Seca: Setor faz adaptações em processos para superar escassez de água

Para a indústria, a grande ameaça de racionamento de água em várias regiões do estado de São Paulo é motivo de preocupação.

A intensidade com a qual cada empresa pode ser atingida depende do local onde está instalada, da capacidade dos reservatórios que as abastecem.

As situações mais críticas são as das indústrias situadas na região da Grande São Paulo e atendidas pelo Sistema Cantareira, bem como a do polo industrial próximo dos municípios de Campinas e Piracicaba.

Nesses pontos há grande possibilidade de colapso de atendimento e ameaça de adoção de rodízio bastante rigoroso nos próximos meses.

De forma emergencial, o governo do Estado anunciou o investimento em obras para melhorar o sistema de abastecimento, mas os resultados dessa iniciativa só devem ser sentidos dentro de um a dois anos.

Fábricas ligadas ao plástico se encontram nas localidades mais afetadas e estão atentas ao problema já há algum tempo.

Para os transformadores, um aspecto favorável é o da atividade não ser hidro intensiva, a não ser em determinadas situações.

O mesmo ocorre com o setor de equipamentos.

Os piores casos envolvem os fornecedores de matérias primas e aditivos usados na produção de peças as mais variadas.

Só para lembrar: estima-se que o consumo de água pelas indústrias responda por 40% do total fornecido.

Com problemas que afetem as linhas de produção ou não, a escassez de água sobre o desempenho das indústrias paulistas dificilmente deixará de ser sentido.

Caso não ocorram chuvas significativas nas próximas semanas, a economia da região pode sofrer consequências graves, com forte desemprego – não só da indústria – e queda significativa do PIB do estado. Poucos se arriscam em falar sobre números.

Os fabricantes de máquinas e equipamentos já começaram a sentir efeitos colaterais.

Não bastasse o atual momento da economia do País, em época de crescimento muito baixo, a seca atrapalha os planos dos empreendedores.

O problema é explicado por Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Plástico Moderno, Skaff: quem não se preparou corre o risco de paralisação
Skaff: quem não se preparou corre o risco de paralisação

“Hoje, a disponibilidade de água passou a ser item a ser considerado na hora de planejar qualquer projeto fabril em São Paulo. Essa expectativa gera insegurança, congela investimentos na instalação de novas plantas ou em ampliações nas regiões afetadas”, disse.

De acordo com o presidente da Fiesp, essa preocupação não existia há pouco tempo. “Antes, as empresas pensavam apenas no mercado local, na infraestrutura existente, na possibilidade de se adotar a logística adequada para escoar sua produção”, disse.

Para exemplificar, lembra o caso da Toyota, que iria implantar uma fábrica em Indaiatuba e deslocou o projeto para Sorocaba. “Felizmente para nós o empreendimento permaneceu no estado de São Paulo”, considerou.

Crise anunciada – escassez de água

Desde 2004, quando surgiram os primeiros rumores que o sistema de abastecimento de água do estado de São Paulo corria riscos de não atender a demanda, a Fiesp tem procurado mobilizar seus associados a adotar práticas de conservação e reúso.

As ações da entidade se intensificaram a partir do ano passado, quando a crise passou para a condição de quase irreversível. “Há dez anos temos realizado reuniões semanais com esse objetivo. Nós fizemos a lição de casa”.

Além dos encontros voltados para a conscientização, foi lançada uma cartilha com recomendações úteis. O texto abrange vários aspectos, da economia de água usada nos processos industriais à voltada para o uso dos colaboradores (veja quadro).

Outra iniciativa foi o lançamento do Prêmio Fiesp de Conservação e Reuso de Água, evento anual que em 2015 chega à sua décima edição.

A ideia é homenagear as empresas que adotam medidas efetivas para a redução e desperdício de água. Entre as empresas com cases destacados ao longo dos anos, no segmento de plástico o destaque fica para a Braskem (veja o boxe).

“Os resultados de nosso esforço têm sido positivos”, avalia Skaf. Na região de Piracicaba, por exemplo, o consumo industrial de água foi reduzido pela metade.

Para o presidente da Fiesp, esse retorno é muito importante. “O problema será minimizado para quem se preocupou com a situação.

Quem não se preparou corre o risco de sofrer sérios prejuízos, inclusive com a paralisação de linhas de produção”.

Em paralelo, a federação vem mantendo diálogo constante com as autoridades para se chegar a uma fórmula que minimize os impactos da escassez de água nas indústrias.

“É necessário cobrar responsabilidade das empresas fornecedoras, a transparência das informações ficou comprometida no ano passado”.

Preocupa a situação de empresas hidrointensivas com contratos de benefícios assinados junto às empresas fornecedoras. A cobrança é pela manutenção dos compromissos firmados, a menos que ocorra quadro de emergência muito grave.

Preocupadas

Muitos transformadores já adotaram ou estudam diferentes soluções, como construção de reservatórios com grande capacidade, perfuração de poços, a adoção de circuitos hídricos fechados sempre que possível ou a substituição de equipamentos para alternativas capazes de promover economia de água.

Na hora do desespero, uma saída é apelar para os caminhões pipa.

Cada caso é um caso. Existem as que estão em situação confortável e outras nem tanto. Para quem precisa agir, a hora é de sacrifícios.

