Retardantes de chama – Descaso legislativo e falta de informação dos consumidores mantêm consumo de plásticos antichama em baixa no Brasil

Buenos Aires, Argentina, 30 de dezembro de 2004. Entre três e quatro mil jovens se apinham na casa de espetáculos República de Cromañón para acompanhar a apresentação da banda de rock Callejeros. Soam os acordes da primeira música e tem início um intenso show pirotécnico. Mas algo sai errado: fogos de artifício conhecidos como bengalas atingem uma tela feita de material plástico presa ao teto, e ela se incendeia rapidamente. Em poucos minutos, o foco de incêndio se transforma em uma “chuva” de fogo que se alastra pela decoração interna da casa, feita predominantemente de madeira e poliestireno expandido. Painéis de isolamento acústico também ardem em chamas, formando uma densa fumaça negra composta por gases tóxicos e monóxido de carbono. Combinada a uma série de irregularidades, como superlotação, saídas de emergência trancadas com cadeados e vias de escape obstruídas, ela causa a intoxicação mortal de 194 pessoas, e ferimentos em cerca de mil. É uma das maiores tragédias com incêndios no país vizinho.

Plástico Moderno, Selena Ignácio de Mendonça, gerente-comercial da Chemtra, Retardantes de chama - Descaso legislativo e falta de informação dos consumidores mantêm consumo de plásticos antichama em baixa no Brasil
Selena: panorama de uso de retardantes não se alterou

Seguramente, o 30-D, como ficou conhecido na Argentina o episódio nefasto, ocorreu em virtude de um conjunto de circunstâncias em desacordo com normas de segurança, a começar do inaceitável uso de fogos de artifício em ambiente fechado. No entanto, também é certo que o uso de plásticos com retardância à chama poderia ter evitado o pior.

Omissão – Como reflexo do episódio de triste lembrança, transformadores de plástico brasileiros foram às consultas com fornecedores de aditivos antichamas no mercado nacional. O interesse repentino foi grande, mas não houve avanços na venda dos retardantes. O culpado? A omissa política pública, tanto na Argentina quanto no Brasil, sobre a regulamentação de leis exigindo o uso de produtos antichamas em ambientes públicos. “Desde 2004, não houve mudança no panorama de utilização de retardantes no Brasil”, diz Selena Ignácio de Mendonça, gerente-comercial da Chemtra, líder de vendas no mercado nacional de retardantes com base em bromo, os mais utilizados.

A omissão do poder público também se faz sentir na falta de dados sobre incêndios no Brasil. Nem mesmo as seguradoras possuem números que indiquem quanto se perde em dinheiro e patrimônio com esse tipo de acidente, quantas pessoas morrem, quais são as causas mais freqüentes, nem quantos incêndios ocorrem no Brasil. Também não existe estrutura local de certificação para produtos que não propagam fogo, e tampouco de fiscalização. Em mercados de países desenvolvidos, onde as vendas de aditivos retardantes à chama são muito superiores às do mercado brasileiro, explica o gerente de marketing regional da Lanxess no sul latino-americano, Alejandro Gesswein, a autoridade pública conhece o valor monetário dos prejuízos causados por incêndios. Por isso, ela insiste na prevenção, adotando leis que obrigam o uso de plásticos resistentes a chamas, e fiscaliza seu cumprimento com eficiência. O consumo desse tipo de aditivo, nos mercados maduros, ocorre principalmente na indústria civil, que produz painéis de isolamento acústico e térmico protegidos, bem como pisos, tetos e janelas de PVC, na visão de Gesswein.

Aqui, entretanto, muitos fornecedores de retardantes concordam com um fato assustador, porém conhecido: é preciso que ocorram tragédias para que o Poder Legislativo tome medidas preventivas. “Esse é um tema que não dá votos”, diz um deles. Estaríamos à espera de outro Joelma, de um novo Andraus?

