Reciclagem – Logística reversa desponta como saída para destinar e revalorizar resíduos plásticos contaminados

É fato que a indústria brasileira alcançou índices invejáveis para a reciclagem de materiais plásticos. Estudo da Plastivida Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos, divulgado no final do ano passado, situa o país entre os dez maiores recicladores mundiais desses resíduos pós-consumo, com um índice de 21,2%, aferido em 2007, quando quase um milhão de toneladas foram recicladas. Considerados os rejeitos industriais e de pós-consumo, a atividade de reciclagem cresceu à média anual de 9,2%, no período de 2003 a 2007. Projetos arrojados, ainda embrionários, como os empreendidos pela indústria dos compósitos termofixos, e outros bem articulados, como o do segmento de agroquímicos, prometem melhorar esse quadro. Há casos complicados, como o das embalagens pós-uso de óleos lubrificantes, geradas em larga escala no país, sem, contudo, um sistema de destinação adequada na mesma proporção.

Plástico Moderno, Reciclagem - Logística reversa desponta como saída para destinar e revalorizar resíduos plásticos contaminados
Rando: programa do inpEV atingiu ótimos resultados

Bem articulado, o trabalho capitaneado pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV) – entenda-se pós-consumo – representa uma experiência bem-sucedida para destinação e reciclagem de embalagens que requerem uma solução mais complexa, ao tratar de invólucros que acondicionam produtos considerados periculosos (tais como as de óleos lubrificantes).

Essa entidade representa a indústria fabricante de defensivos agrícolas em sua responsabilidade de destinar as embalagens pós-uso de seus produtos. Possui atualmente 77 empresas associadas. “Envolve praticamente 100% dos produtos agroquímicos”, comemora o diretor-presidente do inpEV, João Cesar M. Rando. Amparado por uma legislação federal (Lei nº 9.974/2000), que atribui obrigações ao agricultor, ao canal de distribuição, ao fabricante de defensivos agrícolas e ao poder público, o inpEV tem obtido ótimos resultados.

O programa gerenciado pelo inpEV mereceu reconhecimento internacional. No final do ano passado, Rando participou de um encontro global, organizado na Polônia, pela CropLife International, federação que congrega a indústria de produtos fitossanitários.

Para o presidente do instituto, os representantes de vinte países com programas semelhantes ficaram impressionados com os resultados do sistema brasileiro, elogiaram sua eficácia e o reconheceram como o melhor modelo.

No ano passado, a cadeia agrícola unida retirou do meio ambiente e deu destinação adequada a 24,4 mil toneladas de embalagens pós-consumo de defensivos agrícolas, volume 15,6% superior ao total de 2007. Essa soma engloba embalagens rígidas plásticas e metálicas, além das flexíveis, correspondentes a sacos plásticos, de papel ou alumínio (geralmente usados para formulações em pó). As plásticas rígidas representam em torno de 60% do total, nas estimativas de Rando, algo em torno de 20 mil toneladas/ano, composto por PEAD, PP e coextrudadas.

Todas as embalagens secundárias, as flexíveis e as rígidas que não utilizam água como veículo de pulverização, são consideradas não-laváveis. Mas esse volume é pequeno: 7,4% do total direcionado pelas unidades de recebimento. Mesmo assim, elas também devem ser devolvidas para encaminhamento e destinação adequada (seguem para a incineração, em locais licenciados). No caso dos plásticos, apenas os flexíveis não são tecnicamente laváveis.

A legislação estabelece a devolução tanto das embalagens primárias (70% do total), aquelas de contato direto com os fitossanitários, como as secundárias, em geral de papelão, que acondicionam as primárias. “A taxa de retorno ainda é baixa para as embalagens secundárias”, admite Rando. De todo o volume recolhido, ele estima retirar do meio ambiente 80% das embalagens utilizadas pelo setor, com índice de 95% das primárias.

