Registros de quatro décadas historiam expansão da indústria do plástico e os avanços conquistados em todos os elos da cadeia

Plástico Moderno, Registros de quatro DÉCADAS historiam expansão da indústria do PLÁSTICO e os avanços conquistados em todos os elos da cadeiaNa edição de maio de 1967, na revista Química & Derivados, na época uma publicação da Editora Abril, o então presidente do Sindicato da Indústria do Material Plástico do Estado de São Paulo e diretor presidente da fabricante de brinquedos Trol, Dilson Funaro, calculava o consumo per capita nacional de plástico na casa dos 1,3 kg por habitante. Funaro, que em 1986 se tornaria célebre em todo o país por ser um dos pais do Plano Cruzado, rumoroso pacote econômico proclamado pelo presidente Sarney, mostrava-se otimista em relação ao futuro. Apostava que o consumo per capita do brasileiro poderia chegar a 2,5 kg por ano em 1970. Apesar de quase dobrar o consumo da época, o avanço estimado representava números tímidos. Na Argentina, por exemplo, calculava-se que em 1970 o consumo chegaria a 4 kg por habitante por ano.

Na mesma edição da Química & Derivados o potencial da indústria do plástico era exaltado por Fuad Buchain, diretor presidente de um importante transformador da época, a fabricante de utensílios domésticos Goyana. “Surpreendente e expressivo foi – e ainda é – o surto de desenvolvimento imprimido à indústria de plásticos no último decênio, graças à introdução, no mercado internacional, de uma vasta gama de novas matérias-primas com qualidades e as mais variadas características, possibilitando a criação de manufaturados de alta e excelente qualidade.”

O entusiasmo com o potencial de negócios da indústria do plástico chamou a atenção dos dirigentes da Editora Abril. A decisão de lançar publicação especializada se transformou em realidade quatro anos depois. Em 1971, chegou ao mercado aPlásticos & Borracha. A revista surgiu no ano divisa entre o presente e o futuro, no momento histórico em que a indústria petroquímica brasileira passaria a fornecer os insumos necessários para o país desenvolver sua indústria de plástico. Em 1972, estava prevista a entrada em funcionamento da Petroquímica União, a primeira petroquímica de porte do país.

No editorial do número 1, uma promessa. O veículo nascia para ser uma ponte entre fabricantes de matérias-primas, transformadores e fornecedores de equipamentos, no intercâmbio de interesses comuns. Não só para a divulgação de problemas e suas soluções, mas também para ajudar o setor a assimilar novidades tecnológicas e métodos modernos de organização e marketing aplicados. “Vamos acompanhar o seu sucesso e crescer com ele”, garantia o texto.

Um pouco de história – A definição é da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim): “Os plásticos são materiais sintéticos produzidos com matérias-primas básicas chamadas de monômeros. Elas são formadas pela união de grandes cadeias moleculares, os polímeros. Do grego, poli, que significa muitos, e mero, partes. Existem polímeros naturais e sintéticos. Os sintéticos são produzidos industrialmente e dão origem aos plásticos. Os polímeros naturais são encontrados em plantas e animais. A madeira, o algodão e o látex são alguns deles.”

Alguns fatos foram marcantes para o desenvolvimento da indústria do plástico. Os primeiros passos foram dados no século XIX. Em 1838, o francês Victor Regnault polimerizou o cloreto de vinila (PVC). No ano seguinte, o norte-americano Charles Goodyear descobriu a vulcanização da borracha natural. Em 1862, o químico inglês Alexander Parkes criou um material orgânico derivado da celulose. Foi o primeiro que podia ser moldado quando aquecido e permanecer com o formato desejado depois de resfriado. O material foi chamado de parkesina, em homenagem ao seu autor. Não tinha viabilidade comercial.

Em 1870, o norte-americano John Wesley Hyat registrou a celuloide, feita por meio da combinação de nitrato de celulose e cânfora. Com a descoberta, Hyat venceu um concurso voltado para desenvolver materiais que pudessem ser transformados em bolas de bilhar. Antes, as bolas eram feitas com o marfim extraído dos dentes de elefantes e isso causava constrangimento aos defensores do animal.