Mercado incipiente – Diversos fatores contribuem para que o consumo nacional de retardantes seja baixo, estimado ao redor de 2 mil t/ano, englobando todos os tipos de moléculas utilizadas no país. Para alguns, esse tipo de aditivo só é vendido pela força de lei e norma, pois não tem apelo de marketing com o consumidor final, como ocorre com produtos dotados de selos “verdes”, que influenciam as decisões de escolha de consumidores ambientalmente engajados. “Se um colchão, ou um televisor, tem um selo comprovando que ele resiste a chamas, quantos consumidores estão dispostos a pagar 20% ou 30% a mais por essa característica?”, questiona Selena, da Chemtra. Os aditivos possuem preço tão maior que os polímeros base que o impacto no custo do produto pode ficar, em casos extremos, 40% maior. E, graças aos valores exorbitantes do barril de petróleo, que tem sido comercializado de US$ 120 a US$ 130, os preços de retardantes de chama têm subido em todo o mundo.

Plástico Moderno, Luís Manuel C. V. Freitas, gerente-comercial da Macroplast, Retardantes de chama - Descaso legislativo e falta de informação dos consumidores mantêm consumo de plásticos antichama em baixa no Brasil
Freitas crê na necessidade de uma mudança cultural

Outros, como o gerente-comercial da Macroplast, Luís Manuel C. V. Freitas, crêem na necessidade de uma mudança cultural. “As pessoas deveriam comprar produtos antichama porque eles trariam maior segurança”, afirma Freitas. Mas o tema é pouco difundido, não existe a demanda por parte do usuário final, e os fabricantes não se animam pelo encarecimento que o aditivo traz ao produto final. É como um ciclo vicioso. Mesmo assim, Freitas também aponta uma deficiência em marketing, pois acredita que o retardante à chama pode, sim, ter um apelo entre o grande público. “Criar simplesmente leis para que produtos plásticos resistam ao fogo acarretaria um repasse de custos ao produto final, gerando insatisfação do cliente final, caso não haja um trabalho de esclarecimento mostrando que os artigos aditivados não propagam o fogo”, avalai o gerente-comercial da Macroplast.

Essa consciência poderia ser importante para alavancar as vendas de aditivos retardantes principalmente nos segmentos de eletrônicos e eletrodomésticos, pois é crescente o número de pessoas que passam a maior parte do dia fora do lar, enquanto muitos aparelhos funcionam em standby, sujeitos a oscilações e sobrecargas de tensão quando não há pessoas em casa.

A possibilidade de criação de um apelo do produto antichama no cliente final também é compartilhada por Sylvio Moreira do Carmo Jr., diretor-comercial da Neotrade, representante comercial da Albermale no Brasil, possivelmente a número dois no mercado nacional de retardantes bromados. Ele cita o caso dos televisores: são equipamentos que estão mudando. Com o advento das telas de plasma e LCD, os novos modelos consomem menos resina, o que pooderia reduzir o impacto do aumento de preço causado pelo aditivo. O poliestireno de alto impacto, mais conhecido como HIPS (high impact polystyrene), é um termoplástico de largo emprego na produção desse tipo de eletrodoméstico, e possui enorme facilidade para queimar. Colchões, feitos de espumas de PU, também. No entanto, Carmo sugere que o consumidor brasileiro pode não ter a percepção de que o material é um ótimo combustível. No entanto, o diretor-comercial da Neotrade acredita que “se uma empresa vendesse a idéia de que seu produto tem uma proteção ao fogo que os produtos concorrentes não têm, esse fato seria um diferencial no mercado”.

A falta de conscientização gera um fato um tanto inusitado. Um cliente da Neotrade, fabricante local de televisores, utiliza retardantes à chama independentemente da obrigatoriedade por lei, mas simplesmente não faz alusão ao fato – como diz Carmo, não vende a vantagem no mercado. A fatia dessa produtora de aparelhos de televisão é pequena, o preço de seu equipamento é maior que o de concorrentes, mas ela abre mão de divulgar as características de retardância de seu produto. Seria um temor de que, ao se destacar a presença de retardante, também se sublinha o fato de que o televisor com plástico não-aditivado pega fogo facilmente? Não se sabe.

Com a inexistência de motivos internos que reforcem a venda de antichamas, à exceção de poucos segmentos normatizados, o crescimento do mercado local acaba se dando por meio de algumas indústrias fortes na exportação, e que são obrigadas a seguir normas e leis vigentes nos países onde serão utilizados os artigos vendidos. Algumas oportunidades também surgem no caso de produtos em que o uso de retardante é obrigatório, mas as peças não eram feitas no país, ou, então, quando produtores globais com presença local seguem o cumprimento de normas preconizado por suas matrizes.

