Resinas – Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia

Sem suspeitar da imensa tempestade que avassalaria a economia do planeta pouco tempo depois, a indústria petroquímica brasileira fez a lição de casa, como dizem os especialistas, e concluiu, no ano passado, o seu processo de consolidação, que conferiu ganhos de escala e maior musculatura competitiva em âmbito global aos fabricantes de resinas termoplásticas. O momento não poderia ter sido melhor. Fortalecida, a cadeia ganhou flexibilidade e fôlego para uma reação rápida perante os reflexos do que supostamente seria uma “marolinha”, mas virou um vagalhão.

Ainda que favorecido pela desvalorização da moeda brasileira, em dezembro o setor já escoava para o mercado internacional volume acentuado do seu excedente produtivo, gerado pelo forte recuo na demanda doméstica, conseguindo manter o nível de sua capacidade instalada. O patamar de exportação de resinas em setembro era de quase 71 mil toneladas, segundo os dados da Comissão Setorial de Resinas Termoplásticas (Coplast) da Abiquim. Caiu para cerca de 45 mil t em outubro, subiu para algo em torno de 50 mil t em novembro e deslanchou para 79 mil t em dezembro.

O processo, necessariamente, contínuo e a larga escala das petroquímicas dificultam o ajuste de produção ante as baixas acentuadas na demanda, como ocorreu com as resinas brasileiras. Despencou mês a mês, após o fatídico setembro. Só deu sinais de recuperação em fevereiro, quando a queda se revelou menos brusca. Na comparação com iguais meses do ano anterior, o consumo recuou 5% em outubro, 19% em novembro, 24% em dezembro e 26% em janeiro, na avaliação do presidente do Sindicato da Indústria de Resinas Plásticas (Siresp) e também presidente da Quattor, Vítor Mallmann. Em fevereiro, o tombo foi menor: 12%. Ele agora começa a vislumbrar um novo patamar de demanda a partir de março e abril, com um outro nível de atividade econômica, sem a contaminação pela realização de estoques.

“A crise global e a escassez de crédito provocaram um efeito de forte desestocagem na cadeia do plástico no Brasil e no mundo”, ressalta Luiz de Mendonça, vice-presidente-executivo e responsável pela unidade de polímeros da Braskem.

As discussões na feira – É um consenso que o tom da feira será dado em torno de como fortalecer todos os elos da cadeia produtiva do plástico. Esse novo patamar de demanda e um novo balizamento de preços, mencionados pelo porta-voz do setor, devem conduzir os debates nos corredores da Brasilplast, uma oportunidade para intensificar a relação entre fornecedores e clientes. O presidente do Siresp acredita que a feira servirá de palco para entabular conversas com a transformação em torno de como superar a crise e criar oportunidades de negócios, e ainda, em como manter toda a cadeia produtiva competitiva e assegurar as exportações dos produtos transformados.

Plástico Moderno, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia

Pensam como Mallmann os principais atores da segunda geração petroquímica, entre eles Mendonça. Na visão do vice-presidente-executivo da Braskem, o tema predominante será o fortalecimento da cadeia brasileira do plástico. Em segundo plano, estará em pauta a competitividade das exportações brasileiras. Além disso, os corredores da Brasilplast também servirão de palco para discussões sobre a sustentabilidade, com foco nos desenvolvimentos “verdes”.

Plástico Moderno, Rui Chammas, integrante da Coplast e também diretor (do negócio de PE) da Braskem, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia
Chammas: empresários devem sair mais fortalecidos da crise

Na opinião de Mendonça, assim como a indústria petroquímica buscou a consolidação, a transformação também tem oportunidades em sua reestruturação de operar com maior eficiência e ocupação de suas capacidades. “Pode atender com inovação e serviços os seus clientes no mercado interno, e ser competitiva para aproveitar oportunidades na exportação.”

