Pólo Sul – Sinplast tem nova direção, mas os desafios são antigos

Plástico Moderno, Alfredo Schmidt, Pólo Sul - Sinplast tem nova direção, mas os desafios são antigos
Schmidt se esforça para obter o chamado diferimento do ICMS

O Sindicato das Indústrias de Material Plástico no Estado do Rio Grande do Sul (Sinplast) tem novo comando. No final do ano passado, o empresário da área de extrusão de filmes Alfredo Schmidt assumiu a presidência da entidade no lugar de Jorge Cardoso, que renunciou ao cargo por motivações particulares.

Schmidt promete continuar a bater à porta dos gabinetes do governo estadual para obter o chamado diferimento do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).

Trata-se de corrigir uma distorção tributária por meio da qual transformadores de outros estados, por conta da política tributária em suas regiões, retiram a resina do polo petroquímico gaúcho por um preço final abaixo daquilo que é cobrado dos industriais da terceira geração com atividade no Rio Grande do Sul.

Há ainda a queda-de-braço com o governo federal por conta da solicitação de isonomia de impostos como IPI, pois os transformadores recebem as matérias-primas empregadas no processo à base de 5% em imposto federal. No repasse daquilo que produzem pagam 15%, sem receber os chamados créditos tributários, que seriam de 10%. Quanto à crise dos mercados, Schmidt compara: “Não é uma marolinha, mas não é um tsunami.” Ainda assim, as empresas terão de se preparar.

No entendimento de Schmidt, os transformadores com carteira de clientes na indústria automotiva se ressentiram mais quando começou a onda de férias coletivas, demissões e suspensão do processo produtivo dentro das fábricas de veículos, no país e no mercado global, porque boa parte dos fornecedores de autopeças exporta grande quantidade de sua produção.

Por outro lado, assinala o presidente do Sinplast, o governo liberou muito dinheiro para os bancos, mas esses não repassaram na integralidade na forma de créditos. Tal postura criou distorções no mercado, pois o sistema financeiro estocou dinheiro e o setor produtivo ficou sem condições de contrair financiamentos necessários a novos investimentos e formação de capital de giro. “Fizeram uma seleção muito forte de quem receberia créditos”, critica o presidente do Sinplast.

No caso específico do Rio Grande do Sul, Schmidt lembra que a única montadora do estado, a unidade da GM de Gravataí, chegou a anunciar suspensão da atividade, porém em 20 de janeiro cancelou as férias coletivas e retomou a montagem dos modelos Prisma e Celta. Na visão do presidente do Sinplast, a crise dos mercados assusta por um lado, mas por outro cria oportunidades de rever custos e favorece inovações.

Já do Paraná afloram as reclamações contundentes. O presidente do Sindicato das Indústrias de Material Plástico daquele estado (Simpep), Dirceu Galléas, critica o monopólio do beneficiamento da nafta mantido pela Petrobras. Para ele, trata-se de uma realidade perversa, pois o petróleo despencou no mercado internacional, o preço das resinas fora do país sofreu queda de 50%, porém os valores cobrados pela petroquímica nacional são os mesmos, conforme sua avaliação.

Dentro desse raciocínio, o monopólio da Petrobras impede as flutuações normais do livre mercado. “Existe uma fórmula que nós não entendemos. A Petrobras leva 30 dias para repassar a queda de preços no mercado interno”, acusa Galléas.

Em sua opinião, a consolidação da petroquímica não mudou preços porque ainda permanece a política de negociação antiga, com uma zona de conforto elástica para blindar a petroquímica nacional de dumping ou outras distorções do mercado. Galléas acusa a Petrobras de retornar ao setor petroquímico com força. A estatal do petróleo é minoritária na Braskem e na Quattor, pois detém uma média de 26% do controle acionário em cada uma das petroquímicas.