Por conta dessas características do mercado nacional, a criação de novos negócios nessa área é muito difícil. “Não se manda o vendedor a campo com a missão de vender antichama”, diz Freitas, da Macroplast, porque os negócios quase sempre são originados por consultas de clientes envolvidos com contratos que prevêem a especificação da peça como retardante à chama.

Bromados dominam – De maneira geral, o mercado consumidor de retardantes à chama brasileiro pouco mudou desde meados dos anos 80, segundo pessoas com experiência de décadas nessa área. Os segmentos que mais utilizam esses aditivos são o eletroeletrônico, a linha branca, fios e cabos (em combinação com aplicações em eletroeletrônicos), e o automotivo, além de áreas que demandam menores volumes, como construção civil, e setores com consumos realmente muito baixos, como o aeronáutico.

Dentre os diversos tipos de retardantes disponíveis no mercado mundial, são mais utilizados no Brasil os derivados bromados. O bromo é reconhecido como o elemento químico que melhor desempenho antichama confere aos materiais, e, não por acaso, as formulações contendo o halogênio são as mais eficazes, e também mais baratas. A Chemtra representa no Brasil a ICL, uma empresa com sede em Israel especializada na fabricação de produtos derivados de bromo – o Mar Morto, assim conhecido pela alta salinidade de suas águas, é uma grande fonte do elemento químico.

O principal consumidor local de retardantes bromados, na avaliação da gerente-comercial Selena, são os eletroeletrônicos. Os produtores seguem algumas normas interncionais, e, na área de fios e cabos, há alguma normatização em âmbito doméstico. Por força da exportação, o segmento automotivo também é um cliente importante da Chemtra.

Apesar do uso difundido em âmbito nacional e também no exterior, os retardantes com base em bromo enfrentam algumas restrições. Há estudos em andamento acerca dos efeitos das moléculas autlamente em uso, e muito se discute sobre o fato de que esse tipo de aditivo pode gerar fumaça contendo ácido bromídrico, tóxico e corrosivo.

Selena, porém, destaca que ainda não há provas definitivas contra o halogênio, e há algumas classes de moléculas bromadas que não enfrentam restrições. “Não se pode colocar o rótulo de que todas as moléculas bromadas podem causar efeitos nocivos ao ser humano ou ao meio ambiente. São necessários estudos caso a caso. Algumas moléculas foram banidas, como o óxido pentabromo, mas as empresas se adequaram com novas moléculas.” A ICL tem migrado para derivados desse tipo, e, além disso, entrou no segmento de retardantes baseados em fósforo após a compra, no ano passado, da norte-americana Supresta, especializada em derivados fosfatados, que não sofrem o mesmo tipo de pressão. Produtos com base em magnésio e cianurato de melamina também constam do portfólio entre as alternativas para os produtos halogenados.

Plástico Moderno, Sylvio Moreira do Carmo Jr., diretor-comercial, Retardantes de chama - Descaso legislativo e falta de informação dos consumidores mantêm consumo de plásticos antichama em baixa no Brasil
Carmo: vendas de bromados ocorrem sem restrições

Número dois no mercado nacional de retardantes bromados, a Neotrade é representante comercial no Brasil da Albermale, uma multinacional norte-americana com atuação global, fábricas nos EUA, Europa e Ásia, e grande tradição no mercado de antichamas. A Neotrade, como empresa de serviços, é a responsável pela importação direta para clientes com demanda por volumes maiores, enquanto a Formiquímica, parceira da representante, atua no mercado de distribuição. A química inicial proposta pela Albermale foi a do bromo, mas, no decorrer do tempo, a empresa agregou novos produtos e, segundo seu diretor-comercial, Sylvio Moreira do Carmo Jr., hoje apresenta um portfólio bastante completo em termos de elementos químicos, oferecendo produtos com base em cloro e fósforo, e cargas (alumina trihidratada e óxido de magnésio).

