Resinas de alto desempenho em peças técnicas

Plasticos de engenharia: Resinas sintéticas de alto desempenho substituem materiais em peças técnicas

Produzir peças que substituam itens fabricados em metais, vidros e outros materiais é um dos principais motivos do crescimento da indústria do plástico ao longo do tempo, fenômeno que deve continuar a acontecer no futuro. No campo das peças técnicas, essas substituições se tornam possíveis com o surgimento de resinas sintéticas de alto desempenho, conforme o caso, com melhores resistências mecânicas, elétricas, químicas ou com outras características diferenciadas. São os plásticos de engenharia e os sofisticados polímeros de alto desempenho.

Esses materiais são indicados para as mais diversas aplicações, com destaque para os nichos automobilístico, peças para eletroeletrônicos, aparelhos de telefonia móvel e indústria aeroespacial. Não por acaso, grandes corporações mundiais do mundo da química investem milhões de dólares todos os anos na pesquisa e desenvolvimento de resinas de alto desempenho. Novas formulações chegam ao mercado com frequência e proporcionam retorno financeiro para lá de satisfatório a essas companhias. Preocupação dos últimos anos, o investimento em grades de resinas mais amigáveis ao meio ambiente tem sido crescente.

Entre as marcas presentes no mercado local, podemos citar Basf, Covestro, Envalior, Radici, Toray e UBE, entre outras. Recenemente, surgiram a Envalior, joint venture formada entre a Lanxess e o fundo de private equity Advent, e a Syensqo, nome atual da antiga SpecialtyCo, uma divisão da gigante Solvay.

Todas essas marcas contam com plantas industriais instaladas no exterior e escritórios próprios de representação no Brasil. Entre as matérias-primas, além das resinas de alto desempenho, desenvolvidas para aplicações específicas, temos algumas famílias bastante conhecidas, casos das poliamidas, policarbonatos, PBT e outras, além de blendas as mais distintas.

No Brasil, profissionais com cargo de direção nessas empresas não se queixam das vendas alcançadas no ano passado e esperam dias ainda mais auspiciosos para 2024. O desempenho das vendas de cada empresa não é uniforme, varia de acordo com o perfil dos clientes atendidos. Uma notícia alvissareira para as empresas do setor vem de um segmento de enorme importância para esse mercado, a indústria automobilística nacional, responsável pela aquisição de grandes volumes desses materiais.

Depois de passar alguns anos com desempenho pífio, o setor passa por momento de recuperação. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostra dados animadores. No primeiro bimestre do ano, a produção nacional de automóveis chegou às 343 mil unidades, alta de 8,9% em relação ao mesmo período do ano passado. Também nos dois primeiros meses do ano, os emplacamentos de automóveis bateram na casa das 327 mil unidades, com crescimento de 20% em relação ao mesmo período de 2023.

As boas notícias vindas das montadoras que atuam no país não param por aí. Somente nos dois primeiros meses do ano elas anunciaram investimentos da ordem de R$ 66 bilhões. Para se ter ideia do que essa cifra significa, de 2021 até o final de 2023 houve investimentos de R$ 51 bilhões, menores do que os anunciados no primeiro bimestre. Esses investimentos estão previstos para os próximos anos e devem provocar um salto na futura capacidade de produção de veículos, ótima notícia para os transformadores ligados à indústria de autopeças.

Destaque para o previsto lançamento no Brasil de vários modelos totalmente elétricos ou híbridos plug-in, o que vem incentivando os fornecedores de insumos plásticos a investir pesado na obtenção de formulações voltadas para atender as necessidades da fabricação de peças desses veículos. Entre os itens que mais têm merecido atenção podem ser citados os plásticos voltados para a produção de baterias.

“Temos motivos para acreditar num ano positivo para o setor automotivo brasileiro. Além da expectativa de crescimento do mercado interno e da produção, devemos celebrar a publicação da MP 1.205, que instituiu o Programa Mover”, afirma o Márcio de Lima Leite, presidente da Anfavea. O Programa Mover (Programa de Mobilidade Verde e Inovação) surgiu a partir do lançamento de uma Medida Provisória em 30 de dezembro pelo governo federal para incentivar a indústria automotiva.

O incentivo fiscal para que as empresas invistam em descarbonização e se enquadrem nos requisitos obrigatórios do programa alcançará R$ 19 bilhões em créditos concedidos até 2028.

“Trata-se de uma política industrial muito moderna e inteligente, que garante previsibilidade para toda a cadeia automotiva presente no país”, avalia Lima Leite.

