Vantagens do Polipropileno: aplicações, reciclagem e muito mais

Aplicações diversificadas e reciclagem estabelecida são vantagens da resina

Garantia de sua condição de matéria-prima tanto de aplicações de consumo massivo quanto de crescente quantidade de peças técnicas, a reconhecida versatilidade do polipropileno não deve este ano se traduzir em aumento significativo de demanda.

Há quem preveja alguma queda na procura por esse polímero, embora exista também quem projete um pequeno aumento (relativamente a 2022). Mas parece não haver também perspectivas de elevações de seus preços; ao menos em nível global. Pois por aqui ainda será necessário observar possíveis impactos da recente recomposição das tarifas de importação de sua versão copolímero aos patamares anteriores à redução adotada no ano passado.

Aqui no Brasil, fatores como as elevadas taxas de juros devem este ano limitar a cerca de um 1% o aumento na demanda por PP, projeta Thais Matsuda, analista de mercados químicos para a América Latina da consultoria ICIS.

Polipropileno: Aplicações e reciclagem são vantagens da resina ©QD Foto: iStockPhoto
Thais: excesso de capacidade global freia aumento de preços

“Globalmente falando, também esperamos que a demanda cresça em 2023, mesmo que em níveis baixos devido à desaceleração econômica nos Estados Unidos e na Zona do Euro, além do crescimento menos expressivo na China”, complementa Thais.

Por sua vez, Marta Drummond, diretora de termoplásticos da consultoria MaxiQuim, projeta uma queda de aproximadamente 1% nos volumes de PP consumidos no país no decorrer deste ano em comparação a 2022.

No ano passado, ela destaca, essa queda atingiu 8%, pela redução de 7,5% na produção e de 8% nas importações (as exportações permaneceram praticamente estáveis).

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Marta: consumo de PP no país deve cair quase 1% neste ano

“Os principais mercados que apresentaram queda foram utilidades domésticas, higiene, agropecuário; os que mais consumiram PP foram alimentos, bebidas e automotivo, porém com aumentos inferiores aos das quedas observadas nos setores citados”, detalha Marta.

Vantagens e diferenciais do polipropileno

Tendo movimentado mais de 80 milhões de toneladas em 2021, o mercado global de polipropileno deve, entre 2002 e 2027, registrar crescimento médio anual de aproximadamente 5,2%, destaca Laercio Gonçalves, presidente da Adirplast (Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins), recorrendo a dados da consultoria internacional Mordor Intelligence.

A demanda, ele observa, será em grande parte impulsionada pelas indústrias de embalagens e de bens de consumo, embora deva crescer também o emprego de PP em aplicações técnicas, como autopeças. “O mercado dessa resina cresce ainda porque ela é hoje muito utilizada em embalagens para o e-commerce”, diz. “Também pelas exigências da economia circular, o polipropileno tem uma cadeia de reciclagem mais estabelecida”, acrescenta Gonçalves.

Líder de TS&D (Technical Services & Development) da Braskem na América do Sul, Fábio Mesquita também cita o maior potencial de reciclagem como diferencial favorável ao PP, que sua empresa já oferece em diversos grades com conteúdos reciclados.

Além disso, prossegue Mesquita, comparado aos plásticos de engenharia, ele se destaca por sua baixa densidade, e assim favorece projetos focados em redução de peso, além de apresentar excelente processabilidade, propícia para ganhos de produtividade.

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Mesquita: baixa densidade da resina reduz peso das peças

“Com os diferentes tipos de PP conseguimos atingir um balanço diversificado de propriedades, habilitando seu uso em ampla quantidade de processos, aplicações e mercados”, enfatiza.

No segmento de eletrodomésticos, relata Mesquita, a Braskem hoje desenvolve projetos visando o uso de PP como substituto de polímeros de engenharia, como o ABS.

“Em embalagens flexíveis laminadas temos projetos para substituir o PET pelo BOPP, com a vantagem de converter uma embalagem multimaterial para monomaterial”, complementa.

Outros usos

Filmes formatados como embalagens flexíveis, tampas de embalagens rígidas, utilidades domésticas e ráfia são alguns usos bem consolidados do polipropileno.

