Plasticultura no Brasil está em crescimento

Plasticultura: Plásticos ajudam agronegócio a melhorar produtividade e reduzir perdas em logística

A plasticultura, ou seja, o uso de plásticos na produção agropecuária, é mercado acompanhado de maneira cada dia mais atenta pelos vários elos da cadeia do plástico, principalmente no Brasil.

E não apenas pelo expressivo e sempre crescente volume de negócios que gera, mas também porque, dadas as condições mais exigentes a que são submetidas suas aplicações, permite a oferta de produtos de maior valor agregado.

Filmes de mulching para cobertura do solo, lonas, silos bolsas, telados, sistemas de irrigação, são alguns dos produtos abrangidos pela plasticultura no Brasil.

Grande parte deles é feita de filmes flexíveis de PE, mas que também podem assumir formatos rígidos, como tubos, contentores e perfis para hidroponia, e utilizar outras resinas, como o PVC e PP.

Atualmente, a Braskem estima que 11% do consumo de polietileno PE, polipropileno PP e PVC no Brasil é destinado ao agronegócio, informa Ana Paiva, líder desse segmento na empresa (incluindo nessa conta itens como bombonas para agroquímicos e ráfia para sacaria). Ela aponta entre as aplicações com expansão mais rápida os silos bolsas e os tubos gotejadores feitos de PE.

Um silo bolsa, detalha Ana, mantém a qualidade do produto armazenado por mais de doze meses, permitindo ao produtor decidir o melhor momento para a comercialização da safra. É a aplicação que cresceu bastante no ano passado e deve seguir se expandindo.

Plasticultura: Plásticos ajudam agronegócio ©QD Foto: Divulgação
Ana: agro consome 11% de PE, PP e PVC vendidos no Brasil

“Estimamos que em 2024 a capacidade de produção de silo bolsa será incrementada em aproximadamente 50%”, avalia. “O tubo gotejador de PE, que possui utilização consolidada em hortifrutis, tem conquistado culturas de grandes áreas, como cana e grãos”, acrescenta a profissional da Braskem.

Ela vê a possibilidade de ampliação também do uso dos filmes de mulching, hoje mais comuns em culturas de ciclo curto, como hortaliças e frutas.

“Resultados de pesquisas de campo que mostram que os benefícios entregues por esta solução na retenção de umidade no solo, redução ou eliminação do uso de herbicidas e consequente aumento de produtividade podem ser expandidos para culturas de ciclo longo, como café, citros, cacau e abacaxi”, destaca Ana. “O mulching para plantas de ciclo longo ficará exposto por períodos maiores, às vezes de até 30 meses, por isso a estrutura do filme e sua formulação devem ser customizadas”, acrescenta.

Diretor-executivo da Borealis Poliolefinas América do Sul, Daniel Furió, inclui geomembranas, bombonas e outros recipientes para químicos, mangueiras para irrigação e tubos corrugados no rol das aplicações com as quais pode se desenvolver ainda mais o uso de plásticos na agropecuária. Para as bombonas e recipientes, a Borealis disponibiliza PE para sopro, e para geomembranas tem uma solução de PE de média densidade linear e bimodal, que “possui altíssima resistência química e, em conjunto com o PEAD, compõe uma formulação diferenciada e de alta durabilidade”. Nas mangueiras dos sistemas de irrigação agrícolas, diz Furió, “PEAD e PEBDL são os materiais mais usados”.

A Borealis disponibiliza ainda soluções para filmes de silagem, silos bag e mulching, e um PE linear de baixa densidade, de distribuição de cadeia molecular bimodal, capaz de trazer maior produtividade para o fabricante de filmes, especialmente aqueles com grandes larguras (acima de 8 metros).

Plasticultura: Plásticos ajudam agronegócio ©QD Foto: Divulgação
Furió: PEMD linear e bimodal dá resistência às geomembranas

”Ele também pode simplificar a formulação, pois reduz ou elimina a necessidade do uso de PEBD e da adição do masterbatch com agente difusor, pois promove intrinsecamente a difusão da luz quando utilizado em camadas externas”, destaca Furió.

