Retardantes à Chama: Surgem normas oficiais para exigir Aditivos mas ainda há muitos itens desprotegidos

Elaboração de normas relacionadas à inflamabilidade de materiais e controle de incêndios

Paulatinamente, parece se estabelecer no Brasil movimento mais ativo de elaboração de normas relacionadas à inflamabilidade de materiais e controle de incêndios. E, com isso, abrem-se mais possibilidades comerciais para os insumos retardantes de chamas.

Não por acaso, esse movimento ganhou força há pouco mais de dois anos, ou seja, após o trágico acidente que no início de 2013 matou quase 250 pessoas em uma boate da cidade gaúcha de Santa Maria.

Mas, por enquanto, ele se restringe apenas a normas e regulamentações, não levando a criar uma legislação específica e mais rígida, fato que depende das decisões do confuso cenário político do país.

No campo normativo há avanços, como a NBR 16405:2015, para avaliação das características de ignitabilidade de sofás, poltronas e assentos estofados, geralmente recheados de espumas de poliuretano (PU), e eventualmente com um plástico, a exemplo do PVC, no revestimento (a ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas define ignitabilidade como “medida da facilidade com que o elemento ou componente pode queimar com ou sem chama”).

Publicada em julho do ano passado, ela tem por base a norma britânica BS 5852 (Methods of test for assessment of the ignitability of upholstered seating by smouldering and flaming ignition sources), e aborda tanto a classificação quanto os ensaios correspondentes.

Plástico Moderno, Lilian: uso de retardantes em estofados ainda é incipiente
Lilian Salim – Abichama – retardantes de chama

Nessa aplicação em sofás e estofados, no Brasil, o uso de retardantes é ainda “incipiente”, como aponta Lilian Salim, vice-presidente da Abichama (Associação Brasileira da Indústria de Retardantes de Chamas).

E esse uso se concentra nos produtos vendidos para outros países, onde há mais rigidez no controle de incêndios e da inflamabilidade de materiais.

“Mas também no Brasil deve crescer o uso de retardantes no mobiliário, assim como na construção civil e no transporte”, prevê Lilian.

A ABTN já trabalha em uma norma de classificação de ignitabilidade de materiais construtivos.

E o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) desenvolve uma Regulamentação de Produtos para Tratamento Acústico ou Isolamento Térmico para uso na Construção Civil – focado especialmente na segurança contra incêndio –, que abrange diversos materiais de revestimento, incluindo placas de isolamento térmico e acústico, tubulações plásticas e de outros materiais (a portaria estabelecendo a consulta pública para essa regulamentação foi publicada pelo Inmetro em outubro último).

Também tramitam no poder legislativo diversos projetos de lei destinados a controle de incêndio e proteção contra a expansão de chamas.

“Esses projetos focam principalmente os espaços fechados com afluxo de público, e constituem um grande avanço. Mas a Abichama entende ser necessário instituir normas mais gerais sobre segurança, considerando, por exemplo, também estruturas temporárias”, ressalva Lilian.

Na verdade, nessa vertente legislativa do ambiente regulamentário nem é possível detectar avanços, crê Ricardo do Rego Freitas, gerente geral da Chemtra (agente na América do Sul dos retardantes da israelense ICL-IP).

“No Brasil, há obrigatoriedade basicamente para produtos eletroeletrônicos, e da indústria automobilística. Mas a legislação poderia avançar muito na questão do mobiliário, na construção civil – em materiais de isolamento, nos painéis de parede – e também na área têxtil, por exemplo, nas cortinas”, detalha.

A Batalha dos Halogenos

Encontre neste link RETARDANTES À CHAMA HALOGENADOS (Plásticos)

Assim como se torna mais robusto o conjunto de normas e leis destinadas a prevenir incêndios e a reduzir seus possíveis impactos, evolui a tecnologia dos retardantes de chamas (que, como o nome revela, devem justamente diminuir ou controlar esses riscos pela ampliação do tempo de disseminação de uma possível ocorrência de fogo).

Essa evolução tecnológica abrange também os retardantes halogenados, entre os quais predominam os compostos de bromo, atualmente sujeitos a questionamentos que os indicam como causadores de impactos ambientalmente negativos.

Na trajetória da evolução da tecnologia dos halogenados, consolidam-se duas vertentes de desenvolvimento de produtos: os retardantes poliméricos e os reativos.