Plástico Moderno, Dirceu Galléas, presidente do Sindicato das Indústrias de Material Plástico daquele estado (Simpep), Pólo Sul - Sinplast tem nova direção, mas os desafios são antigos
Galléas se queixa da política tributária

Entretanto, somados os dois números, segundo Galléas, a Petrobras já detém 52% das ações de petroquímica dentro do país. No cenário ideal, pondera o presidente do Simpep, deveria ocorrer a união das três gerações petroquímicas para acertar preços, prazos e uma política global capaz de atender a todos os interesses envolvidos.

Na visão de Galléas, o industrial ficou quadrado, não tem tempo para planejar e cumprir a sua vocação de produzir. Tem de se preocupar com preço de resina, importação, exportação e burocracia. “Já perdemos a esperança da reforma tributária, que está nas mãos de quem não tem vontade política nem entende do processo”, reclama Galléas. Ainda afirma que o governo tem medo de perder receita do IPI de 5% na matéria-prima. Na visão do presidente do Simpep, a indústria opera no “fio da navalha”.

Outra queixa é a guerra fiscal entre estados sem tradição em transformação de resinas como Goiás, Minas Gerais, Ceará e outras regiões do Norte e Centro-Oeste. Com isso, proliferam várias empresas de pequeno porte, que contratam entre 100 e 200 funcionários, e as de médio porte, com até 600 empregos indiretos. Isso tudo em projetos de curto prazo.

Galléas entende que sem a liberação do crédito e órfão da reforma tributária, o Brasil continuará “muito aquém do consumo per capita de plásticos”, inclusive na comparação com outros países em desenvolvimento. Ele enfatiza que a terceira geração tem condições de dobrar de tamanho no país se o governo fizer sua parte. Na entrada da matéria-prima, é cobrado imposto muito baixo; na saída, muito alto. Tal distorção gera um efeito em cascata enorme e o Brasil é o único lugar do mundo onde tal problema ocorre.

A boa notícia é que todos os sindicatos do país liderados pela Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) estão unidos. A entidade promoveu quatro viagens para Brasília no ano passado junto com os sindicatos para expor os pleitos dos transformadores. “Precisamos de vontade política para voltar a produzir como indústria e não como caixa de impostos”, completa Galléas.

Na visão do presidente do Sindicato das Indústrias de Material Plástico do Nordeste Gaúcho (Simplás), Orlando Marin, o setor plástico não foge em nada aos demais segmentos atingidos pela crise dos mercados. O marco zero, para ele, foi o mês de novembro.

O primeiro segmento a perceber a crise foi o de fornecimento de peças e componentes automotivos, quando as montadoras do centro do país começaram a brecar a produção naquele mês. Em dezembro, as fábricas de ônibus e caminhões acionaram o freio.

Depois veio a suspensão das encomendas da indústria de móveis e refrigeração. De acordo com Marin, janeiro conheceu uma pequena recuperação, pois essas indústrias precisaram reabastecer o mercado de peças de reposição. Em fevereiro, voltou a cair, mas foi sazonal por conta do feriado de Carnaval e de férias coletivas programadas.

Os setores menos atingidos foram os de utilidades domésticas e construção civil. A expectativa é de que em março comece a fase de retorno do crescimento, ainda lento, gradual e sequencial, mas positivo. Apesar da situação de crise, o segmento plástico deverá terminar o ano com um crescimento médio de três a quatro pontos percentuais em relação à média da economia.

Plástico Moderno, Orlando Marin, presidente do Sindicato das Indústrias de Material Plástico do Nordeste Gaúcho (Simplás), Pólo Sul - Sinplast tem nova direção, mas os desafios são antigos
Marin prevê a desativação de plantas petroquímicas obsoletas

De acordo com Marin, a indústria entrou em um período de cautela, porque a primeira sinalização da crise, a alteração no câmbio, não permitiu o repasse do preço de insumos importados aos produtos. Com isso, ninguém comprou. Cada empresa tinha seu estoque e foi usando até janeiro, quando os preços de plásticos de engenharia voltaram a cair. Na carona do excedente de resinas e no exterior, Marin prevê uma deflação no setor.