No século seguinte, a indústria ganhou impulso. Em 1907, o norte-americano Leo Hendrik Baekeland sintetiza resinas de fenol-formaldeído, que ficariam conhecidas como baquelite. O material é considerado o primeiro plástico totalmente sintético produzido em escala comercial. Durante as décadas de 20 e 30 os países avançados investiram em uma série de pesquisas úteis para o desenvolvimento futuro das resinas termoplásticas.

Estados Unidos e Alemanha estudavam a criação de um substituto para as borrachas naturais, cuja demanda crescia de forma impressionante. Em 1928, os Estados Unidos começaram a produzir o PVC, em pequena escala industrial. Em 1939, foi implantada a primeira fábrica de PEBD na Inglaterra. A segunda guerra mundial incentivou estudos para a descoberta de novos materiais. Durante a guerra, a Alemanha chegou à fórmula da borracha sintética.

Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento feitos nas décadas anteriores resultaram na popularização da tecnologia dos polímeros a partir dos anos 50. Surgem as matérias-primas polipropileno, poliuretano, polietileno linear, poliacetal e policarbonato. Objetos de plástico começam a ser comercializados. Em 1960 são criados os plásticos de engenharia, materiais de alto desempenho.

Plástico Moderno, Registros de quatro décadas historiam expansão da indústria do plástico e os avanços conquistados em todos os elos da cadeiaNo Brasil – O desenvolvimento da indústria do plástico justificou as expectativas otimistas dos diretores da Editora Abril no início dos anos 70. A tecnologia ligada ao setor se desenvolveu de forma impressionante em todo o mundo. O avanço das matérias-primas e dos equipamentos possibilitou aos transformadores fabricar peças capazes de substituir outros materiais em aplicações no passado inimagináveis.

O Brasil acompanhou essa evolução a despeito das constantes crises econômicas ocorridas durante esses anos. Após o lançamento da revista, com exceção do início da década de 70, período chamado de “milagre econômico” – que começou a ruir com a primeira crise internacional do petróleo, em 1973 –, o cenário se mostrou dos mais complicados para os empresários realizarem investimentos com planejamento adequado.

Mesmo nos últimos anos, quando a prosperidade deu o ar da graça com maior constância do que nas décadas de 80 e 90, as dificuldades continuam. A grave crise econômica mundial iniciada no segundo semestre de 2008 é um exemplo. Problemas internos, como falta de infraestrutura, juros estratosféricos, carga tributária excessiva e valorização artificial do real são temas de constantes reclamações dos industriais. Estamos no final de 2011 e a ameaça de nova crise internacional está tirando o sono de muitos empreendedores.

Diante desse cenário, muitas empresas pioneiras, dos diversos nichos da indústria do plástico, sucumbiram ou foram incorporadas por outras. Marcas famosas deixaram saudades. Outras se mantiveram, fizeram história. Algumas, inauguradas nos últimos anos, marcam presença com sucesso no mercado. Não podemos nos esquecer da participação importante de multinacionais com plantas industriais no Brasil e dos importadores de máquinas e outros produtos, muitos ainda não fabricados por aqui.

Transformadores – Alguns dados dão ideia do salto para lá de significativo do setor nas últimas quatro décadas no Brasil. Em 1970, estimava-se o consumo per capita de plástico em 2 kg por ano. Em 2010, esse número foi de 30,5 kg, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim). O total de empresas transformadoras em 1971 era estimado em 1,2 mil. Saltou para atuais 12 mil. Hoje, elas fabricam de micropeças, com peso de 0,01 g, a peças complexas de grande porte, caso dos painéis de automóveis ou de componentes de estruturas de aviões.

No ano passado, o consumo aparente de resinas plásticas no Brasil atingiu 5,9 milhões de toneladas, de acordo com a Abiquim. O número foi 20% superior ao de 2009, da ordem de 4,9 milhões de toneladas. É bom ressaltar que tal crescimento ocorreu em cima de um ano prejudicado pela crise internacional iniciada no segundo semestre do ano anterior. Em 2008, o consumo aparente havia sido de 5,2 milhões de toneladas.