Na opinião de Rui Chammas, integrante da Coplast e também diretor (do negócio de PE) da Braskem, os empresários do setor comparecerão a esta Brasilplast com uma visão mais integrada da cadeia, com foco em buscar novidades e diferenciações. “Precisamos sair dessa crise mais fortes do que quando entramos; os empresários devem buscar ações para sair mais fortalecidos”, declara. Ele acredita ser fundamental a discussão entre todos os elos do setor, uma maior proximidade com o transformador, com a Petrobras e com o governo, a fim de tornar a indústria do plástico mais competitiva. “É preciso criar valor, diferenciais que gerem riquezas para a cadeia como um todo.”

Claro que a crise será o pano de fundo de todas as discussões. “A volatilidade de preços, capital de giro e ações governamentais para aquecer a economia deverão estar em alta durante o evento, que é muito esperado em toda a América Latina”, concordam Jose Manuel Sanchez e Eide Francisco Garcia, o primeiro, gerente da área Product & Marketing para a América Latina da Americas Styrenics, e o segundo, da Product & Marketing de PEAD Slurry/Gas Phase da Dow para a América Latina. A Americas Styrenics é uma joint venture entre a Dow Chemical e a Chevron Phillips, constituída em maio do ano passado. A nova empresa soma a maior produção de poliestireno do hemisfério ocidental.

Atuante nesse mesmo segmento de mercado, o diretor da divisão de estirênicos para a América do Sul da Basf, Andreas Fleischhauer, participa da feira com expectativas de discussões também mais direcionadas ao seu setor: o impacto da crise nas indústrias, em particular os fabricantes de bens duráveis; as perspectivas para os próximos anos do setor automotivo; além da apresentação de novidades nanotecnológicas pertinentes à área. “Toda crise gera oportunidades de negócio e, afinal, as empresas precisam encontrar opções mais competitivas para sobreviver neste novo ambiente”, avalia.

Plástico Moderno, Andreas Fleischhauer, diretor da divisão de estirênicos para a América do Sul da Basf, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia
Fleischhauer vê na crise oportunidade de negócios

Novos parâmetros – A crise fez evaporar as referências do mercado. A cotação do barril de petróleo retomou níveis abaixo dos US$ 50, os preços das resinas despencaram e o mercado partiu para o estoque. “Ao mesmo tempo, houve um impacto efetivo na demanda, o que caracterizou um novo patamar, ainda indeterminado”, afere Mallmann.

Na mesma sintonia do presidente do Siresp, o coordenador da Coplast, Alfredo Tellechea, pondera que a crise financeira operou como um redutor na economia e estabeleceu novos patamares. “Com a regularização dos estoques na cadeia produtiva, percebemos uma leve reação em alguns setores. Nossa expectativa é de que esse movimento cresça nos próximos meses.”

Após os efeitos mais agudos da crise, as vendas de resinas no mercado interno reagiram. O volume comercializado internamente totalizou 438 mil toneladas no primeiro bimestre deste ano, quantidade 2,5% maior sobre a soma de novembro e dezembro de 2008, de acordo com levantamento da Coplast. Quando comparado o primeiro bimestre de 2009 a igual período do ano passado, porém, o resultado é de recuo: 21,6%.

As exportações aliviaram o problema do excedente doméstico e totalizaram 242 mil toneladas nos dois primeiros meses de 2009, uma expansão de 86,4% na comparação com o último bimestre do ano passado e de 80,2% ante o mesmo período de 2008. As importações cresceram 1,3% em relação aos dois últimos meses do ano passado, porém, encolheram no comparativo com janeiro/fevereiro (9,6%). Comparada ao mesmo período de 2008, a produção declinou 20%, mas, em relação a novembro e dezembro, cresceu 3%, atingindo volume de 640 mil toneladas.

Plástico Moderno, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia

A aferição efetuada pela Coplast no acumulado de janeiro a dezembro do ano passado revelou um consumo aparente acima de 4,7 milhões de toneladas de resinas termoplásticas, um salto de 8% comparado a 2007. As paradas programadas para manutenção e ampliações de capacidades em todos os polos produtivos incidiram na redução de 6,9%, registrada na produção sobre os períodos confrontados. Por conta do mesmo motivo principal, também as exportações deprimiram 31,8%, enquanto as importações expandiram 47,4%.