Na base do Simplás, o momento é de realinhamento de preços para baixo. As resinas plásticas estão sofrendo uma forte queda dos preços e essa situação deve continuar. O PVC caiu 30% em relação a novembro, de R$ 3,76 para R$ 2,61, o quilo. Hoje os transformadores compram a resina a R$ 3,70 o quilo e com probabilidade de baixar ainda mais. O ABS estava R$ 5,40 o quilo em outubro. Chegou a custar R$ 8,00 e agora retornou para os patamares de outubro, mesmo sendo produto importado. Segundo Marin, os transformadores estão repassando a redução de custos para clientes.

Ele ressalta o aumento de oferta de resinas no mercado, com a entrada em cena das petroquímicas do Oriente Médio e a redução de preços dos plásticos de engenharia na China, por conta da queda interna da economia mais dinâmica do mundo. Além disso, as plantas novas foram construídas com tecnologia avançada e estão produzindo mais, com menor consumo de energia.

Com relação ao novo desenho da petroquímica brasileira, o presidente do Simplás afirma que não havia outra saída. Ele prevê a desativação de algumas plantas mais antigas e o surgimento de outras mais modernas. “Algumas das empresas, reunidas na Quattor, estariam em liquidação, se não ocorresse a fusão.”

O presidente do Simplás acredita ainda numa segunda fase desse redimensionamento com a fusão da distribuição. “As grandes devem engolir as pequenas”, completa Marin. Por conta do oligopólio de duas corporações, Marin aponta o aumento da importação como recurso de regulação dos preços.

Na área de domínio do Sindicato das Indústrias de Material Plástico de Santa Catarina (Simpesc), o vice-presidente da entidade, Oswaldo Kieseweter, confia na atividade da construção civil como propulsora da transformação de termoplásticos de Santa Catarina, mas adverte que o segmento de embalagens para alimentos irá crescer menos. “Se o país crescer dois por cento, os transformadores irão crescer no mínimo 5%”, aposta Kieseweter.

Industrial do segmento de poliestireno expandido, Kieseweter anota que em particular esse será afetado negativamente. Em primeiro lugar porque já houve retração de diversas indústrias consumidoras, como embalagens descartáveis. Além disso, o ano é avesso ao consumo de televisão (não tem Copa do Mundo nem Jogos Olímpicos), outro segmento cativo para essas embalagens.

O outro problema é o projeto da TV digital, que se encontra muito atrasado. Os clientes de Kieseweter estão concentrados na Zona Franca de Manaus. Pesquisas mostram que em São Paulo, o primeiro estado a implantar a tecnologia, o interesse pela transmissão de alta resolução atinge 1% da população economicamente propensa a gastar com aparelhos de última geração.

Nos cálculos de Kieseweter, para chegar em 6% de crescimento este ano, a terceira geração petroquímica precisará faturar pelo menos uns três meses nos dois dígitos no segundo semestre, pois, em sua opinião, no primeiro semestre, não irá crescer mais do que 3%. “O mar está turbulento. Caíram os preços em dezembro. Tem a chance de melhorar as margens que estavam negativas.”

Na opinião de Kieseweter, é preferível vender menos volume com a margem normal do que promover sacrifícios nas empresas para produzir mais. Assim como outros segmentos, o vice-presidente do Simpesc detecta o aumento da inadimplência no segmento de poliestireno expandido. No mercado asiático as resinas já começaram a baixar.

Plástico Moderno, Oswaldo Kieseweter, Pólo Sul - Sinplast tem nova direção, mas os desafios são antigos
Kieseweter: medida protecionista garantiria competição saudável

Com o dólar instável, a importação é arriscada. Precisaria de estabilidade cambial. Dentro dessa política, a Ásia baixou os preços do polietileno e do poliestireno, em novembro. A China tem excedentes exportáveis. Está importando e irá continuar importando.

Sobre a consolidação da petroquímica nacional, Kieseweter considera a iniciativa positiva porque promoveu no país uma indústria em escala mundial. Agora, acredita que seja o momento de remover as medidas protecionistas como a taxa de conforto e os impostos de importação, pois essa é a maneira de permitir a competição saudável.

