Sustentabilidade está no foco dos plásticos de engenharia

Economia Circular

Assim como acontece no universo das commodities, também os fornecedores de plásticos de engenharia se empenham na busca por produtos, processos e práticas que minimizem seus impactos ambientais, aproximando-os dos modelos e das propostas de economia circular.

Pisam, nessa trajetória, em trilhas percorridas também pelos provedores das resinas comoditizadas, como a oferta de materiais reciclados e de resinas integral ou parcialmente formuladas com matérias-primas provenientes de fontes renováveis; mas lidam com particularidades que agregam algumas especificidades a essa jornada.

Uma delas: para que possam retornar às aplicações originais – cumprindo a premissa básica da economia circular –, suas resinas recicladas devem resultar de materiais cuja origem seja rigidamente controlada e rastreada, pois somente assim manterão os padrões de desempenho e de características visuais demandados pelos exigentes setores nos quais plásticos de engenharia são utilizados, como as montadoras de veículos, equipamentos industriais, eletroeletrônicos, setor aeroespacial, indústria de óleo e gás (O&G), entre outros. Para assegurar esse controle, os produtores desses plásticos estabelecem parcerias com empresas que garantem a origem e a rastreabilidade dos materiais que serão reciclados.

Procede assim a Radici, que mantém parcerias com empresas que coletam autopeças e outras aplicações feitas com poliamidas para obter material para produzir a linha Renycle, lançada no ano passado, que pode conter percentuais de reciclados entre 10% e 100%, provenientes tanto de resíduos pós-consumo quanto de sobras industriais.

“Essa linha já está sendo produzida na Europa, e a intenção é produzi-la em todas as plantas Radici no mundo”, diz Luís Baruque, gerente de marketing e desenvolvimento automotivo da empresa na América do Sul.

No Brasil, onde mantém uma unidade para formulação de compostos no município paulista de Araçariguama-SP, a Radici já está desenvolvendo fontes capazes de fornecer conteúdo reciclado para a linha Renycle, relata Jane Campos, CEO da empresa na América do Sul.

“É um produto sustentável, com fontes rastreadas e controladas, e desempenho que possibilita seu uso em qualquer segmento do mercado das poliamidas”, ressalta.

Por sua vez, a Ineos mantém parcerias com empresas que coletam eletroeletrônicos descartados, nos quais foi utilizado ABS que ela própria produz e que, após reciclagem, é inserido na linha Terluran ECO, cujos grades podem conter 50% ou 70% de reciclado pós-consumo (PCR).

“A linha Terluran ECO já está sendo utilizada na Europa e testada por alguns clientes no Brasil, onde vejo para ela grande potencial em embalagens de cosméticos”, destaca Fábio Bordin, diretor da Ineos na América do Sul.

E a multinacional de origem japonesa Toray trabalha com empresas que na Ásia lhe destinam o ABS retirado de eletroeletrônicos descartados, que é reaproveitado em uma linha lançada há cerca de dois anos, cujos produtos podem ter três diferentes percentuais de ABS reciclado: 40%, 60% e 80%.

Na Malásia, tem parceria também com uma empresa que coleta policarbonato proveniente especificamente de embalagens de DVDs, utilizado após a reciclagem em blendas de PC e ABS.

Luiz Rocha, gerente de vendas e marketing da Toray no Brasil, observa a existência de uma boa demanda por materiais reciclados e ela deve crescer ainda mais, para que sejam atendidas as metas de sustentabilidades dos grandes fabricantes de produtos de consumo.

“Mas, como essas resinas serão utilizadas em aplicações técnicas, é preciso não apenas ter controle do material de origem, mas também garantir que a resina reciclada não apresente variações nas suas propriedades”, enfatiza Rocha.