Nas contas de Carmo, a maior fatia de retardantes bromados consumida no Brasil é empregada em termoplásticos: HIPS e ABS (eletroeletrônicos e linha branca), PEBD (fios e cabos) e compostos de PP (principalmente em linha branca, mas também no setor automotivo). Com menor volume, aparecem alguns plásticos de engenharia, como as PAs (nas suas aplicações clássicas em peças próximas do motor de automóveis), e materiais como o PPO e suas blendas. Saindo dos retardantes bromados, os produtos da Albermale também têm participação interessante em resinas termofixas, caso de epóxis utilizados em placas de circuitos impressos e outras aplicações, além de resinas poliéster insaturadas, e espumas de PU rígidas (utilizadas na construção civil no fomrato de chapas para isolamento termoacústico) e flexíveis (empregadas particularmente em automobilística e eletroeletrônica, mas com um mercado bastante pulverizado).

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Plástico Moderno, Antônio Carlos Gonçalves, diretor da Focus Química, Retardantes de chama - Descaso legislativo e falta de informação dos consumidores mantêm consumo de plásticos antichama em baixa no Brasil
Vantagem da PAG é o amplo leque de produtos, explica o diretor Gonçalves

A Focus Química, uma empresa de distribuição e representação comercial de produtos químicos, está iniciando uma nova área de atuação com a representação e distribuição de retardantes à chama da PAG (Polymers Additives Group). Essa empresa, parte da Climax Molybdenum e da R. J. Marshall até o início de 2006, foi adquirida pela Metals & Additives Corporation, e se apresenta como uma especialista em retardantes de chama, supressores de fumaça e concentrados de retardantes. Segundo o diretor da Focus Química, Antônio Carlos Gonçalves, a vantagem da PAG se concentra em seu amplo leque de produtos, que inclui retardantes bromados, fosforados, retardantes com base em antimônio, aluminas trihidratadas e retardantes híbridos combinando retardância com supressão de fumaça.

A estratégia que a Focus pretende adotar se concentra na venda de retardantes tradicionais – como o óxido de decabromo difenila – a preços competitivos, além da oferta de produtos alternativos com melhor desempenho e menos perigosos. Gonçalves afirma já haver detectado possibilidades de negócios no mercado local, como no caso de transformadores de PVC, que se interessaram por um substituto para o trióxido de antimônio.

Uma das especialidades da PAG é uma linha de produtos com retardância à chama e supressão de fumaça superiores para uma variedade de polímeros, graças a uma tecnologia de recobrimento de retardantes hidratados ou materiais inertes comumente usados com películas de estanatos ou molibdatos, como molibdato de zinco recobrindo talco. Outro produto peculiar são os retardantes endotérmicos com base em hidróxidos de magnésio, hidróxi carbonatos de cálcio e magnésio e carbonatos de zinco, que absorvem energia em seu mecanismo de atuação e contribuem para reduzir a temperatura no processo de queima.

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Carmo defende a excelência do bromo como base de aditivos antichamas, pela alta eficiência do elemento químico, e contra as restrições que os halogênios poderiam enfrentar, ressalta que a Albermale possui certificados assegurando que alguns dos seus carros-chefe, como o óxido de decabromodifenila e o tetrabromo bisfenol-A, estão em acordo com a diretiva RoHS, que impõe a restrição ao uso de certas substâncias perigosas em equipamentos elétricos e eletrônicos. A diretiva impede a venda de novos equipamentos na União Européia que contenham níveis acima dos permitidos de chumbo, cádmio, mercúrio, cromo hexavalente e retardantes de chama com base em bifenil polibromado e difenil éter polibromado. “A empresa opera com suas plantas em plena capacidade, vendendo na Europa, nos EUA e na Ásia sem nenhum tipo de restrição”, relata o gerente-comercial da Neotrade.

Mesmo assim, e até no mercado local, onde os retardantes bromados são utilizados livremente, já houve casos de clientes da Albermale procurando produtos que chamam de “não-deca”, referindo-se a retardantes sem o óxido de decabromo difenila. Atualmente, duas empresas locais compram uma molécula alternativa, com o mesmo teor de bromo que a convencional, mas com uma modificação – patenteada – na estrutura química.

Retardantes made-to-order  Uma das representantes da indústria nacional no fornecimento de retardantes, a Macroplast importa matérias-primas e também utiliza insumos nacionais para fabricar seus produtos halogenados na fábrica de São Bernardo do Campo-SP. Sem o perfil adequado (leia-se: equipamentos com alto volume de processamento gerando ganhos de escala) para enfrentar uma guerra de preços com os maiores competidores do mercado brasileiro, a empresa aposta na capacidade para atender às necessidades específicas de seus clientes como seu grande diferencial.

