Resinas – Demanda segue acelerada

Boa demanda, apesar dos preços altos e problemas de suprimento

Com menor intensidade, manteve-se a trajetória de alta de preços e, pontualmente, ainda surgem alguns relatos de dificuldades no abastecimento.

Mesmo assim, parece numericamente impactante o desempenho registrado na primeira metade deste ano pelo mercado nacional de resinas plásticas.

Ao menos em seus números gerais, pois a conjuntura se revela menos favorável em segmentos específicos, como a distribuição.

É certo que a análise desse desempenho deve considerar a pobreza da base de comparação, o primeiro semestre de 2020, quando foram mais drásticos os impactos da pandemia.

Apesar da percepção de algumas incertezas, e de causas para inquietude, ao menos por enquanto as perspectivas para esse mercado soam positivas também quando considerado o restante do ano.

No decorrer de 2021, o consumo nacional de resinas deverá ser cerca de 6% superior ao registrado em 2020, prevê José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), que vincula esse desempenho ao crescimento do volume de produção da indústria nacional de transformação de plásticos.

Plástico Moderno - Resinas - Demanda segue acelerada, apesar dos problemas de suprimento ©QD Foto: Divulgação
José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast)

“E a produção de transformados deve crescer quase 6%, relativamente a 2020”, calcula Roriz Coelho.

Por sua vez, Edison Terra, presidente do Sindicato da Indústria de Resinas Sintéticas no Estado de São Paulo (Siresp), projeta:

“Considerando o conjunto das principais resinas, deve haver no total do ano um crescimento da demanda, em volume, de 5% a 7%, relativamente a 2020”.

Terra visualiza perspectivas favoráveis em segmentos como a construção civil e infraestrutura – como decorrência, entre outras coisas, da Nova Lei do Saneamento –, e no mercado agro, no qual segue em crescimento a plasticultura.

A demanda por resinas para embalagens mantém “bom ritmo”, com destaque para o segmento de home e personal care.

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Edison Terra, presidente do Sindicato da Indústria de Resinas Sintéticas no Estado de São Paulo (Siresp)

“Há, porém, alguns segmentos travados por desequilíbrios de oferta de outras cadeias, como os setores automobilístico, de linha branca e eletroeletrônicos, ainda com problemas para obterem microchips”, ressalta o presidente do Siresp.

Marta Drummond, especialista em Inteligência de Mercado da consultoria MaxiQuim, estima para este ano um aumento de cerca de 11% no consumo aparente de resinas no Brasil (comparativamente a 2020).

“O desempenho do segundo semestre deverá ser superior ao do primeiro”, calcula.

Distribuidores e PET – A conjuntura parece menos favorável para os distribuidores de resinas, cujos negócios, de acordo com Laércio Gonçalves, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (Adirplast), mantiveram-se “abaixo do esperado” na primeira metade do ano.

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Laércio Gonçalves, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (Adirplast)

“Estimo que o volume colocado pelas distribuidoras no primeiro semestre foi cerca de 50% inferior ao do mesmo período de 2020”’, afirma.

Diversos fatores, cita Gonçalves, prejudicaram os negócios dos distribuidores no primeiro semestre.

Entre eles, o retorno de medidas rígidas de distanciamento social e os elevados estoques mantidos por clientes preocupados com uma possível escassez de matéria-prima (e que por isso mesmo recorreram mais à importação).

Sem contar que a pandemia afetou mais duramente as empresas de pequeno e médio porte, sempre importantes no mercado da distribuição, várias das quais até encerraram atividades.

“Hoje atendo algo entre 20% a 30% menos clientes do que atendia antes da pandemia”, ressalta.

A partir de agosto, relata o presidente da Adirplast, surgiram alguns sinais de melhoria.

“Para o total do ano creio em uma distribuição de resinas em volume similar ao de 2020, porém com faturamento maior, pois os preços subiram”, projeta.

Também a demanda nacional por PET deve este ano ser similar à de 2020, ou talvez cair de 2% a 3%, estima Auri Marçon, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet).

Já no primeiro semestre houve similaridade nessa demanda, talvez com ligeiro crescimento, comparativamente ao mesmo período de 2020.

“Mas isso porque a primeira metade do ano passado foi excelente: houve queda em abril, mas depois demandou-se bastante PET para embalagens de água, de produtos de limpeza, de alimentos”, detalha.

