Reciclagem: Escassez de materiais de pós-consumo prejudica o desenvolvimento do setor

Plástico Moderno, Reciclagem: Escassez de materiais de pós-consumo prejudica o desenvolvimento do setor
Razões econômicas, ambientais ou legais – e, provavelmente, uma conjugação de todas as anteriores –, tornaram a reciclagem dos mais diversos materiais vertente obrigatória de qualquer atividade industrial. No caso do plástico, não são recentes os dados estatísticos disponíveis dessa atividade (os mais atuais se referem a 2012, veja quadro); porém, conversando com representes de entidades e empresas do setor, conhecendo seus projetos e suas perspectivas, ouvindo-os falar sobre novos usos de plásticos reciclados, rapidamente se percebe que também nessa indústria a reciclagem segue adiante e avançará muito mais.

Plástico Moderno, Contesini: governo ainda não fez sua parte na PNRS
Contesini: governo ainda não fez sua parte na PNRS

É razoável supor que a entrada em vigor, no decorrer deste ano, da PNRS (Política Nacional de Resíduos Sólidos), acelerando ainda mais esse avanço. Afinal, entre outras coisas essa lei determina aumento da coleta seletiva e simultânea redução da quantidade de resíduos sólidos destinados a aterros sanitários. Isso aumentaria a disponibilidade de material plástico apto à reciclagem e talvez pudesse minimizar a elevada ociosidade média – 36%, pelos dados de 2012 –, com a qual trabalham as empresas do setor.

Mas a realidade não é bem essa e são ainda grandes as dificuldades de obtenção de material plástico capaz de atender, quantitativa e qualitativamente, às necessidades dos recicladores, que creditam parcela relevante da responsabilidade por esse problema ao fato de não estar a nova legislação sendo cumprida, principalmente por quem a estabeleceu: o poder público.

Essa carência de matéria-prima se manifesta de maneira nítida no segmento do PET, onde já é bem elevado o índice reaproveitamento da resina: pelas estimativas da Abipet (Associação Brasileira da Indústria do PET), o Brasil já recicla cerca de 60% das embalagens produzidas com esse plástico; porém, para atenderem à demanda que lhes é dirigida, algumas empresas até importam flakes de PET de países como Paraguai e Bolívia. “A PNRS foi muito aguardada por todos, mas o governo ainda não cumpre sua parte nessa lei”, critica Hermes Contesini, responsável pela área de relações com o mercado da Abipet.

Plástico Moderno, Silva: fábrica duplicará para atender demanda de clientes
Silva: fábrica duplicará para atender demanda de clientes

A escassez abrange também outros gêneros de polímeros, e a Neuplast – que recicla PP, PEAD e PEBD em Guarulhos-SP –, estruturou um departamento de compra de sucata no qual há pessoas constantemente viajando pelo Brasil na busca de potenciais fornecedores. Não raramente, essa empresa também envia profissionais para capacitar fornecedores de outras regiões que sejam promissoras. “Considerando qualidade, volume e preços, trazemos sucata de todo o Brasil”, relata Paulo Francisco da Silva, diretor-comercial e de novos desenvolvimentos da Neuplast.

José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), vê nas deficiências da coleta seletiva e na educação inadequada da população para o correto descarte de materiais passíveis de reaproveitamento o grande gargalo da indústria brasileira da reciclagem. Porém, segundo ele, “apesar desses problemas, essa indústria alcança bons níveis de qualidade de seus reciclados, principalmente com a incorporação de aditivos que modificam os materiais e aumentam a qualidade, e com a separação adequada dos materiais plásticos na própria indústria”.

Para essa tarefa da separação dos materiais, especifica o presidente da Abiplast, existem equipamentos capazes de realizá-la com elevada precisão e, assim, garantir boa qualidade para o produto final, evitando contaminações. “Seus custos ainda são elevados no país, mas há linhas de financiamento para a sua aquisição”, ressalta.