Fabricando retardantes principalmente para artigos moldados de PP, PS e ABS (empregados principalmente em linha branca e eletroeletrônica), a Macroplast, além de simplesmente vender o aditivo, também oferece o serviço de beneficiamento para seus clientes. Além disso, a empresa aposta em fabricar aditivos made-to-order, que atendam especificamente às formulações em que serão utilizados. “Nosso perfil é de fornecimento de produtos sob encomenda, até na cor que o cliente precisa. A fórmula da Macroplast é exclusiva para quem a adquiriu”, diz o gerente-comercial, Freitas. E essa versatilidade para adequar até o acerto de cor, segundo ele, ninguém mais tem no mercado brasileiro.

A produtora de São Bernardo também aposta em uma elevação das vendas ao redor de 35%, em comparação ao ano passado, até o fim de 2008. Em um mercado que pouco ultrapassa o crescimento vegetativo natural de plásticos, o número impressiona. Mas Freitas explica que a Macroplast não vem de uma base muito grande, pois sua atuação mais focada no sul do Brasil a deixava de fora dos transformadores de Manaus – a grande Meca dos retardantes no país, pois a existência da Zona Franca atraiu transformadores ligados à exportação e que estão entre os maiores consumidores dos antichamas por aqui. A empresa está aumentando o número de vendedores e representantes atuando no mercado, com uma pessoa focada especificamente no parque de transformação manauara. Além disso, está mudando um pouco o caráter de sua própria atuação, passando a enfatizar as vendas diretas, pois até então privilegiava os serviços de beneficiamento.

Outra novidade pode vir do departamento de pesquisa: a empresa estuda alternativas para seus produtos halogenados. As investigações, no entanto, ainda são embrionárias, e Freitas não adianta maiores detalhes.

Fósforo, líder em PU – Assim como o retardante bromado é o líder disparado em resinas poliolefínicas, os fosfatados são os líderes absolutos nas poliuretanas. Nesse segmento existe alguma normatização, caso da NBR 9178, que versa sobre espumas de PU rígidas, mas as condições não diferem muito do restante do mercado. A Lanxess, que possui retardantes não-halogenados com base em fósforo, é uma das principais fornecedoras para os produtores de artigos feitos de PU da região. Não por acaso, essa resina é um dos polímeros que oferece maior aceitação às moléculas importadas pela multinacional alemã, sendo uma das principais o trietil fosfato. Outro mercado, indicado para os retardantes fosfatados (entre eles, o trifenil fosfato, o difenil cresil fosfato e o tricresil fosfato), seriam os produtos feitos de PVC, como lonas para ambientes públicos e pisos. Como esse plástico suporta uma quantidade de cargas muito maior que as PUs, ele pode ser tornado antichama com produtos mais baratos, como a alumina trihidratada.

Os retardantes fosforados possuem mecanismo de atuação diferente dos halogenados. Enquanto os últimos liberam átomos de halogênio que reagem com os radicais livres que alimentam a combustão, reduzindo sua disponibilidade para queima (porém formando no processo moléculas de Br2, Cl2, HBr, ou HCl), os aditivos com base em fósforo se desidratam em um processo que leva à formação de uma camada carbônica na superfície do plástico, impedindo que o fogo atinja o seio do material combustível. Nesse mecanismo é formado o ácido fosfórico (H3PO4), um ácido fraco (ao contrário de HCl e HBr, que são ácidos fortes), sem maiores efeitos de corrosividade ou toxicidade.

É certo que os halogenados são mais eficientes e baratos. Mas Roberta Maturana, representante técnica de vendas da Lanxess, informa que as moléculas de retardantes fosforados podem ser formuladas com maior teor de fósforo, elevando a eficiência do produto.