Neste segundo semestre, prossegue Marçon, deve ser registrada uma pequena queda na demanda nacional por PET (relativamente ao mesmo período de 2020).

Nesse caso porque a base de comparação foi alta, favorecida por fatores como o auxílio emergencial que impulsionou o consumo de produtos com embalagens feitas com essa resina, e pela ocorrência de problemas no abastecimento de materiais como vidro e alumínio, que incrementaram o envasamento de produtos com PET.

As bandejas termorformadas, cita Marçon, constituem mercado que cresceu muito em decorrência de seu uso no sistema delivery; atualmente, cerca de 18% do PET destinado no Brasil a embalagens de alimentos vai para essas aplicações.

Polietileno, poliestireno, PVC – Nesta metade final do ano deve haver uma “recuperação importante” das vendas de polietileno, crê Silvério Giesteira, diretor de vendas da Dow Brasil para Embalagens e Plásticos Especiais da Dow.

Até porque o avanço da vacinação levará mais gente para as ruas e para eventos, estimulando o consumo e favorecendo negócios com soluções para logística – filmes shrink, por exemplo – e para aplicações industriais, como os filmes utilizados pela indústria moveleira.

“Haverá um crescimento importante nos agronegócios. E mesmo o setor alimentício, que nem tinha registrado queda, pode crescer um pouco mais”, destaca.

Mas Giesteira considera difícil a ocorrência, neste segundo semestre, de uma demanda superior à do mesmo período do ano passado, quando a preocupação com uma possível falta de matéria-prima estimulou muitas empresas a ampliarem seus estoques de PE.

“Isso pode até acontecer caso haja um retorno mais acelerado do consumo”, ressalta o profissional da Dow.

No mercado do poliestireno, até abril a demanda se manteve “muito forte, acima da média histórica”, relata Marcelo Natal, diretor comercial da Unigel.

Mas daí em diante ela começou a cair, e durante maio e junho atingiu patamares muito baixos.

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Marcelo Natal, diretor comercial da Unigel

“Em julho houve sinais de recuperação, que prosseguiram em agosto, quando os índices se aproximaram mais da média histórica”, observa Natal.

No total, ele avalia, a demanda no primeiro semestre foi similar, ou talvez um pouco inferior, à dos seis meses finais do ano passado, que esteve bem aquecida.

E, até abril, mantinham-se bem ativos mercados importantes para o PS, como os descartáveis e a linha branca. “Mas depois disso, tudo caiu, um pouco menos no XPS, muito utilizado em delivery”, diz.

“A queda na demanda a partir de abril assustou os transformadores, alguns até pensavam em aumento de capacidade, mas agora estão com esses projetos em stand by”, acrescenta o executivo da Unigel.

A demanda por PVC, bastante intensa a partir de meados do ano passado, manteve-se aquecida também no primeiro trimestre deste ano, afirma Alexandre de Castro, diretor comercial de PVC da Unipar.

Em seu relatório de informações financeiras referente à primeira metade do ano, a Unipar informa que no segundo trimestre ocupação da capacidade de sua planta brasileira, assim como no trimestre anterior, “ficou acima de 90%” (localizada em Cubatão-SP, essa unidade produz também cloro, hipoclorito de sódio e soda cáustica).

A capacidade de sua planta argentina registrou nesse período uma elevação de 14% e ajudou a suprir a demanda brasileira por PVC.

Contribuíram decisivamente para o desempenho da Unipar os negócios na construção civil, responsável por algo entre 60% e 70% do mercado de PVC.

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Alexandre de Castro, diretor comercial de PVC da Unipar

Mas também se consolidaram outras aplicações dessa resina, como filmes e artigos hospitalares (bolsas de sangue e blisters, por exemplo) que, de acordo com Castro, “têm demostrado crescimento expressivo, principalmente no último ano”, e juntos agora representam cerca de 20% de seu mercado.

Primeiro semestre – Em conjunto, avalia Coelho, da Abiplast, no primeiro semestre a demanda nacional por resinas expandiu-se 14% (relativamente ao mesmo período de 2020).

“Tal desempenho deu-se pela recuperação da própria atividade da indústria de transformação brasileira, que também cresceu na faixa dos 14%, comparativamente ao primeiro semestre do ano passado”, observa.

