Pólo Sul – Transformadores do sul desafiam a crise com criatividade

Ao percorrer as principais regiões transformadoras de termoplásticos do sul do Brasil para medir a temperatura do atual momento pelo qual atravessa a terceira geração petroquímica do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, o sentimento é de preocupação, diante das incertezas impostas pela crise global dos mercados. Mas ninguém entrou em pânico. Dito de outra forma, os processadores de resinas termoplásticas da região mais austral do país conseguem enfrentar a crise com criatividade, algum redimensionamento produtivo e eventualmente com algum corte na estrutura produtiva.

Lusádio Freitas, sócio-proprietário da Tecnoperfil, empresa da área de extrusão de perfis direcionados a acabamento predial, com sede em Joinville-SC, lançou mão de um eufemismo ao qualificar o momento de “pequena turbulência de leve impacto”. De maneira geral, Freitas considera a crise moderada.

A Tecnoperfil registra 15% de queda nas vendas entre novembro do ano passado e janeiro. Porém, os relatórios produzidos pela área comercial detectam a retomada das encomendas a partir da segunda quinzena de março. Com isso, Freitas e os dois sócios decidiram manter inalterados os postos de empregos e as encomendas de matéria-prima. Intenciona ainda abrir novas frentes de negócios com a contratação de mais vendedores. “Nosso lema aqui é não fale de crise e trabalhe”, resume.

Plástico Moderno, Lusádio Freitas, sócio-proprietário da Tecnoperfil, Pólo Sul - Transformadores do sul desafiam a crise com criatividade
Freitas quer conquistar clientes de concorrentes de grande porte

Para Freitas, uma pequena queda de vendas pode ser compensada com a redução de custos em áreas como consumo de energia e a diminuição de um turno de trabalho, até o mercado se normalizar. O sócio da Tecnoperfil prevê crescimento de no mínimo três por cento acima das taxas da economia até o final do ano.

A recuperação ficará por conta do desempenho do segundo semestre. Como a crise é considerada passageira, Freitas acredita ainda nos recursos de marketing para melhorar os negócios, ampliando as ações de promoção de vendas. Com efeito, a ideia é manter aquecido o mercado de pequenas lojas de material de construção civil, que não têm condições de formar estoques.

A Tecnoperfil atua praticamente sozinha com um total de 27 itens como cantoneiras de diversas cores, corrimãos, bate-macas usados em escolas e hospitais e cantoneiras de PVC flexível, para proteger crianças em paredes de pátios de escola. Essas peças também podem ser fixadas em pilares de garagem, pois protegem a lataria do automóvel das pequenas batidas. Além disso, a Tecnoperfil explora o mercado exterior. Abriu um canal de vendas na Venezuela, compradora de volumes apreciáveis de forro.

Nesse meio-tempo, a firma lançou uma linha de calhas de PVC diferente das existentes no Brasil. De acordo com Freitas, trata-se de um material de fácil montagem compatível com todas as peças de conexão do mercado. Como é uma empresa média, Freitas não esconde outra estratégia para driblar a crise. Ele quer roubar clientes de empresas maiores.

“Algumas com capital de giro para bancar demissões pararam máquinas, estocaram matéria-prima, diminuíram a produção e cortaram itens. Estou prospectando seus distribuidores e oferecendo produtos que elas não estão entregando”, confessa.

Diante da leitura positiva em tempos de crise, a Tecnoperfil manteve o planejamento de investimentos. Sua capacidade instalada de 400 toneladas de PVC por mês será ampliada com a chegada de duas linhas novas completas de extrusão. O objetivo é dobrar a produção a cada 30 dias.

Plástico Moderno, Derian Campos, Chief Executive Officer (CEO) da CRW, também de Joinville, Pólo Sul - Transformadores do sul desafiam a crise com criatividade
Campos projeta queda nas vendas de 15%, no primeiro trimestre

O Chief Executive Officer (CEO) da CRW, também de Joinville, Derian Campos, considera superada a pior etapa da retração dos mercados, pelo menos no segmento de injeção de peças técnicas. Como o dólar aumentou, muitos itens, antes importados, começam a ganhar espaço novamente dentro do parque industrial nacional, principalmente na área de peças e componentes de informática e eletroeletrônicos, um dos carros-chefe da produção da CRW.

