Sopro: A busca por competitividade impõe mudanças profundas à produção de embalagens

Plástico Moderno, Sopro: A busca por competitividade impõe mudanças profundas à produção de embalagensAs indústrias do sopro se deparam a todo momento com um dilema: evoluir ou evoluir, seja qual for o ritmo da demanda ou do crescimento econômico. Implementar atualizações e inovações tecnológicas, mantendo-se rentável, é preciso reconhecer, não é uma tarefa fácil. Ao contrário, implica estar atento às tendências globais e regionais, manter altos níveis de capital para investimentos em maquinários, processos e tecnologias, incrementar aumentos de produtividade, abrir novas operações mais ajustadas às necessidades dos clientes e tentar rever periodicamente os modelos de gestão adotados para não incorrer em perdas de lucratividade.

Acompanhar a trajetória de algumas empresas consideradas ícones do sopro no mercado brasileiro pode ajudar outros empresários a refletir sobre o futuro de suas organizações perante novas oportunidades e também sobre possíveis ameaças e riscos. Adentrar nessa direção seria um bom começo para se avaliar os índices de acerto conseguidos em negócios complexos, que envolvem tecnologias e se assentam em alianças entre parceiros, como transformadores e empresas contratantes, cujas relações devem ser sempre preservadas e fortalecidas.

Para poder praticar custos mais adequados às necessidades de mercado, grandes empresas do setor de bebidas carbonatadas, em sua maior parte do setor de refrigerantes, estão investindo na verticalização do sopro de embalagens PET, em alinhamento com o envase, concentrando e administrando um número maior de operações, em vez de manter contratos com transformadores terceirizados, como era habitual no passado.

A verticalização na produção das empresas de bebidas não é recente, mas nos últimos quatro anos se acentuou, a ponto de provocar um esvaziamento nas atividades empreendidas pelos transformadores do sopro, ocasionando mudanças no seu perfil de atuação, redirecionamentos de foco e, não raro, colocando todos os transformadores do sopro em estado de alerta.

“A tendência é forte e não adianta querer ir contra, pois as empresas, especialmente as do setor de refrigerantes, chegaram ao entendimento de que existe maior sinergia entre as operações de sopro e de envase; e, por isso, além de envasar, passaram também a soprar, assumindo integralmente o controle das operações de sopro, motivadas, entre outros fatores, pelas facilidades propiciadas pelas novas tecnologias em máquinas que, praticamente, operam sozinhas”, considerou Fausto Lopes Bernardino Jr., superintendente comercial da Engepack Embalagens.

Testemunhando a nova conduta deflagrada no mercado do sopro do PET, cuja consequência imediata é abolir as produções in house para implementar a verticalização na produção de embalagens sopradas destinadas a refrigerantes, a Engepack vendeu as linhas de sopro in house para seus clientes, e firmou apenas contratos de fornecimento de pré-formas de PET, sua grande vocação. Agora a empresa se prepara para encarar novos desafios e investimentos na produção.

Para se ter uma ideia do volume de negócios que foram redirecionados, a Engepack, que chegou a pilotar 18 fábricas de sopro in house espalhadas por vários estados, como São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Ceará, Maranhão, Bahia e Goiás, passou a administrar uma única operação in house, em Maringá-PR, dedicada ao sopro de embalagens para acondicionar óleos comestíveis.

“Instalamos a primeira operação para a produção de embalagens sopradas in house em 1991, e fabricamos a primeira garrafa PET para a Coca-Cola, ocupando a posição de segundo maior fornecedor de embalagens PET sopradas no mercado brasileiro, atuando em paralelo com a produção de pré-formas desde o ano de nossa fundação, em 1989”, afirmou Bernardino Jr. O superintendente da Engepack, no entanto, fez questão de frisar que não houve nenhum estresse nas negociações, sendo que, para alguns clientes verticalizados, a empresa até hoje é requisitada para prestar serviços de consultoria e suporte técnico.

“No passado, entendemos que o investimento no sopro tinha de ser nosso, era o início das operações de sopro do PET no país, que partiram do zero, enquanto hoje avaliamos que de 70% a 80% dos volumes de mercado estejam sendo envasados em PET”, lembrou Bernardino Jr.