Na construção civil, detalha o presidente da Abiplast, a demanda registrou forte aumento no semestre recém-findo – 34%, frente ao primeiro semestre de 2020 – e também mercados como indústria automotiva, infraestrutura, agronegócios e eletrodomésticos registraram bom desempenho.

“O setor de embalagens plásticas, o que menos sofreu com a pandemia, ainda apresentou um aumento de 2,6%”, destaca.

Coelho ressalta, porém, que a partir de abril notou-se uma desaceleração na demanda; mesmo assim, sondagem periódica com os associados da Abiplast aponta expectativas positivas de aumento de produção e vendas na segunda metade do ano.

“Desde o início de 2021 o setor voltou a ser otimista quanto à realização de investimentos e contratações. E se mantém otimista”, afirma Coelho.

Giesteira, da Dow, relata que no primeiro semestre a indústria alimentícia brasileira manteve estável sua demanda por PE (que aliás nem havia caído após o início da pandemia); porém, em virtude de novas restrições à movimentação e às atividades sociais em várias cidades, reduziram-se as vendas para aplicações relacionadas com logística e para aplicações industriais.

“Houve uma ligeira queda também no segmento dos rígidos, muito usados em produtos de higiene e limpeza”, destaca.

Oferta e preço – Desde o final do ano passado com dificuldades para a abastecer a intensa demanda, a oferta global de resinas foi afetada por alguns fatores conjunturais no início de deste ano, quando já dava sinais de estabilização; caso das tempestades de inverno no Hemisfério Norte, que comprometeram a produção petroquímica norte-americana, e de paradas para manutenção de plantas produtivas localizadas nos Estados Unidos e em outros países.

A Dow, por exemplo, “priorizando a segurança, não postergou nenhuma parada”, afirma Giesteira. Surgiram, em consequência, alguns problemas de desabastecimento.

“Mas logo a situação se equilibrou, até porque, com a volta de algumas restrições, houve alguma retração da demanda. E terminamos o primeiro semestre com equilíbrio entre demanda e oferta”, ressalta Giesteira.

Também no Brasil as paradas para manutenção reduziram a oferta: a Braskem, lembra Marta, da MaxiQuim, no primeiro semestre manteve por mais de sessenta dias suas unidades paulistas paradas para manutenção programada, e realizou paradas menores em outras unidades, como a de Triunfo-RS.

Resultado: “mesmo que ela tenha se preparado e formado estoques, os consumidores locais recorreram à importação”, diz Marta.

Segundo ela, o abastecimento está normalizado no Brasil. Há, porém, a perspectiva de diminuição da oferta proveniente dos fornecedores internacionais, caso seja reduzida a produção das petroquímicas instaladas no Golfo do México em decorrência da próxima temporada de furacões na região, que tem início em agosto e promete ser intensa.

“Como cerca de 25% a 30% do polietileno consumido localmente é oriundo do mercado internacional, é possível que as petroquímicas brasileiras não consigam suprir esses clientes”, pondera Marta, que não crê em problemas de abastecimento tão severos quanto aqueles registrados em 2020.

A especialista da MaxiQuim visualiza a possibilidade de alguma queda nos preços das resinas (em reais) até o final deste ano.

Em média, ela estima, na moeda nacional esses preços se elevaram cerca de 30% no primeiro semestre deste ano: no caso do PE esse índice chegou a cerca de 50%, e no PP baixou para 15%.

Mas em junho e julho, ela relata, houve queda nos preços na maioria das negociações.

Plástico Moderno - Resinas - Demanda segue acelerada, apesar dos problemas de suprimento ©QD Foto: Divulgação
Marta Drummond, especialista em Inteligência de Mercado da consultoria MaxiQuim

“A queda dos preços será mais lenta do que foi a subida. E devem ocorrer oscilações”, projeta Marta.

Ao menos no caso do PS, ainda há tendência de elevação dos preços, até porque, observa Natal, da Unigel, deve subir o preço do petróleo, fonte de uma de suas matérias-primas: o benzeno.

Além disso, o dólar não deve se desvalorizar significativamente frente ao real, e existem atualmente muitas dificuldades para trazer poliestireno da Ásia (região com forte peso na composição dos preços globais dessa resina).

“Nos Estados Unidos, os fornecedores anunciaram um aumento de preços para agosto”, relata Natal.