Desde março de 2002, quando o instituto entrou em funcionamento, até setembro do ano passado, foram investidos mais de R$ 270 milhões no projeto. Nesse período, a destinação correta abarcou mais de 100 mil toneladas de embalagens.

A cada elo o seu papel – Cabe ao agricultor a responsabilidade de lavar (lavagem tríplice ou sob pressão), inutilizar as embalagens, perfurando o fundo (para evitar o reúso), e devolvê-las ao local licenciado para o recebimento, indicado pelo revendedor, distribuidor ou cooperativa na nota fiscal. No ato da devolução, o agricultor recebe um comprovante.

Plástico Moderno, Reciclagem - Logística reversa desponta como saída para destinar e revalorizar resíduos plásticos contaminadosTambém deve encaminhar as tecnicamente não-laváveis e as secundárias. O procedimento da lavagem tríplice reduz a substância química residual nas embalagens a menos de cem partes por milhão, teor considerado não-tóxico. As que não foram tríplice-lavadas pelos agricultores são direcionadas para a incineração.

Os canais de distribuição, por seu turno, devem indicar o endereço de devolução na nota fiscal de venda, disponibilizar e gerenciar local de recebimento e, ainda, orientar e conscientizar os agricultores. Representada pelo inpEV, a indústria produtora de defensivos agrícolas assume toda a administração do transporte, promovendo a coleta e a destinação dos volumes às recicladoras ou incineradoras. “A indústria faz toda a logística de retirada e de dar destinação correta a essas embalagens”, informa o presidente do inpEV.

O sistema conta com 388 unidades de recebimento autorizadas, onde os frascos descartados são inspecionados, separados e destinados. O material recolhido segue para os postos ou direto para uma unidade central. Os primeiros constituem unidades menores, geridas por uma associação de distribuidores ou cooperativas, que recebem, inspecionam e encaminham as embalagens para uma unidade central, também gerida por uma associação de distribuidores ou cooperativas, com o cogerenciamento do inpEV. Nas centrais, além de todo o processo de inspeção e separação, a atividade inclui ainda a compactação das embalagens. Vantagem: um caminhão de material compactado equivale a seis de produto a granel. O transporte dos fardos de embalagens para o destino final – a reciclagem ou a incineração – é responsabilidade do inpEV.

O sistema envolve a parceria com dez empresas, localizadas em Mato Grosso, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e São Paulo, credenciadas a reciclar o material encaminhado pelas centrais e transformá-lo em embalagens para óleos lubrificantes e ainda em peças tais como tubos para esgoto, bombonas, conduítes e dutos corrugados, caixas para fiação elétrica e saco plástico de descarte e incineração de lixo hospitalar, entre outras. Mas só são fabricados produtos orientados e aprovados pelo inpEV, que prioriza artefatos para uso industrial.

As empresas recicladoras precisam ser ambientalmente licenciadas, cumprir as exigências legais para o recebimento das embalagens vazias de defensivos agrícolas e atender aos requisitos de qualidade e segurança estabelecidos pelo inpEV. “Toda a cadeia é rastreadora”, ressalta Rando. O excedente de material reciclado é vendido apenas para empresas de transformação com contratos de utilização autorizados pelo instituto, o que as coloca também no processo de rastreamento.

Sem fins lucrativos e instituído para cumprir a legislação, o sistema – integralmente financiado por agricultores, distribuidores, cooperativas e a indústria fabricante dos agroquímicos – beneficia o meio ambiente, porém é deficitário. Por essa razão, uma das preocupações da direção do inpEV é buscar mecanismos que tornem o programa autossustentável. O ganho ambiental proporcionado pelo sistema foi mensurado em estudo encomendado pelo inpEV e realizado pela Fundação Espaço ECO. A pesquisa apontou economia de 300 mil barris de petróleo, em cinco anos, e redução de 130 mil toneladas na emissão de CO2 na atmosfera, ganho atribuído ao modelo logístico adotado.