Com um gestor atento às novas oportunidades, a Engepack está investindo atualmente no crescimento do mercado do sopro do PET para acondicionar bebidas não carbonatadas, como sucos de frutas, polpas, energéticos, leites etc., ou seja, participando ativamente da oferta de uma soma de produtos diferenciados, que possam ser envasados a quente (envase asséptico), sem o uso de conservantes, mantendo a qualidade, o sabor e um shelf-life prolongado.

“O envase asséptico de bebidas acondicionadas em embalagens sopradas de PET vem crescendo bastante e nós estamos ampliando nossas instalações em Simões Filho-BA, para fabricar em maior escala pré-formas para envase a quente”, antecipou o superintendente comercial da Engepack.

Para suportar altas temperaturas (até 90ºC), as pré-formas para envase asséptico, entre outras particularidades, devem contar com o dobro da espessura de parede das pré-formas convencionais, ou seja, enquanto uma pré-forma para o sopro de embalagem de 500 ml de água pesa 12 gramas, uma pré-forma para envase asséptico do mesmo volume de suco pesa 27 gramas.

Plástico Moderno, Plastirrico deve soprar 250 milhões de frascos
Plastirrico deve soprar 250 milhões de frascos

Terceirizar está em alta – A conduta em prol da verticalização, porém – para alívio dos transformadores –, não é generalizada. Em alguns segmentos, o protocolo é outro. A terceirização das operações do sopro pelo modelo clássico, sem produções in house no cliente, prevalece em vários setores e só ganha vulto com o passar do tempo. Isso denota que grandes corporações dos setores de alimentos, fármacos, cosméticos, higiene, automotivo etc. consideram que ainda vale a pena continuar optando pela terceirização em detrimento de assumir o sopro, entre outras operações, e implementar a verticalização nos negócios.

Nesse caso, são encontrados muitos exemplos. Um deles é o da Vigor Alimentos, subsidiária do grupo JBS, listado entre as três maiores corporações do setor de alimentos do mundo, que, por algum momento, cogitou internalizar as operações de sopro, mas desistiu da ideia, após uma reavaliação de custo/benefício.

“O projeto inicial da Vigor estava direcionado para o sopro in house, mas, após uma reavaliação de ganhos, decidiu delegar a operação para a nossa empresa porque enxergou novas oportunidades de expansão na produção de produtos lácteos, entre outros alimentos”, informou Lair Pasetti de Souza, diretor da Plastirrico.

Plástico Moderno, Souza estima para este ano dobrar o volume de produção
Souza estima para este ano dobrar o volume de produção

Outro exemplo lembrado por Souza vem da CNA – Companhia Nacional de Álcool, detentora das marcas Zulu e Coperalcool, que, depois de passar por uma experiência de verticalização total na produção de embalagens sopradas, reconheceu vantagens de custo na terceirização, abriu mão de realizá-las e as delegou a uma empresa especializada em sopro, elegendo também a Plastirrico como sua grande parceira.

“Conseguimos demonstrar que somos muito mais competitivos e que podíamos oferecer diversas vantagens à empresa, que pode se ater mais à produção, não despendendo esforços e tempo para fabricar embalagens, que é o nosso negócio”, comentou o diretor.

As prerrogativas do transformador têm alcançado efeitos auspiciosos. No caso da Vigor Alimentos, a Plastirrico conseguiu fechar um contrato de mais cinco anos de operações, atendendo com exclusividade todas as necessidades de sopro e de injeção do cliente. Na CNA, o transformador assumiu as operações de sopro antes verticalizadas. Pertencente ao grupo Grupasso, atuante em várias áreas de negócios (como produção de leite e de sucos), a Plastirrico iniciou sua jornada no setor de fabricação de embalagens sopradas com a verticalização do sopro, fabricando frascos para embalar o leite Xandô, ainda na década de 80, produzido por outra empresa também do grupo. A consolidação da atividade como transformador ocorreria em 2008, quando a empresa destinou investimentos de maior vulto para incrementar a produção na fábrica instalada em São Paulo. Em apenas três anos, a empresa conseguiu aumentar seu faturamento em mais de 130%, alcançando, em 2012, produção de 120 milhões de frascos soprados.