Agitação no mercado de resinas de alto desempenho

Recentemente, dois fatos chamaram a atenção no ambiente de acirrada competição vivido pelas grandes multinacionais que participam desse mercado. Um deles teve como protagonista o Grupo Solvay, que desde dezembro passou a contar com duas empresas independentes de capital aberto, frutos de uma separação planejada, a Solvay e a Syensqo.

A Solvay passou a ser o novo nome da EssentialCo, antiga unidade do Grupo que se concentra em fornecer soluções sustentáveis que atendam necessidades essenciais, como purificar ar e água e preservar alimentos, entre outros projetos. Ela contemplará projetos de monotecnologia, incluindo barrilha, peróxidos, sílica, e as divisões Coatis (solventes) e Special Chem, que geraram aproximadamente € 5,6 bilhões em vendas líquidas em 2022.

A Syensqo, antiga SpecialtyCo, atuará na busca de inovações. A nova empresa conta com uma divisão voltada para a produção de polímeros especiais e compostos termoplásticos de alto desempenho. Uma de suas preocupações será a de tornar possível a próxima geração de baterias para veículos elétricos, entre outras pesquisas voltadas para campos os mais diversos. A SpecialtyCo gerou € 7,9 bilhões em vendas líquidas em 2022.

Outra notícia de destaque foi o anúncio, em maio de 2022, da transferência do negócio de materiais de alto desempenho da Lanxess para uma joint venture formada com o com o fundo Advent International. A joint venture foi lançada em abril do ano passado (a Lanxess detém em torno de 40% e a Advent, cerca de 60%). Lanxess e Advent também assinaram um acordo para adquirir o negócio DSM Engineering Materials (DEM), do grupo holandês Royal DSM, que foi integrado à joint venture.

No acordo, a Lanxess contribuirá com sua unidade de negócios High Performance Materials (HPM), um dos principais fornecedores de polímeros de alto desempenho do mundo, utilizados em especial na indústria automotiva. O negócio representa vendas anuais de cerca de 1,5 bilhão de euros. A HPM é produtora de polímeros de engenharia PA6 e PBT e compósitos de fibra termoplástica.

Portfólio completo de resinas de alto desempenho

“O mercado de plásticos de engenharia é de extrema importância para a Envalior, é o foco principal de suas atividades comerciais. A empresa depende do mercado de plásticos de engenharia para impulsionar seu crescimento e sustentabilidade financeira”, explica Marcelo Corrêa, diretor da nova joint venture.

Ele acredita que o mercado representa oportunidade significativa para inovação e desenvolvimento de produtos de alto desempenho, atendendo às demandas dos clientes em ampla gama de setores industriais, como o automotivo, eletrônico, industrial e de bens de consumo.

Corrêa: joint venture nasce com portfólio completo ©QD Foto: Divulgação
Corrêa: joint venture nasce com portfólio completo

“Estamos em busca constante para oferecer soluções inovadoras e de alta qualidade, além de desenvolver formas de reduzir a pegada de carbono de seus produtos, em linha com as tendências globais de sustentabilidade”.

De acordo com Corrêa, a fusão obtida com o acordo resultou em um portfólio único em comparação aos concorrentes.

“Nossos produtos abrangem toda a pirâmide dos plásticos de engenharia”. O portfólio engloba materiais especiais (PPA, PA4T, PA46, PA410, PPS, TPC) e materiais de desempenho (PET, PA66, PA6, PA6/66 e PBT). “Atualmente, somos um dos principais fornecedores de compostos de PA6, PA66 e PBT no mercado nacional”.

A Envalior também tem se empenhado em expandir seu portfólio de produtos com baixa pegada de carbono, tanto bio-based, quanto reciclado, oferecendo diversas soluções aos clientes interessados em atingir as metas de redução de emissões de CO2. Na classe bio-based, podem ser citados os de reciclagem mecânica, casos de linhas de PA6 ou PA6/PA66 obtidas de resíduos de plástico pós-consumo, PA6/PA66 de fibra de vidro pós-industrial, PBT obtido de fibra de vidro pós-industrial adicionada a PET pós-consumo, entre outros. Outras linhas são provenientes de biomassa balanceada ou de Bio-C14 rastreável.

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Altas temperaturas

A multinacional de origem italiana Radici tem seus trabalhos totalmente direcionados para a produção de plásticos de engenharia. A empresa conta com oito unidades de produção no mundo inteiro, além de escritórios de representação em muitos países, inclusive no Brasil. Entre os materiais que fornece se encontram PA6, PA 66, POM, PBT, PPA e PPS.