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Material revalorizado compõe nova embalagem multicamadas para agroquímicos

Para este ano, a estimativa do diretor-presidente do inpEV para o programa é de destinar 30 mil toneladas. Essa perspectiva, porém, dependerá de como a crise financeira afetará o mercado brasileiro de agroquímicos.

Ciclo fechado – Inaugurada em junho do ano passado, a Campo Limpo Reciclagem e Transformação de Plásticos S.A. movimenta mais um passo na consolidação do projeto desenvolvido pelo inpEV. Idealizada pelo instituto, a empresa deve cumprir o objetivo de fechar o ciclo de gestão das embalagens pós-consumo de defensivos agrícolas e promover a autossustentabilidade do sistema. “Seu papel é complementar o conjunto e produzir embalagens para envase de agroquímicos”, declara Rando, também diretor-presidente da recicladora.

Os invólucros produzidos pela Campo Limpo resultam de tecnologia para sopro multicamadas sem barreira e atendem às especificações determinadas pelo Ministério da Agricultura, além de certificação das Nações Unidas. “A indústria fecha o ciclo e busca a atuação sustentável”, pondera o diretor-presidente. Na opinião dele, a produção de embalagens plásticas rígidas provenientes da reciclagem e transformação dos invólucros pós-uso de agrotóxicos constitui uma experiência única no mundo e ainda soma ponto extra ao possibilitar o seu uso até mesmo na própria indústria de defensivos agrícolas.

A recicladora opera dentro de conceitos de ecoeficiência e se dispõe a atuar como um centro de desenvolvimento de novas tecnologias voltadas à reciclagem. Em consonância com sua proposta, a construção expressa as preocupações de cuidados com o meio ambiente: possui uma moderna estação de tratamento de efluentes, sistema de reaproveitamento da água da chuva e uso racional da luz solar.

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Embalagens de defensivos viram tubos de drenagem

Por ora, a Campo Limpo recicla as embalagens e as transforma em pellets. Sua capacidade instalada alcança 4.500 toneladas/ano, com projeção de transformar em frascos em torno de 60% a 70% desse volume, quando o projeto estiver concluído. Rando planeja iniciar ainda no primeiro trimestre deste ano a nova atividade, para a qual investiu em torno de R$ 6 milhões na aquisição de sopradoras da Bekum. A quantidade de embalagem produzida nesta primeira etapa não foi definida. “Ainda estamos estudando os volumes”, comenta. Segundo ele, os equipamentos permitem soprar multicamadas de diversas composições, com porcentagens variadas de resina reciclada e virgem.

A Campo Limpo opera em toda a sua capacidade e comercializa a resina revalorizada para empresas parceiras, nas quais o material é transformado em vários tipos de artefatos, tais como tubos diversos, conduítes, embalagens para óleos combustíveis, óleos lubrificantes, caixas de construção civil, entre outras. Até o momento, a recicladora absorveu recursos de R$ 12 milhões, com previsão de demandar ainda outros R$ 19 milhões até 2011.

Projetos para os lubrificantes – Os frascos de PEAD pós-uso desses óleos, contaminados com esses residuais (de acordo com a ABNT NBR 10.004 – Resíduos Sólidos – Classificação, essas embalagens plásticas com residuais são identificadas como classe I, perigosas), constituem outro problema ambiental: poluem a água e o solo, e sua destinação ainda busca uma solução concreta e efetiva, a exemplo da encontrada pela indústria dos agroquímicos. Medidas nesse sentido ganham corpo e um dos melhores resultados destaca o Rio Grande do Sul, onde há mão  firme da legislação e forte atuação do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom). A portaria 001/2003-SEMA/FEPAM, publicada no Diário Oficial do Estado em 13/05/2006, dispõe sobre os procedimentos para licenciamento das atividades de recebimento, armazenamento e destinação final dos invólucros de lubrificantes descartados.