Plástico Moderno, Alejandro Gesswein, gerente regional de marketing, Retardantes de chama - Descaso legislativo e falta de informação dos consumidores mantêm consumo de plásticos antichama em baixa no Brasil
Gesswein: fosforados têm crescimento mais rápido

As aplicações para os retardantes fosfatados, de PU, incluem placas de isolamento termoacústico na indústria civil e proteção de tubulações na indústria petroquímica, no caso de espumas rígidas, e assentos e peças aptas ao processo de dublagem a fogo (flamme lamination) na indústria automotiva, no caso das espumas flexíveis. Além dessas aplicações no segmento que é o grande consumidor, os retardantes fosforados também podem ser utilizados em blendas de ABS/PC (carcaças de computador, peças do carregador de celulares, carcaçs de televisores) e HIPS. As vendas dos retardantes fosforados, segundo o gerente regional de marketing, Alejandro Gesswein, são as que mais crescem, puxadas principalmente pelos setores automotivo e de construção civil.

Aliás, olhando o consumo global do mercado brasileiro de retardantes, incluindo os diversos tipos de moléculas, percebe-se que a demanda cresce, pois os principais consumidores experimentam fases de grande crescimento e quebra de recordes de produção, caso dos automóveis e dos eletrodomésticos. Não é, entretanto, um crescimento que reflete o potencial pleno do mercado, sendo considerado por muitos como apenas razoável. Além disso, competidores nacionais já reclamam da competição acirrada pela importação de retardantes halogenados chineses. A China é uma grande produtora de bromo, e os produtos asiáticos chegam aqui com preços que espremem ainda mais as deprimidas margens do negócio do país. Para piorar, não se trata do caso clássico (e que já faz parte do passado em grande quantidade de produtos chineses) de quinquilharias de péssima qualidade. São retardantes com bom desempenho, embora a deficiência mais comum dos fornecedores chineses, o serviço técnico, pareça se repetir nesse caso.

[toggle_simple title=”Estabilizante permite poliolefina com retardante halogenado” width=”Width of toggle box”]

A Ciba Especialidades Químicas compete discretamente no mercado nacional de retardantes à chama com uma linha de produtos não-halogenados (cianuratos e polifosfatos de melamina) com aplicação em PAs carregadas com fibras de vidro utilizadas em aplicações eletrônicas em automóveis, e uma linha de aminas estericamente bloqueadas (Hals), derivada de seus estabilizantes à luz, mas nas quais o átomo de nitrogênio se liga a um radical do tipo –O–R. A companhia descobriu que a substituição, na amina bloqueada, do átomo de hidrogênio ligado ao nitrogênio por um oxigênio ligado a um grupo carbônico confere a propriedade antichama ao Hals. Esse produto combina as propriedades de retardância à chama com a estabilização à luz, e tem aplicação restrita a produtos com baixa espessura, como filmes e fibras feitas de PP e PE. A empresa sugere a aplicação em não-tecidos, mas a amina ainda não emplacou vendas no mercado brasileiro.

Plástico Moderno, Retardantes de chama - Descaso legislativo e falta de informação dos consumidores mantêm consumo de plásticos antichama em baixa no Brasil
Reforma no estádio do Maracanã trocou assentos por outros com antichamas

A Ciba acaba participando do mercado de retardância mais por uma via indireta, representada pela venda de estabilizantes à luz para poliolefinas aditivadas com retardantes bromados. Segundo Francisco Lopes, gerente de novos negócios de grandes contas na área de aditivos para plásticos, os antichamas bromados, quando usados com PP ou PE, provocam o aceleramento da degradação do polímero. O retardante, em si, não possui proteção à luz. Por isso, ele se decompõe sob efeito da luz solar liberando pequenas quantidades de bromo, que catalisam as reações de fotodegradação das poliolefinas. “Até então, não havia solução para combinar retardantes halogenados com PP e PE”, diz Lopes. Mas a Ciba criou um Hals modificado, parecido com o usado como retardante. Ele é empregado como estabilizador à luz e neutraliza os efeitos da liberação de halogênios, permitindo que peças aditivadas com retardantes bromados tenham maior resistência à radiação solar.

A Federação Internacional de Futebol, a Fifa, sugere o uso de assentos com retardância à chama. Como os halogenados são os mais utilizados, a Ciba está conseguindo participar, com seu estabilizante, de reformas de estádios, no Brasil e no mundo, caso do Maracanã. As cadeiras formuladas com estabilizantes convencionais duram poucos meses, enquanto as dotadas do Hals modificado perduram por períodos muito maiores, da ordem de anos.

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