Economia

Pólo da Bahia – Maior complexo petroquímico do País amarga o desinteresse em sua modernização

Jose Valverde
28 de setembro de 2007
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    Desde que a Petrobrás decidiu construir a fábrica de ácido tereftálico purificado (PTA) em Pernambuco, um clima de paralisia estratégica passou a ser sentido na Bahia – um sentimento de impotência diante da necessidade de assegurar novo ciclo de crescimento e a própria sobrevivência do 2º Pólo Petroquímico, o conjunto industrial instalado há quase trinta anos no município de Camaçari-BA, seguindo diretriz do II Plano Nacional de Desenvolvimento Industrial (II PND).
    A cogitada e frustrada fábrica baiana de PTA, além de prevista para demandar matérias-primas locais, como o paraxileno, produzido na Braskem, e o monoetileno glicol, na Oxiteno (grupo Ultra), possibilitaria a progressiva inserção de um pólo de poliéster na cadeia petroquímica.

    A localização na Bahia se justificaria também, argumentam os baianos, pela oferta de mão-de-obra qualificada – e até pela circunstância de o projeto haver sido idealizado no Estado, com base nas vantagens comparativas locais e com o propósito de adensar a atividade industrial na Grande Salvador.
    O ex-superintendente de Indústria, Comércio e Mineração da Bahia, Guilherme Furtado Lopes, um dos idealizadores do projeto, imaginou que a jusante da fábrica de PTA logo haveria produções de resinas de poliéster nos três graus – têxtil, para a produção de fios e tecidos; embalagem, para garrafas PET; e industrial, para fios de alta tenacidade, usados principalmente na fabricação de pneus, ramo que já reúne na Bahia fábricas da Pirelli, Continental e Bridgestone.

    Plástico Moderno, Guilherme Furtado Lopes, ex-superintendente de Indústria, Comércio e Mineração da Bahia, Pólo da Bahia - Maior complexo petroquímico do País amarga o desinteresse em sua modernização

    Furtado previa a produção de resinas poliéster nos três graus

    Também imaginou a formação de um cluster de empresas têxteis – fiações, malharias e fábricas de confecções, que além de fios e tecidos de poliéster, disporia do algodão de excelente qualidade, cultivado no oeste do Estado. Algumas empresas destes ramos chegaram a celebrar cartas de intenção com o governo baiano, mas fizeram meia-volta – estão se instalando em Pernambuco.
    Para atenuar o desapontamento de Furtado e dos baianos, o presidente da Petrobrás, o baiano José Sérgio Gabrielli, declarou vagamente que uma segunda fábrica de PTA seria construída, esta na Bahia, a partir de 2009 – consolo que não está sendo levado a sério pelos conterrâneos, com base na alta escala da produção que haverá em Pernambuco: 640 mil t/ano. Não haveria mercado para mais uma fábrica, argumentam.

    A opção por Pernambuco é atribuída na Bahia a uma decisão monocrática do presidente Lula, insatisfeito com os ataques do senador Antonio Carlos Magalhães ao seu governo e desejoso de ampliar a repercussão da construção de uma refinaria, a Abreu e Lima, em seu Estado natal – esta, uma parceria da Petrobrás com a estatal de petróleo da Venezuela.

    Antes de o projeto da fábrica de PTA ser transferido para Pernambuco, pesquisadores, como a economista da Agência de Desenvolvimento da Bahia (Desenbahia), Vera Spínola, e o ex-diretor do BNDES Participações e ex-presidente de duas empresas petroquímicas, Adary Oliveira, já alertavam para a tendência de redução da participação do 2º Pólo na produção total de resinas. Ambos estudam este tema e já publicaram teses e livro.

    Vera Spínola, na tese que está elaborando – “A indústria de transformação plástica no contexto das transformações internacionais e locais” – enumera sinais de que os custos de transação, notadamente os do transporte, estão aumentando e, conseqüentemente, acentuando a tendência concentracionista no Sudeste. “Com o começo de operação da Rio Polímeros, as regiões Sul e Sudeste passaram a deter, juntas, quase 75% da produção nacional de resinas”, ressalta. Ela aponta a necessidade de uma política compensatória, que isole a desvantagem do 2º Pólo, atribuída principalmente ao fato de ele estar distante do Sudeste.

    Adary Oliveira, em tese transformada no livro “O Pólo Petroquímico de Camaçari – industrialização, crescimento econômico e desenvolvimento regional”, argumenta que os novos projetos, que foram ou estão sendo instalados no Sudeste, juntamente com o duplicado pólo argentino de Bahía Blanca, apresentam vantagens comparativas decorrentes do agravante custo do transporte. Adverte que se não houver um crescimento da demanda dos produtos de terceira geração, correspondente ao próprio crescimento da oferta de produtos da segunda geração em curso, haverá, nos prazos médio e longo, duas alternativas no 2º Pólo: exportar o excedente da produção não comercializado no mercado interno; ou ampliar a indústria de terceira geração na Bahia e no restante do Nordeste, com vistas a vender bens finais nos mercados nacional e global.

    É claramente percebido que a apatia no 2º Pólo destoa dos projetos que foram ou serão instalados no Sudeste, a exemplo do Pólo de Paulínia, em São Paulo; do Pólo Gás Químico, no Rio; da ampliação do Pólo de Cubatão-SP; e agora do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), que inclui uma refinaria – a Unidade de Petroquímicos Básicos (UPB) da Petrobrás – gigantesco craqueamento catalítico (CFF) que prevê a transformação de óleo pesado do campo de Marlim em destilados para a petroquímica.

    A apatia se deve também à não-implantação de anunciados projetos que deveriam inaugurar novo ciclo de investimento, logo na pós-privatização da petroquímica – projetos como a fábrica de 500 mil t/ano de estireno, empreendimento no âmbito de imaginada joint venture Dow Química-Basf; a fábrica de 350 mil t/ano de polipropileno (PP) que a Petrobrás e a própria Braskem, donas de 40% e 60% do empreendimento, decidiram por fim instalar em Paulínia-SP; e a planta de ácido acrílico que a Petrobrás, impositivamente, decidiu construir em Minas Gerais para melhor aproveitar o propeno da Refinaria Gabriel Passos –, e não na Bahia, como queriam os outros dois sócios.



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