Plástico Moderno, Vilson Trava Dutra Filho, do Serviço de Emergência Ambiental (Seamb) da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), Reciclagem - Logística reversa desponta como saída para destinar e revalorizar resíduos plásticos contaminados
Dutra: regulamentação do programa deu bons frutos

Designado para acompanhar o processo, o engenheiro químico Vilson Trava Dutra Filho, do Serviço de Emergência Ambiental (Seamb) da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), relata, porém, que apenas a publicação dos procedimentos não bastou para resolver a questão. Muitas reuniões com sindicatos e distribuidores depois, a regularização do programa deu bons frutos.

De acordo com Dutra, a portaria estabeleceu, na prática, o licenciamento do sistema de coleta, armazenagem e destino final das embalagens pós-consumo dos fabricantes e distribuidores, enquanto o comércio varejista (postos, lojas de autopeças e supermercados), o de trocas de óleo e os consumidores finais da indústria e da prestação de serviços apenas armazenam as embalagens. O fluxo segue a direção inversa da distribuição do produto.

Hoje, são 21 os fabricantes de óleo cadastrados: 14 possuem licença de operação em vigor, alguns estão em fase de regularização e outros desistiram de comercializar no Rio Grande do Sul. Dos autorizados, oito atuam com o Sindicom e seis possuem recolhimento próprio. Os vinculados ao Sindicom destinam as embalagens para quatro recicladoras autorizadas: Mauser, no Rio de Janeiro; Cimflex, em Maringá-PR; Bressan, em Canoas-RS; e Tamborsul, em Gravataí-RS. Os fabricantes que possuem recolhimento próprio endereçam os frascos pós-uso para a Winck Industrial de Embalagens, licenciada de Gravataí. Dutra contabiliza ainda 55 distribuidores cadastrados, trinta dos quais licenciados para recolher e devolver às centrais dos fabricantes as embalagens pós-uso.

A MB Engenharia recebe os frascos dos fabricantes associados ao Sindicom e a Winck, de todos os outros. A primeira possui contrato com o Sindicom para a coleta, transporte e armazenagem temporária das embalagens, depois encaminhadas para disposição final nas recicladoras igualmente homologadas pelo sindicato. Empresa de reciclagem, a Winck revaloriza os frascos recolhidos e emprega o material na fabricação de novas embalagens para produtos sanitários, químicos e mesmo de óleo lubrificante.

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De acordo com o engenheiro da Seamb/Fepam, o sistema é controlado por meio dos relatórios anuais solicitados nas licenças ambientais dos fabricantes e distribuidores, e também pelos comprovantes de recolhimento que os usuários finais (postos de combustíveis, indústrias, serviços) devem apresentar no seu licenciamento. As ações, porém, não alcançam ainda o comércio varejista de baixa escala, como lojas de acessórios, de peças e oficinas mecânicas. “Temos prováveis perdas também nos usuários da agricultura, mas o programa está chegando lá por meio das licenças das atividades rurais”, diz.

Os relatórios encaminhados pela MB à Fepam informam a evolução da coleta mês a mês e ano a ano. Desde o início da coleta, em junho de 2005, até o final do ano passado, a empresa recolheu em torno de 1,7 milhão de toneladas. Em 2008, o volume atingiu quase 585 mil toneladas; contra cerca de 548 mil toneladas de 2007. Em quantidade de embalagens, a MB recolheu no período um total estimado em 30,23 milhões, ao peso médio de 55,5 gramas por unidade. Os números representam os fabricantes vinculados ao Sindicom. A MB possui depósitos de escorrimento (de óleo), prensagem e estocagem das embalagens em Canoas, sua central; em Caxias do Sul, em Passo Fundo e em Santa Maria, todos municípios do Rio Grande do Sul.