O coordenador da Coplast considera positivo o desempenho do setor no acumulado do ano, mesmo com os efeitos deletérios da crise no último trimestre de 2008. Afinal, o crescimento poderia ter sido maior. De qualquer modo, houve aumento significativo no consumo de resinas no ano passado, mesmo com a queda nas vendas no último trimestre, em decorrência do movimento de redução dos estoques na cadeia produtiva.

A despeito do quadro incerto, Tellechea prevê bons resultados também neste ano: “A economia mundial passa por uma fase de adaptação a novos patamares de consumo, produção e preços. Acredito, porém, que a demanda por plásticos voltará a crescer brevemente e a indústria brasileira está preparada para atender a esse aumento.”

Plástico Moderno, João Luiz Zuñeda, diretor da Maxiquim Assessoria de Mercado, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia
Para Zuñeda, o momento pede atenção à demanda agregada

Na avaliação de Chammas, a cadeia produtiva trabalha hoje com estoques mais baixos, quase regularizados. Começa-se a ter o consumo real de toda a cadeia produtiva. Para ele, a crise afetou menos o setor de alimentos, o que favoreceu as indústrias de embalagens, mantendo o bom nível de transformação. Já os bens duráveis apontam tendência de menores índices de crescimento. Ele prevê um melhor desempenho nos segmentos ligados ao consumo diário; nos incentivados, como o de automóveis; e nos sazonais. “Agora entramos no momento agrícola de consumo de fertilizantes, o que deve impulsionar o mercado de ráfia”, exemplifica Chammas.

Reforço doméstico – A cadeia do plástico comparece nesta Brasilplast com uma disposição revitalizada para estimular o mercado interno, na opinião de João Luiz Zuñeda, diretor da Maxiquim Assessoria de Mercado, consultoria com forte atuação nos segmentos das commodities petroquímicas e resinas termoplásticas, entre outros assuntos do gênero. “O momento é de se ter um olhar mais detalhado para a demanda agregada brasileira”, preconiza.

Por demanda agregada, entenda-se aquela que cresce por meio do consumo das famílias e dos investimentos, que nesta fase se dará por intermédio de programas do governo. As grandes oportunidades para aumentar o consumo de plástico são os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e de investimentos públicos e privados, como o PAC. “Podem ajudar sensivelmente em nosso futuro econômico, tanto na crise atual como nas próximas décadas”, avalia Zuñeda. O papel do governo será fundamental nos próximos dois anos, no entendimento dele.

“O setor plástico precisará enxergar que o Bolsa Família é um programa que injetará o consumo de plástico na veia”, metaforiza o diretor da Maxiquim. Ele alude, em especial, ao forte impacto das embalagens plásticas na indústria alimentícia. O presidente do Siresp, Vítor Mallmann, concorda: “Os bens de consumo não-duráveis constituem um bom espaço para a indústria do plástico.”

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Nas prospecções de médio e longo prazo, porém, o setor deverá olhar mais atentamente para o PAC. “O crescimento será fundamentado em oportunidades oferecidas pelo programa, por bens duráveis”, decreta Zuñeda. Partidário da mesma opinião, Chammas ainda ressalta que os investimentos no PAC conferem um duplo efeito: “Além de fazer a economia rodar e gerar emprego, as obras de infraestrutura aumentam o consumo, em um primeiro momento, e têm efeito multiplicador de riquezas, em um segundo.”

As últimas medidas adotadas pelo governo convergem a favor desses pontos de vista. Em uma de suas investidas para combater os impactos da crise financeira internacional, o presidente Lula anunciou programa habitacional que oferece condições para a população de baixa renda. O plano prevê investimentos de R$ 34 bilhões para a construção de um milhão de habitações. Intenções: combater a crise, gerar emprego e reduzir o déficit de moradias.

A indústria de construção civil ainda alimentará por um bom tempo, e antes mesmo dos novos empreendimentos, a demanda de PVC, uma das resinas mais empregadas nesse segmento. Ocorre que as obras em andamento devem ser concluídas, e é nessa etapa que entram os tubos, janelas, portas e outros itens de PVC. “Também se olharmos para as áreas de saneamento e infraestrutura, ainda há muito a ser feito no país”, complementa o presidente do Siresp.