“Em 2013, esperamos dobrar esse volume, alcançando produção de 250 milhões de frascos e deveremos continuar investindo na otimização dos processos e em aumentos na produção, instalando máquinas ainda mais modernas, e buscando sempre promover novas atualizações”, ensinou Souza.

Crescer via aquisições – Com fábricas espalhadas por boa parte do país, a Globalpack pratica o lema de ir ao encontro dos clientes, ao instalar empreendimentos próprios e próximos a eles, geograficamente considerando, mas não in house. Dessa forma, a empresa se poupa de sofrer algum tipo de revés que possa prejudicar seu planejamento estratégico de mais longo prazo e suas finanças.

Atuando no sopro de frascos e artefatos até 20 litros, desde 1984, quando foi fundada com a razão social de Sinimplast, e em processos de sopro convencional (frascos para vários tipos de resinas), injeção-sopro (frascos para desodorantes do tipo roll-on) e injeção-estiramento-sopro (frascos para PET), a empresa no decorrer dos anos não cogitou instalar operações in house por considerar a dependência dos volumes requeridos apenas por um único cliente como um aspecto vulnerável desse sistema.

“As operações in house propiciam aos clientes reduções de custo de frete, mas depender do volume de um único cliente cria dificuldades ao transformador no sentido de não poder ratear custos”, comentou Cristiano Leal Passos, diretor da Globalpack.

Operar com proximidade, mas de forma independente, durante todos esses anos, ajudou a minimizar os custos, um aspecto muito importante, principalmente se forem consideradas as reduções de margens enfrentadas por esses empresários, que, segundo Passos, caíram pela metade, no período da última década.

Diversificada na oferta de soprados, com fornecimentos para os setores de cosméticos, higiene pessoal, limpeza, alimentos, farmacêuticos e automotivos, a empresa foi crescendo ao longo dos anos, promovendo expansões na oferta com novas aquisições industriais, que se iniciaram com a sua própria fundação, ao comprar a unidade de sopro da antiga fábrica da Orniex, em Diadema-SP, seguida pela compra de concorrentes em três diferentes oportunidades. Em 1991, adquiriu a Eletroflex; em 1998, comprou a divisão de sopro da Medabil; e, em 2007, incorporou a Globalpack, com a qual houve identificação com o nome, e passou a assumi-lo para todo o pool de empresas.

“Hoje, ultrapassando a marca de produção de um bilhão de frascos ao ano, contamos com cerca de cem sopradoras e acabamos de comprar mais oito novos equipamentos de grande porte e dois outros menores para instalar em nossas fábricas”, informou Passos. Ao todo, somam sete empreendimentos dedicados ao sopro, três deles em São Paulo, um em Pernambuco, outro no Ceará, e duas novas fábricas inauguradas recentemente em Minas Gerais e na Bahia.

Em 2012, a empresa registrou crescimento de 12% em relação a 2011; e a expectativa para este ano é alcançar níveis de crescimento de 15%. Para chegar a tal projeção, o diretor da Globalpack considera que a demanda nos setores de alimentos e cosméticos deverá continuar aquecida, tal qual ocorreu em 2012, devendo somar-se ainda à forte demanda do setor de óleos lubrificantes, que também consome grandes volumes de soprados.

Plástico Moderno, Amcor aposta nas embalagens diferenciadas
Amcor aposta nas embalagens diferenciadas

Diversificar, a grande receita – Os investimentos da australiana Amcor no Brasil somaram cerca de US$ 35 milhões só nos últimos três anos, entre ampliações de capacidade e introdução de novas tecnologias. O montante tem privilegiado especialmente o mercado de bebidas, mas também os mercados de alimentos e outros diversificados, como higiene pessoal, cosmético, farmacêutico e higiene doméstica, que representam volumes menores, mas que requerem grande variedade de designs, tamanhos e resinas.

“Nossos clientes buscam diferenciação, embalagens que se destacam nas prateleiras e valorizam seus produtos, e a nossa expertise é justamente oferecer diferenciação, seja em design ou tecnologia”, afirmou Ruben Melara, gerente geral da Amcor Rigid Plastics South America.

