Proteção – Resinas permitem criar barreiras contra a Covid-19

Resinas permitem criar barreiras seguras ao avanço da Covid-19

A Covid-19 ampliou a visibilidade e alavancou a produção de duas aplicações de proteção humana feitas de plásticos.

Uma delas, materializada nas divisórias transparentes que agora separam atendentes e público em supermercados e outros estabelecimentos comerciais.

Outra, composta pelas face shields, como são denominadas as máscaras faciais rígidas antes utilizadas apenas em atividades muito específicas, mas agora vistas defronte aos rostos de milhares de profissionais da chamada ‘linha de frente’ do combate ao coronavírus – médicos, enfermeiros, policiais, entre outros – e também de gente interessada somente em uma proteção adicional àquela proporcionada pelas máscaras flexíveis.

A produção desses artigos é simples, geralmente feita com o corte de chapas extrudadas – ou laminadas, em alguns casos – de diferentes resinas, como copoliésteres, PC (policarbonato), PP (polipropileno), PET e acrílico.

Há também a injeção de alguns tipos específicos de máscaras, enquanto o acrílico pode ser aproveitado tanto nas chapas extrudadas do polímero PMMA, quanto nas chapas produzidas pelo processo cast, no qual a polimerização ocorre com o monômero MMA inserido entre duas placas de vidro, e submetido a temperaturas elevadas.

Entre as resinas mais usuais nessas aplicações, logo de cara se destacou o PET-G, um copoliéster que, frente ao súbito e acentuado aumento da demanda, até enfrentou problemas de abastecimento:

“Ficamos alguns dias sem estoque no Brasil e em vários outros países, mas esse estoque já está normalizado”, comenta Alessandra Lancellotti, responsável por desenvolvimento de negócios com plásticos especiais da Eastman, empresa que tem o PET-G em seu portfolio.

Copoliésteres, destaca Alessandra, têm diferenciais bastante favoráveis a essas aplicações: uma delas, a elevada resistência química.

Plástico Moderno - Protetor feito de copoliéster fabricado pela Eastman ©QD Foto: Divulgação
Protetor feito de copoliéster fabricado pela Eastman

“É uma característica importante nesse gênero de aplicações, que são constantemente limpas, com álcool 70° INPM e com outros sanitizantes ainda mais agressivos; sem resistência química, as peças vão ficando esbranquiçadas, prejudicando a visibilidade, e podem até craquelar”, ressalta.

Além do PET-G, que comercializa com a marca Spectar, para face shields e divisórias de lojas, a Eastman fornece também a linha Tritan, de copoliésteres com resistência química e mecânica superior.

“Por questão de custo, a linha Spectar tem volume maior de utilização; a linha Tritan é mais utilizada em aplicações específicas e de nicho”, diz Alessandra.

Também o polipropileno se colocou entre as resinas que hoje viabilizam a produção, em larga escala, das barreiras de lojas e das máscaras rígidas; especialmente, na produção das face shields, na qual ele aparece em dois componentes: nas placas transparentes e no suporte de fixação dessas placas ao rosto do usuário.

Nas placas, ressalta Emir Grave, engenheiro de aplicação para o segmento de bens de consumo da Braskem, fabricante dessa resina, o PP agrega características como transparência, leveza, resistência química para desinfecção por álcool, por outros desinfetantes e até por água quente.

Plástico Moderno - Grave: PP random conquista espaço nos face shields ©QD Foto: Divulgação
Grave: PP random conquista espaço nos face shields

“Os grades de PP random, de alta transparência, são os mais indicados para essa aplicação”, ele especifica. “Ao lado do PET-G, o polipropileno vem sendo a resina mais utilizada nas placas de face shields”, acrescenta Grave.

Nos suportes de fixação das máscaras, nos quais o PP é talvez a resina mais usual, vem sendo muito empregada a impressão 3D, explica o profissional da Braskem.

Utilizada inclusive por voluntários e por entidades de pesquisa, essa tecnologia permitiu disponibilizar essas peças muito rapidamente, sem a necessidade dos investimentos necessários aos moldes, indispensáveis ao processo de injeção.

“A impressão 3D é uma tecnologia muito adequada para esse tipo de demanda, que cresce muito rapidamente em um momento específico”, observa.

Espaço para o acrílico – Chapas de acrílico também foram incluídas entre os materiais empregados nessas aplicações, principalmente na confecção das barreiras de lojas, pois essa é uma resina menos indicada para as chapas mais finas e flexíveis das máscaras faciais.

Assim como a própria pandemia, o aumento da demanda pelas chapas de acrílico atingiu escala global, e até levou a Unigel a reativar, em abril último, uma fábrica em Candeias-BA, onde as produz por extrusão.

