Reciclagem – Velhos problemas atormentam o setor, que luta para sobreviver

O conceito de sustentabilidade ecoa em todo o país, porém, ainda reflete pouco nos negócios dos recicladores de plástico.

Mesmo vigente desde agosto do ano passado, a Política Nacional de Resíduos Sólidos também pouco ou em nada melhorou o dia a dia dessas empresas, que encaram uma via-crúcis para obter matéria-prima de boa qualidade, por conta do gargalo de sempre: a velha falta de coleta seletiva no país.

A PNRS embute mudanças significativas, mas indústria e governo tateiam os caminhos para integrar toda a cadeia.

Outros entraves igualmente antigos, como questões tributárias e de regulamentação da atividade, tornam nada fáceis os negócios desses empreendedores, que precisaram neste ano de fôlego extra para enfrentar o desaquecimento econômico, reverberado das crises europeia e americana.

Para Carlos Henrique Cardoso, diretor da Neuplast, empresa do ramo à beira de carregar sua bagagem na atividade há trinta anos, 2011 foi crítico a ponto de obrigá-lo a adotar medidas drásticas, como reduzir jornadas de trabalho e recorrer a instituições financeiras.

Plástico, Carlos Henrique Cardoso, Diretor da Neuplast, Reciclagem - Velhos problemas atormentam o setor, que luta para sobreviver
Neuplast – Ritmo lento obrigou Cardoso a reduzir jornadas de trabalho

“Foi um ano irregular, em relação a anos anteriores; não tivemos crescimento e nosso faturamento diminuiu, conseguimos saldar nossos compromissos com grande esforço”,

lamenta Cardoso, esperançoso, porém, de um 2012 melhor, com maior demanda para o material plástico reciclado.

Melhor sorte teve a Fortymil, outra empresa tradicional do ramo. Mesmo com todas as dificuldades do setor, deve fechar o ano com sua meta de crescimento atingida, algo em torno de 20% sobre 2010. Para chegar a esse resultado e também avançar ainda mais nos próximos anos, o seu diretor Ricardo Mason aportou R$ 6 milhões, entre o ano passado e este.

Plástico, Ricardo Mason, Diretor, Reciclagem - Velhos problemas atormentam o setor, que luta para sobreviver
Ricardo Mason – Fortymil

“Os investimentos tiveram como objetivo tornar a empresa cada vez mais eficiente, competitiva e preparada para atender à crescente demanda por resinas recicladas”, justificou.

Razões pelas quais ele prevê manter o ritmo de alta nos negócios no próximo ano.

Não se trata de uma tarefa fácil, admite, ressaltando a falta de profissionalismo de algumas empresas do ramo, que imprimem imagens negativas em toda a cadeia. Otimista, porém, enxerga como lado positivo da situação adversa a valorização de empresas como a sua, que trabalham de forma séria e organizada.

A queda no preço das resinas novas e, por tabela, a menor atratividade para o plástico reciclado foram as pedras mais pesadas para o diretor da Plásticos Vima, Rodrigo Maciel, retirar do seu caminho. “Os preços das resinas recicladas não sofrem os reajustes necessários para manter a margem de lucro”, queixa-se.

Como já esperava um ano difícil, ele procedeu com cortes nos custos de produção com investimentos em maquinários e processos, destinados a elevar a relação funcionário/produção. A empresa também atua no segmento da transformação, produzindo sacos para lixo e embalagens industriais, e é exatamente essa área que o diretor planeja expandir no próximo ano.

Além da dificuldade em captar matéria-prima, o diretor da Recyclean, Maike dos Santos, ressalta as dificuldades impostas pela falta de incentivos fiscais ao setor. Mesmo diante das intempéries, sua empresa registrou um desempenho estável neste ano e as expectativas dele para 2012 são boas, com metas de crescimento entre 5% e 10%.

Bem aquém do possível

Com capacidade atual para produzir da ordem de 1.400 toneladas mensais, a Neuplast comercializou, ao longo deste ano, em média 800 t/mês. Sem perder a esportiva e a esperança, Cardoso se diz preparado para uma elevação na demanda, com sua fábrica pronta para expansão até 2 mil toneladas mensais.

As operações da empresa abrangem todo o processo, desde triagem e limpeza de sucata plástica até sua transformação em grãos. Para tanto, Cardoso conta com pessoas treinadas para separar e classificar os resíduos, destinados depois para moagem e lavagem. Moinhos, silos, aglutinadores e extrusoras equipam a fábrica, instalada em uma área de 18 mil m². Recicladora de polipropileno e polietileno, a Neuplast tem na sucata pós-consumo o carro-chefe de seu negócio. O plástico dessa origem chega a equivaler até 70% da sua produção. Reprocessadas, essas resinas seguem para a fabricação de peças como pallets, cadeiras, mesas e ainda frascos para diversos usos.