Com isso, a empresa, especializada em moldes e injeção de peças técnicas de alto valor agregado, compensou a queda de encomendas da indústria automotiva com o aumento da demanda de carcaças e componentes de impressoras. Campos projeta uma queda de 15% nas vendas do primeiro trimestre, porém assinala que a indústria automotiva, a primeira a parar, já começa a chamar funcionários de volta e a recontratar. “A Renault está parada, mas a Ford na Bahia está bombando”, compara.

A CRW produz moldes e injeta peças técnicas notadamente para todas as áreas de iluminação de automóveis, mecanismos de movimentação de vidros, espelhos, freio, direção, válvula e cinto de segurança. Alguns dos itens produzidos em Joinville entram na linha de montagem da Audi, em São José dos Pinhais, no Paraná.

Já a filial da empresa na Eslováquia abastece a fábrica da Porsche na Alemanha. A CRW tem outra filial em Guarulhos, um centro de distribuição nos EUA e um depósito em Varginha, Minas Gerais. De qualquer maneira, tudo começa por Joinville em termos de inovação tecnológica.

A planta de seis mil metros quadrados conta com 120 injetoras por acionamento elétrico, equipadas com robôs, sistemas próprios de água gelada e aquecimento do molde. Cada máquina forma uma célula operacional independente. Para Campos, paga-se mais caro por uma injetora elétrica, mas em compensação a economia de energia é de 40%.

Outro diferencial é a fabricação in house de aproximadamente 150 moldes por ano, pois, como acentua Campos, “se não tiver equipe, nem tecnologia e conhecimento, não tem como resolver o problema do molde”. Além da indústria automotiva, a CRW celebra uma carteira de clientes nada desprezível, como a Whirlpool, detentora das marcas líderes de linha branca no país, e a Empresa Brasileira de Compressores (Embraco). Além disso, a CRW atende a WEG Motores, a Hewlett-Packard, entre outras empresas de alta tecnologia.

Plástico Moderno, Rubens Travi, CEO da Autotravi, Pólo Sul - Transformadores do sul desafiam a crise com criatividade
Para Travi, deverá crescer a demanda de plástico de engenharia

Na opinião de Rubens Travi, CEO da Autotravi, de Caxias do Sul, empresa pioneira na usinagem de plásticos de alto desempenho no Brasil, a crise foi atenuada no segmento plástico porque os empresários estão calejados e souberam se antecipar. Travi considera o momento complicado, mas garante ter dominado a situação com o redimensionamento da empresa. Promoveu alguns cortes em dezembro e suspendeu a compra de matérias-primas de produtos com encomenda em baixa.

A Autotravi opera com extrusão e injeção de peças de polipropileno, polietilenos, poliamidas, PEEK, PPSU e PPE. Ainda emprega acetal, policarbonatos e poliuretano termoplástico, sobretudo para a indústria de máquinas pesadas. Como a safra de verão foi gorda em todo o país, Travi prevê o aumento das encomendas das fábricas de implementos agrícolas, pois, em sua opinião, o setor primário terá de investir em maquinários novos para dar conta da colheita.

Ele processa também o polietileno de ultra-alto peso molecular usado na fabricação de esteiras industriais, utilizadas principalmente em fábricas de celulose, bebidas, mineração e silos de grãos. De acordo com Travi, a nova fronteira do PEUAPM são as partes internas de caçambas para caminhões empregados em transporte de minérios, pois facilita expressivamente a limpeza e reduz com isso o tempo de parada.

O CEO da Autotravi projeta forte demanda por plásticos de engenharia, que deverão se estabilizar em termos de preço na casa dos US$ 140,00 o quilo, em média. Igualmente, deverá crescer o consumo de plásticos de alto desempenho na base dos US$ 300,00 por quilo. Em poliamida, a menina-dos-olhos da empresa gaúcha, responde por um tubo usinado de três metros de comprimento, 600 milímetros de diâmetro, com um orifício de 200 milímetros, o qual tem massa de uma tonelada, empregado na montagem de dutos de petróleo.