Plástico Moderno, Roriz Coelho: resina reciclada sofre tributação duas vezes
Roriz Coelho: resina reciclada sofre tributação duas vezes

Usos nobres – Apesar das dificuldades de obtenção de materiais para desempenhar suas atividades, o setor da reciclagem de plástico segue crescendo não apenas nos volumes com os quais trabalha, mas também na destinação de seus produtos a um leque maior de usos, chegando a usos mais sofisticados.

O PET reciclado, por exemplo, ainda é majoritariamente destinado ao setor têxtil, mas se expande também em aplicações como resinas para tintas ou bancos de veículos de transporte coletivo. “Ele hoje está presente também em carenagens internas de trens do metrô e em sinalização rodoviária”, acrescenta Cortesini, da Abipet.

Simultaneamente, intensifica-se aquele que é qualificado como o uso mais nobre do PET reciclado: o chamado bottle to bottle, com o qual o plástico pode ser novamente empregado em embalagens de produtos alimentícios e de bebidas (para tal aplicação o PET deve, após cumprir as etapas comuns aos demais gêneros de reciclagem desse polímero – obviamente dentro de padrões de qualidades superiores aos usuais –, permanecer durante algumas horas em atmosfera inerte, onde altas temperaturas garantirão sua completa descontaminação). No Brasil, a Anvisa (Associação Nacional de Vigilância Sanitária), autoriza o uso bottle to bottle desde 2008 e, desde então, esse mercado recebe quantidade crescente de investimentos.

Plástico Moderno, Frayha: reciclagem tem suporte econômico e também ambiental
Frayha: reciclagem tem suporte econômico e também ambiental

Uma das mais recentes dessas iniciativas proveio da multinacional de capital italiano M&G, que já produz PET virgem em Suape-PE. No final de 2013, inaugurou uma planta de reciclagem dessa resina na cidade mineira de Poços de Caldas. Agora, a M&G aguarda autorização da Anvisa para fornecer ao mercado de produção de embalagens alimentícias também a resina reciclada bottle to bottle nessa planta (antes dessa autorização, dedicada principalmente à produção de fibras de poliéster).

A nova unidade da M&G pode processar anualmente cerca de 500 milhões de embalagens, com as quais é possível produzir aproximadamente 18 mil toneladas de flake de PET. Dois terços desse total deverão seguir para a produção de R-PET (polímero reciclado), e as demais 6 mil toneladas para o mercado de fibras (nesse mesmo período de um ano, a empresa coloca no mercado nacional cerca de 500 mil toneladas de PET virgem). “Por enquanto produzimos R-PET apenas para o mercado de embalagens não-alimentícias, aguardamos a autorização formal da Anvisa para iniciarmos a venda no mercado de alimentos”, ressalta Lineu Jorge Frayha, presidente da M&G Fibras Brasil. “Todas as etapas das inspeções e avaliações técnicas já foram realizadas com sucesso e esperamos essa autorização ainda para este ano”, acrescenta.

Plástico Moderno, Linha de reciclagem da M&G instalada em Poços de Caldas
Linha de reciclagem da M&G instalada em Poços de Caldas

Já a Unnapet, unidade de produção de resina PET do grupo Unna, presente também no segmento da produção de fibras, recebeu em julho último esse aval da Anvisa para a comercialização de PET reciclado para embalagens de alimentos. Essa reciclagem será feita João Pessoa-PB, onde no final de 2012 a Unnapet inaugurou uma planta de produção de PET bottle to bottle (e onde a empresa já mantinha uma unidade de recepção de embalagens e produção de flakes desse plástico, até agora utilizados basicamente em sua unidade de produção de fibras, localizada em Santo André-SP).

De acordo com Marco Aurélio Andriolo, diretor da Unnapet, os investimentos nessa unidade de produção de PET bottlle to bottle – com capacidade de produzir 24 mil t/ano –, somaram cerca de R$ 35 milhões. Mas, apesar de já autorizada pela Anvisa, ela ainda não fornece essa resina para embalagens de alimentos: ”Estamos negociando com alguns clientes, mas eles também precisam de autorização da Anvisa para essa utilização”, justifica Andriolo. “Acredito, porém, que no início de 2015 a nova planta entrará em operação, já estamos contratando pessoal para isso, alguns já estão inclusive em treinamento”.