Plástico Moderno, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia

A demanda doméstica é a principal via condutora para o PVC, pondera o gerente de comunicação e assuntos corporativos da Solvay Indupa, Édison Carlos. E o fato é que o Brasil e toda a América do Sul possuem grandes carências de habitação, água e saneamento básico. Para alento dos fabricantes da resina, mais da metade do mercado de PVC segue para aplicações da construção civil e de infraestrutura. “Há muito espaço para o PVC no mercado local. Nesse sentido, a Solvay Indupa está muito bem posicionada com suas plantas em São Paulo e em Bahía Blanca, na Argentina”, ressalta.

Os tempos difíceis têm lá seus aspectos positivos e um deles é o maior foco que o consumidor doméstico receberá nesse momento, pois nele se concentrarão as maiores expectativas de reversão no quadro global de demanda reprimida. Lógico, portanto, que as indústrias procurem preservá-lo e estimulá-lo. “Com a crise, os países estarão mais protecionistas. A Europa e os Estados Unidos tendem a buscar o fortalecimento de seus consumos internos, e o Brasil está seguindo esse mesmo caminho”, diz Zuñeda.

Plástico Moderno, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia

Plástico Moderno, Vítor Mallmann, presidente do Siresp, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia
Mallmann sai em defesa do mercado local

Um estudo elaborado pelo Banco Mundial e divulgado em meados de março revela que a maior parte dos países do G20, grupo das nações ricas e das emergentes, está tomando atitudes do gênero, desde novembro do ano passado, em decorrência do recrudescimento da crise financeira global. O levantamento faz menção ao Brasil também. Cita a redução do IPI para os carros e a tentativa, esboçada em janeiro e logo depois descartada, de restringir as importações. Entre as medidas protecionistas relacionadas no estudo constam novos subsídios às exportações, anunciados pela União Europeia aos produtos agrícolas, e reduções de impostos para exportadores, aplicadas pela China e Índia. O pacote de estímulo dos Estados Unidos também dispõe de uma cláusula que preconiza a compra de material produzido no país.

Cadeia mais unida – Proteger o mercado doméstico é justamente uma das principais diretrizes da indústria brasileira de resinas termoplásticas. Vítor Mallmann ressalta com todas as letras que a prioridade é fortalecer o parque transformador interno e defendê-lo das importações. “A primeira meta é desenvolver e preservar o mercado doméstico; a segunda, aprimorar os mecanismos da exportação.”

A proteção do mercado interno a fim de garantir a atividade econômica ativa é natural em um momento de crise, como a vivenciada atualmente. Tal é o ponto de vista de Andreas Fleischhauer, diretor de estirênicos para a América do Sul da Basf. Ele vê uma tendência bilateral do protecionismo e explica: a grande demanda dos países desenvolvidos caiu bruscamente e os em desenvolvimento, que atendiam a essa demanda, precisam buscar opções para melhor explorar os seus próprios mercados domésticos.

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Sanchez (esq.) e Garcia não concordam com o protecionismo

No caso do poliestireno nacional, com excesso de capacidade produtiva, o mercado externo constitui o destino para os excedentes. Esse é um dos motivos pelos quais os gerentes da Americas Styrenics avaliam o protecionismo como uma atitude muito prejudicial. “O Brasil é um exportador e o mercado doméstico não é suficiente para consumir a produção local”, concordam Sanchez e Garcia. Isso sem mencionar outros aspectos negativos. O principal deles, o retrocesso na livre competição de mercado.

De qualquer modo, um olhar mais voltado ao consumo local deve resguardar a indústria brasileira de uma concorrência mais aguda das resinas do Oriente Médio. Grandes produtores de petróleo, os países da região caminham rumo à liderança mundial em petroquímicos, com projetos integrados, que devem esparramar no mercado internacional volume acima de 10 milhões de toneladas de poliolefinas, nos próximos anos.