O comparativo do volume de embalagens pós-uso de óleo lubrificante recicladas pela Winck em 2007 e em 2008 surpreende pelo avanço. A empresa recebeu e reprocessou 2.584 quilos em 2007 e mais que dobrou a quantidade no ano passado, quando transformou 5.740 quilos do material.

A operação da Seamb/Fepam tem por meta aperfeiçoar o sistema ano a ano. “Tentamos identificar os pontos de estrangulamento nos relatórios dos próprios fornecedores e distribuidores. Planejamos fazer um balanço entre março e abril”, relata Dutra. Na visão dele, a regulamentação permite gerar quantidade estável de matéria-prima, motivação para atrair empresas interessadas na reciclagem.

Outros estados – A iniciativa do Sindicom para coleta de frascos pós-uso de óleos lubrificantes também contemplou a cidade do Rio de Janeiro, com o programa Jogue Limpo, implantado em 2003. Os invólucros recolhidos aí seguiam para reciclagem na Mauser, que fechava o ciclo reutilizando o material na fabricação de novas embalagens para lubrificantes. Procurada, a empresa não atendeu a esta reportagem.

O Sindicom é figura fundamental para amarrar o projeto do sistema de coleta e destinação correta das embalagens descartadas dos óleos lubrificantes em âmbito nacional e sustentar a sua decolagem, como ocorreu no Rio Grande do Sul.

A política de logística reversa embute um alto custo, que dificulta a adoção do sistema, mas não é o único empecilho. A verdade é que algumas medidas só ganham impulso com uma legislação bem estruturada e direcionada, aliada a ações corretamente norteadas pelos segmentos envolvidos. Tal foi o caminho que conduziu à implantação do modelo bem-sucedido de logística reversa para destinação das embalagens pós-uso da indústria de agroquímicos e do processo adotado para as embalagens de óleos lubrificantes no estado do Rio Grande do Sul. Há indícios de que seja esse o trajeto que o Sindicom planeja traçar para outros estados. Pela falta de definições concretas, a entidade preferiu não se manifestar sobre o andamento do projeto. Sabe-se apenas que busca uma vertente única de atuação e de legislação.

Plástico Moderno, Vladimir Kudrjawzew, presidente da Wisewood, Reciclagem - Logística reversa desponta como saída para destinar e revalorizar resíduos plásticos contaminados
Kudrjawzew espera coletar 30 t mensais de frascos

O Jogue Limpo foi implantado recentemente no Paraná, onde o programa envolveu o Sindicom, o Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis, Derivados de Petróleo e Lojas de Conveniência do Paraná (Sindicombustíveis), a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, e o Ministério Público Estadual. Ainda embrionário (foi lançado oficialmente no início de junho do ano passado), a última estatística, divulgada pela agência de notícias do governo do Paraná, data de outubro e contabiliza recolhimento mensal da ordem de 60 mil embalagens, equivalente a 12 toneladas de plástico, na Grande Curitiba e no Litoral. O programa envolve 600 pontos de coleta, com 18 postos, concessionárias e oficinas. Os frascos inutilizados recolhidos são encaminhados a uma central de reciclagem licenciada pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP).

Operação piloto – A região de Campinas começará em breve um projeto com perspectivas de garantir coleta mensal da ordem de 30 toneladas de frascos pós-uso de óleos lubrificantes. Essa meta deve ser obtida após três meses de operação, nas previsões de seus empreendedores: a Oil Pack e a Wisewood, ambas atuantes desde julho do ano passado. Inicialmente, a coleta abrangerá 160 postos. A operação envolve parceria com o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Campinas e Região. “O piloto tem por objetivo conhecer os custos”, comenta Plínio Ghirello Filho, da área comercial e de suprimentos da Wisewood.

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Dormente de “madeira” plástica dura cinquenta anos

Após a fase inicial de teste (os primeiros três meses), a empresa planeja dobrar o volume de plástico arrecadado.