Resinas de alto desempenho em peças técnicas ©QD Foto: Divulgação
Baruque: inovações permitem suportar temperaturas elevadas

“Nosso core business é o mercado de PA6 e PA66, que corresponde a quase 90% de nosso das vendas. Em seguida temos a participação de PBT e POM”, informa Luis Baruque, gerente de marketing e desenvolvimento automotivo da empresa para a América do Sul.

O gerente se mostra otimista em relação às vendas previstas para esse ano.

“Temos muitos desenvolvimentos que prometem ótimo 2024, o que deve aumentar nossa participação no mercado”. A expectativa se dá depois de um ano considerado positivo. “As vendas em 2023 ficaram acima do budget”, informou. A empresa tem projeção de investimentos de mais de R$ 20 milhões em 2024 no país. “Vamos aumentar nossa capacidade de produção para 22 milhões de t/ano de compostos e equipar ainda mais nosso laboratório, já considerado um dos melhores do Brasil”.

Entre as novidades, Baruque destaca o desenvolvimento da linha de poliamidas indicada para aplicações em ambientes de alta temperatura.

“As novas linhas em PA6 – X2N – Radilon S RV350 X2N e Radilon S RV500 X2N, podem suportar temperaturas contínuas na faixa de 190°C a 200° C”. A empresa também passou a oferecer as séries em PA66 HHR e X2N – Radilon A RV350 HHR e Radilon A RV350 X2N, que suportam temperaturas de uso em contínuo na faixa de 210°C. “Por último, temos a linha em PA – Radilon NeXTreme, capaz de suportar temperaturas acima de 220°C”.

Outra preocupação é comercializar produtos com bom desempenho em relação à sustentabilidade. “A nossa área de plásticos de engenharia já nasceu reciclando os resíduos da nossa área têxtil, isso acontece desde a década de 80”. Para esse nicho de mercado a empresa conta com nova linha chamada Renycle Nylon after Nylon, gerada de produtos pós-industriais e pós-consumo.

“Os produtos possuem certificados de origem e rastreabilidade e são voltados para clientes interessados em produzir peças a partir de materiais obtidos com baixa emissão de carbono”.

Entre os segmentos atendidos, o setor automotivo chama a atenção pela utilização de produtos com elevado desempenho e ótimas características mecânicas. Para as montadoras, a Radici comercializa ampla gama de tecnopolímeros para as mais diversas aplicações, casos de peças para motores, conectores e tubulações. Também comercializa fibras sintéticas e não-tecidos aplicados em numerosos componentes do automóvel, como bancos, pneus e airbags.

No reino das poliamidas

A multinacional japonesa UBE é uma empresa com duas atividades principais: produção de máquinas e de insumos químicos. No segmento de produtos químicos, oferece ampla gama de grades de plásticos de engenharia.

Resinas de alto desempenho em peças técnicas ©QD Foto: Divulgação
Veloso: copoliamida 5036B pode reduzir a espessura de filmes

“Produzimos poliamidas com todos os graus de viscosidade à base de PA6, CoPA 6/6.6, CoPA 6/6.6/12 e CoPA 6/12 para aplicações em embalagens de alimentos, monofilamentos, peças técnicas para aplicações industriais, tubos automotivos e outras destinações”, informa Edgar Veloso, supervisor de vendas da unidade de negócios de polímeros de performance.

A empresa também oferece TPUs que podem ser aplicados em sinergia com as poliamidas para aplicações de alta exigência.

No Brasil, o material mais vendido é o da série de copoliamida CoPA 5034B. “Ele apresenta excelente relação custo-benefício para aplicações em embalagens de alimentos, principal mercado em que atuamos. Os produtos possuem boas propriedades ópticas e mecânicas e atendem aos mais rigorosos padrões de reciclagem”.

Recentemente, a UBE lançou outra linha de copoliamida, a UBE Nylon 5036B. De acordo com o fabricante, a novidade é indicada para aplicações de embalagens de alimentos altamente exigentes e apresenta excelente processabilidade, possui boa resistência à perfuração e permite barreira ao oxigênio.

“A linha 5036B possui propriedades ópticas e mecânicas finais superiores em comparação com o 5034B e pode reduzir a espessura dos filmes de alimentos em mais de 53%, em comparação com os filmes convencionais de monocamada à base de PE”. De acordo com Veloso, seu uso proporciona economia de matéria-prima e reduz o desperdício de alimentos na cadeia produtiva.