A dobradinha superoferta/demanda reprimida tende a empurrar os preços das resinas para um novo ciclo global de baixa. “Essa resina estará disponível por tradings no mundo inteiro e forçará uma queda nos preços, que terá reflexos no Brasil”, vaticina Zuñeda.

O vice-presidente-executivo da Braskem, porém, não teme um quadro de explosão da oferta. Segundo ele, as plantas do Oriente Médio que já entraram em operação estão deslocando outras de menor competitividade na Europa e nos Estados Unidos, onde há uma série de paradas definitivas, ou fábricas em hibernação por período indeterminado. Os cronogramas atrasados de outras unidades nos países da região, por dificuldades técnicas ou à espera de uma melhor oportunidade de mercado para entrar em operação, também aquietam os ânimos.

O presidente do Siresp pensa de modo semelhante. Para ele, as resinas do Oriente Médio não devem ter o mesmo impacto que teriam antes da crise, quando a cotação do petróleo beirava os US$ 150 dólares. Com o óleo custando um terço disso, a realidade hoje é outra. “A vantagem competitiva dos preços das matérias-primas reduziu e o quadro atual concede um menor incentivo perante os preços internacionais, que registraram forte queda”, pondera.

A propósito, os preços praticados pela indústria brasileira de resinas têm provocado um constante cabo-de-guerra com a transformação. Neste caso, Mallmann também assegura que o quadro hoje é outro: “Os preços caminham para um alinhamento e o momento atual é mais indutor de uma visão integrada da cadeia produtiva do que de disputa entre petroquímicas e transformadores.”

A projeção dele para o mercado doméstico neste ano é de um leve crescimento, em concordância com Zuñeda, para quem o setor plástico brasileiro conta com grandes boas empresas, dirigidas por bons empresários. A discussão do crescimento, acredita o diretor da Maxiquim, se dará em torno de como fortalecer pequenas e médias empresas, igualmente conduzidas por bons empresários.

Hora certa e mercado-alvo – Integração concluída, a discussão agora envolve o ambicioso projeto Comperj, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, de mais de 8 bilhões de dólares, capitaneado pela Petrobras, que prevê uma nova rota para a produção de resinas: craquear óleo pesado para produzir eteno e propeno, insumos básicos para a síntese de polietilenos e polipropileno.

Plástico Moderno, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia

O complexo terá capacidade para processar 150 mil barris/dia de óleo pesado nacional e contará com uma unidade de refino de primeira geração para a produção de petroquímicos básicos (1,3 milhão de t/ano de eteno, 880 mil t/ano de propeno, 600 mil t/ano de benzeno, 157 mil t/ano de butadieno e 700 mil t/ano de paraxileno), bem como um conjunto de unidades de segunda geração, produtoras de polímeros. Além de 800 mil toneladas anuais de polietilenos e 850 mil de polipropileno, serão produzidas no complexo 500 mil t/ano de estireno, além de outros insumos (etileno-glicol, PTA e PET). Já em andamento, as obras de terraplenagem devem ser concluídas no final deste ano.

A entrada em operação está prevista para 2012, mas a sua estrutura societária ainda não foi definida. No início de fevereiro, a Petrobras constituiu seis subsidiárias integrais, inicialmente, com 100% do capital total e votante dessas companhias. São elas: Comperj Participações S.A., que deterá as participações da Petrobras nas sociedades produtoras do Comperj, Comperj Petroquímicos Básicos S.A., Comperj PET S.A., Comperj Estirênicos S.A., Comperj MEG S.A., e Comperj Poliolefinas S.A. A criação dessas empresas inicia a fase de preparação do projeto para a entrada de potenciais sócios. Os dois maiores produtores de poliolefinas do país – Quattor e Braskem – são os candidatos naturais ao empreendimento.

O presidente da Quattor diz estar avaliando o projeto. Mallmann pondera ser necessário estudar a questão de tempo – quando entrar? –, considerando-se a oferta e a demanda; e também o destino dessa produção – quais serão os mercados-alvo? Eles se coincidem com os focados pela empresa? “Além do mais, é preciso ter preços de matérias-primas competitivas”, ressalva Mallmann.