Também Gonçalves, da Adirplast, valendo-se das informações da consultoria global Icis, crê na possibilidade de um “pequeno aumento” nos preços das resinas (condicionado, obviamente ao comportamento da demanda mundial).

Mas, no Brasil, ele ressalta, antes da pandemia esses preços eram bem inferiores aos valores internacionais e até por isso dificilmente voltarão aos patamares anteriores.

Mesmo agora, relata Gonçalves, os distribuidores não conseguem repassar integralmente para seus preços os valores que eles próprios pagam pelas resinas.

“Em virtude da grande oferta, no primeiro semestre muitos deles trabalharam no vermelho”, diz o presidente da Adirplast.

Importação estimulada – Caso haja realmente alguma queda nos preços das resinas, ela deve ocorrer apenas no final deste ano, ou no início de 2022, crê Roriz Coelho, da Abiplast.

Dados apontam para a manutenção dos atuais níveis de preços em âmbito global, tanto pela alta demanda quanto pelo aumento dos preços de insumos como eteno e propeno.

“A perspectiva é de que eles se mantenham ao longo do segundo semestre em patamares elevados”, acrescenta.

E, de acordo com ele, algumas empresas ainda informam “dificuldade de entregas” de resinas.

Ele lembra que no primeiro semestre deste ano, relativamente ao mesmo período de 2021, enquanto a produção nacional de transformados aumentou 14%, a produção dessa matéria-prima elevou-se apenas 11%.

Ou seja: as empresas precisaram buscar mais resinas no exterior.

Nesse período, especifica o presidente da Abiplast, as importações elevaram-se 164% no caso do PVC, 53% no PP, 58% no PEBDL, 56% em PEBD e 17% em PEAD.

“Não houve incremento de exportações que justifique essas importações, elas estão vindo como complemento para que o setor de transformados plásticos possa atender o mercado”, pondera.

Medidas adotadas pelo governo para combater a escassez no mercado interno, como a redução temporária das alíquotas de importação de PP e PVC, contribuíram, avalia Roriz, para evitar “paradas sérias e complicações” das empresas que necessitam de resinas.

“Pleiteamos a renovação dessas medidas, que já expiraram”, afirma.

Mas Terra, do Siresp, considerando a atual relação entre oferta e procura, e os níveis de estoque das empresas do setor, afirma:

“Não há nada que justifique a renovação dessas medidas”. O produtor nacional de PP, a Braskem, foi quem propôs ao governo a redução de alíquotas de importação dessa resina.

“Mas ao longo do semestre a situação se equilibrou, as cadeias recompuseram estoques, houve recordes de importação”, argumenta Terra.

“Normalidade” com cautela – O PET, destaca Marçon, da Abipet, foi a resina cujos preços mais demoraram a subir quando teve início o movimento global de majoração dos valores globais dos produtos petroquímicos. “E seu preço quase não subiu no ano passado”, ressalta.

Mas este ano houve algum aumento nesse preço. Primeiramente, porque ocorreram reajustes em algumas matérias-primas dessa resina, como o MEG. “Mas principalmente pelos custos logísticos que elevaram bastante os preços globais do PET”, explica.

A partir do primeiro trimestre deste ano, relata Marçon, foi possível observar um retorno ao perfil tradicional de consumo de produtos envasados com PET.

“Com a pandemia, cresceu bastante a demanda por embalagens maiores para consumo doméstico; mas agora volta a crescer o consumo de embalagens menores, que acontece nos pontos de venda, ou na rua”, destaca o presidente da Abipet.

Esses e outros produtos plásticos, crê Marta, da MaxiQuim, devem ter seu consumo alavancado pelo avanço da vacinação e a subsequente normalização das atividades sociais e econômicas.

Mas ela também vê algumas razões para maiores precauções nas análises sobre as perspectivas do setor: entre elas, a continuidade do avanço da inflação e a queda no poder de compra da população.

Sem contar a possibilidade de uma crise no abastecimento de energia e o aumento do custo desse insumo.

“Dentro da indústria de transformação, o processamento de polímeros é dos mais intensivos usuários de energia, também demandada intensivamente por algumas resinas, principalmente pelo PVC”, observa.

A possibilidade de crise no fornecimento de energia preocupa também Terra, do Siresp. “Esse é o segundo maior custo variável das empresas de transformação, atrás apenas das resinas”, enfatiza.

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