Pólo da Bahia – Maior complexo petroquímico do País amarga o desinteresse em sua modernização

Desde que a Petrobrás decidiu construir a fábrica de ácido tereftálico purificado (PTA) em Pernambuco, um clima de paralisia estratégica passou a ser sentido na Bahia – um sentimento de impotência diante da necessidade de assegurar novo ciclo de crescimento e a própria sobrevivência do 2º Pólo Petroquímico, o conjunto industrial instalado há quase trinta anos no município de Camaçari-BA, seguindo diretriz do II Plano Nacional de Desenvolvimento Industrial (II PND).
A cogitada e frustrada fábrica baiana de PTA, além de prevista para demandar matérias-primas locais, como o paraxileno, produzido na Braskem, e o monoetileno glicol, na Oxiteno (grupo Ultra), possibilitaria a progressiva inserção de um pólo de poliéster na cadeia petroquímica.

A localização na Bahia se justificaria também, argumentam os baianos, pela oferta de mão-de-obra qualificada – e até pela circunstância de o projeto haver sido idealizado no Estado, com base nas vantagens comparativas locais e com o propósito de adensar a atividade industrial na Grande Salvador.
O ex-superintendente de Indústria, Comércio e Mineração da Bahia, Guilherme Furtado Lopes, um dos idealizadores do projeto, imaginou que a jusante da fábrica de PTA logo haveria produções de resinas de poliéster nos três graus – têxtil, para a produção de fios e tecidos; embalagem, para garrafas PET; e industrial, para fios de alta tenacidade, usados principalmente na fabricação de pneus, ramo que já reúne na Bahia fábricas da Pirelli, Continental e Bridgestone.

Plástico Moderno, Guilherme Furtado Lopes, ex-superintendente de Indústria, Comércio e Mineração da Bahia, Pólo da Bahia - Maior complexo petroquímico do País amarga o desinteresse em sua modernização
Furtado previa a produção de resinas poliéster nos três graus

Também imaginou a formação de um cluster de empresas têxteis – fiações, malharias e fábricas de confecções, que além de fios e tecidos de poliéster, disporia do algodão de excelente qualidade, cultivado no oeste do Estado. Algumas empresas destes ramos chegaram a celebrar cartas de intenção com o governo baiano, mas fizeram meia-volta – estão se instalando em Pernambuco.
Para atenuar o desapontamento de Furtado e dos baianos, o presidente da Petrobrás, o baiano José Sérgio Gabrielli, declarou vagamente que uma segunda fábrica de PTA seria construída, esta na Bahia, a partir de 2009 – consolo que não está sendo levado a sério pelos conterrâneos, com base na alta escala da produção que haverá em Pernambuco: 640 mil t/ano. Não haveria mercado para mais uma fábrica, argumentam.

A opção por Pernambuco é atribuída na Bahia a uma decisão monocrática do presidente Lula, insatisfeito com os ataques do senador Antonio Carlos Magalhães ao seu governo e desejoso de ampliar a repercussão da construção de uma refinaria, a Abreu e Lima, em seu Estado natal – esta, uma parceria da Petrobrás com a estatal de petróleo da Venezuela.

Antes de o projeto da fábrica de PTA ser transferido para Pernambuco, pesquisadores, como a economista da Agência de Desenvolvimento da Bahia (Desenbahia), Vera Spínola, e o ex-diretor do BNDES Participações e ex-presidente de duas empresas petroquímicas, Adary Oliveira, já alertavam para a tendência de redução da participação do 2º Pólo na produção total de resinas. Ambos estudam este tema e já publicaram teses e livro.

Vera Spínola, na tese que está elaborando – “A indústria de transformação plástica no contexto das transformações internacionais e locais” – enumera sinais de que os custos de transação, notadamente os do transporte, estão aumentando e, conseqüentemente, acentuando a tendência concentracionista no Sudeste. “Com o começo de operação da Rio Polímeros, as regiões Sul e Sudeste passaram a deter, juntas, quase 75% da produção nacional de resinas”, ressalta. Ela aponta a necessidade de uma política compensatória, que isole a desvantagem do 2º Pólo, atribuída principalmente ao fato de ele estar distante do Sudeste.