Mas produzir filmes agrícolas resistentes e duráveis pode ser uma tarefa exigente, que muitas vezes requer a mistura de múltiplas resinas em detrimento da eficiência da transformação, observa Luís Oscar Passos de Barros, líder de mercado de filmes agrícolas da ExxonMobil Brasil. “O desafio é trabalhar com resinas de PE de alto desempenho”, enfatiza.

A ExxonMobil, afirma Barros, supera esse desafio com uma família de soluções de PE que “podem simplificar a produção do filme e melhoram a durabilidade”; entre elas, uma resina capaz de otimizar a combinação de alta tenacidade, baixa fluência e alta resistência à punção necessária à fabricação de produtos como silos bolsa.

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Barros: filmes agrícolas pedem PE de altíssimo desempenho

“A magnitude da melhoria é tal que é possível reduzir o peso da bolsa, que permite redução no conteúdo de PEBD e, consequentemente, aumento ainda maior no desempenho do filme de silo bolsa”, diz.

Para filmes de estufa e túneis de cultivo (estruturas similares a estufas mais baixas e com filmes mais finos, que protegem culturas mais sensíveis, como alface), a empresa tem agora resinas de PE linear e de PEBD que, de acordo com Barros, “oferecem desempenho mecânico notável com uma combinação de baixa densidade e índice de fluidez fracionário que ampliam o desempenho extremo do portfólio”.

Proteção anti UV é oferecida na plasticultura no Brasil

Na Basf, o carro-chefe nos negócios com o mercado agro é a linha NOR-HALS, de aditivos que aliam proteção à radiação ultravioleta à resistência química que protege as peças aplicadas em filmes de estufa e de mulching, silos bolsa, tubos de irrigação, entre outras, da ação de defensivos agrícolas.

Plasticultura: Plásticos ajudam agronegócio ©QD Foto: Divulgação
Daniela: filme aditivado afasta insetos dos cachos de banana

“Aditivos convencionais não têm resistência química adequada para suportar o uso de defensivos sem se romper”, ressalta Daniella La Torre, especialista técnica de Aditivos para Plásticos da empresa. “A Basf é a criadora da tecnologia NOR-HALS, que atende a esse desafio e também protege contra a radiação UV”, afirma.

O portifólio da empresa inclui produtos capazes proteger e prolongar a vida útil dos filmes agrícolas em diversas situações, desde aquelas que requerem proteção moderada a defensivos e outros contaminantes até as necessidades relacionadas a elevados níveis de radiação UV, calor e exposição a agentes como enxofre e compostos de agricultura orgânica certificada, entre outros agentes (além de soluções que permitem o uso de resinas recicladas e antioxidantes, entre outros produtos).

No ano passado, a Basf apresentou um filme de PE desenvolvido em parceria com a Braskem e a Unesp (Universidade Estadual Paulista), voltado ao cultivo de banana, para ser colocado logo no início da formação das flores para protegê-las contra o ataque de um inseto que deixa marcas e erupções na casca das frutas. “Ele tem ação repelente graças a um aditivo anti-UV, é 100% reciclável, e pode ser reutilizado por duas safras, garantindo a mesma eficiência de controle do inseto”, afirma Daniella.

A Cabot fornece, para a plasticultura, seu negro de fumo, muito utilizado como pigmento, mas que nesse mercado, tem como principal função a proteção anti-UV, ressalta Alexandre Carmello, gerente de marketing e serviços técnicos da Cabot Brasil.

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Carmello: negro de fumo gera proteção anti-UV permanente

“Mas ele também é importante para a opacidade, que evita a passagem de luz”, destaca.

Filmes de mulching, tubos de irrigação, silos bolsas, especifica Carmello, aparecem entre as principais aplicações no agro do negro de fumo; muito utilizado nesse mercado, ele explica, primeiramente por um custo inferior ao dos demais estabilizantes anti-UV. “Depois, porque fornece proteção permanente, enquanto os estabilizadores vão se perdendo com o tempo”, acrescenta Carmello.