Plástico Moderno, Embalagem de resina reciclada nas instalações da Neuplast
Embalagem de resina reciclada nas instalações da Neuplast

Outros polímeros – Investimentos acontecem também em outros segmentos da cadeia de reciclagem de plásticos, além do PET. A Neuplast, por exemplo, nos próximos 14 meses vai duplicar sua capacidade de processamento, atualmente na casa de 1,5 milhão de t/mês. Essa ampliação, justifica Silva, decorrerá da necessidade de desenvolver projetos de logística reversa para três multinacionais, cujos produtos utilizam embalagens de BOPP com gravação, PP e PEAD. “Ela exigirá pelo menos quatro novas extrusoras”, destaca Silva.

Segundo ele, desde 2008, a Neuplast foca mais incisivamente o segmento de produtos que, embora utilizem matéria-prima reciclada, têm maior valor agregado: já forneceu plásticos para aplicações como dutos de ar condicionado e para-lamas de veículos (como peças originais de montadoras). Para obter essa diferenciação, investe em tecnologia própria: “As roscas das nossas extrusoras são customizadas, algumas bem diferentes das padronizadas, e há alteração do cálculo de área de compressão, descompressão, mistura, cisalhamento e homogeneização”, detalha o diretor da empresa.

Plástico Moderno, Balbino: PNRS estimula a fazer planos para ampliar produção
Balbino: PNRS estimula a fazer planos para ampliar produção

Já a Polibalbino, adianta o sócio-diretor Cláudio Balbino, até 2017 inaugurará uma nova planta, situada ao lado da atual, com a qual sua área passará de 2,5 mil para 5 mil m², e sua capacidade de processamento aumentará de 500 para mil toneladas mensais. “Esse projeto exigirá pelo menos mais duas extrusoras, e recursos totais da ordem de R$ 5 milhões”, detalha Balbino.

Também localizada em Guarulhos-SP, a Polibalbino se dedica a um conjunto bastante diversificado de matérias-primas: PP, PEAD, PEBD, PSAI, PA 6.6, PA 6, POM, ABS, PC, PET, TPU e TPV, entre outras. Utiliza, afirma Balbino, algumas tecnologias, como o sistema de dosagem gravimétrica, pouco comuns em recicladores instalados no Brasil. “Nenhuma empresa de reciclagem consegue hoje alcançar bom nível de qualidade nos materiais reciclados se não tiver equipe treinada, laboratórios para apoio à produção e extrusoras com tecnologia adequada para cada família de resinas”, ressalta Balbino.

Sustentabilidade x finanças – Como não poderia deixar de acontecer, a escassez da oferta pressiona os valores cobrados pelos plásticos pós-consumo: o preço das embalagens PET, especificamente, subiu muito nos últimos anos, comenta Frayha, da M&G. Com isso, e com uma conjuntura composta por real valorizado e resina virgem relativamente barata no mercado internacional, o preço do material reciclado chegou até a superar o do original. “Agora o reciclado está com um preço um pouco inferior, talvez cerca de 10%”, calcula Frayha.

Mas ele ressalta, os fatores econômicos não constituem as motivações fundamentais do investimento no mercado da reciclagem. “Esse investimento é importante primeiramente porque é parte da nossa política exercer um papel de responsabilidade social e ambiental; além disso, alguns usuários de embalagens têm na questão da sustentabilidade um apelo de marketing, daí a importância de contar também com a possibilidade de usar PET reciclado”, diz Frayha.

Plástico Moderno, Unnapet opera linha para bottle to bottle em João Pessoa
Unnapet opera linha para bottle to bottle em João Pessoa

Andriolo, da Unnapet, tem opinião similar. “O preço da resina PET reciclada é atualmente quase igual ao da virgem; mas as empresas precisam se associar às causas da sustentabilidade, além de atender à legislação que determina a redução da quantidade de resíduos sólidos destinados a aterros”, argumenta.