A Braskem também assegura ter interesse em oportunidades de expansão no Brasil. “Desde que com acesso a matérias-primas competitivas e em uma janela de mercado oportuna”, pede igualmente Mendonça.

Na opinião de Zuñeda, o preço do petróleo deverá atingir um patamar de US$ 60 o barril, cotação que viabiliza o projeto. Destaca, ainda, que mesmo com a crise será preciso investir, porque haverá crescimento e, na avaliação dele, a próxima década exigirá outro ciclo de expansão em eteno. O insumo verde via etanol ajudará, mas não dará o volume de balanço de oferta necessário.

Para o diretor da Maxiquim, o balanço de oferta da petroquímica em termos de eteno e propeno será movimentado via refinaria. “Tem que ter investimento de um milhão de toneladas e esse aporte, acredito, se dará pelo Comperj, com a participação da Quattor e da Braskem, ou de uma delas. Ambas irão buscar matéria-prima competitiva e o Comperj terá, por meio do petróleo pesado”, aposta.

Plástico Moderno, Luiz de Mendonça, vice-presidente-executivo e responsável pela unidade de polímeros da Braskem, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeia
Mendonça prevê crescimento na demanda dos plásticos

Investimentos – Existe hoje no mercado nacional um grande excedente na oferta de resinas, em particular de polietileno e polipropileno. A capacidade produtiva de polietilenos supera três milhões de toneladas, enquanto o consumo aparente desses polímeros ficou em dois milhões de toneladas no ano passado. O caso do polipropileno é semelhante. A capacidade nacional ultrapassa dois milhões de toneladas, mas o consumo atingiu pouco mais da metade desse volume no ano passado: 1,3 milhão de toneladas. O mercado de poliestireno tem à sua disposição mais de 600 mil toneladas, enquanto absorveu igualmente pouco mais da metade desse total (338 mil t). A exceção fica com o policloreto de vinila, dependente de importações, com uma capacidade instalada da ordem de 800 mil toneladas para uma demanda acima de um milhão de toneladas no ano passado.

Até o terceiro trimestre de 2008, o setor plástico cresceu muito. A expansão, da ordem de 9% nas contas de Mendonça, foi puxada pelas indústrias de construção civil, automotiva e de eletrodomésticos. O último trimestre, porém, foi marcado pelo declínio nos negócios. A retração de crédito gerada pela crise internacional induziu a cadeia a consumir seus estoques. “O ano de 2008 fechou praticamente em linha com 2007, exceção feita ao PVC, que encerrou o ano com 14% de crescimento”, comenta Mendonça.

O freio na demanda impôs uma revisão nas suas projeções de expansão. “Novos investimentos para atender o mercado doméstico só seriam necessários a partir de 2015 ou 2016”, calcula o vice-presidente-executivo da Braskem. Mesmo assim, os projetos da empresa seguem adiante. Segundo ele, os empreendimentos na Venezuela são estratégicos. Também correm em paralelo, negociações com o Peru e a Bolívia. “Buscamos matéria-prima competitiva em patamares comparáveis aos players do Oriente Médio”, justifica.

No país, a prioridade são os polímeros verdes. A empresa planeja polimerizar 200 mil toneladas anuais de PE com base em eteno obtido de álcool de cana-de-açúcar, com operações iniciais previstas para 2011. A Braskem também estuda a produção de polipropileno com insumo de origem vegetal. Na mesma época em que prevê inaugurar a unidade dos biopolímeros, a produtora de resinas planeja também elevar em 200 mil toneladas a sua capacidade instalada de PVC.

Na Venezuela, a empresa toca dois projetos integrados, em parceria paritária com a Pequiven, que resultou em duas joint ventures: a Propilsur e a Polimérica. A primeira absorverá investimentos estimados em US$ 880 milhões e terá capacidade para processar 450 mil toneladas anuais de polipropileno, com entrada de operações prevista para 2010. Com aporte estimado em US$ 2,6 bilhões, a Polimérica representa um complexo de polietileno obtido de gás natural, cuja capacidade instalada supera 1,1 milhão de toneladas anuais e tem previsão de começar a operar em 2012.