Plástico Moderno, Ademar Simoni, da Tabone, Pólo Sul - Transformadores do sul desafiam a crise com criatividade
Simoni: receita é transformar a adversidade em oportunidade

“Tire o s da crise e crie.” Essa é a receita do empresário Ademar Simoni, da Tabone, uma das principais transformadoras de plástico de engenharia e peças técnicas do sul do país, com seis plantas industriais em Caxias do Sul. Segundo Simoni, sua empresa interage diretamente com áreas de projetos dos clientes. Como define, o trabalho forte não é comercial. Com isso, a Tabone nem participa de cotação de preços.

Basicamente, os produtos da Tabone estão em todas as partes de revestimento de artefatos como móveis, bens duráveis como automóveis, e acabamento de fechaduras de refrigeradores de alta tecnologia. Somente em puxadores, a empresa responde por 500 modelos para linha branca e móveis. São 190 toneladas por mês de plásticos empregados nos processos de injeção e extrusão – 120 de poliestireno e 70 de ABS.

Os pontos altos da Tabone são a tecnologia de pintura com metalização a vácuo e o processo sem efluente denominado DGT, ou decoração gráfica tridimensional. Com isso, é possível produzir as tampas de cosméticos em formas variadas. A impressão no rótulo ocorre em processo tridimensional, em cabines pressurizadas, sem a presença de partículas de poeira.

Graças à sua alta qualidade em acabamento, a Tabone foi escolhida para fabricar pelo menos seis peças técnicas de um recente modelo de automóvel de luxo lançado no parque automotivo brasileiro. São componentes para revestimento do air-bag, frisos de portas e toda a parte integrada do painel do ar-condicionado.

Plástico Moderno, Denise Dybas Dias, Pólo Sul - Transformadores do sul desafiam a crise com criatividade
Denise: retração da indústria de alimentos gera inadimplência

Aumenta a inadimplência – Os empresários do sul driblam a crise com criatividade, mas não vivem num mar de rosas. A paranaense Denise Dybas Dias revela o aumento da inadimplência entre seus clientes para 20%, de novembro a dezembro.

Para ela, formada em economia e há quatro anos na presidência da Dyplast Indústria e Comércio de Plásticos Ltda., na condição de herdeira da empresa deixada pelo pai, a dificuldade de pagamentos é consequência da baixa demanda por embalagens ocasionada pela queda no consumo dos alimentos.

Menos otimista, a empresária considera o ambiente de negócios frustrante, porque no ano passado a sinalização era de crescimento.  Segundo Denise, muitos empresários investiram em maquinários e no momento aguardam melhores dias.

Ela vende em praticamente todo o Brasil, principalmente em Santa Catarina, Rondônia e São Paulo, além do próprio estado do Paraná, onde concentra sua atividade industrial e transforma uma média de 150 toneladas por mês de filmes. Até janeiro, mantinha esse volume, mas para os próximos meses pensa em diminuir a produção.

A saída encontrada por Denise foi diversificar produtos. Como caíram as exportações de madeira, essa indústria diminuiu os pedidos de embalagens de filmes multicamadas de alta resistência. A Dyplast aumentou a extrusão de sacos plásticos de lixo com polietileno reciclado. Denise reclama ainda dos altos tributos cobrados dos empresários e da responsabilidade atribuída a esses pelo aumento do desemprego.

Na mesma toada da empresária de Curitiba, o argentino radicado na serra gaúcha, Victor Oscar Borkoski, reconhece o crescimento da inadimplência por parte de clientes e reclama da demora no repasse da queda do barril de petróleo para o preço final das resinas. Lembra que o óleo bruto baixou mais de 50% e as resinas sofreram queda entre 15% e 17%. Algumas até aumentaram.

Plástico Moderno, Victor Oscar Borkoski, Pólo Sul - Transformadores do sul desafiam a crise com criatividade
Borkoski importa PEAD a preço bem abaixo do praticado no país

Por conta dos atuais preços praticados dentro do Brasil, Borkoski passou a importar polietileno de alta densidade, o carro-chefe das resinas transformadas em suas sopradoras. Ele consome 120 toneladas por mês e vem trazendo a commodity na base de 50 toneladas por contêiner dos EUA, onde, de acordo com o empresário, as petroquímicas conseguem repassar a resina a US$ 850,00 por tonelada, incluindo frete e impostos. No Brasil, a tonelada do PEAD ainda está na casa dos US$ 1,5 mil. Uma segunda opção apontada por Borkoski é a China, onde, de acordo com ele, existe carga embarcada em navios pronta para o transporte.