Adary Oliveira, em tese transformada no livro “O Pólo Petroquímico de Camaçari – industrialização, crescimento econômico e desenvolvimento regional”, argumenta que os novos projetos, que foram ou estão sendo instalados no Sudeste, juntamente com o duplicado pólo argentino de Bahía Blanca, apresentam vantagens comparativas decorrentes do agravante custo do transporte. Adverte que se não houver um crescimento da demanda dos produtos de terceira geração, correspondente ao próprio crescimento da oferta de produtos da segunda geração em curso, haverá, nos prazos médio e longo, duas alternativas no 2º Pólo: exportar o excedente da produção não comercializado no mercado interno; ou ampliar a indústria de terceira geração na Bahia e no restante do Nordeste, com vistas a vender bens finais nos mercados nacional e global.

É claramente percebido que a apatia no 2º Pólo destoa dos projetos que foram ou serão instalados no Sudeste, a exemplo do Pólo de Paulínia, em São Paulo; do Pólo Gás Químico, no Rio; da ampliação do Pólo de Cubatão-SP; e agora do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), que inclui uma refinaria – a Unidade de Petroquímicos Básicos (UPB) da Petrobrás – gigantesco craqueamento catalítico (CFF) que prevê a transformação de óleo pesado do campo de Marlim em destilados para a petroquímica.

A apatia se deve também à não-implantação de anunciados projetos que deveriam inaugurar novo ciclo de investimento, logo na pós-privatização da petroquímica – projetos como a fábrica de 500 mil t/ano de estireno, empreendimento no âmbito de imaginada joint venture Dow Química-Basf; a fábrica de 350 mil t/ano de polipropileno (PP) que a Petrobrás e a própria Braskem, donas de 40% e 60% do empreendimento, decidiram por fim instalar em Paulínia-SP; e a planta de ácido acrílico que a Petrobrás, impositivamente, decidiu construir em Minas Gerais para melhor aproveitar o propeno da Refinaria Gabriel Passos –, e não na Bahia, como queriam os outros dois sócios.

Empresas de segunda geração, que já deveriam estar duplicadas ou ampliadas há vários anos, salvo desgargalamentos e reformas, permanecem com a mesma produção inaugurada há quase trinta anos. São exemplos a Acrinor (Acrilonitrila), e a ex-Suzano (polipropileno) e agora Petroquisa, ambas consumidoras de propeno, olefina ainda fartamente disponível na unidade de insumos básicos da Braskem – e, por isso, largamente exportada. O fechamento iminente de outras plantas de segunda geração é sempre comentado.

Há também a percepção de desinvestimento, causada pelo encerramento, nos dois anos recentes, de várias produções de resinas e matérias-primas intermediárias para a indústria de plástico. São apontadas: a fábrica de compósitos de PP da Basell; a da Lanxess, ex-Bayer, formuladora de resinas ABS e SAN; a da Ciba, produtora de aditivos diversos; a da Metanor, de metanol; e, por último, a planta da Braskem, que produzia resina PET, a ex-Proppet, paralisada, juntamente com a produção de DMT, em razão da inauguração da concorrente M&G, em Pernambuco.

Por fim, o próprio desejo da Braskem de transformar-se em petroquímica global, com investimentos na produção de polietileno (PE) e polipropileno (PP) em países como Bolívia e Venezuela, onde há oferta abundante de gás natural/etano, restringe a expectativa da terceira ampliação do 2º Pólo, com a instalação de um terceiro cracker na unidade de insumos básicos.

A escassez de matéria-prima em condições adequadas ao suprimento do terceiro cracker é a principal fragilidade à tal expansão, antes tão cogitada para reverter o obsoletismo e a decorrente queda de indicadores de competitividade; restaurar o poder de atrair novos empreendimentos; e ampliar as atuais unidades produtoras de resinas e outras matérias-primas intermediárias.