Ambos prometem minimizar possíveis impactos ambientais ou mesmo eliminá-los, dificultando a migração dos halogênios para a atmosfera: os poliméricos, por serem mais estáveis em decorrência do maior peso de suas moléculas; os reativos, por se incorporam à estrutura dos polímeros aditivados.

As grandes produtoras globais de retardantes halogenados – Albermale, Chemtura e ICL-IP, todas associadas à Abichama – já oferecem compostos poliméricos para retardamento de chamas em poliestireno expandido (EPS) e extrudado (XPS).

Nesses casos, eles se apresentam como alternativas ao HBDC (hexabromociclododecano), cuja produção já saiu dos planos desses grandes fabricantes globais, que há cerca de três anos também descontinuaram a produção do decaPBDE, ou decabromodifenil éter (no Brasil o decaPBDE ainda chega mediante importação realizada junto a outros fornecedores, mas também aqui esse uso deve findar em 2019).

Na Albermale – cujos produtos são comercializado no Brasil pela Neotrade –, o retardante polimérico para EPS/EPX leva a marca GreenCrest.

Outras soluções poliméricas dessa mesma empresa são o Saytex HP 3010 e Saytex HP-7010, para plásticos de engenharia, como PET, PBT e PA.

Plástico Moderno, Carmo oferece várias opções de retardantes para clientes
Sylvio Moreira do Carmo Jr. – Neotrade

O portfolio da Neotrade/Albermale hoje inclui também retardantes reativos, como o Saytex RB49, para poliéster insaturado.

“Quimicamente, o Saytex RB49 é o anidrido tetrabromoftálico, que utilizado como retardante de chama na formulação de poliéster insaturado deve substituir parte do anidrido ftálico, um dos reagentes formadores dessa resina, e então passa a fazer parte da cadeia do polímero”, explica Sylvio Moreira do Carmo Jr., sócio-diretor da Neotrade.

Tal aplicação já pode ser encontrada em plataformas de extração de petróleo.

A Chemtra também fornece retardantes reativos, como aqueles denominados F2000 e F3000 (utilizados principalmente na produção dos dos circuitos eletrônicos impressos, PCB, de Printed Circuit Boards).

“São polímeros epoxibrominados que se integram à cadeia do master ou do composto da resina utilizada na produção desses circuitos”, explica Freitas.

“Temos também versões reativas em nossa tradicional linha de produtos derivados de fósforo, caso do Fyrol 6, para uso em PU em aplicações como mobiliário e construção civil”, acrescenta.

Plástico Moderno, Freitas: reativos avançam, mas os halogenados são imbatíveis
Ricardo do Rego Freitas, gerente geral da Chemtra

De acordo com Freitas, vem crescendo o uso dessas versões ambientalmente mais amigáveis dos retardantes halogenados.

Em alguns países, por exigência legal, e no Brasil por decisões voluntárias, principalmente de multinacionais que aqui seguem as diretrizes de suas matrizes, e por empresas nacionais interessadas no mercado externo.

Para ele, até mesmo por evoluírem tecnologicamente, por muito tempo os produtos halogenados manterão sua relevante participação no mercado dos retardantes de chamas:

“Eles são imbatíveis na relação custo/eficiência”, enfatiza o diretor da Chemtra.

Lilian expressa opinião similar: “Os produtos com base halogênica têm química muito eficaz para o retardamento de chamas”, salienta.

Mas a vice-presidente da Abichama reconhece já haver restrições a produtos compostos com halogenos em algumas aplicações.

Uma delas no estado norte-americano da Califórnia, onde desde 2012 a regulamentação solicita a retirada do TDCP (tri-dicloropropilfosfato) dos móveis estofados.

“Embora tecnicamente nada desabonasse essa substância, as empresas associadas à BSEF (entidade global na qual se espelha a Abichama) disponibilizaram prontamente uma gama de produtos constituídos por uma nova geração de moléculas para substituir o TDCP”, explica.

Contra os Halogenados

Encontre neste link RETARDANTES DE CHAMA NÃO HALOGENADOS (Plásticos)

Mesmo evoluindo os halogenados, há quem cite uma crescente demanda por produtos em cujas formulações eles não apareçam, como diferencial mercadológico hoje bastante favorável a seus próprios retardantes.