E, recentemente, na versão PPR (PP Random), ele se tornou também matéria-prima de sistemas de tubulações produzidos no Brasil pela GF FGS, que agora disputam mercado com sistemas feitos com materiais como aço ou PVC revestido com fibra de vidro, em aplicações de condução de químicos, manuseio de químicos em sistemas de tratamento de água e efluentes, condução de efluentes com elevados teores de químicos e/ou com elevadas temperaturas (por exemplo, a vinhaça gerada pela indústria sucroalcooleira).

Nessas aplicações, destaca Mauricio Mendonça de Oliveira, diretor do segmento industrial da GF FGS, o PPR apresenta, entre outros diferenciais favoráveis, a elevada resistência à corrosão – superior à do aço –, a durabilidade e a reduzida demanda por manutenção.

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Oliveira: na Europa, PPR já entrou nas tubulações prediais

“No quesito preços, ele é extremamente competitivo nos sistemas com diâmetro até 12 polegadas, e competitivo nos diâmetros entre 12 e 20 polegadas”, ressalta.

A GF FGS, informa Oliveira, iniciou a produção de sistemas de tubulações de PPR em 2022, logo após a aquisição da empresa FGS – que no Brasil já tinha posição já bastante consolidada em sistemas em PE –, pelo grupo de origem suíça GF (sigla de Georg Fischer, do qual faz parte, e que produz sistemas de tubulações em sessenta plantas distribuídas por mais de trinta países).

No Brasil, a empresa atualmente produz sistemas de tubulações em PE e PP em fábricas em Cajamar-SP e Recife-PE, e fornece sistemas importados de outras de suas operações feitos de polímeros como PVC, CPVC, PVDF, PB (polibutileno), entre outros.

“Na Europa, sistemas de tubulações em PPR já são utilizadas mesmo em aplicações prediais, para água fria e quente”, observa Oliveira.

Nas aplicações industriais, sistemas de PPR são extremamente duráveis e atendem a pelo menos 90% das necessidades de condução de produtos químicos e de efluentes com elevados teores de químicos, ou com elevadas temperaturas, com requisitos de desempenho superiores, ou pelo menos iguais, aos de outros materiais construtivos.

“Sem contar que são muito mais adaptáveis que o aço a soluções customizadas”, enfatiza. “Só não são mais utilizados por uma tradição de uso de outros materiais e por falta de maiores conhecimentos sobre seus benefícios”, pondera o profissional da GF FGS.

A multinacional de origem japonesa JSP no Brasil produz espumas de EPP (polipropileno expandido) em uma planta em Santo Antônio de Posse-SP.

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JSP quer colocar PP expandido (EPP) também nas embalagens

Atualmente, essas espumas têm como principal cliente a indústria automobilística, que as utiliza em aplicações como elementos de absorção de para-choques e núcleos de bancos dos veículos, entre outras.

Mas a empresa quer ampliar sua presença também no setor de embalagens, para o qual lançou no ano passado uma linha que inclui soluções capazes de concorrer com materiais como papelão e EPS (poliestireno expandido), em diversas utilizações.

Algumas delas: transporte de alimentos, especialmente aqueles que necessitem maior proteção térmica, para o qual recebeu aval da Anvisa; transporte de componentes e autopeças mais sensíveis, como faróis e lanternas; bandejas para cultivo de mudas de plantas.

Presidente da operação brasileira da JSP, José Carlos Falchetti visualiza grande potencial de negócios nesse segmento das embalagens.

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Falchetti: EPP reduz emissões de CO2 e são mais recicláveis

“Nele, o EPP proporciona vantagens relevantes de redução de custo e desempenho, mas também de sustentabilidade, pois essas embalagens, mais leves e compactas, reduzem a emissão de CO2 e são totalmente recicláveis”, justifica.

“Mesmo a indústria automobilística começa a usar mais EPP, como substituto de outros materiais, em componentes estruturais antes feitos de aço e peças injetadas, como insertos de portas e de apoios de cabeça”, acrescenta.

A produção do EPP, relata Luiz Carlos Triozzi, gerente de qualidade e vendas da empresa, tem início com a extrusão de PP com masterbatches destinados a conferir cor, da qual resultam pellets que são conduzidos a um reator onde o CO2 atua como agente expansor, resultando em um material com características técnicas bastante favoráveis em diversos quesitos.