Em razão do terceiro cracker, engenheiros e consultores que fizeram carreira no 2º Pólo, entre eles o ex-superintendente da Copene (atual unidade de insumos básicos da Braskem), Ary Silveira, imaginam soluções como a integração de toda a cadeia de hidrocarbonetos no Estado para assegurar a matéria-prima. Silveira há vários anos aponta algumas possibilidades:

1. Segregar toda a faixa pesada (C2+) do gás natural (GN) produzido na Bahia, incluindo as correntes procedentes das reservas históricas do Recôncavo (5,5 milhões de metros cúbicos/dia com 8% de etano) e o da emergente produção do campo de Manati (6 milhões de metros cúbicos/dia, com 3% de etano).

2. Instalar no porto de Aratu uma unidade de recebimento e liquefação de gás natural liquefeito (GNL), preferivelmente rico em C2+, acoplada à unidade de separação de C2+ das correntes locais de GN – acoplamento que possibilitaria a recuperação do frio gerado na regaseificação do GNL.

3. Ajustar o processo da Refinaria Landulpho Alves de Mataripe (RLAM) para converter, por meio de craqueamento por hidrogenação (HCC), o excesso de óleo pesado (fuel oil) lá produzido e exportado a preço gravoso, em destilados médios, como querosene, nafta e gasóleo.
Sobre a RLAM, em recente carta ao jornal A Tarde, alusiva a uma reportagem sobre a tendência à concentração da petroquímica no Sudeste, José Sérgio Gabrielli indicou que estariam em curso providências para fortalecer o 2º Pólo. Anunciou a possibilidade de revisão no plano de negócios da Petrobrás no Estado, onde seriam investidos em torno de 1,5 bilhão de dólares, até 2010, e 2,9 bilhões de dólares até 2011, incluindo a modernização da refinaria, possivelmente via instalação do craqueamento por hidrogenação.

Plástico Moderno, Adary Oliveira, ex-diretor do BNDES Participações e ex-presidente de duas empresas petroquímicas, Pólo da Bahia - Maior complexo petroquímico do País amarga o desinteresse em sua modernização
Oliveira sugere ampliar a 3ª geração na Região Nordeste

PP e PET – A estagnação no 2º Pólo Petroquímico pode ser simbolizada na fábrica de polipropileno (PP), que recentemente passou para o controle da Petrobrás, juntamente com todo o ativo da Suzano Petroquímica – uma velha fábrica que, desde 1978, quando foi inaugurada, produz as mesmas 125 mil t/ano. Não foi duplicada como quase todas, embora as vendas do PP sejam as que crescem mais explosivamente.

E, apesar de recente reforma no sistema catalítico, não produz grades de alto desempenho, alto fluxo etc. Permanece à margem do progresso e do desenvolvimento do mercado.A penúria de polipropileno no 2º Pólo contrasta com a fartura no 3º Pólo, o do Rio Grande do Sul, onde a produção alcança 800 mil t/ano – 650 mil t/ano na Braskem e o restante na ex-Ipiranga. É para sua produção no Rio Grande do Sul que a Braskem envia parte do enorme excedente de propeno que há em Camaçari, situação que promete reverter a partir de 2009, data estabelecida para a construção de sua primeira fábrica de polipropileno no 2º Pólo, anunciado projeto de 300 mil t/ano.

Além de propeno, outros dois petroquímicos de primeira geração também são enviados para fora do Estado: o paraxileno, que poderia ser usado na fabricação de PTA; e o benzeno, que viabilizaria a implantação da fábrica de poliestireno que chegou a ser imaginada, no âmbito da joint Dow-Basf.

Há quinze anos houve a primeira baixa na produção de um termoplástico no 2º Pólo: a Estireno do Nordeste desativou a unidade de polimerização e desde então envia o monômero para o Guarujá-SP, onde é polimerizado – procedimento que persistiu mesmo depois de a empresa ser adquirida pela Dow Química, no leilão de privatização.