É o caso da Clariant, que nesse mercado atua com duas linhas de produtos livres de halogênio, o Exolit, à base de fósforo, e Hoxtavin Now, de amínicos.

Na indústria do plástico, a linha Exolit aparece principalmente em plásticos de engenharia, como poliamidas e PBT, empregados na fabricação de produtos eletrônicos.

“Produtos à base de fósforo e halogenados são eficazes nesse gênero de aplicação; e os halogenados podem até ter custo menor, mas a linha Exolit vem crescendo porque muitas empresas exigem produtos livres de halogenos e de metais pesados”, destaca Paulo Ghidetti, coordenador técnico da BU Additives para a América Latina da Clariant.

“E seu uso pode ainda se expandir para a construção civil, em tubos flexíveis, por exemplo, e na indústria do transporte”, acrescenta.

Plástico Moderno, Ghidetti: cresce a procura por aditivos livres de halogenados
Ghidetti: cresce a procura por aditivos livres de halogenados

Já os retardantes da marca Hostavin NOW PILLS XP são utilizados em aplicações de filmes e não-tecidos – especialmente poliolefínicos empregadas em construção civil –, que por terem menor espessura apresentam mais dificuldades de aceitação de outros retardantes.

“Com essa linha, pode-se trabalhar com espessuras de até 300 micras, obtendo efeito retardante. Com outros aditivos, geralmente é necessária uma espessura de pelo menos 1 mm”, compara Ghidetti.

A linha Hostavin NOW PILLS XP tem por base os aminoéteres do tipo Hals (Hindered Amine Light Stabilizers), desenvolvidos inicialmente como estabilizadores de luz UV, mas que, conforme mostraram estudos posteriores, atuam também como retardantes de chamas.

“Essa é uma molécula exclusiva da Clariant“, enfatiza Ghidetti.

Também a Basf oferece um produto simultaneamente retardante de chamas e estabilizante a luz: o Flamestab NOR 116, derivado da triazina.

Outro retardante desse empresa é o Melapur, à base de melanina. “A linha Melapur é voltada plásticos de engenharia, por exemplo, aplicações de poliamida em componentes eletrônicos, nos quais é necessário atingir UL94 V-0, e em casos com carregamento de fibra de vidro também é possível atingir UL94 V-2”, relata Andrei Fachini, coordenador de negócios de aditivos para plásticos da Basf,

(referindo-se às normas de inflamabilidade de plástico da Underwriters Laboratories).

Já o Flamestab NOR 116, detalha Fachini, é indicado para aplicações poliolefínicas restritas a baixas espessuras, como ráfias, não-tecidos, filmes, fios e cabos, filmes.

Assim com a linha Melapur, também é isento de halogênios.

Concorrência no Antimônio

Encontre neste Link RETARDANTES DE CHAMA TRIÓXIDO DE ANTIMÔNIO (Plásticos)

Na Lanxess, o portfolio de retardantes de chamas comercializado no Brasil se agrupa sob duas marcas: Levagard, com produtos mais utilizados em aplicações de PU, com ou sem halogenos; e Disflamoll, composta por ésteres que combinam a atividade como plastificantes com a função do retardamento.

“Há hoje interesse maior por produtos sem halogenos, esse é um dos grandes apelos de nossos produtos”, afirma Angela Baccarin, especialista em vendas técnicas da Lanxess (empresa que, embora tenha também retardantes halogenados em seu portfolio, privilegia estrategicamente aqueles isentos dessas substâncias).

Há cerca de um ano, a Lanxess disponibiliza no Brasil o retardante Disflamoll TP 51092, posicionado como alternativa para o trióxido de antimônio, muito utilizado como retardante em aplicações de PVC.

E com essa resina, observa Angela, faz menos sentido falar em produtos sem halogênio, pois ela própria contém cloro. “Mas o TP 51092, além de não ter halogênio, apresenta perfil menos toxicológico e odor mais suave”, compara.

O Disflamoll TP 51092, afirma a profissional da Lanxess, atende “requisitos rigorosos” de retardamento de chama em materiais como PVC plastificado, TPU, espumas flexíveis de PU, blendas de PC-ABS, entre outros, para uso em lonas, fios e cabos, móveis, interiores de automóveis, materiais isolantes e espumas.

“É um grande desafio concorrer com o trióxido de alumínio, um produto de custo bem acessível e bastante eficaz”, reconhece.