A Fortymil também revaloriza e comercializa polipropileno e polietileno, e ainda inclui no portfólio poliestireno e ABS. Mas o PP é o seu carro-chefe, seguido do PE. A empresa abastece com esses termoplásticos reaproveitados diversos mercados, entre os quais os segmentos automotivo, agrícola, de construção civil, brinquedos, higiene e limpeza e utilidades domésticas. “A qualidade de nossas resinas é reconhecida pelos clientes e um diferencial no mercado”, considera Mason.

Ele possui em suas instalações, capacitadas para reciclar até 2 mil toneladas mensais de plástico, o processo completo da cadeia, desde a seleção do insumo até o seu processamento final. “Todos os equipamentos e maquinários são modernos”, assegura.

As três extrusoras que equipam atualmente a fábrica são avaliadas pelo diretor como de alto desempenho. Outras duas, em atual processo de ajustes, elogiadas pelo diretor como ainda mais produtivas e econômicas, por conta do menor consumo energético, se juntarão à produção em 2012.

As cerca de 300 toneladas mensais de resinas recicladas comercializadas pela Plásticos Vima equivalem à sua capacidade instalada. Após enfrentar dois meses de vendas fracas, Maciel comemora o reaquecimento dos negócios e a produção comprometida até o final do ano.

Sinônimo de resíduo de melhor qualidade, igual a reciclado com melhores propriedades, o pós-industrial representa cerca de 70% da matéria-prima da empresa. Como também processa plástico pós-consumo, a recicladora efetua triagem e lavagem do material. “Possuímos duas linhas de lavagem com pré-lavagem, extrusoras com cascata e degasagem e corte direto.”

Com o sistema de pré-lavagem, Maciel garante eliminar toda contaminação que interfira no processo. Os sistemas de degasagem, explica, diminuem os efeitos dos gases gerados pela queima da resina; enquanto, graças à cascata, o produto fica mais filtrado e tem melhor plastificação.

O diretor da Plásticos Vima conta que dobrou recentemente a área de transformação. “Tínhamos uma produção pequena, em torno de 30 toneladas mensais, e ampliamos para cerca de 60 toneladas mensais.” Os planos de Maciel para o futuro incluem consumir toda a sua produção de grãos reciclados, transformando-a em bobinas e sacos de PEBD, além de tubos de PE para irrigação, produtos que estão entrando agora em seu portfólio, faltando apenas alguns ajustes no equipamento.

Rainhas da sucata

Há mais de vinte anos no mercado (foi fundada em 1989, por uma família de sucateiros), a Plásticos Vima revaloriza polietileno e polipropileno. Esse reciclado supre os mercados de filmes, tubos e injeção de peças diversas. “

Começamos com uma estrutura pequena e dois funcionários; e hoje contamos com mais de cem colaboradores. Possuímos uma infraestrutura completa, com balança rodoviária para a pesagem de todo o material que compramos/vendemos, um sistema de tratamento de efluentes no qual toda a água utilizada em nosso processo de produção é tratada e devolvida dentro das normas ambientais, maquinário moderno e com boa capacidade de produção”, depõe.

A família de Cardoso, fundadora da empresa, começou igualmente como sucateira e depois introduziu a extrusão no negócio, revela o diretor. Ele conta que naquela época sua família, além de processar o material, também o carregava e saía para vendê-lo. “Hoje contamos com 140 colaboradores diretos e cerca de 400 indiretos”, compara.

Do início na atividade de reciclagem, em 1991, como prestadora de serviços de moagem, lavagem e granulação de polietileno e polipropileno, a Recyclean apostou, oito anos depois, na revalorização de PET e transformou esse negócio no seu carro-chefe. Hoje, explica Santos, a empresa processa só PET e apenas beneficia PE e PP.

A capacidade instalada da empresa soma cerca de 500 toneladas mensais, com 70% desse volume atribuído à atividade principal. Segundo o diretor, metade de sua matéria-prima provém de resíduos industriais e a outra parte de pós-consumo. Santos estuda ampliar entre 50 e 70 toneladas mensais a atual capacidade de beneficiamento. Mas ainda não definiu prazo.

As instalações, separadas para PET e para PE/PP, incluem no caso do poliéster uma etapa de desumidificação, necessária pela característica higroscópica da resina. A empresa efetua moagem, lavagem, secagem e granulação dos polímeros, com garantia de qualidade para os segmentos que abastece, em especial os de embalagens de produtos de limpeza e de higiene pessoal.