No segmento das fibras PET, conta Andriolo, o grupo Unna tem uma capacidade produtiva de 30 mil t/ano, mas no momento não a preenche totalmente, até porque a indústria automobilística – um de seus principais clientes – não apresentou desempenho muito favorável nos últimos meses. “Já chegamos a trazer flakes de PET do Paraguai e da Bolívia e, caso nossa capacidade de produção de fibras seja totalmente preenchida, precisaremos recorrer novamente à importação”, ressalta.

A Neuplast, diz Silva, atenta aos problemas na oferta de plásticos para reciclagem nos projetos de logística reversa que atualmente negocia – e que justificarão a ampliação de suas instalações –, requererá dos próprios clientes a entrega dos materiais com os quais trabalhará. Segundo ele, “relativamente a 2013, a Neuplast registrará este ano um crescimento de aproximadamente 14%”.

E a Polibalbino, afirma o seu diretor, nos últimos cinco anos registrou um índice anual médio de 15% de expansão de negócios com reciclagem (essa empresa atua também com distribuição de resina virgem). E, na opinião de Balbino, a PNRS já conseguiu ao menos intensificar a busca das empresas por parceiros capazes de desenvolver a logística reversa de seus resíduos. A própria Polibalbino negocia essa atuação com um grande fabricante de produtos de higiene pessoal e beleza e com outros potenciais clientes. “Também fomos contatados por uma grande montadora de automóveis que mostrou interesse em conhecer nossas instalações”, acrescenta.

Ciente desse potencial, Balbino já projeta a ampliação da estrutura de sua empresa, mesmo sem conseguir ocupar, por falta de matéria-prima, toda a sua atual capacidade produtiva. “Sei que logo a PNRS produzirá efeitos”, acredita.

Projetos e projeções – A escassez de materiais pós-consumo não é a única consideração feita pelos representantes do setor quando avaliam os obstáculos a serem superados para manter a evolução da indústria nacional de reciclagem de plásticos. É também recorrente a queixa contra a inexistência de regras tributárias específicas para os materiais reciclados. “Esses materiais já foram tributados no seu primeiro processamento, mas serão tributados igualmente na reciclagem”, aponta Roriz Coelho, da Abiplast.

Uma lei federal concede alguns benefícios relacionados ao IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) na aquisição de resíduos sólidos plásticos utilizados como matérias-primas ou produtos intermediários em processos de fabricação, desde que eles provenham de cooperativas de catadores com um mínimo de vinte associados. “Mas essa lei não surte efeito, pois a maioria das empresas adquire sucata plástica do mercado atacadista e não diretamente das cooperativas”, ressalta Roriz Coelho.

Segundo ele, além de se associar a iniciativas destinadas a obter regras tributárias específicas para a atividade, a Abiplast desenvolve outras ações de apoio e estímulo à reciclagem. “Com a Câmara Nacional dos Recicladores de Materiais Plásticos (CNRMP), criamos o Selo Nacional de Plásticos Reciclados (SENAPLAS), cujo objetivo é a formalização das empresas do setor, dando mais visibilidade àquelas que cumprem as obrigações exigidas por lei”, exemplifica o presidente da entidade.

Plástico Moderno, Bahiense: Brasil recicla mais que alguns países europeus
Bahiense: Brasil recicla mais que alguns países europeus

E, mesmo sem contar ainda com estruturas muito desenvolvidas de coleta seletiva e educação ambiental, o Brasil já atinge índices significativos de reciclagem de plásticos, como ressalta Miguel Bahiense, presidente do Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos (Plastivida) e do Instituto do PVC. Já são recicladas no país quase 22% das embalagens plásticas pós-consumo, enquanto na Europa, onde as discussões relativas ao meio ambiente estão mais consolidadas, esse índice tem média de 24%. “Nossos índices são superiores aos de nações como Finlândia, Reino Unido e França”, compara. “É preciso divulgar mais essa realidade de um setor que funciona, gera renda, movimenta valores significativos”, acrescenta Bahiense.

Apesar de não dispor de números posteriores a 2012, o presidente do Plastivida crê que a atividade tenha, de lá para cá, mantido uma trajetória de expansão. “Conjunturas específicas podem resultar em índices maiores ou menores em determinados períodos, mas a tendência é de contínuo crescimento da reciclagem”, finaliza.

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