda não dispõe de condições de atender às solicitações do transformador. Para esses casos, o caminho indicado, segundo ele, seria a obtenção do recurso disponibilizado pelo governo, o ex-tarifário.

Esse recurso se refere a uma concessão tarifária para reduzir a alíquota de imposto de importação de bens de capital (BK) e bens de informática (BIT) para 2%. Cabe ao Comitê de Análise de Ex-tarifários (CAEx), instituído no âmbito do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a verificação da inexistência de produção nacional dos bens pleiteados.

“Podemos agir como intermediários, a fim de viabilizar a liberação do pleito”, explica Fix, referindo-se à intervenção da CSFM. Em outras palavras, a câmara se propõe a fazer um estudo técnico de cada caso e, caso seja confirmada a necessidade da importação, ela sugeriria o enquadramento ao ex-tarifário. Ou seja, há um caminho alternativo contra a redução da alíquota de importação.

Essa questão não tem uma resposta fácil nem mesmo uma única interpretação, como se observa na fala de Alvarez, da America Tampas: “O aumento da alíquota é uma maneira muito simplista de tentar proteger o mercado de ferramentarias locais.” Em suma, o tema suscita uma discussão ampla e ela está aberta a todos os elos da cadeia produtiva do plástico, até porque, o que todos querem, no final das contas, é o aprimoramento do setor.

 

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