Além de ser utilizado em concentrações maiores às de outras aplicações – muitas vezes de 2% ou 2,5% –, na plasticultura o negro de fumo também deve ter partículas menores. “Consideramos partículas grandes aquelas com cerca de 75 nanômetros, utilizadas em peças que requerem basicamente a pigmentação preta. Com 1% de concentração, ou mesmo 0,5%, a peça já fica bem preta. Para a plasticultura, algo em torno de 24 nanômetros está ok”, detalha Carmello. “Para nós é um produto de médio valor agregado. Mais baratos são os de partículas maiores, usados em sacos de lixo, por exemplo. Mas tintas automotivas usam partículas de até 13 nanômetros, com poder tintorial altíssimo”, compara.

Master e filmes

A produtora de masterbatches Ampacet atua no mercado da plasticultura com produtos dotados de alta tecnologia, muitas vezes de maior valor. Afinal, exemplifica Gustavo Passarelli, gerente sênior de negócios da área de filmes agrícolas da empresa na América Latina, um ingrediente como dióxido de titânio utilizado nas partes brancas de aplicações como silos-bolsa e alguns filmes de mulching deve ser resistente a intempéries.

Um dióxido de titânio resistente a intempéries, ressalta Passarelli, tem custo maior, mas grades comuns podem degradar a resina. “Uma parte do mercado prefere tentar utilizar titânios mais econômicos, perdendo qualidade e durabilidade do filme. Nós não oferecemos esses grades para plasticultura”, ressalta.

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Passarelli: dióxido de titânio barato reduz durabilidade

“Muitas vezes essa parte branca precisa também de inibidores de UV com maior resistência química, para suportar a ação de fertilizantes e pesticidas”, acrescenta.

Além da parte externa branca para refletir a luz solar e evitar aquecimento excessivo, silos brancos têm também a parte interna preta, para não passar nenhuma luz capaz de comprometer o alimento neles armazenado (alguns filmes de mulching têm a mesma constituição, mas nesse caso a parte externa branca reflete a luz para contribuir com o crescimento de determinadas culturas). Essa coloração negra é dada pelo negro de fumo do master preto, que além de colorir também tem ação anti-UV bastante eficaz.

“Em um silo bolsa, o negro de fumo deve ter elevado poder tintório, para que nenhuma luz chegue até o alimento; no caso do mulching, para que nenhuma luz chegue ao solo para permitir o crescimento de ervas daninhas”, ressalta Passarelli.

Em masterbatches destinados a filmes de estufas e de túneis pode haver diversos aditivos. Entre eles, obrigatoriamente um inibidor de UV, mas também aditivos antifog, antipoeira, ou do tipo térmico, para locais onde as temperaturas variam mais drasticamente da noite para o dia. “Um aditivo para filmes de estufa cada vez mais popular no Brasil, e em toda a América Latina, onde o calor se torna mais intenso, é o difusor, que evita que a luz solar queime a cultura, disseminando-a por vários pontos ao invés de concentrá-la”, acrescenta Passrelli.

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Dióxido de titânio adequado prolonga a vida de silos-bolsa sujeitos às intempéries

Percebendo o potencial do mercado agro, a fabricante de filmes Negreira estruturou uma marca específica para ele: a Agrovelper, que hoje tem filmes para mulching e para estufas, silos bolsa, lonas para silagem, lonas para armazenamento de água (todos feitos de PEAD). Buscando inovar no segmento do mulching, lançou um filme com a parte inferior preta e a superior vermelha, cor que, de acordo com Matheus Nitta, técnico da Agrovelper, estimula a fotossíntese das plantas e repele alguns insetos.

Esse filme de mulching vermelho já está sendo utilizado em culturas como alface, cebolinha, tomate, pimentão e morango, com benefícios como antecipação da colheita e menor ataque de insetos. Mas exige um tom específico de vermelho.

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Nitta: filmes para estufas já têm garantia para 36 meses

“O trabalho com a pigmentação adequada é bem importante para o resultado final, e esse é o nosso grande diferencial”, afirma.