Para atender os vários mercados com ampla diversidade de soprados, a empresa conta com a forte retaguarda de seu centro de pesquisa e desenvolvimento localizado nos Estados Unidos. Berço de todas as tecnologias que serão empregadas na fabricação de embalagens plásticas rígidas, esse centro realiza estudos de design industrial, análises de elementos finitos, testes de shelf-life, impressão de mock-ups em 3D, e ainda fabrica unidades de moldes piloto para a realização de testes rápidos. O centro implementa também estudos e indicações de barreiras de acordo com as características e requisitos dos produtos, e promove testes laboratoriais e em câmaras de ambientes corrosivos, para aceleração de resultados, envolvendo tecnologias patenteadas, além de estudos de barreira para a proteção dos produtos envasados e para tornar os frascos e garrafas mais leves (light weighting), e também visando à produção de soprados com resinas pós-consumo.

Plástico Moderno, Rubens Melara, Amcor, lamenta as mudanças fiscais bruscas, que afetam toda a cadeia
Melara lamenta as mudanças fiscais bruscas, que afetam toda a cadeia

Com capacidade atual instalada para fabricar 1,5 bilhão de soprados, a Amcor pode atender a todo tipo de demanda dos clientes, seja por produtos standard em grandes quantidades ou produtos específicos em menores volumes. “Entre as nossas instalações próprias, temos plantas em Manaus-AM e em Suape-PE, que produzem pré-formas de PET e, juntas, possuem capacidade instalada para produzir 4 bilhões de pré-formas ao ano”, destacou Melara.

Em Louveira-SP, a Amcor também possui fábrica de produtos diversificados e em diversos materiais, atendendo, principalmente, os setores de cosméticos, farmacêutico, alimentos e de higiene e limpeza. Na unidade de Jundiaí-SP, a fábrica está voltada para a produção de garrafas PET para bebidas carbonatadas, não carbonatadas, isotônicos, chás, sucos e óleos comestíveis.

“Nossa unidade de Jundiaí conta com equipamentos especiais e tecnologia Amcor para a produção de embalagens para envase a quente, denominadas Heat Set, que apresentam estabilidade térmica e capacidade para suportar envases à temperatura de aproximadamente 85°C”, explicou Melara.

A Amcor também opera no Brasil com o sistema in-house, possui duas unidades instaladas em clientes, uma delas em Jundiaí-SP e outra em Goiânia-GO, destinadas à produção de embalagens para bebidas carbonatadas e para alimentos.

“No mundo todo, o grupo Amcor possui mais de 300 plantas em 43 países e um faturamento correspondente a US$ 13,4 bilhões.” No Brasil, onde atua desde 1998 e, no decorrer desses anos, promoveu fusões e novas aquisições, a empresa possui oito fábricas dedicadas à produção de embalagens plásticas rígidas e flexíveis.

“Investimos de forma permanente na qualificação de colaboradores, modernização das nossas fábricas e desenvolvimento de novos produtos e tecnologias, a exemplo das embalagens com propriedades de barreira, que conferem aos produtos proteção e segurança de acordo com rígidos padrões de qualidade”, destacou Melara.

Os investimentos, porém, nem sempre contam com contrapartidas de mercado, pois, nos últimos tempos, segundo Melara, o setor de embalagens plásticas tem enfrentado mudanças na área fiscal que provocaram impactos negativos nos negócios, sem contar a elevação de custos das matérias-primas e a alta competitividade local pela presença de grande número de transformadores que vêm disputando palmo a palmo a conquista de maior participação no pujante mercado brasileiro.

Entretanto, segundo Melara, o principal desafio enfrentado atualmente pelo setor são as incertezas relacionadas com mudanças fiscais bruscas, que oferecem riscos para toda a cadeia, e que deveriam ser evitadas pela adoção de políticas mais favoráveis à produção industrial.

Apesar desse revés, “em 2013 deveremos dar continuidade à nossa estratégia de consolidar cada vez mais o nosso posicionamento no mercado brasileiro, bem como vamos trabalhar para estreitar ainda mais a parceria com nossos clientes e buscar novas oportunidades de negócios, oferecendo tecnologias que possam contribuir cada vez mais para a redução de custos dos produtos”, finalizou o gerente geral da Amcor.

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