Exatamente por essa boa relação custo/benefício, o trióxido de antimônio é amplamente utilizado como retardante em PVC flexível, em que os componentes inflamáveis são os plastificantes adicionados para conferir flexibilidade (o PVC rígido é naturalmente retardante).

Sua função como retardante está, porém, condicionada à associação com um halogênio: no caso do PVC, ao cloro da própria resina; em outros usos, geralmente a derivados de bromo.

No Brasil, a Oxy produz trióxido de antimônio há mais de quarenta anos.

E para Wagner Colavita, diretor comercial dessa empresa, em fios e cabos flexíveis de PVC não faz sentido utilizar outro retardante.

“Talvez por alguma necessidade específica possa se pensar em outras possibilidades, mas para as aplicações usuais essas possibilidades seriam usadas em quantidades muito maiores para se obter a mesma resistência à inflamabilidade, com impactos não apenas ambientais ou nos custos, mas também nas características mecânicas do material”, justifica.

A indústria automobilística, prossegue Colavita, também usa bastante o trióxido de antimônio em formulações com ABS, PP e plásticos de engenharia, só não é empregado nas aplicações em que há alternativa viável como retardante, basicamente quando existem restrições à presença de halogenos (que devem atuar conjuntamente com ele).

“É um produto consagrado, com custo interessante e excelente resistência à inflamabilidade, utilizado em ampla escala em todo o mundo”, ressalta o diretor da Oxy.

Plástico Moderno, Fachini: triazina retarda chama e também protege contra UV
Fachini: triazina retarda chama e também protege contra UV

Mercado e perspectivas

A estratégia mercadológica atualmente empregada por fabricantes de retardantes halogenados inclui outros componentes, além de versões mais modernas de produtos.

Uma delas, a ferramenta SAFR, desenvolvida pela ICL-IP para mensurar o perfil de sustentabilidade dos retardantes de chamas nos diferentes usos – pela sua exposição –, mediante a consideração de fatores como as emissões desses produtos por eflorescência (ou migração para a superfície), lixiviação e volatilização, e a frequência de contato com eles durante o uso.

No caso de um automóvel, por exemplo, a SAFR fala em contatos “frequentes” em assentos e no interior, “ocasionais” nas partes colocadas sob o capô, e “raros” em peças como os conectores de fios.

“Globalmente, essa ferramenta está disponível há cerca de dois anos, e na América do Sul a promovemos há cerca de um ano”, diz Freitas.

Além dos halogenados, ele lembra, o portfolio da ICL-IP inclui ainda produtos à base de fósforo e hidróxido de magnésio (este último, um composto inorgânico mais empregado em PEBD de fios e cabos).

E, como não poderia deixar de acontecer, no primeiro semestre deste ano a demanda esteve bem contida. “Nesse começo do segundo semestre, já vejo um pouco mais de consultas, e mesmo gente que tinha até suspendido a demanda voltando a nos contatar”, ressalta Freitas.

Para Carmo, da Neotrade, possíveis melhoras na demanda por retardantes no mercado brasileiro virão, “se vierem”, somente em 2017. “Este ano está difícil para toda a indústria brasileira”, argumenta.

A Neotrade disponibiliza outros gêneros de retardantes, além dos halogenados da Albermale: casos de alumina tri-hidratada, hidróxido de magnésio e produtos fosfatados, como polifosfatos de amônia e ésteres fosfatados (estes mais usados em resinas termofixas, enquanto os polifosfatos são mais comuns nas termoplásticas, e posicionados pela Neotrade principalmente para as tintas intumescentes).

Mas os produtos da Albermale ainda respondem pela maior parte de seu volume de negócios e devem seguir bastante requisitados. “O bromo segue imbatível, no Brasil e no mundo. E nem a médio nem a longo prazo vejo possibilidades de fim de seu uso”, projeta Carmo.

Fachini, da Basf, aposta em futuro mais promissor para outras opções.

“Na Europa, os regulamentos Reach (Registo, Avaliação e Autorização e Restrição de Substâncias Químicas) e WEEE (Waste Electrical and Electronic Equipment), restringem o uso de retardantes de chamas halogenados”, informa.

“Já a diretiva RoHS (Restriction of Hazardous Substances), contém uma lista de substâncias que devem ser removidas ou proibidas: sob essa diretiva, retardantes de chamas bromados foram proibidos em equipamentos elétricos em 2008”, finaliza.

 

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