Outros focos de atuação são voltados para promover a linha circular rPEPA baseada em reciclados pós-industriais (provenientes de restos de filmes dos clientes) e a linha UBE Nylon com certificado ISCC+ e obtida a partir de ciclohexano biocircular. De acordo com o gerente, essas ações seguem o objetivo da empresa de desenvolver produtos e sistemas pelos quais os clientes possam se beneficiar da redução de recursos sem prejudicar as características previstas para os projetos.

“Estamos comprometidos e focados em investir mais de 10% do nosso faturamento no setor de pesquisa e desenvolvimento para continuar no caminho da inovação e de soluções diferenciadas”. Veloso informa que considerando que o encerramento do ano fiscal da empresa ocorre em março, os volumes de vendas devem atingir cerca de 98% do verificado no período anterior. “Continuamos a ter boas expectativas de que estes números se mantenham para o próximo ano fiscal.

Resinas de alto desempenho na área de mobilidade

Os plásticos de engenharia têm se mostrado cada vez mais presentes na área da mobilidade, desde sistemas de iluminação automotiva, componentes elétricos e eletrônicos veiculares, peças de acabamento interno e externo, itens de powertrain, componentes da carroceria (body panels), além de aplicações no compartimento do motor (under-the-hood) e estruturais, dentre outras.

A avaliação é de Marcio Tiraboschi, gerente de engenharia avançada da Plascar, transformadora nacional especializada em autopeças de plástico. Há mais de seis décadas no mercado, possui plantas industriais em Jundiaí-SP, Caçapava-SP, Betim-MG e Varginha-SP. A empresa produz componentes com uso de técnicas de injeção, pintura, metalização, soldagem, moldagem a quente de compostos reforçados e cromação.

“Estes materiais representam excelente solução técnica em aplicações que exigem maior desempenho em função de suas propriedades mecânicas, térmicas e tribológicas, associadas ao baixo peso específico, fácil processabilidade, alta reciclabilidade e custo relativamente competitivo”, resume o especialista.

A Plascar utiliza plásticos de engenharia há décadas. “Fomos uma das empresas pioneiras, no setor automotivo, na transformação deste tipo de material”. Ele dá um exemplo. “Os primeiros para-choques em plástico de engenharia, feitos com a blenda de PC/PBT que no Brasil começaram a substituir aqueles estampados em aço, foram produzidos pela Plascar na década de 1980. Eles equiparam importantes lançamentos do mercado automotivo”.

Atualmente, os plásticos de engenharia representam importante fatia do volume total de material polimérico processado anualmente pela Plascar na fabricação dos mais diferentes componentes para veículos leves e pesados. A empresa utiliza ampla variedade destes materiais no seu portfólio de produtos, desde ABS, ASA, PC, PMMA, PBT, POM, PEI até diversas variações de poliamidas e blendas (PC/ABS, PC/PET, PC/PBT, SAN/ PET, ASA/PC).

Plascar foi pioneira na produção local de para-choques de PC/PBT ©QD Foto: Divulgação
Plascar foi pioneira na produção local de para-choques de PC/PBT

Uma tendência atual tem sido a de atender à crescente eletrificação veicular. “Os plásticos de engenharia se apresentam como resposta ao atendimento de uma série de requisitos técnicos que incluem comportamento elétrico, flamabilidade, resistência mecânica, propriedades térmicas, moldabilidade e redução de massa”, explicou.

De acordo com o profissional, uma das estratégias adotadas pela Plascar é a de manter excelente relacionamento com os principais fornecedores de plásticos de engenharia, sejam os com atuação local ou globais. A ideia é acompanhar de perto novidades, tecnologias e tendências para oferecer soluções aos seus clientes.

“Em parceria com importantes fornecedores de matérias-primas, a empresa tem analisado e desenvolvido novas aplicações para a substituição de materiais metálicos e termofixos, com vantagens em redução de massa, melhoria no acabamento superficial e na qualidade percebida, reciclabilidade dos componentes, maior produtividade e custo competitivo”.

De acordo com Tiraboschi, outra preocupação atual é a de trabalhar na análise técnica e na validação de soluções em plásticos de engenharia com forte apelo para a economia circular. “Esses projetos representam importante contribuição na redução na pegada de carbono e na emissão dos gases de efeito estufa”.

Além disso, existe esforço na pesquisa e desenvolvimento de peças diferenciadas. Como exemplo, o gerente cita estudo recente, feito em parceria com um fornecedor internacional de plásticos de engenharia e um cliente, cujos nomes são mantidos em sigilo.

“Desenvolvemos a aplicação de plástico de engenharia na produção de componentes de acabamento externo. São peças complexas, que exigem resistência mecânica, estabilidade dimensional e excelente acabamento superficial”.

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