Combinando possibilidades – Ao lado dos conteúdos reciclados, resinas compostas com ingredientes oriundos de fontes renováveis também ganham espaço nos portfólios com os quais os provedores de plásticos de engenharia buscam oferecer produtos qualificados como mais sustentáveis, cuja demanda hoje se expande a ponto de favorecer mesmo resinas provenientes de biomassa, surgidas quando a expressão economia circular sequer havia sido cunhada, como a poliamida 11, que a Arkema comercializa com a marca Rilsan PA11, 100% derivada de óleo de mamona, desenvolvida devido à escassez de petróleo durante a segunda guerra mundial.

Tubulações flexíveis para O&G, medidores de água, tubos e válvulas para distribuição de gás utilizam a Rilsan PA11, que pode ser transformada por diversos processos, como extrusão, injeção, termoformagem rotomoldagem, coating, 3D.

O aumento da demanda por essa poliamida de origem vegetal até estimulou a Arkema a expandir sua produção, construindo uma fábrica que deve entrar em operação ao final deste ano, em Singapura (e ampliará um parque produtivo dessa poliamida que inclui plantas na Europa e nos Estados Unidos). Incentivou-a também a expandir sua expertise em química verde para outros produtos, como a versão Rnew da linha de PA elastomérica Pebax, e versões das PA 10 e 6.10, também de marca Rilsan, nas quais já são inseridos percentuais variáveis de componentes oriundos de óleo de mamona.

A origem renovável, observa Fabio Paganini, gerente de vendas e desenvolvimentos de polímeros de engenharia da Arkema, é diferencial crescentemente valorizado em um polímero, não apenas no exterior, mas também aqui no Brasil. “Fabricantes de óculos, por exemplo, têm muito interesse em nossa poliamida de origem vegetal”, especifica.

Na Covestro, a estratégia de avançar em direção à economia circular combina a oferta de conteúdos reciclados com matérias-primas provenientes de origem vegetal. Na primeira dessas duas vertentes, a empresa disponibiliza produtos nos quais a composição inclui resina reciclada pós-consumo, identificados com a letra R.

Um policarbonato da linha Makrolon, por exemplo, com essa letra, posiciona-se como versão sustentável com propriedades equivalentes às de um grade convencional. “Garantimos para as versões R as mesmas características nos mais diversos quesitos, como resistência mecânica e à luminosidade UV”, afirma Jéssica Martendal, head de Plásticos de Engenharia Covestro Latam.

A Covestro também controla as fontes de onde provém seu PC reciclado, que incluem materiais pós-consumo – como garrafões de água – e já fornece grades com índices de conteúdo reciclado de até 60%. Desenvolveu ainda produtos equivalentes às resinas de origem fóssil, porém confeccionados com ingredientes provenientes de biomassa, designados por RE.

“Já temos versões R e RE em produtos das linhas Makrolon (PC), Bayblend (blendas PC/ABS e PC/ASA), e estamos começando a introduzí-las nas demais linhas da empresa”, afirma Jéssica.

Já há, afirma Alexandre Macedo, representante técnico-comercial da Covestro, vários processos de validação desses produtos, alguns em estágio bem avançado.

“Temos várias aplicações sendo validadas junto a montadoras, de grades R e RE em peças para exterior e interior automotivo, e também em sistemas de faróis”, diz. “Também estamos buscando validar o MAL2447 RE (PC Cristal), em aplicações de lentes de faróis”, acrescenta.

Outras possibilidades – Reciclados e fontes renováveis se combinam também na estratégia da Lanxess, cujo portfólio inclui PA, PBT, blendas e compostos com essas resinas. Por exemplo, no Durethan BLUEBKV60H2.0EF, um PA 6 com 60% de fibra de vidro reciclada (pós-industrial).

“Como a Lanxess é a única empresa de plásticos de engenharia que também produz fibra de vidro, temos condições de reutilizar a fibra que seria descartada, com as mesmas propriedades do material virgem”, informa Anderson Marostica, gerente de desenvolvimento de aplicações e serviços técnicos de materiais de alta performance da empresa.

Nesse mesmo produto, ele ressalta, um dos intermediários para obtenção da poliamida, o ciclohexano, provém de base biológica.

