Reciclagem: Restrições chinesas abrem caminho para mudanças

Plástico Moderno - Ao parar de receber lixo plástico, China aumentou pressão no setor
Ao parar de receber lixo plástico, China aumentou pressão no setor

Em janeiro, o governo da China anunciou medidas para banir ou restringir a produção, vendas e uso de produtos plásticos descartáveis, seguindo um plano de três estágios, a ser desenvolvido nos próximos cinco anos, conforme instruções conjuntas da Comissão de Reforma e Desenvolvimento Nacional e do Ministério da Ecologia e do Ambiente.

A política a implantar proíbe explicitamente a produção e vendas de artefatos, incluindo sacolas de filmes ultrafinos, com espessura inferior a 0,025 mm, e filmes agrícolas para mulching mais finos que 0,01 mm.

Além disso, até o fim deste ano, serão descontinuadas a produção e vendas de utensílios de mesa feitos de espuma plástica, cotonetes descartáveis com hastes plásticas, bem como a produção de produtos de uso diário que contenham microesferas de plástico.

Até o fim de 2020, sacolas plásticas não-degradáveis serão proibidas nas grandes cidades chinesas, e o alcance dessa medida será ampliado gradualmente em 2022 e 2025.

No caso de itens descartáveis de mesa, os canudos plásticos serão banidos das refeições prontas em todo o país até o fim deste ano. Os pratos, travessas, copos e talheres serão banidos das grandes cidades no mesmo prazo, com previsão de ampliar a área de proibição até 2022. Por volta de 2025, o consumo desse tipo de descartáveis plásticos deverá ser reduzido em 30% nas cidades menores.

Até dezembro de 2022, os hotéis classificados com estrelas de toda a China deverão parar de oferecer produtos de conforto embalados em plásticos descartáveis aos seus hóspedes. A medida deverá ser adotada pelos demais tipos de hospedarias até o fim de 2025.

Até o fim de 2022, as principais províncias e cidades chinesas (Pequim, Xangai, Guangdong, Fujian, Jiangsu e outras) serão proibidas de usar sacolas plásticas descartáveis e sacolas de tecido plástico para entregas expressas. Além disso, a quantidade aplicada de fitas adesivas deverá ser reduzida. Essas medidas deverão ser estendidas para todo o território até dezembro de 2025.

Essas medidas foram relatadas por John Richardson, consultor sênior para a Ásia da consultoria internacional Icis. “Tudo isso começou com as pesadas restrições impostas pela China em janeiro de 2018 contra a importação de resíduos plásticos mistos e altamente contaminados; foi o primeiro sinal importante de que a China, como parte de um maior comprometimento ambiental, estava considerando seriamente o problema do lixo plástico”, comentou. A justificativa imediata para essas medidas foi proteger a saúde dos trabalhadores do setor de reciclagem, uma vez que a China havia se tornado o local de despejo do lixo plástico produzido no Ocidente.

Como relatou o consultor, conversas subsequentes de altos executivos do setor petroquímico com autoridades chinesas indicaram que o país queria ir além, atacando o problema muito maior do lixo plástico produzido internamente. “O problema é que os resíduos plásticos contribuem para agravar a escassez de água potável na China, uma vez que grandes quantidades desses materiais acabam se acumulando nos rios”, salientou.

Na ocasião ficou claro que medidas como o banimento de descartáveis plásticos seriam adotadas. “Paralelamente, há informações de que a China pretende modernizar seus negócios com reciclagem de plásticos como forma de reduzir sua dependência de resinas virgens importadas e, também, de adicionar valor para a sua economia”, disse Richardson. “A atual indústria de reciclagem chinesa é, de forma geral, altamente desorganizada e ineficiente.”

A demanda chinesa por polímeros ou transformados plásticos é a maior do mundo e o seu crescimento também é o maior. A China é o maior mercado importador de polímeros do mundo, especialmente de polietilenos, e aproximadamente a metade dessa demanda está nos produtos descartáveis. “Dessa forma, qualquer coisa que aconteça na China tem efeitos relevantes no mercado global dos plásticos”, afirmou o consultor.

Mudar a reciclagem – A resposta dos governos à onda atual da “plastifobia” é o aperto das regulações, nem sempre produzindo os resultados esperados. Em vez de demonizar os polímeros sintéticos, seria melhor dedicar mais recursos para melhorar a reciclagem dos materiais e acabar com o seu uso indevido.

Durante a conferência Icis sobre Reciclagem, realizada em Berlim (Alemanha), em novembro passado, Paul Hodges, presidente da E-Chem International, alertou que há muita coisa a fazer em pouco tempo. “Os paradigmas da indústria estão mudando. Os plásticos descartáveis ficarão na berlinda durante os próximos anos e os modelos de negócios simplesmente precisarão mudar”, defendeu.