O presidente do Sindicato de Material Plástico do Sul de Santa Catarina, Jayme Zanatta, prefere não fazer projeções. Segundo ele, a região responde por 240 mil toneladas das mais de 900 mil transformadas no estado e, provavelmente, se houver algum crescimento, só poderá ser contabilizado no final do ano. O presidente do Simplasc reconhece que a crise já abalou o segmento de filmes, mas pouco afetou o de tubos e conexões por conta das obras do PAC e da construção civil, que manteve os investimentos.

Zanatta reivindica a redução do IPI para a cadeia da construção civil, pois atualmente os derivados de plástico nessa indústria pagam 5% do tributo federal. Já tijolos e telhas estão isentos. Na opinião do presidente do Simplasc, a diminuição pode gerar mais receita ao governo federal por conta do volume de produtos vendidos no varejo.

[toggle_simple title=”Região é diversificada e competitiva” width=”Width of toggle box”]

Com base nas estimativas obtidas entre os principais sindicatos representantes da atividade de transformação de termoplásticos do sul do Brasil, é possível inferir as estatísticas de produção na região em matéria de terceira geração petroquímica. A área responde por aproximadamente 1 milhão e 730 mil toneladas de resinas. É o segundo polo industrial do país e exibe competitividade e diversificação. Juntos, promoveram um faturamento de quase R$ 13 bilhões no ano passado.

Santa Catarina lidera em todos os quesitos. São 950 mil toneladas/ano de consumo aparente de resinas. Além disso, a produção catarinense atingiu R$ 5,7 bilhões em 2008, contra R$ 4,8 bilhões de 2007. Os transformadores catarinenses geraram 23,7 mil empregos.

Na Grande Florianópolis e no sul do estado existe um volume altamente expressivo de extrusão e coextrusão de embalagens flexíveis. Ainda no sul, predomina a principal indústria de termoformagem do país, também conhecida como Vale do Descartável.

Existem ainda pelo menos três regiões transformadoras emergentes em Santa Catarina. Na região de Blumenau, há um polo de brinquedos. Em Itajaí, por conta da atividade portuária, cresce a extrusão de cordas para navios e atracação. No Oeste, a indústria de beneficiamento de carnes de aves e suínos começa a estimular a abertura de fábricas de embalagens.

O segundo estado é o Rio Grande do Sul, com aproximadamente 480 mil toneladas e R$ 4 bilhões de valor de produção. Em 2009, os gaúchos atingiram 800 empresas na base do Sinplast, 600 na base do Simplás, de Caxias do Sul, e aproximadamente 60 na base do Sinplavi, de Bento Gonçalves. Perfazendo 1.460 razões sociais. O segmento emprega 26 mil trabalhadores. Em processos, a extrusão responde por 60%. A injeção fica em 30%. Os demais, como sopro, termoformagem e rotomoldagem, atingem os 10% em todo o estado.

Entretanto, se a contagem for feita a partir da base de Caxias do Sul, a segmentação é diferente. Predomina a transformação de peças técnicas e a injeção corresponde a 58%. A extrusão consome 27% das resinas; a termoformagem, outros 11%. Os quatro por cento restantes se dividem em sopro, fibras, acrílicos, spray-out e rotomoldagem, sendo que 20% das empresas que possuem processos de transformação do plástico promovem mais de um tipo de processo.

O Paraná representa cerca de 8% a 10% do segmento plástico brasileiro, com faturamento de R$ 3,2 bilhões. Emprega 18 mil funcionários, transforma mais de 300 mil toneladas por ano de resina termoplástica e compreende 600 empresas ao todo. No Paraná, a produção de peças e componentes para a indústria automotiva corresponde a 20% das resinas transformadas.

No estado, a extrusão de filmes perfaz 27% e a ráfia empregada em embalagens de grãos consome 10%. A injeção de utilidades domésticas e bombonas outros 10%. O sopro de embalagens rígidas das mais variadas aplicações fica com 12%. A construção civil, 4%. Nove por cento do total de produção do Paraná provém de materiais reciclados. Os plásticos de engenharia não-automotivos são 3%.

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