Na Bolívia, os planos envolvem a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) para implantação de um complexo petroquímico baseado em etano, no sul do país. No Peru, a Braskem estuda com a Petróleos del Perú (PetroPerú) a viabilidade de construir um complexo integrado para produzir entre 700 mil e 1,2 milhão de toneladas de polietilenos com base em gás natural.

Plástico Moderno, Resinas - Setor reagiu rápido aos reflexos da crise e já arquiteta saídas para robustecer toda a cadeiaAinda neste ano, a Quattor conclui investimentos da monta de R$ 2,3 milhões, iniciados em 2005. Os recursos contemplam elevação do cracker em 40%, ampliação dos intermediários químicos, nova linha produtiva de 250 mil toneladas anuais de polietilenos (PEAD, PELBD metalocênico e PELBD) e 190 mil toneladas adicionais de polipropileno. Esses dados englobam as unidades de Mauá, no polo do ABC, em São Paulo, e Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A prioridade da empresa, afirma Mallmann, é concluir o projeto e destinar esse potencial de capacidade.

Finalizada a ampliação em São Paulo, que se dará com parcela importante para gás de refinaria na produção de etileno, a capacidade total desse insumo subirá para cerca de 1,2 milhão de toneladas, além de cerca de um milhão de toneladas de polietileno e da ordem de 870 mil toneladas de polipropileno.

O PVC também ganhou uma oferta adicional com o término da fase I, no início deste ano, de aumento da capacidade produtiva da Solvay Indupa. A planta contemplou um extra de 30 mil t e atinge agora 300 mil toneladas anuais da resina. A segunda etapa prevê alcançar 350 mil t entre o final de 2010 e o início de 2011, isso sem considerar o volume adicional de 60 mil toneladas anuais de PVC derivado do bioetileno. Até 2010, a capacidade da planta argentina também expandirá, das atuais 220 mil para 240 mil toneladas anuais.

Previsões alentadoras – O ano passado foi histórico para a Quattor, na opinião de Mallmann, pois marcou a criação da empresa, o que foi fundamental para dar condições mais amplas de competitividade e integração à cadeia do plástico. “Esse fato permitiu a reação rápida do setor às novas condições do mercado, deu uma musculatura que antes não tinha”, assevera. Para ele, antes da reestruturação, as empresas isoladas estariam em condições complicadas no contexto atual da crise. O mercado reagiu e suas expectativas são positivas para o ano. “Especialmente porque existe espaço que foi ocupado pelas importações.”

Em 2008, a Braskem efetuou paradas programadas de manutenção em Camaçari, na Bahia, e em Triunfo, no Rio Grande do Sul, e reduziu as suas operações durante o quarto trimestre, a fim de equalizar os estoques perante a queda abrupta na demanda global, a partir de setembro. De acordo com Mendonça, a produção total de resinas deprimiu 4% comparada a 2007, mas o maior efeito recaiu nos polietilenos, que encolheram 12%. As produções de PP e de PVC, ao contrário, subiram 3% e 12%, nessa ordem. “As vendas totais de resinas reduziram 8%.”

A despeito das dificuldades impostas pela recessão global, o Brasil deve crescer, ainda que pouco. Esse crescimento, combinado com a reposição de estoques, delineia um panorama positivo para o ano. “Acreditamos em um aumento da demanda da ordem de 5%”, diz o otimista Mendonça. Ele sustenta sua tese com base na apreciação do dólar, que torna mais competitivos os produtos brasileiros no mercado internacional e tem efeito oposto nas importações. “Se por um lado a crise impacta fortemente a demanda global, poderão surgir boas oportunidades no mercado interno e janelas para exportação”, prognostica.