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Triozzi: material proporciona isolamento térmico e acústico

“É um material de baixo peso, quimicamente inerte, capaz de absorver energia e proporcionar isolamento térmico e acústico”, detalha Triozzi.

Valendo-se dessas propriedades, também os componentes de proteção térmica e acústica da construção civil, sistemas de refrigeração e condicionamento de ar já utilizam o EPP.

“E temos pesquisas e desenvolvimentos para aplicações esportivas, calçados, por exemplo, e na área médica”, relata Mariana Defendi, analista de marketing da JSP Brasil.

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Mariana: estudos para usar EPP em calçados e artigos médicos

“No ano passado passamos a produzir aqui no Brasil também EPE (polietileno expandido), utilizado em aplicações como calços de eletrônicos, por exemplo, de notebooks”, complementa Mariana.

Preços e potencialidades

Por enquanto, parece ainda difícil delinear possíveis impactos no mercado nacional do polipropileno da recente recomposição das tarifas de importação dessa resina.

Mais especificamente do PP copolímero, cuja alíquota de importação retornou ao patamar anterior, de 11,2%, após ter sido reduzida para 4,4% em meados do ano passado (quando a alíquota referente ao PP homopolímero também baixou de 11,2% para 6,5%).

A princípio, essa redução de alíquota deveria durar até o início de agosto próximo, mas o prazo foi antecipado para o início do último mês de abril (no caso do PP homo, a redução da tarifa ainda permanece válida até o período inicialmente previsto: início de agosto).

No Brasil, observa Gonçalves, da Adirplast, diferenças regionais entre sistemas tributários e incentivos fiscais impactam os volumes de importação e mesmo os preços, até mais intensamente que as alíquotas; diferenças, ele ressalta, que geram distorções e concorrência desleal entre resinas importadas que desembarcam em estados que concedem incentivos fiscais e são depois comercializadas, sem nenhuma contrapartida tributária, no restante do país.

Considerando a conjuntura global, Gonçalves não crê, ao menos no curto prazo, em alterações significativas nem nos preços do PP, nem nos volumes importados.

“A demanda está pouco aquecida e a oferta elevada; por isso, deve continuar entrando bastante resina importada”, pondera.

Lançamentos de novas plantas e expansões de capacidades de PP, anunciadas principalmente na Ásia, devem contribuir para o excesso de oferta durante o ano e para redução dos preços do PP, projeta Thais, da ICIS.

“Em contrapartida, com custos produtivos mais elevados e após as correções de preços vistas no ano passado, as margens dos produtores parecem comprimidas. Assim, esperamos taxas de operação em níveis mais reduzidos para rebalancear o mercado. Com isso, os preços acabam sendo pressionados para subir ou, pelo menos, não baixar”, destaca.

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Aplicações do EPP

Menos sujeita aos vaivéns da economia, por lidar com produtos essenciais, a indústria alimentícia, prevê Thais, deve se manter como principal mercado da resina no Brasil.

“Outro setor importante, embora com menor participação, é o automotivo, que enfrenta um cenário complicado nesse momento, mas o aumento gradual da demanda por carros elétricos pode estimular a demanda por PP no futuro”, ressalta a profissional do ICIS.

Diretora de químicos e especialidades da MaxiQuim, Taís Marcon Bett, também visualiza a possibilidade de maior uso de PP na indústria automobilística, mesmo estando esse setor submetido aos impactos negativos das altas taxas de juros, que prejudicam a aquisição de bens duráveis.

Ainda nesse confronto com outras resinas de engenharia, ela prossegue, esse polímero já ganhou espaço em segmentos como os eletroportáteis, entre os quais se incluem fritadeiras elétricas.

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Taís: uso automotivo cresceu com a escassez de poliamidas

“Ganhou espaço principalmente pela restrição da oferta mundial de poliamida, que impulsionou o desenvolvimento local de compostos específicos, com fibra de vidro e aditivos”, explica Taís.

Há ainda, aponta Taís, grande potencial de novos usos em aplicações relacionadas à economia circular, que entre outros quesitos demanda materiais mais recicláveis e redução da utilização de insumos e combustíveis.

Demanda, ela ressalta, muito presente na indústria automobilística, sempre em busca de produtos mais leves e que consumam menos combustível.

“Mas pode-se destacar também inovações em grades de filmes de BOPP, visando substituição de filmes multimateriais, como BOPET/PE”, especifica.