Apesar do momento de economia desaquecida, quando não é fácil colocar a mão no bolso para realizar procedimentos que não raro exigem recursos elevados. Alguns exemplos ajudam a esclarecer a situação.

No mercado desde 1957, a Plásticos Regina se especializou na fabricação de embalagens plásticas injetadas em 1992.

A empresa tem abastecimento de água proveniente do Alto Tietê, outro reservatório com risco de esvaziamento. Desde outubro, convive com regime de fornecimento de quatro dias com água para um sem.

“Temos um reservatório de porte, dimensionado para evitar os problemas enfrentados até hoje. Não há como negar que estamos preocupados com o agravamento da crise”, explica Bruno Dedomenici, diretor industrial. Para enfrentar a situação, o dirigente estuda algumas alternativas.

“Estamos fazendo contas na ponta do lápis para escolher o investimento indicado para obter retorno dentro do prazo adequado”, explicou.

A maior preocupação se concentra na economia da água de resfriamento, maior dor de cabeça das empresas transformadoras.

“O sistema de resfriamento representa 90% de nosso consumo de água”. A empresa, para essa operação, conta com torre de resfriamento, equipamento que apresenta perdas consideráveis por evaporação.

Caso a situação se agrave, uma das saídas é adquirir equipamentos que trabalham com circuitos fechados de água para realizar a operação.

A BCF Plásticos, localizada no bairro da Mooca, em São Paulo, atua há mais de quarenta nos no mercado e fabrica portas sanfonadas de PVC, entre outros produtos. Atua basicamente com linhas de extrusão. “Começamos a pensar na economia de água antes da atual crise hídrica, nos preocupávamos em reduzir os custos industriais”, explica Marco Antonio Capozzielli, diretor administrativo.

A situação, agora é de expectativa para o que vai ocorrer.

A empresa está na região abastecida pelo sistema Cantareira. Por enquanto, não sofre com o problema. “Nossa empresa está na área central da cidade, preservada até agora de revezamentos mais drásticos”, considerou.

Entre as ações adotadas, a BCF implementou o reúso da água.

“Atualmente temos quatro circuitos de água distintos, dois completamente fechados com temperatura de 6 a 10ºC e índice de reposição baixíssimo, pois não ocorre a evaporação, um semiaberto com pouca reposição e um aberto compartilhado de torres de refrigeração no qual depositamos a maior parte de nossa atenção”, ressaltou.

Outra iniciativa foi controlar eletronicamente caixas e bombas, que permite a compensação automática do gasto, além do controle diário da quantidade e qualidade da água.

O sistema sinaliza qualquer alteração de rotina.

Em paralelo, houve a troca de todas as torneiras e válvulas por equipamentos mais econômicos e a adoção de sistemas de captação da água de chuva.

“O nosso consumo mensal de água para a fabricação dos produtos da empresa caiu 50%, hoje está em torno de 35 m³ por mês, numa relação de 0,26 m³ de água por tonelada de PVC processado”, informou.

Também com sede em Mauá, a Permatti é abastecida pelas águas da represa Billings, que se encontra em melhores condições de disponibilidade volumétrica.

Há mais de 25 anos no mercado, ela fabrica produtos derivados do PVC, entre eles portas sanfonadas, canaletas, telhas, chapas e outros.

Utiliza os processos de extrusão e laminação. “Até agora não estamos passando por dificuldades”, diz Ailton Perlati, diretor. A empresa tem a vantagem de consumir volume pequeno de água e trabalhar bastante com circuitos hidráulicos fechados.

Eventuais cortes no consumo são compensados com a compra de água de caminhões pipas. “Isso ocorre a cada um ou dois meses”, relatou.

Nem por isso a crise deixa de preocupar o dirigente.

Ele está ressabiado com a notícia divulgada recentemente de que a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) começou a construir dutos para transferir água da represa Billings para o Sistema Alto Tietê.

“Não sei o quanto isso pode afetar nosso abastecimento”, diz. Um das iniciativas em cogitação é a construção de um tanque subterrâneo para armazenar a água da chuva proveniente do telhado.

Poço de tranquilidade – Nem todos os transformadores demonstram grande preocupação.

A Jaguar Plásticos está a caminho dos quarenta anos e é especializada na injeção de peças plásticas para diferentes mercados e segmentos.

Está situada em Jaguariúna, cidade próxima de Campinas, um dos locais mais atingidos pela crise hídrica.

Por lá, a situação não preocupa no momento, apesar dos cortes constantes no abastecimento da região.

“Nosso uso de água da rede é pequeno, pois contamos com poço artesiano que supre nossas necessidades”, conta Emanuel Freitas, coordenador de gestão integrada.

O clima de sossego deve continuar, apesar de a Jaguar estar passando por fase de transição.

Ela vai sair de sua atual sede, com 10 mil m² para outra com 220 mil m², no mesmo município. A mudança começa em abril e, de forma gradativa, deve se concretizar no meio do próximo ano.

“A nova fábrica contará com um reservatório imenso, acredito que não teremos dificuldades”, afirmou.

Também sossegada é a situação da Plastek, empresa criada nos Estados Unidos com fábrica no Brasil, em Indaiatuba-SP.

Ela fabrica de embalagens por meio da técnica de injeção. “Contamos com um poço artesiano que garante nosso abastecimento.

Além disso, não consumimos muita água porque trabalhamos com equipamentos com sistema fechado”, resume Franco Magno, gerente técnico.

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