Resinas e aditivos melhores, prossegue Nitta, proporcionam filmes agrícolas mais duradouros e, assim, a extensão da garantia contra a degradação, que no caso de filmes de estufas passou de 18 meses para 36 meses. E há, ressalta o profissional da Agrovelper, novos usos para esses filmes: por exemplo, para a secagem de café, tradicionalmente feita em locais abertos cobertos com uma lona quando chove, e que começa a ser realizada em estufas. “Passando para outro mercado, mesmo a secagem de tijolos começa a ser feita em estufas”, diz.

Aposta no agro

Contentores diversos, como bandejas e vasos, ráfia de solo, canos e mangueiras de irrigação, clips para enxertia e tutoramento (pequenos apetrechos normalmente feitos de PEBD destinados a dar suporte a enxertos e mudas): essas são algumas das vertentes da ampliação do uso de plásticos na agropecuária visualizadas por Antonio Bliska Jr., vice-presidente do Cobapla – Comitê Brasileiro de Desenvolvimento e Aplicação de Plásticos na Agricultura. “A flexibilidade do plástico proporciona sua aplicação em inúmeras situações”, pondera Bliska.

Questões relacionadas ao ESG e sustentabilidade ambiental vêm ganhando espaço na agropecuária. Atentos a essa demanda, representantes do setor lançaram no ano passado o programa Eu Plastifico, Nós Reciclamos, do qual já participam cerca de 25 empresas e entidades envolvendo transformadores, empresas de aditivos e recicladores, entre outros integrantes dessa cadeia. “Há também iniciativas como o código de conduta voluntário para boas práticas no uso do plástico agrícola, lançado pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), liderado no Brasil pelo Cobapla”, complementa Bliska.

Para a Cabot, relata Carmello, a plasticultura no Brasil constitui mercado “já maduro”, e ainda em expansão; porém, considerando-se a realidade dos mercados norte-americano e europeu, com potencial para crescer muito mais. “Por exemplo, em filmes de silagem, lá são muito usados, mas ainda pouco usuais aqui. E, também em silos bag, o Brasil usa muitos silos metálicos”, especifica Carmello.

Daniela, da Basf, lembra que o uso de plásticos na agricultura está diretamente relacionado à economia de recursos. “A perspectiva para os próximos anos é otimista, pois se observa cada vez mais o interesse em desenvolver produtos com padrões mais elevados, com maior resistência química e maior durabilidade”, aponta.

Plasticultura: Plásticos ajudam agronegócio ©QD Foto: Divulgação
Mulching vermelho da Agrovelper estimula a fotossíntese

Enfatizando sua apostando nesse mercado, a Braskem estruturou em 2022, em parceria com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o CEP – Centro de Engenharia de Plasticultura, dedicado a projetos e pesquisas para o desenvolvimento da plasticultura no Brasil, no qual mais de setenta pesquisadores e bolsistas hoje desenvolvem diversos projetos.

Ana crê ser possível observar muito nitidamente a presença do plástico na agropecuária brasileira, bastando para isso transitar pelas rodovias do país e perceber áreas irrigadas, silo bolsas, fardos de silagem pré-secada envelopados com filmes plásticos, áreas com coberturas de solo, estufas e viveiros, entre outras aplicações plásticas. “A Braskem enxerga o agronegócio como umas das principais frentes de trabalho”, diz.

Por sua vez, a Borealis deve reforçar sua atuação nesse mercado e também em outros com a inauguração, no final do ano passado, de sua primeira planta petroquímica nas Américas, construída em Houston (Texas, EUA). Denominada Baystar, ela resulta de uma joint venture com a Total e tem capacidade integrada para gerar 1 milhão de t/ano de etileno, e polimerizar 625 mil t/ano de polietileno linear de baixa e média densidade, e de PEAD.

“É um marco para a Borealis expandir sua participação nos mercados brasileiro e latino-americano; uma parte significativa da produção será consumida pelo mercado agrícola”, ressalta Furió.

 

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