Resinas com laudo

A segurança de perdas mínimas nas características do material reciclado deriva, segundo o diretor da Neuplast, da disposição de laboratórios, onde se corrigem as propriedades e se ajustam os produtos às necessidades específicas de cada cliente. Cardoso  fornece laudos técnicos da composição do material e rastreia todos os lotes produzidos. “Nossa garantia principal é a nossa responsabilidade pelos trinta anos de atividade”, emenda.

A garantia de oferecer resina reciclada de qualidade, sem perda de propriedades, é atributo também da Fortymil. Mason credita o feito aos recursos inclusos em seu processo, como melhor controle de temperatura e pressão do equipamento, sistema de moagem moderno, e perfis avançados de rosca, que atribuem ao processo melhor produtividade e ao reciclado melhor qualidade.

A empresa ainda dispõe de um laboratório de ponta para assegurar aos clientes o atendimento às especificações solicitadas. Outro aspecto importante diz respeito à origem do plástico processado: 70% de resíduos industriais.

A empresa também é reconhecida distribuidora oficial da Braskem para os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. No segmento industrial, além dos reciclados, atua na produção de compostos e micronizados, e presta também serviços a terceiros de micronização, tingimento e aditivação. Seu parque industrial, localizado em Itatiba-SP, abriga todas as atividades.

Ainda conta com uma filial própria com Centro de Distribuição em Duque de Caxias-RJ, focada para atender em especial os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo.

Para assegurar a qualidade de suas resinas, a Plásticos Vima testa toda a produção em sua divisão de embalagens. Além desse controle, Maciel confia no respeito que sua empresa conquistou no mercado ao longo de mais de vinte anos de atividade.

No caso da Recyclean, mais voltada ao segmento de PET, as medidas adotadas por Santos para oferecer produto com perdas mínimas de propriedades envolvem o controle da umidade da resina e de contaminantes no processo.

Sustentabilidade desde sempre

O envolvimento da Fortymil com a reciclagem data de mais de trinta anos, muito antes de o conceito de sustentabilidade surgir e se tornar um dos grandes negócios da atualidade. De qualquer modo, seu diretor comemora o crescimento desse mercado, com novas oportunidades.

“Antes, as empresas escondiam o uso, hoje fazem questão de ressaltar para os consumidores a aplicação de material reciclado em seu produto. É um novo posicionamento desse consumo.”

Plástico, Reciclagem - Velhos problemas atormentam o setor, que luta para sobreviver
Sucata de boa qualidade força uma via-crucis

Na opinião do diretor da Neuplast, os vários investidores do mercado percebem na reciclagem um grande negócio. Mas Cardoso considera o desconhecimento quanto à classificação dos materiais um calcanhar de aquiles. Para contornar o problema, ele adotou como estratégia formar parceiros fornecedores nesse processo. “Consequentemente, temos maior oferta de materiais”, pondera.

As soluções para outras dificuldades, no entanto, estão além do limite dos seus próprios esforços, como a reforma tributária do setor e sua regulamentação. “Esperamos há muito tempo que o governo revise nossa situação tributária”, pleiteia.

A falta de regulamentação implicou a classificação do negócio por semelhança a outras atividades. “Ninguém legislou pelo lado ambiental e social”, critica, lembrando que o processo de reciclagem de plásticos é limpo e seguro e que as resinas revalorizadas têm preços inferiores aos do material virgem.

O diretor da Plásticos Vima, Rodrigo Maciel, não se acha favorecido, pelo menos até agora, com a onda em alta do conceito de sustentabilidade e explica por quê. “As empresas ainda tratam seus resíduos como fonte de renda, pela venda como sucata; vendem a quem paga mais e não a quem realmente dá um destino correto a seus resíduos”, lamenta.

Mas enxerga uma luz no fim do túnel com a política nacional de resíduos sólidos. Ele deposita sua esperança no momento em que as empresas começarem a ver como seus problemas os resíduos sólidos e buscarem outras para dar a eles um fim ecologicamente correto.

O diretor da Recyclean compartilha a opinião de que o mercado ainda não incorporou o impacto e a responsabilidade de ser sustentável. “Economicamente falando, o conceito de sustentabilidade precisa amadurecer ainda.”

Ele também espera que a política nacional de resíduos sólidos contribua para melhorar a captação de sua matéria-prima principal: as garrafas de PET. Por conta da falta de estrutura na coleta, as embalagens que poderiam ter uma destinação adequada seguem para aterros. “Acreditamos que as ações da PNRS devam reverter esse quadro e, teoricamente, esse material deva retornar para o mercado.”

 

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