O problema, para Hodges, é que as pessoas entendem que é preciso reciclar, mas não sabem como fazê-lo. “Nós não temos tecnologia disponível, não temos sistemas de coleta ajustados; precisamos deixar de jogar o lixo para longe, para aterros, e em vez disso focar no desenvolvimento de centros de recursos materiais, com base em redes distribuídas de plantas locais de reciclagem química”, afirmou. A mudança para o modelo com pequenas unidades de reciclagem está no horizonte do setor, mas ainda é uma opção incipiente.

A ReNew ELP lidera o processo tecnológico e está no estágio final de desenvolvimento da primeira de quatro linhas de reciclagem química, para 20 mil t/ano cada. Ela aplica a tecnologia própria Cat-HTR que, segundo o diretor Richard Daley, “adota um processo inédito de hidrotratamento, usando água em estado supercrítico para quebrar os polímeros e gerar substâncias químicas e óleos úteis, de alto valor”.

O processo da ReNew é alimentado por resíduos plásticos que são rejeitados pela reciclagem mecânica, como filmes flexíveis multicamada, sendo portanto um complemento a esse processo tradicional.

O editor sênior da Icis Mark Victory considera que “a reciclagem química é a melhor em teoria, mas há problemas com o custo e faixa de aplicação. O método também enfrenta os mesmos desafios da coleta de resíduos e ainda levará de cinco a dez anos para que exista uma recuperação química em larga escala, em uma visão otimista”.

Victory também aponta um grande problema: a coleta de resíduos não é suficientemente grande. As autoridades municipais no Ocidente perderam recursos financeiros desde a crise econômica de 2009 e a infraestrutura desse serviço não acompanhou a evolução e a complexidade do setor de embalagens. O problema aumentou com a decisão da China de não mais receber o lixo plástico de outros países. Isso levou ao aumento da taxa de contaminação dos resíduos plásticos nos países ocidentais de 25%, em 2009, para 35%, hoje, no caso do PET.

“Temos apenas 18 meses para apresentar uma solução para isso”, alertou Hodges. “Se não o fizermos, os donos das grandes marcas mundiais nos dirão: ‘veja, nós temos um compromisso com os consumidores de acabar com esse problema até 2025 e vocês não estão se mexendo, então nós precisamos fazer alguma outra coisa’. Então, o problema precisa ser resolvido em cinco anos e nós ainda não sabemos o que fazer”, disse.

Ele sente que os donos de marcas precisam ter certeza de que o problema dos plásticos estará endereçado até 2025 e querem garantias de que a indústria participará do esforço global. “Precisamos dizer para eles que nós escolhemos a melhor tecnologia, o modelo de negócios e também as fontes de financiamento, portanto, confiem em nós, vamos entregar a solução e vocês podem entregar o que prometeram”.

Helen McGeough, analista sênior para plásticos da Icis, explicou que “embalagens plásticas estão muito mais complexas do que nunca, as embalagens modernas foram além da funcionalidade para se tornarem ferramentas de marketing, mas nós precisamos voltar para um passo anterior, mais simples, e estimular a aplicação de conceitos de reciclagem desde o design”.

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DOIS CENÁRIOS PARA A DEMANDA CHINESA POR PE (em milhões/t)

Ela salientou que a União Europeia editou a Diretiva de Plásticos Descartáveis que exige taxas mais altas de coleta para garrafas de PET do que a registrada em 2018, de 63%. “A taxa de coleta varia muito em cada país da UE, bem como há uma falta de padronização do PET reciclado e isso representa desafios e também oportunidades”, considerou.

Victory apontou que o setor exige elevados investimentos para envolver toda a cadeia de produção. “Não pode haver reciclagem se não há coleta estruturada”, disse. Além disso, é preciso educar as pessoas, mostrando a elas as diferenças entre os diversos tipos de plásticos e o que fazer com eles após o uso.

Para Hodges, a indústria precisa bancar esses investimentos. “Os valores que a indústria do plástico está dedicando para isso representam quase nada, 25 milhões aqui, 10 milhões ali, vamos lá, pessoal, estamos falando de um setor que movimenta cem bilhões de dólares por ano. Vocês não podem começar com moedinhas”, provocou.

Ele defende que o setor precisa mudar de mentalidade, deixando de lado o modelo de grandes recicladoras mecânicas em favor de pequenas plantas de reciclagem química com alcance regional. “O novo modelo de negócios é de baixa escala e atuação local, durante os últimos 30 ou 40 anos só falamos de grandes unidades, isso será uma virada de jogo completa”, finalizou.

Texto: Icis, especial para PM

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