Plastivida: E se…

E se nada fosse como é hoje?

E se a percepção da sociedade sobre os plásticos fosse completamente diferente?

E se a sociedade já tivesse saído da mesmice extremista de ataque-defesa da imagem dos plásticos para uma maturidade na discussão sob a qual, de forma ampla, os mais diversos atores desta sociedade reconhecessem as suas parcelas de responsabilidade frente à preservação ambiental e atuassem favoravelmente, de forma conjunta, deixando suas diferenças de lado?

Veja que, quando falo dos atores, não falo somente dos fabricantes e dos usuários dos mais diversos produtos plásticos, mas incluo toda a sociedade, quem fabrica, quem transforma, quem vende e quem usa produtos plásticos, além de ONGs, ambientalistas que tratam do assunto, da imprensa e formadores de opinião, do poder público, do cidadão comum e outros atores que se envolvem de alguma forma com o produto.

E se estivéssemos um passo à frente do que nos encontramos hoje, no sentido de reconhecer que de fato os plásticos são úteis à sociedade e de nos preocuparmos em provar que temos maturidade suficiente para nos relacionarmos com esses produtos de modo a nos beneficiarmos em nossa qualidade de vida – e a nossos bolsos – sem colocarmos o Planeta em risco por causa de nossas atitudes?

Essa deveria se a nossa meta como sociedade. Imagine se chegássemos a um ponto de entendimento no qual, em vez de criticar um produto por ser de uso único, justamente por ser de uso único, pudéssemos observar que a questão está no comportamento da sociedade e não na característica do produto e muito menos na matéria-prima que é usada para fabricá-lo.

Vejamos o exemplo emblemático dos canudos:

Quando eu saio, preciso usar um canudo para cada nova bebida que eu tomar naquele momento? Não posso trocar a bebida e reutilizar o canudo, por exemplo?

Os estabelecimentos que servem as bebidas e usam canudos não poderiam coletar seletivamente esses produtos, criando campanhas educativas ou até promoções atrativas ao público que fomentassem as boas práticas?

E a gestão do reciclável nos municípios? Atenderia satisfatoriamente àqueles que estivessem realizando tais campanhas de coleta?

Digo isso independentemente de matéria prima.

Quantas vezes a solução dada ao produto de uso único feito de plástico é a substituição da matéria-prima (mesmo que o produto continue sendo de uso único) e não a mudança no comportamento das pessoas, assim como a melhoria dos processos de coleta e descarte, que garantiriam efetivamente que esse canudo, no caso, tivesse um destino correto que não a natureza?

O resultado é a superlotação de lixões e aterros, poluição e contaminação da mesma forma.

Podemos extrapolar essa ideia para além dos produtos de uso único.

E se o cenário da mudança de comportamento em relação aos canudos fosse em uma churrascaria a rodízio, tão popular no nosso país.

Por que nós, clientes, permitimos que os garçons troquem nossos pratos a todo momento e qual a razão dessa atitude deles?

Não são produtos de uso único, mas antagonicamente damos a estes pratos o sentido da descartabilidade.

E os celulares?

Poderíamos usá-los para disseminar nas redes sociais a nossa mudança de comportamento, desde que os celulares não sejam trocados anualmente, correto?

É necessário que cada fabricante tenha um modelo de carregador que só sirva em sua linha de celulares obrigando a compra de um novo carregador a cada troca de aparelho?

E se uníssemos esforços diante de um senso comum?

Já deveríamos ter passado da etapa de discutir as matérias-primas e começar a discutir o comportamento social em relação à geração de lixo de forma abrangente.

Sem isso não seremos efetivos no combate ao prejuízo ambiental.

Precisamos amadurecer nossa relação com diversos materiais e nos aproximarmos da reciclagem e da circularidade.

Compromisso para o futuro do oceano: Plastivida ©QD Foto: iStockPhoto
Miguel Bahiense é graduado em Engª Química (UFRJ), pós-graduado em Comunicação Empresarial (FAAP/SP) e é presidente da Plastivida – Instituto Socioambiental dos Plásticos.

E somente com esse nível de maturidade conseguiríamos analisar e evoluir no tripé da Sustentabilidade. Quão ultrapassada é a vilanização da indústria pelo fato dela gerar lucro?

É a indústria que gera emprego e dividendos para o país na forma de impostos, inteligência e inovação, entre outros valores.

Inclusive a indústria da reciclagem deve ser encarada como uma atividade econômica lucrativa, com o mesmo peso que ela tem por seus benefícios socioambientais.

São novos tempos com novos e gigantescos desafios para manter a saúde do Planeta. Não há mais tempo nem espaço para mantermos o modelo radical de “ataque-defesa da imagem do plástico”.

Precisamos parar de caçar vilões e de procurar soluções mágicas para os problemas reais e urgentes.

Todos somos responsáveis por impactar o meio ambiente e precisamos amadurecer nossas atitudes, nosso processo produtivo, nosso consumo, nossos meios de descarte e nossos modelos econômicos ainda não 100% circulares, para que possamos alcançar objetivos comuns a todos: garantir um futuro saudável para as pessoas e para o meio ambiente.

Para isso é preciso diálogo e maturidade.

Miguel Bahiense é graduado em Engª Química (UFRJ), pós-graduado em Comunicação Empresarial (FAAP/SP) e é presidente da Plastivida – Instituto Socioambiental dos Plásticos.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios