Polietileno: Importação supre crescimento da demanda

Importação supre crescimento da demanda local que coloca em foco a sustentabilidade

Com a capacidade produtiva estagnada, o mercado nacional de polietileno (PE) segue sem previsão de novas fábricas, pelo menos, no curto prazo. Além disso, o setor apresenta crescimento abaixo de 3% ao ano, em consonância com o ritmo do Produto Interno Bruto (PIB). O que também se mantém é o perfil importador do setor. No entanto, nos últimos meses a produção local encolheu ainda mais, frente ao aumento do volume de resinas que entrou no país. Por outro lado, a indústria de PE avançou em questões relacionadas à sustentabilidade, pois tem focado na economia circular, com soluções pautadas na reciclabilidade e na redução das emissões de CO2.

O mercado de polietileno (PE) no Brasil cresceu 2,7%, de 2021 para o ano passado. Essa porcentagem representa um pequeno incremento sobre a taxa média de 2,4%, registrada entre 2017 e 2022, como informou Solange Stumpf, sócia executiva MaxiQuim Business and Intelligence. Já em relação à capacidade produtiva da resina, as notícias são pouco estimulantes: a atual, de 3 milhões de t/ano, deve se manter, considerando que não há perspectiva de novas plantas no curto prazo.

“Atualmente, a demanda já ultrapassa a produção local, pois as plantas operam abaixo da capacidade máxima”, afirma Solange, lembrando que a Braskem é a única produtora local e a parcela do consumo nacional suprida por ela corresponde a algo em torno de 65%.

Estimado em 135 milhões de t/ano, o mercado global de polietileno (PE) revela uma demanda excedente de 20 milhões t/ano. As Américas Central e do Sul respondem por 4% (em média) da capacidade global, enquanto o consumo é da ordem de 6%. Esses são dados da Associação Brasileira dos Distribuidores de Resinas Plásticas e Afins (Adirplast).

Polietileno: Importação supre crescimento da demanda local que coloca em foco a sustentabilidade ©QD Foto: iStockPhoto

Gonçalves: EUA são a maior fonte de PE para o Brasil

“Dando um zoom em nosso país, a representatividade do Brasil na América Latina para polietileno é de 75% da capacidade produtiva, enquanto a demanda é de 50%”, explica Laercio Gonçalves, presidente da Adirplast. Considerando a taxa de crescimento anual composta, a expectativa para o polietileno de alta densidade (PEAD) é de 5% e para o polietileno de baixa densidade (PEBD), de 3%.

Grande entrada de polietileno (PE) no Brasil

A indústria nacional sempre foi dependente de produtos importados. Historicamente, a produção local atende a 70% da demanda, enquanto o restante é suprido pela importação. Segundo Gonçalves, em 2022, e sobretudo nos últimos meses de 2023, esse número sofreu alterações, alcançando a marca de 50%. De acordo com Solange, houve um aumento no volume de resinas entrando, neste primeiro semestre, devido à alta oferta no mercado internacional.

Além disso, a competitividade dos produtos locais tem sido prejudicada. Após o pico histórico da pandemia, os fretes internacionais se estabilizaram, porém existe um excedente global da resina devido à queda de demanda em todas as regiões. E, apesar da redução das alíquotas, nota-se um crescimento importante de material importado entrando por Manaus (ao redor de 60%) e, assim, se beneficiando da Zona Franca. Na percepção de Solange, tanto o preço dos polietilenos quanto as condições dos fretes têm caído. “Em relação às tarifas, elas têm se mantido constantes nos últimos meses”, complementa.

Os Estados Unidos é o grande exportador de polietileno (PE) para o Brasil, sendo seguido por Argentina e Canadá, nessa ordem. Gonçalves conta que 70% da importação brasileira vêm da América do Norte. “Para eles, somos mais de 30% da exportação”, completa.

A demanda de PE é atrelada ao Produto Interno Bruto (PIB), como confirma o crescimento de 2,9% do Brasil, em 2022, e o de 2,7% do mercado dessa resina. É fácil explicar este pareamento.

Polietileno: Importação supre crescimento da demanda local que coloca em foco a sustentabilidade ©QD Foto: iStockPhoto
Solange: oferta mundial alta explica avanço da importação

“Fatores que influenciam o desempenho do setor, em maior parte, são os bens de consumo, como alimentos e bebidas, descartáveis e o setor agrícola”, afirma Solange.

Segundo Gonçalves, com a fragilidade das economias globais e um crescimento modesto, as demandas estão reduzidas e devem seguir assim em 2023. No entanto, a versatilidade do polietileno (PE) o conecta a uma vasta gama de aplicações, entre as quais o setor de embalagens tem se destacado. Letícia Vanzetto, gerente de desenvolvimento de novos mercados da Dow, conta que durante a pandemia o consumo de alimentos, produtos de limpeza e de higiene pessoal aumentou nos lares, puxando com ele o de embalagens, em especial, as flexíveis.

A Dow, aliás, prevê que o crescimento do mercado de polietileno global será alavancado por diversos fatores, como as mudanças na demografia da população e a melhoria do status socioeconômico em algumas regiões emergentes. Mas, a influência principal será da demanda por soluções sustentáveis por meio de opções de baixa pegada de carbono e que contribuam com a circularidade e a redução do desperdício de alimentos. Segundo Letícia, para além das embalagens, esse crescimento também deve ser impulsionado pelo aumento das redes de telecomunicações e desenvolvimento de infraestrutura de transmissão e distribuição elétrica e de aplicações de energia renovável como a eólica e solar.

O cenário internacional, obviamente, também afeta a indústria brasileira. É o caso da guerra russo-ucraniana. O impacto mais grave ocorreu no passado, com o comprometimento do fluxo de produção e da logística; e as consequências seguem dificultando os negócios, com os custos altos de energia, a instabilidade global e o aumento inflacionário, em todas as regiões.

Polietileno: Sustentabilidade em foco

Soluções em polietileno se direcionam, cada vez mais, para atender ao conceito de circularidade e promover a diminuição das emissões de CO2. A indústria têm se proposto a viabilizar a reciclabilidade das estruturas das embalagens, com menor pegada de carbono, sem comprometer o desempenho e a produtividade. O foco dos desenvolvimentos também se direciona para a incorporação de resinas pós-consumo (PCR), fechando o ciclo.

Como foi dito, o polietileno (PE), atende a diversas indústrias, desde bens de consumo até infraestrutura. Porém, como qualquer outro material produzido no sistema de economia linear, no qual, basicamente, seguem a rota produção, uso e descarte, esses resíduos têm o seu final de ciclo de vida em aterros e, muitas vezes, nos oceanos. O mercado de PE sabe disso e se preocupa em alterar esse desfecho, promovendo a transição para a economia circular.

Polietileno: Importação supre crescimento da demanda local que coloca em foco a sustentabilidade ©QD Foto: iStockPhoto
Letícia: reciclagem ocupará espaço cada vez maior

“A reciclagem vai e deve ocupar um espaço cada vez maior no mercado”, vislumbra Letícia.

Aliás, em 2022, a companhia mapeou a transição para embalagens recicláveis de 22 aplicações que eram até então não recicláveis, com a conversão a monomateriais atingindo 87% da meta de ter 100% dos produtos vendidos para aplicações recicláveis.

Em sintonia com esta postura, neste ano, a Dow lançou um modelo de colaboração flexível e dinâmico para o centro de inovação em embalagens, Pack Studios, em Jundiaí-SP. Este sistema inclui desde o desenvolvimento do conceito de embalagem, passando pelo diagnóstico da embalagem atual e materialização, prototipagem e testes de novas embalagens, até a viabilização da reciclabilidade e incorporação de resinas pós-consumo nas mesmas.

Além disso, a companhia anunciou globalmente para os próximos anos a construção do primeiro complexo produtivo de etileno e derivados com emissões líquidas de carbono zero, no Canadá. Letícia fala ainda sobre o Projeto Pegada Limpa. Liderado pela Dow, consiste em alcançar a economia circular no mercado de embalagens de alimentos para animais de estimação na América Latina. A iniciativa recebeu investimento de US$ 500 mil da Fundação Dow e será implementada em colaboração com a Fundación Avina.

De modo geral, as empresas de embalagens têm buscado desenvolver projetos inovadores, que tenham estruturas que permitam atender às exigências de barreiras sem usar materiais de difícil reciclabilidade. Como exemplo, Letícia cita a embalagem da ração Origens, da Adimax, na qual foi possível susbstituir a estrutura antiga por uma monomaterial, desenhada para a reciclabilidade e mantendo as características de proteção ao produto.

O filme Monopack, também feito com resinas da Dow, segue conceito semelhante. Resultado de um desenvolvimento feito em parceira com a Incoplast, empresa do Grupo Copobras, trata-se de tecnologia projetada para substituir as embalagens convencionais que utilizam poliamida e são mais difíceis de reciclar. Letícia explica que atendem a padrões de qualidade exigentes (do setor de alimentos premium para pets) e apresentam elevados níveis de barreira à gordura e umidade, selagem hermética, alta resistência mecânica e é pensada para reciclabilidade.

Não por acaso, de seu portfólio, a companhia destaca a linha de resinas de polietileno pós-consumo reciclada (PCR) Revoloop, produzida no Brasil em parceria com a Boomera LAR/Ambipar. O material reciclado é comprado de cooperativas de resíduos e depois utilizado para produzir a resina nas instalações da empresa parceira.

“Além de seu impacto ambiental, o projeto também tem um impacto social, já que contribui para fortalecer e formalizar o trabalho dos catadores de materiais recicláveis”, comenta Letícia.

Explica ainda que esta resina representa os esforços mundiais da empresa para tornar a reciclagem mecânica uma realidade. “Permite a incorporação de PCR de alta qualidade em nossas embalagens plásticas diárias e outras aplicações, ajudando assim a fechar o ciclo sobre os resíduos plásticos”, reforça.

Resinas como Elite AT e Innate também compõem o vasto portfólio de PE da Dow. Segundo Letícia, entregam resultado superior em características como rigidez e excelente desempenho mecânico, o que permite o desenvolvimento de embalagens monomateriais, substituindo resinas como polietileno tereftalato (PET) e polipropileno (PP), e entregando uma solução tecnicamente reciclável.

Os planos da companhia prometem, efetivamente, fazer a diferença no ambiente. Até 2030, a Dow se propõe a reduzir suas emissões anuais líquidas de carbono em 5 milhões de t (15% em relação a 2020) e ainda transformar resíduos plásticos e outras formas de matéria-prima alternativa para comercializar, anualmente, 3 milhões de t métricas de soluções circulares e renováveis. A saber: a sede das operações na América Latina da Dow está localizada em São Paulo-SP, e o complexo produtivo fica em Bahia Blanca, na Argentina.

A Activas, associada da Adirplast e comandada por Gonçalves, também endossa um posicionamento pautado na sustentabilidade. A companhia faz o inventário de emissão de CO2, desde 2019, assim como tem realizado altos investimentos em logística reversa e na estruturação da estratégia ESG (Ambiental, Social e Governança). “Está claro ao mercado que quem estiver fora dessa agenda, terá dificuldades em se manter no jogo”, pontua Gonçalves. O caso não é isolado. Segundo ele, a economia circular é a pauta do momento e os associados da Adirplast estão alinhados a esse movimento global.

Sob esta ótica, Rogério Cardinali Martins, executivo responsável pela Associação Brasileira de Tubos Poliolefínicos e Sistemas (ABPE) faz uma ressalva e pontua que o polietileno é uma matéria-prima que, respeitados alguns cuidados, pode ser reciclada sem problemas.

Polietileno: Importação supre crescimento da demanda local que coloca em foco a sustentabilidade ©QD Foto: iStockPhoto
Martins: durabilidade do PE garante aplicações nos tubos

“A reciclagem tende, sim, a ocupar um espaço cada vez maior, desde que sejam resinas ou compostos com rastreabilidade, origem e certificação/homologação e atendam aos requisitos técnicos das normas/especificações de fabricação”, diz, destacando que os tubos de PEAD são 100% recicláveis após o fim de sua vida útil.

Ele lembra também que o PE é uma resina que demora para se degradar, sendo muito resistente ao ataque químico da maioria das substâncias encontradas no subsolo, o que, aliás, favorece sua aplicação nas redes, devido à grande longevidade e resistência.

O engajamento do setor na sustentabilidade é de fácil entendimento. Anualmente, são geradas 17 milhões de toneladas de resíduos plásticos na América Latina, representando 7% do total de resíduos plásticos gerados no mundo. Esse dado, segundo Letícia, mostra o tamanho do problema, mas igualmente a dimensão das oportunidades. “Uma transição completa para uma economia circular poderia potencialmente desbloquear US$ 4,5 trilhões em todo o mundo, sendo que grande parte desse potencial está na América Latina”, finaliza.

Tubos

O mercado de tubos poliolefínicos está num momento próspero. Investimentos na construção e modernização das fábricas revelam o otimismo do setor quanto às metas do governo em proporcionar à população água limpa e tratamento de esgoto. De qualquer forma, por ora, o segmento já apresenta crescimento. Há avanços, nos últimos anos, sobretudo por conta das demandas provenientes das redes de água e esgoto, adutoras e sistemas pluviais.

Em várias áreas esta tecnologia já está consagrada, como na distribuição de gás natural, rede subterrânea de energia elétrica e telecom, drenagem subterrânea e pluvial, além da rede pressurizada de água e esgotamento sanitário. “Vemos um avanço contínuo dos tubos de polietileno de alta densidade (PEAD)”, afirma Rogério Cardinali Martins, executivo responsável pela Associação Brasileira de Tubos Poliolefínicos e Sistemas (ABPE), referindo-se ao saneamento básico.

De acordo com Martins, esse cenário contribuiu para o surgimento de vários fabricantes e normas técnicas, prestadores de serviços em soldas e uso do MND (métodos não destrutivos). Ele conta ainda que os tubos de PEAD têm conquistado os corpos técnicos das concessionárias, departamentos de águas e energia elétrica e serviços autônomos de água e esgoto.

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Aplicações de Tubos de Polietileno – Fonte: DOW

No país, há muito a se fazer em relação a novas redes de água e esgoto, sobretudo, considerando o Novo Marco do Saneamento, cuja proposta é universalizar os serviços de água e esgoto até 2033. Por isso, o setor prevê muito mais investimentos, além daqueles que já movimentam os negócios. “Temos novos associados que estão investindo em novas fábricas e alguns associados antigos estão investindo em maquinários e equipamentos novos para aumentar a capacidade de produção”, comenta Martins.

Vale lembrar que, para as redes de água e de esgoto, os tubos corrugados em PEAD são apontados pela ABPE como a melhor opção, em quesitos como implantação rápida e eficácia. Em relação a outros materiais, o tubo de PEAD oferece, segundo Martins, benefícios. Ele cita a facilidade na montagem/instalação e durabilidade de mais de 50 anos, além de o plástico não sofrer corrosão, como ocorre no aço e no ferro fundido, e o menor custo tanto no produto como na instalação.

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