A resina mais consumida foi o polietileno, responsável por 43% da demanda total, seguido pelo polipropileno, com 18%. Em torno de 52% da soma transformada foi destinada ao segmento de embalagens. Entre os processos, lidera a extrusão, com 44% do volume das resinas comercializadas, seguida pela injeção (36%) e sopro (14%).

A distribuição foi feita da seguinte forma: 70,6% desse volume foi comercializado de maneira direta pelos fabricantes, 18,1% foi importado e 11,3% das vendas foram feitas por meio de distribuidores, estes representando marcas nacionais e importadas. O potencial de crescimento continua animador. Nos países avançados, o consumo per capita gira em torno dos 100 kg/ano.

Plástico Moderno, Registros de quatro décadas historiam expansão da indústria do plástico e os avanços conquistados em todos os elos da cadeia

Matérias-primas – As primeiras empresas transformadoras de plástico pipocaram com alguma intensidade no país a partir da década de 40. As peças eram feitas de resinas celulósicas e formólicas, PVC e poliestireno produzido com monômeros importados. Nos anos 50 e 60, o desenvolvimento se intensificou. O fato de alguns segmentos industriais passarem a usar o plástico em maior escala fez empresários começarem a se mobilizar para intensificar a produção nacional dos insumos.

Em 1971, quando a revista foi criada, a produção nacional de matérias-primas era pífia. Uma fase mais próspera começou no ano seguinte, quando foi inaugurada a Petroquímica União (PQU), primeiro polo nacional do gênero. O empreendimento surgiu da parceria do grupo União, capital estrangeiro e governo – representado pela Petroquisa, subsidiária da Petrobras para o setor petroquímico que havia sido criada em 1967.

O modelo representado pela soma de esforços do capital nacional, estrangeiro e do governo, batizado de tripartite, persistiu nos anos seguintes e foi decisivo para o desenvolvimento do setor. Com esse perfil se tornaram realidade o Polo Petroquímico de Camaçari-BA (1978) e a sua central de matérias-primas, a Copene. Em seguida veio o Polo Petroquímico de Triunfo-RS (1982), acompanhado da central de matérias-primas Copesul.

As dificuldades geradas pelas constantes crises econômicas fizeram o governo apostar no capital privado para a expansão do setor petroquímico nos anos 90. Foram realizados leilões de privatização das fatias pertencentes ao governo das estruturas existentes. A PQU passou a ter o grupo Unipar como o maior acionista. O controle do polo baiano e o da Copene foram divididos entre várias empresas, entre elas o banco estatal baiano Econômico. O Polo de Triunfo e a Copesul foram adquiridos pelos grupos Odebrecht e Ipiranga.

Em julho de 2001, o Banco Econômico entrou em processo de liquidação e um leilão foi anunciado para vender a parcela da instituição financeira no polo baiano. Depois de duas tentativas fracassadas, o leilão se concretizou. O consórcio resultante da parceria dos grupos Odebrecht e Mariani fez a compra. Em 2002, os dois grupos criaram a Braskem, primeira empresa nacional a contar com plantas de produtos primários, usados como insumos das resinas, e secundários, as próprias resinas.

Ao longo da primeira década do século, a Braskem, que passou a ter participação da Petrobras, fez uma série de aquisições e hoje é o grande nome do mercado entre as brasileiras produtoras de commodities. A companhia se transformou na maior das Américas e a oitava do mundo. Atualmente, produz mais de 16 milhões de toneladas/ano de resinas termoplásticas e outros produtos petroquímicos.

Em tempo: o Brasil ainda não conta com estrutura significativa de produção de plásticos de engenharia (Veja na tabela os principais fabricantes nacionais e as resinas produzidas). Também peca pela falta de fabricantes de aditivos e de outros produtos de química fina, usados para tornar possível a transformação.

Equipamentos – Até meados dos anos 80, a indústria brasileira de equipamentos contava com vários representantes. Muitas empresas nacionais, fabricantes de injetoras, extrusoras e sopradoras, além de equipamentos para outros tipos de transformação e periféricos, sobreviviam com certa dignidade. Também mereciam destaque as empresas multinacionais que construíram fábricas por aqui.