A ideia é expandir o projeto para toda a região e estender a coleta também para oficinas mecânicas e concessionárias, entre outros locais. ”Nossa projeção é de, ainda neste ano, recolher entre 600 e 800 toneladas mensais”, ambiciona o presidente da Wisewood, Vladimir Kudrjawzew.

Em parceria com o Instituto de Macromoléculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IMA/UFRJ), a empresa desenvolveu uma tecnologia na qual uma parcela do óleo residual é incorporada na massa polimérica, por meio de um processo denominado extrusão reativa, transformando-a em um composto de material plástico com características de madeira, batizado de “madeira plástica”. Trata-se de um composto de blendas formulado com resinas recicladas, aditivos e fibras. “O resultado é um produto melhor que o carvalho nas propriedades mecânicas e de compressão, em especial. O carvalho só supera na flexão”, compara Kudrjawzew.

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Plástico é boa opção para estacas de tutoramento

Esse composto tem como destinação principal a fabricação de dormentes para estradas de ferro (daí a comparação com o carvalho, madeira mais usada nessa aplicação). Atualmente, a empresa usa sucata comprada no mercado, proveniente de diversos tipos de frascos de PEAD para atender às suas necessidades. A intenção, porém, é utilizar 100% de embalagens pós-uso de óleo lubrificante.

“A tecnologia desenvolvida em parceria com o IMA tem especificamente essa finalidade”, ressalta o diretor de pesquisa e desenvolvimento, Eidi Marcos Fujimaki. Porém, o composto pode ser usado, ainda, na fabricação de pallets e em outra aplicação bem interessante, em desenvolvimento: estacas para tutoramento de plantios.

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Composto de reciclados também compõe pallets

A Wisewood instalou 400 dormentes para teste na malha ferroviária da Região Sudeste, para transporte de minério. Existem projetos para implantação de mais mil deles. “A dificuldade é vencer a cultura do uso da madeira”, comenta o presidente da empresa. O avanço do produto, porém, deve ir além do preconceito e esbarrar na crise econômica. “Os negócios das ferrovias estão deprimidos, com demissão de pessoas e faturamento em queda”, lastima.

A despeito dos problemas, o presidente da Wisewood se anima com o propósito ecológico do seu negócio e ressalta a sua vantagem tecnológica, um diferencial ante as poucas alternativas para reciclar os frascos pós-uso de óleos lubrificantes e ao elevado custo para a descontaminação dessas embalagens.

Os dormentes plásticos custam mais: cerca de três vezes os de madeira nacional e uma vez e meia em relação aos importados. Embutem, porém, um cunho ecológico considerável, além de elevada durabilidade: cinquenta anos sem manutenção. “A nossa proposta abrange questões do meio ambiente, de destinação dos resíduos – questão social dos centros urbanos, pois os resíduos estão nesses locais – e também da malha ferroviária, em relação às necessidades de volume para sua manutenção”, argumenta Kudrjawzew.

A empresa possui capacidade instalada para transformar até mil toneladas mensais e está estruturada para dobrar esse volume em menos de seis meses.

Plástico Moderno, Reciclagem - Logística reversa desponta como saída para destinar e revalorizar resíduos plásticos contaminados

Os frascos colocados na esteira seguem para o processo de limpeza, com tensoativos específicos, que reduzem o óleo residual a taxas mínimas, da orem de 0,1%. A Resina valorizada segue para as instalações da Prior Pack, onde alimenta as sopradoras encarregadas de fabricar embalagens para acondicionar produtos de limpeza. Reciclados de tons escuros entram na camada interior dos frascos coextrudados.