A baixa mais recente é a desativação da unidade de 70 mil t/ano de polietileno tereftalato (PET) da Braskem, juntamente com a produção da matéria-prima, o DMT – uma rendição à fábrica concorrente da Mossi & Ghisolfi (M&G) inaugurada neste ano em Pernambuco. Tal fábrica, uma single line de 450 mil t/ano, foi apresentada como a maior do mundo, juntamente com a irmã gêmea, construída no México.

O diretor de relações institucionais da Braskem, Marcelo Lyra, revelou que a possibilidade de a produção do PET ser reativada em Camaçari continua sendo avaliada – e, se for aprovada, não será com base no DMT, cuja produção foi definitivamente encerrada. A rota será a mesma da M&G, a do paraxileno, aromático produzido na própria Braskem.

Uma análise da Solver Consultoria Empresarial para a Agência de Desenvolvimento da Bahia (Desenbahia) constatou a tendência de o 2º Pólo perder densidade, mediante estagnação e declínio na produção das resinas que apresentam maiores taxas de crescimento, como PP e PET. A análise conclui que a alta escala de produção, caracterizadora das fábricas que estão se instalando no Sul e Sudeste, é garantia de menores custos, fixo e variável, e perspectiva mais ampla de mercado, incluindo a prevista substituição das produções do 2º Pólo.

Plástico Moderno, Marcelo Lyra, diretor de relações institucionais da Braskem, Pólo da Bahia - Maior complexo petroquímico do País amarga o desinteresse em sua modernização
Lyra destaca planos de expansão nas unidades de resinas vinílicas

Investimentos da Braskem – No âmbito da Braskem, Lyra aponta seguidos investimentos para rebater a percepção de que o 2º Pólo não merece prioridade, a começar pela aquisição da fábrica de polietileno da Suzano, a então Politeno, seguida de expansão de 360 mil t/ano para 400 mil.

Lyra apresenta aplicações de aproximadamente R$ 1,4 bilhão, nos recentes quatro a cinco anos, em atualização tecnológica, melhorias ambientais, suprimentos, energia e outros itens. Refere-se aos acréscimos ocorridos nas produções de paraxileno e isopreno; às reformas nos reatores das unidades de vinílicos (MVC/PVC) na Bahia e Alagoas; e à substituição do metanol pelo etanol na produção do aditivo oxigenado que aumenta a octanagem na gasolina – antes Metil-terc-Butil-Éter (MTBE), agora Etil-terc-Butil-Éter (ETBE), sucedâneo ambientalmente aceito. Quanto ao futuro, lembra as previstas expansões das unidades de vinílicos – na Bahia, mais 80 mil t/ano, em Alagoas, mais 70 mil; e, para 2011, a inauguração da recentemente anunciada fábrica de 300 mil t/ano de polipropileno.

O executivo admite dois fatores que estariam realmente comprometendo a competitividade da Braskem no 2º Pólo:

1. a deficitária, segundo ele “lastimável”, situação da infra-estrutura de transporte, fator causador de crescentes custos de logística na entrada e saída de mercadorias, pelos modais rodoviário, ferroviário e marítimo;

2. a questão fiscal, expressa na impossibilidade de compensar plenamente, nas vendas internas, os créditos acumulados na compra de nafta à Petrobrás, como manda a Lei Kandir – e, como conseqüência, uma bolada de R$ 580 milhões a R$ 600 milhões a receber do governo do Estado, que reconhece a dívida, mas não sabe como pagar.

Marcelo Lyra revela e o governo confirma a ocorrência de entendimentos, no âmbito de uma comissão formada por representantes da Braskem e da Secretaria da Fazenda, com vistas à superação da questão fiscal. O governo, segundo Lyra, já se comprometeu a impedir que a bolada continue aumentando, mas ainda não há uma fórmula para saldar o acumulado. Entre as imaginadas, estão: a emissão de certificados lastreados no crédito, para negociação no mercado secundário – hipótese que, mediante deságio, interessaria a empresas com ICMS a recolher; vincular o pagamento à execução de novos investimentos da Braskem no 2º Pólo.

 

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