O portfólio da Lanxess conta com outros itens contendo fibra de vidro reciclada pós-industrial, proveniente de seus processos, como a poliamida Durethan ECOBKV. “Temos ainda o Pocan ECOT, uma linha de produtos à base de PBT+PET, que utiliza o PET pós-consumo (de garrafas PET recicladas), com praticamente as mesmas propriedades do material virgem”, acrescenta.

Na UBE, a oferta de produtos mais afeitos às demandas da sustentabilidade estimulou o recente lançamento de grades de poliamida cuja formulação, observa Edgar Veloso, supervisor de vendas da operação latino-americana da empresa, embora mantenha as propriedades ópticas e mecânicas da resina, acelera bastante a biodegradação:

“Em condições adequadas de compostagem, depois de treze meses ela se biodegrada entre 50% e 75%”, afirma Veloso. “Temos também poliamidas com baixas temperaturas de fusão e de excelente desempenho, que podem ser facilmente recicladas nas correntes de PE, e resinas oriundas dos resíduos industriais gerados na produção de filmes”, acrescenta.

Estudos da UBE, lembra Veloso, mostram que embalagens multimateriais em cinco camadas, com PE e 15% de poliamida, podem ser normalmente inseridas na cadeia de reciclagem da primeira dessas resinas. “Mas é difícil conhecer a origem desses materiais, e assim o material reciclado vai para aplicações secundárias. Daí, a importância de desenvolvimento da reciclagem química”, ressalta.

Há estudos de reciclagem química de plásticos de engenharia. Por exemplo, na Toray, que, de acordo com Rocha, montou no Japão uma planta-piloto onde testa a reciclagem química de suas resinas. “Algumas resinas resultantes desse processo já estão em fase de validação”, afirma.

A Ineos, diz Bordin, estabeleceu parcerias com empresas da Europa e dos Estados Unidos, destinadas ao desenvolvimento de tecnologias de reciclagem química de resinas estirênicas, que nesse caso retornariam ao monômero de estireno, passível de reaproveitamento em polímeros virgens. “No próximo ano, já deveremos ter alguma produção, ao menos em escala piloto”, aponta.

Conteúdos oriundos de fontes renováveis também estão no foco da Ineos. “Já temos em nossas linhas de resinas SBC e SBS grades total ou parcialmente provenientes de biomassa”, enfatiza Bordin.

Demanda e dificuldades – Hoje muito atenta ao apelo da sustentabilidade, a indústria automobilística, relata Baruque, da Radici, destaca-se entre os mercados usuários de resinas que mais demandam soluções como a linha Renycle, com algum teor de reciclados.

“Para esse mercado, temos desenvolvido produtos com resistência à hidrólise, proteção térmica e antichama, que podem ser utilizados em aplicações especificas, como coletores de admissão, coberturas de motor, tanques de radiadores”, especifica.

Tenham elas reciclados ou biomassa, resinas mais sustentáveis são a cada dia mais demandadas, referenda Macedo, da Covestro. “O que ainda limita seu crescimento é o custo, que no caso de conteúdo reciclado exige uma logística cara, que impacta em seu preço”, pondera.

Veloso, da UBE, endossa essa percepção do custo das resinas recicladas como um dos obstáculos a serem superados para que a indústria de plásticos de engenharia – e de resinas em geral – evolua em direção à economia circular; mas crê que esse avanço pode ser favorecido pela estruturação de grupos de trabalho, comitês técnicos ou agrupamentos similares, que estabeleçam guias e diretrizes destinados a facilitar a inserção das aplicações plásticas nos modelos da circularidade.

Segundo ele, em algumas regiões, há iniciativas desse gênero abrangendo inclusive embalagens multicamadas, nas quais há poliamidas, visando a reciclagem em correntes de PE.

“Na Europa, diretrizes do Instituto Recyclass definem um máximo de 15% do produto UBE 5034B nas embalagens, e isso deve ser logo estabelecido também nos Estados Unidos”, relata o profissional da UBE, referindo-se à poliamida de sua empresa mais comumente empregada na produção de embalagens.

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