Plástico Moderno, Flavia C. Araújo, diretora-industrial e proprietária da Reciart, Reciclagem - Logística reversa desponta como saída para destinar e revalorizar resíduos plásticos contaminados
Flavia se orgulha de retirar resíduos tóxicos do ambiente

Ganho social e de custo – Há três anos no mercado, a Reciart nasceu com o propósito de encontrar uma solução de menor custo para a sua parceira Prior Pack, fabricante de produtos de limpeza e de embalagens, cuja capacidade de transformação de frascos atinge 200 toneladas mensais. Hoje, no entanto, processa cerca de 100 t/mês. A Reciart brotou dentro da Prior Pack e, embora sejam empresas independentes, compartilham um mesmo terreno em Indaiatuba-SP.

Sai das dependências da Reciart toda a resina usada pela Prior Pack na produção de seus frascos, totalmente moldados com material reciclado, 30% procedente de embalagens pós-uso de óleos lubrificantes. Autorizada pela Cetesb, a Reciart processa mensalmente 30 toneladas de polietileno oriundo de dois parceiros  de logística reversa atuantes com frascos inutilizados de óleos: a Mazola, de Valinhos-SP, e a Supply Service, de Tapiraí-SP. O abastecimento de recicláveis se completa com sucata advinda de cooperativas, que ainda hoje embutem alguns frascos de óleo nos fardos. A capacidade de reciclagem da Reciart chega a 300 toneladas mensais, que poderia ser ocupada com o produto da logística reversa.

A diretora-industrial e proprietária da Reciart, Flavia C. Araújo, tem a segurança da destinação correta desse material reciclado ao fornecer, hoje, com exclusividade para a Prior Pack. O interesse por essas embalagens surgiu logo no início das atividades da empresa, ao se deparar com grande quantidade delas no meio da sucata adquirida das cooperativas. “Cerca de 30% do material dos sucateiros era desses frascos”, contou. Hoje, a contaminação nos fardos ainda existe, mas é mínima.

Flavia viu, então, nas embalagens de óleo, uma oportunidade de trabalhar com um diferencial e ainda contribuir para aliviar o meio ambiente de resíduos tóxicos. De acordo com o engenheiro da equipe da Reciart, Sérgio Luiz Pinto, mesmo escoadas (passam por processo prévio de escoamento nos postos de coleta), são altamente contaminantes, pois ainda retêm entre 3% e 5% de óleo residual sobre o peso do frasco.

Plástico Moderno, Sérgio Luiz Pinto, engenheiro da equipe da Reciart, Reciclagem - Logística reversa desponta como saída para destinar e revalorizar resíduos plásticos contaminados
Pinto: água tratada retorna ao sistema para limpeza dos frascos

Flavia acionou sua equipe e correram atrás de uma tecnologia que permite extrair o máximo possível do óleo residual. Hoje, a recicladora consegue uma dosagem final da ordem de 0,1% – índice que não compromete a reutilização do produto reciclado. “O segredo está no processo de limpeza, com o uso de tensoativos específicos que propiciam a extração do óleo residual”, explica Flavia.

A parceria com a Prior Pack envolveu também investimentos desta em equipamentos de sopro para coextrusão, processo que possibilita dar uma destinação correta para a resina reciclada de tons escuros provenientes dos frascos de óleo, aplicada na camada interior das embalagens.

A Reciart também investiu em um diferencial para o seu sistema de tratamento de efluentes, desenvolvido em conjunto com especialistas da Unicamp. “O objetivo era reciclar essa água, na separação da água do lodo; essa água retorna ao processo para limpeza dos frascos”, conta o engenheiro.

Os parceiros da logística reversa entraram no esquema mais recentemente, há cerca de um ano. Os planos da diretora, agora, se voltam para a busca de mais fornecedores de embalagens de óleos lubrificantes e de novos parceiros interessados em fabricar frascos de óleo lubrificante com o reciclado oriundo desse mesmo mercado e fechar o ciclo.

 

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2 Comentários

  1. Boa tarde, gostei muito de ver esse tipo de reaproveitamento de resíduos,gostaria de saber se poderia ser feito estacas que pudessem ser utilizadas no cultivo da pimenta do reino e qual seria o preço da mesma.

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