As coisas começaram a piorar no final da década de 80, com o elevado patamar atingido pela inflação. E se complicaram de vez no início dos anos 90, com a promulgação do Plano Collor, responsável por gigantesco confisco financeiro da população e gerador de forte recessão. A falta de encomendas fez muitas marcas tradicionais sucumbirem. Multinacionais fecharam suas unidades fabris brasileiras e passaram a trabalhar com escritórios de importação.

Para piorar a situação, a globalização ganhou fôlego a partir desse período e os equipamentos internacionais passaram a chegar com preços tentadores. O cenário se complicou no início deste século. A desvalorização do real causou problemas em especial para os fabricantes nacionais de injetoras, que passaram a conviver com a multiplicação das vendas de máquinas chinesas.

O aquecimento da economia ocorrido nos últimos anos deu um fôlego novo para os fabricantes nacionais. No ano passado, o setor apresentou faturamento nominal de R$ 1,12 bilhão, 53,3% acima do resultado de 2009. A comparação mais importante: as vendas cresceram 25% em relação a 2008, melhor ano dos últimos tempos. Os números são da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

O bom desempenho não esconde preocupações. O real supervalorizado continua sendo acusado pelos empresários como forte ameaça de desindustrialização da indústria de base. Sem falar em velhos problemas, como elevada carga tributária, juros estratosféricos e falta de canais de financiamento.

Uma menção especial merece ser feita para as ferramentarias. O Brasil conta com empresas bastante capacitadas para fabricar moldes de injeção e sopro. Também possui importantes fornecedores de componentes e acessórios, como porta-moldes. No caso dos moldes de injeção, mais uma vez a indústria asiática surge como forte ameaça. Em especial as matrizes chinesas, que chegam por aqui a preços e prazos bastante competitivos.

Fases distintas – A revista testemunhou o progresso do setor com reportagens atentas e saborosas. Ao longo dos anos, passou por atualizações voltadas para aperfeiçoar seu conteúdo. A começar pelo nome, que no número 22, em abril de 1973, passou a ser Plásticos & Embalagem. A adaptação se explica pelo enorme progresso do setor de embalagens verificado naqueles tempos.Plástico Moderno, Registros de quatro décadas historiam expansão da indústria do plástico e os avanços conquistados em todos os elos da cadeia

Com a medida, outros materiais ganharam espaço editorial, como papel, papelão, vidro, madeira e metais, todos largamente usados para embalar os mais diversos produtos. A iniciativa foi interessante. Causou, no entanto, fortes dores de cabeça aos jornalistas responsáveis pela publicação, atormentados pela tentativa de conciliar os interesses conflitantes das empresas do setor de plástico com as de matérias-primas concorrentes.

A partir do número 57, de agosto de 1976, com o desinteresse da Editora Abrilem publicar revistas técnicas, os títulos Química & Derivados e Plásticos & Embalagem ficaram sob a responsabilidade da recém-criada Editora QD, fundada pelos empresários Emanoel Fairbanks e Denisard Gerola da Silva Pinto. A transferência ocorreu após difíceis negociações. A transação até não saiu caro. Custou a cessão, pelo prazo de três anos, de duas páginas de anúncio em cada edição das duas publicações técnicas para a divulgação da incipiente revista Exame.

Após a mudança, para driblar as dificuldades surgidas na nova fase, os dois títulos passaram a ser publicados em conjunto. Seis anos e muitas reclamações dos leitores depois, eles voltaram a ser independentes em novembro de 1982. O retorno foi marcado pela alteração do nome do veículo, que passou a se chamarPlástico Moderno e coincidiu com a inauguração do Polo Petroquímico de Triunfo, no Rio Grande do Sul.

Nas páginas seguintes, vamos contar um pouco da história da evolução do setor de plásticos nas últimas quatro décadas. Vamos recordar algumas matérias marcantes sobre as evoluções das indústrias de matérias-primas, equipamentos e transformação. Para os mais antigos, chance de recordar os principais acontecimentos. Para os mais jovens, oportunidade de conhecer a evolução do setor. Para todos os leitores, um pedido de desculpas. Certamente, por problemas de falta de espaço ou por falha de edição, fatos importantes se encontram ausentes dos textos.

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