Sob o ponto de vista do vice-presidente-executivo da Braskem, a inovação e a busca por maior produtividade ainda se mostram as melhores saídas para superar as adversidades e ele também destaca duas conquistas da empresa no ano passado: o desenvolvimento, em parceria com a Whirlpool, de uma linha inovadora de lavadoras de roupas com cerca de 70% de plástico, basicamente polipropileno – o dobro do utilizado nas lavadoras tradicionais; e, fruto de uma parceria com a Fortlev, o lançamento de uma cisterna de polietileno que substitui com vantagens a similar de concreto e dispensa obras para sua instalação.

Também a Solvay Indupa enxerga um mercado estável em 2009, com um pequeno crescimento. O gerente de comunicação da empresa, Édison Carlos, baseia-se no fato de as obras iniciadas no ano passado começarem somente agora a empregar mais PVC, com aplicações nas fases de instalação hidráulica e elétrica, e no acabamento, com janelas, pisos, forros e outros itens. Ele também prevê boas perspectivas com os projetos de investimentos do PAC e nas campanhas governamentais para estimular o consumo. “Isso tende a melhorar o nível de confiança das empresas e do mercado.”

No caso do poliestireno, o impacto da crise encolheu o consumo aparente em 8% no quarto trimestre do ano passado. O sumiço do crédito impactou setores estratégicos para o consumo da resina: refrigeração, comunicação e computação, entre outros. “Como estratégia para enfrentar a situação, buscamos identificar e entender antecipadamente as tendências do mercado, para atuar de forma ágil e alinhada às necessidades do setor”, informa Fleischhauer. Além disso, a Basf procurou diminuir seus estoques e aumentar a eficiência dos processos, entre outras medidas.

Na avaliação dos gerentes da Americas Styrenics, 2008 tinha tudo para ser o melhor dos últimos cinco anos para o mercado brasileiro de poliestireno. A empresa, contudo, vê como aspectos positivos a consolidação de seu grade Styron A-Tech 1115 em substituição à resina de ABS no segmento de refrigeração e a entrada da variedade de poliestireno com resistência à ignição (grade 6049) no mercado das flats TVs, aquelas modernas e fininhas.

Tendência verde – A maior preocupação global em preservar a natureza, associada à cotação do petróleo para além dos US$ 100, incentivou diversas medidas em prol do desenvolvimento de produtos oriundos de fontes renováveis e de tecnologias “amigas” do meio ambiente. Criou-se a onda do desenvolvimento sustentável. Os investimentos pipocam em todo o planeta e são vultosos. Com a recessão já instalada em muitas nações e espreitando outras, associada à queda na cotação do óleo negro para abaixo dos US$ 60, a dúvida é: como ficam esses projetos? Caso percam a competitividade, a questão ambiental soará mais alto?

A Solvay garante que sim, manterá seus planos. “O investimento é estratégico e não se limita a ter um produto de fonte renovável. É uma estratégia de longo prazo e se constitui numa alternativa confiável de matéria-prima para o futuro”, assevera Carlos.

De acordo com Mendonça, o projeto de polietileno “verde” da Braskem teve seu ponto de partida em cenário de petróleo abaixo de US$ 50 o barril e já se mostrava competitivo. “O que aconteceu em 2008 foi uma enorme volatilidade e uma supervalorização do petróleo, que superou US$ 140 o barril. Voltamos à situação original e o projeto continua competitivo.” A empresa lançará em breve a pedra fundamental da nova planta.

Para Mallmann, a demanda por fontes renováveis de produção é uma questão importante, embora o item custo precise ser equacionado pelos potenciais fabricantes. A própria Quattor se insere nesse rol. No final do ano passado, a empresa anunciou um projeto para produzir propeno baseado em glicerina, com tecnologia inédita em âmbito global. Na avaliação do presidente da empresa, o fator fonte renovável causa impacto positivo na resina obtida com tais insumos e constitui um diferencial de mercado a ser explorado. Vale atentar para a probabilidade de adoção por alguns países de um “protecionismo verde”. Há indícios de uma imposição nos Estados Unidos de “tarifas de carbono”, uma restrição às nações que não seguirem os mesmos esforços para reduzir as emissões de dióxido de carbono. As mudanças climáticas soam como boas justificativas para a medida e facilitam a sua adoção pelos líderes mundiais.

 

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