A diferenciação de produto, atualmente, é uma segunda saída para enfrentar a competição. Por conta desse aspecto, Borkoski desenvolveu novas tampas de segurança direcionadas a produtos perigosos como as child proof, empregadas no lacre de recipientes com soda cáustica, que só podem ser abertas mediante instrumento cortante, como forma de proteger crianças do contato com a substância. Ao todo, são mais de 70 itens, desde garrafas de iogurte até invólucros para pólvora.

Sem crise – A instabilidade dos mercados não afetou o humor da equipe da Plasticoville, de Santa Catarina. Economista tarimbado, ex-secretário da Fazenda de Joinville, o diretor-presidente, Adelir Alves, garante tomar medidas no dia-a-dia da empresa com o objetivo de blindar o empreendimento contra as turbulências do mercado. Alves assegura continuar operando em três turnos, mesmo com a redução de alguns pedidos em outubro.

Plástico Moderno, Adelir Alves, direotr-presidente, Pólo Sul - Transformadores do sul desafiam a crise com criatividade
Alves: até a virada do semestre, os negócios estarão regularizados

O empresário explica que apenas suspendeu temporariamente a atividade de sábado e domingo, mas já começa a normalizar o ritmo. No entendimento de Alves, em breve a Plasticoville estará à plena carga, porque os pedidos novos indicam uma regularização dos negócios até a virada do semestre. “Alguns clientes pararam, mas agora estão retomando as encomendas”, assegura o empresário.

Na opinião de Alves, a situação é desafiadora. “O país não quebra, o mundo não vai quebrar. A GM quebrou nos EUA e não quebrou ontem, já estava quebrada. Era uma empresa doente”, justifica. “Não pode colocar a culpa na crise. O avião velho não cai no dia, ele apresenta problemas há muito tempo”, filosofa o piloto da Plasticoville.

O planejamento da Plasticoville permanece inalterado até 2012, com plano de investimento de R$ 7 milhões e meta de faturamento sempre superior à média obtida de 2005 a 2007. Nesse aspecto, cada chefia na Plasticoville tem seus objetivos guardados numa pasta. Cada operador tem uma calculadora para contabilizar sua produtividade.

A operação da fábrica observa ainda elementos de sustentabilidade. A água industrial provém de uma cisterna abastecida com água da chuva, equipada com reservatórios de 40 mil litros. A planta industrial foi concebida de tal forma que durante o dia toda a atividade ocorre com luz natural.

A Plasticoville processa de 150 a 200 toneladas de resinas por mês, com processos de injeção, sopro e extrusão de peças técnicas com termoplásticos de engenharia e alto desempenho, tais como reservatórios, contêineres de até 100 litros, tubos técnicos, de poliuretano, poliuretano termoplástico, PVC, rígido e flexível, além de poliamidas.

Como forma de conquistar e garantir clientes da linha branca, de motores automotivos e compressores, a Plasticoville está certificada com ISO 9001:2000 e partindo para a conquista da TS 16949, versão 2002. São processos exigidos pela indústria automobilística e que as empresas estão aderindo.

A Plasticoville opera com sistema Kanban. Dentro da fábrica, existe um sistema de sinalização com o qual as pessoas conseguem se entender, acompanhar e trabalhar com base em informações colocadas em murais nas paredes.

Com efeito, as máquinas não podem ter mais de cinco anos. Também são substituídos, periodicamente, periféricos como sistemas de água gelada, ar comprimido, secadores, moinhos e alimentadores. O lema na Plasticoville é manter os problemas sempre à vista de todos. Uma peça transformada refugada ou um componente de equipamento danificado não podem ir para o lixo. Vai para uma estante à vista de todos, pois é preciso apontar as causas do erro para não repeti-lo.

 

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Um Comentário

  1. TAMBEM ACHO QUE COM A CRISE TEM QUE TER CRIATIVIDADE ESTOU COM MUITAS SAUDADES ME MANDE NOTICIAS UM GRANDE ABRAÇO BEIJOS DOLORES GERMANI HOFF

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