Com capacidade para fornecer mensalmente mil toneladas de chapas, essa planta não operava desde 2015; agora, grande parte de sua produção está comprometida com a exportação.

Diversos fatores, explica Wendel Souza, diretor-geral de operações de comerciais da Unigel, justificavam a interrupção das operações dessa fábrica de chapas: entre elas, aparecem a baixa demanda no mercado interno e a dificuldade de concorrer com as chapas importadas da China.

A necessidade de atender à demanda para aplicações de combate ao coronavírus alterou essa situação.

Plástico Moderno - Souza: demanda fez reativar a extrusão de acrílico na BA ©QD Foto: Divulgação
Souza: demanda fez reativar a extrusão de acrílico na BA

“Estamos com vendas realizadas até o fim de outubro e correndo para atender à demanda que, até dezembro, estará extremamente alta”, ressalta o profissional da Unigel, empresa que também fornece, para outros transformadores, a resina PMMA e o monômero MMA.

Mas, ao menos em um primeiro momento, no Brasil não foi o acrílico o material mais utilizado nas barreiras dos estabelecimentos comerciais: essa primazia coube ao PET-G, reconhece João Orlando Vian, consultor executivo do Indac (Instituto Nacional para Desenvolvimento do Acrílico).

Isso aconteceu, ele explica, porque embora uma chapa acrílica tenha preço similar ao de uma de PET-G de mesma área e espessura, essa segunda resina possibilita produzir chapas mais finas e, portanto mais baratas, embora visualmente menos atrativas; por sua vez, o acrílico é menos resistente em espessuras muito finas.

Resultado: “Foram fabricadas muitas chapas de PET-G de apenas dois milímetros de espessura, muito flexíveis. O acrílico, embora haja quem também o use em espessuras finas, exige um pouco mais que isso: geralmente, a partir de 3 mm, para uma divisória de mesas de restaurantes, ou 5 ou 6 mm para uma barreira de caixa de supermercado, que deve ser maior”, destaca Vian.

Mas ele acredita que, finda a urgência que exigiu sua colocação imediata, essas aplicações aproveitarão muito mais o acrílico. “Barreiras de acrílico são esteticamente muito mais atraentes, permitem a feitura de furos, de uma dobra diferenciada, de uma gravação, de uma abertura para o pagamento através de cartão”, enfatiza o diretor do Indac.

Atentas a essas características, ele afirma, várias empresas já acionaram associados do Indac em busca de barreiras de acrílico, destinadas não apenas a supermercados e lojas, mas também a clínicas, a restaurantes que irão utilizá-las para separar mesas e clientes, a locadoras de automóveis que se servem delas para apartar motoristas e passageiros em veículos que trabalham com aplicativos.

“Em máscaras faciais para atividades profissionais, especialmente as coloridas, já se usava bastante acrílico”, ressalta Vian.

PET e policarbonato – Assim como o acrílico, também o PET já era tradicionalmente empregado em aplicações destinadas a tarefas e atividades profissionais (sem relação direta com o combate ao coronavírus): por exemplo, para proteção contra fagulhas, para o trabalho em apiários, em óculos de segurança, entre outras.

Plástico Moderno - Barreiras físicas no comércio devem permanecer após pandemia ©QD Foto: Divulgação
Barreiras físicas no comércio devem permanecer após pandemia

A pandemia expandiu esse uso para as face shields e para as barreiras de estabelecimentos comerciais. “Em vários restaurantes, principalmente na Europa, divisórias para isolamento de compartimentos e mesas – ou até colocadas sobre as mesas – estão sendo feitas de PET e de outros materiais transparentes”, diz Auri Marçon, diretor executivo da Abipet (Associação Brasileira da Indústria do PET).

Plástico Moderno - Marçon: chapas de PET grau garrafa atendem esse nicho ©QD Foto: Divulgação
Marçon: chapas de PET grau garrafa atendem esse nicho

“As máscaras fabricadas com material têxtil (TNT), também podem conter poliéster em sua composição; desde que sua fabricação respeite as exigências da Anvisa para esse fim, esse poliéster pode ser produzido com PET reciclado”, acrescenta.

De acordo com o representante da Abipet, vem se expandindo o uso, em face shields e barreiras de lojas, de filmes e chapas laminadas de PET padrão garrafa, fabricadas em diversas espessuras, desde filmes muito finos – em escala micrométrica –, até chapas de 2, 3 e até 5 mm.