Gonçalves, da Adirplast, visualiza oportunidades de mais uso de PP na fabricação de dispositivos elétricos, como sensores, medidores e equipamentos de testes industriais.

“Há fatores que favorecem o PP na indústria de eletrônicos, como ótimas propriedades elétricas e resistência à temperatura; aliado a isso, preço competitivo em relação a outros materiais, principalmente aos plásticos de engenharia”, argumenta. “Nesse mesmo mercado, o que pode prejudicá-lo é a sensibilidade a solventes, usado em algumas aplicações da indústria eletrônica, e de alguma forma afetar a estabilidade dimensional”, acrescenta Gonçalves.

Ele crê que, embora deva crescer no segmento dos plásticos de engenharia, também o uso de polipropileno como commodity deve seguir crescendo, impulsionado principalmente pelo aumento da demanda por embalagens, especialmente em países em desenvolvimento, onde ainda é baixo o consumo per capita de embalagens.

“Além disso, a reciclabilidade do PP tem sido cada vez mais valorizada por consumidores e empresas, o que pode aumentar a demanda por polipropileno reciclado em aplicações diversas”, enfatiza o presidente da Adirplast.

Vantagens do Polipropileno: Reciclados

Com exceção daquelas destinadas ao contato direto com alimentos – vedadas pela legislação sanitária –, praticamente todas as aplicações usuárias de PP virgem hoje empregam também conteúdos reciclados dessa resina, afirma Ricardo Mason, CEO da recicladora Plastimil. Inclusive em indústrias com requisitos de qualidade e desempenho bastante elevados, como a automobilística:

“Somos hoje credenciados como fornecedores globais da Stellantis”, ressalta Mason, referindo-se ao conglomerado global que controla marcas como Fiat, Citroen e Peugeot, entre outras.

Em sua planta de Vinhedo-SP, a Plastimil recicla cerca de 10 mil toneladas de PP a cada ano, e destina essa produção a diversos mercados: o próprio setor automobilístico, mas também embalagens – especialmente para tampas –, utilidades domésticas, móveis, brinquedos, entre outros.

“Temos hoje resinas 100% PCR para ráfia, algo difícil de fazer, exige muito know how”, especifica Mason. Persiste, ele reconhece, alguma dificuldade para atender à demanda por PP reciclado para algumas aplicações, como as peças com cores mais claras. E existem algumas aplicações nas quais esse reciclado ainda é pouco utilizado: por exemplo, multifilamentos de carpetes. “Até se pode pensar em desenvolver resinas recicladas para essa aplicação, mas precisa ver se o custo compensa”, pondera Mason.

Por sua vez, a Vitopel recicla suas sobras de PP, reutilizando parte dessa reciclagem em seus próprios processos de fabricação de BOPP (polipropileno biorientado), e destinando outra parte à comercialização.

E cresce, afirma Monica Telfser, gerente de desenvolvimento e inovação da Vitopel, a demanda por esse material reciclado, especialmente para aplicações como baldes para produtos não-alimentícios, chapas para termoformagem, mesas e cadeiras.

Polipropileno: Aplicações e reciclagem são vantagens da resina ©QD Foto: iStockPhoto
Monica: BOPP feito com PCR atende metas dos brand owners

“A Vitopel, detalha Monica, tem hoje duas plantas de produção de BOPP, cada uma com duas linhas de produção, que juntas perfazem uma capacidade nominal de 94 mil t/ano (e onde também é realizada a reciclagem).”

Segundo ela, havendo a correta separação entre as cores originais dos filmes, nenhuma restrição técnica impossibilita a presença de PP reciclado nas aplicações nos quais ele é utilizado em versão virgem (novamente, excluindo-se as aplicações alimentícias).

Nem mesmo nos filmes de BOPP da própria Vitopel. Exceto, ressalva Monica, “em caso de alteração de cor, como reciclados provenientes de filmes metalizados”.

Ela atrela o uso de resinas recicladas PCR nesses filmes ao desenvolvimento de fontes de resíduos consistentes em quesitos como qualidade, disponibilidade e regularidade.

“Já existem projetos em curso na Vitopel com a utilização de resina PCR para aplicações que não têm contato direto com alimentos, de forma a permitir o atendimento de algumas das metas de sustentabilidade dos brand owners”, diz Monica.

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