Alguns motivos do maior uso dessa resina: “Há a questão da disponibilidade – o PET-G sumiu do mercado – e também o custo: o PET tem preço muito inferior ao do PET-G”, compara.

Outra resina cuja demanda aumentou é o policarbonato; utilizado, relata Edson Simielli, gerente da Unidade de Resinas de Engenharia da distribuidora Piramidal, especialmente para a produção das máscaras faciais dotadas de respiradores e filtros de ar, muito utilizadas pelos profissionais de saúde.

Essas máscaras são produzidas por injeção; mas PC também é fornecido na forma de chapas que servem para a fabricação das divisórias que vêm sendo utilizadas em estabelecimentos comerciais para separar atendentes e público.

São inúmeras, ressalta Simielli, as vantagens do policarbonato nessas aplicações. Entre elas, estão suas características de elevadíssima transparência e resistência mecânica – principalmente resistência ao impacto –, que o tornam matéria-prima já amplamente empregada em produtos como viseiras, lentes de motociclistas e óculos de segurança, entre outros itens injetados.

Além disso, também é interessante o fato de ser essa resina facilmente utilizável tanto nos processos de injeção, quanto em chapas extrudadas. “Diferentemente do PET-G, que também é bem transparente, mas é trabalhada apenas na forma de chapas”, acrescenta Simielli.

Considerando esses vários atributos, ele considera o PC hoje bastante competitivo nesses gêneros de aplicações; mesmo no quesito custo, tradicionalmente um dos principais entraves a seu emprego em escala mais ampla.

“É uma das resinas cujo uso mais cresceu em todo o mundo e, por isso, surgiram muitas grandes plantas de produção de PC; com isso, seu preço caiu bastante”, afirma o profissional da Piramidal, que para esses produtos distribui a linha de policarbonatos Lexan, da Sabic.

Potencial do mercado – Ainda crescente, a demanda por resinas para face shields e divisórias de estabelecimentos comerciais em algum momento deverá se estabilizar, prevê Alessandra, da Eastman.

Mas, para ela, ao menos esse segundo gênero de aplicações seguirá sendo utilizado por um bom tempo, até porque transmite sensação de maior segurança para quem frequenta os estabelecimentos.

Essas duas aplicações, diz Alessandra, têm gerado negócios importantes, tanto para a Eastman, quanto para seus clientes.

“Algumas empresas de outros setores – por exemplo, fabricantes de eletrodomésticos, ou de artigos esportivos – destinaram a elas parte de sua capacidade”, observa.

Para Souza, da Unigel, “essa nova demanda sanitária, muito aquecida neste momento para equipar o varejo, deverá continuar no futuro, para a reposição das peças. E crescerá a demanda para essa aplicação”.

Também Vian, do Indac, crê em uso mais duradouro das barreiras de estabelecimentos comerciais. “

Plástico Moderno - Vian: chapas de acrílico são mais atraentes e aceitam furos
Vian: chapas de acrílico são mais atraentes e aceitam furos

Alguns de nossos associados estão realizando negócios com essas aplicações. Aliás, alguns estão fazendo praticamente apenas isso, pois a comunicação visual, que responde por aproximadamente dois terços dos negócios do setor, praticamente parou”, ressalta.

Resina empregada em volumes grandiosos em diversas indústrias, o polipropileno, diz Grave, da Braskem, tem nessas aplicações “um novo nicho”.

Não há, ele ressalta, necessidade de nenhuma certificação específica para as resinas destinadas para a sua confecção; porém, até mesmo como um cuidado adicional com a matéria-prima de produtos que eventualmente podem ter contato com regiões sensíveis do organismo das pessoas – como boca e nariz –, existe uma recomendação:

“Utilizam-se resinas aprovadas pela Anvisa para contato com alimentos e/ou para fabricação de brinquedos”, ressalta Grave.

Marçon, da Abipet, aponta a existência de normas específicas, anteriores à pandemia, apenas para uma aplicação similar, porém mais específica:

“As únicas resinas aprovadas pela Anvisa para as máscaras cirúrgicas são o PET-G e o acetato de celulose, que têm índices menores de distorção óptica”.

No caso de face shields e divisórias de lojas, ele complementa, há apenas uma recomendação da própria Anvisa para que os filmes ou chapas tenham no mínimo 0,5 mm de espessura.

A indústria do PET, lembra Marçon, trabalha com volumes de produção muito grandes; dessa maneira, fica difícil pressupor que essas aplicações que ganharam uso mais massivo possam constituir mercado adicional muito relevante.

“Mas é um nicho, no qual estão atuando algumas empresas de laminação de bobinas e chapas que têm tradição no uso da resina PET padrão”, finaliza.

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