Uso de plástico nos automóveis cresce

Aplicações automotivas crescem em ritmo superior ao esperado pelo setor 

O avanço do uso de plásticos nos automóveis tem sido constante nas últimas décadas. Os fortes investimentos feitos pelas gigantes da indústria química em pesquisa e desenvolvimento de resinas mais leves, com melhores propriedades mecânicas, térmicas e químicas e capazes de serem processadas com maior facilidade têm sido fundamentais para essa tendência. Sem falar na possibilidade dessas resinas serem recicladas.

O plástico predomina em especial nos painéis e revestimentos internos, nos para-choques e nos conjuntos de iluminação. Em menor escala, tem ganhado espaço entre componentes do motor e substituído peças técnicas antes feitas de metais. Com o surgimento dos carros elétricos em outros países, tem sido grande a presença do plástico na fabricação das baterias.

Dados da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast) revelam que o setor de automóveis e autopeças respondeu em 2017 (último ano com dados disponíveis) por 8,6% do consumo de transformados no país, atrás apenas da construção civil (22,5%) e da indústria de alimentos (20,3%). Esse percentual se manteve em patamar similar até o ano passado. Este ano pode sofrer variação negativa, a indústria automobilística tem sido das mais afetadas pela pandemia.

O Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) não divulga estatísticas relativas apenas a peças fabricadas de plástico. No geral, no primeiro semestre o faturamento do setor sofreu retração de aproximadamente 40% em relação ao mesmo período do ano passado. As vendas para as montadoras (com queda de 46%) e as exportações (queda de 43,7%) foram os nichos mais afetados. O mercado de reposição sofreu menos (16,4%). Estimativas da entidade indicam que os fabricantes de autopeças deverão encerrar o ano com receita 30% abaixo de 2019.

Os números apresentados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) tampouco são animadores. No acumulado do ano, de janeiro a agosto, houve queda de 44,8% na produção de veículos em relação ao mesmo período do ano passado. O quadro apresenta um lado positivo. A produção em agosto contou com alta de 23,6% sobre julho, o que indica alguma recuperação do mercado. Apesar disso, houve queda de 21,8% em relação a agosto de 2019.

“Foi o melhor mês desde o início da pandemia e o pior agosto desde 2006”, explica Luiz Carlos Moraes, presidente da associação. A Anfavea avalia o futuro com cautela, a expectativa é de recuperação nas vendas nos próximos meses, mas em índices ainda distantes dos atingidos antes da pandemia.

Carlos Sakuramoto, diretor de manufatura e de materiais da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva ©QD Foto: Divulgação
Carlos Sakuramoto, diretor de manufatura e de materiais da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva

Vantagens do uso dos plásticos nos automóveis

“O uso do plástico nos automóveis tem aumentado acima da expectativa”, afirma Carlos Sakuramoto, diretor de manufatura e de materiais da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). Ele calcula, em média, que hoje cada automóvel apresenta em torno de 15% a 20% de seu peso em plástico.

O crescimento deve se manter nos próximos anos. Para o diretor da AEA, o grande impulso ocorre da combinação do lançamento de novos grades de matérias-primas com a necessidade de produção de veículos mais leves, com melhor desempenho energético. Isso tem permitido a substituição de materiais como metais, couro e madeira em várias aplicações. Ou até mesmo a substituição de resinas usadas no passado por outras mais modernas – os para-choques atuais são tão ou mais resistentes e têm paredes de menor espessura do que os primeiros modelos feitos de plástico.

Sakuramoto aponta outras vantagens do uso do plástico nos automóveis. Uma delas é a possibilidade de produção de peças com geometrias bem complexas.

“A flexibilidade dá às montadoras agilidade para alterar o visual de seus modelos”. Esse aspecto ganha força com a tendência da venda de carros cada vez mais customizados. O avanço da tecnologia do processo de injeção, bastante usado na confecção de peças, também ajuda a tornar o plástico mais competitivo.

O avanço pode ser ainda maior com o desenvolvimento das pesquisas de uso de compósitos, o que no futuro pode levar o plástico a aplicações na estrutura dos automóveis, avalia Marco Colosio, especialista em materiais e diretor da Seção Regional São Paulo da SAE Brasil, entidade voltada para inovações e tendências voltadas para a mobilidade.

“Ele deve ganhar muito fôlego quando tivermos a finalização das pesquisas de emprego do grafeno em sua formulação. As cargas de grafeno proporcionam ganhos em resistência mecânica e leveza e permitirá o uso do material em novos segmentos de produtos”.

Karen Pallone, responsável pelo segmento automotivo da Braskem ©QD Foto: Divulgação
Karen Pallone, responsável pelo segmento automotivo da Braskem

Filão sedutor


A indústria automobilística é vista por representantes das grandes indústrias químicas mundiais como filão sedutor para a realização de negócios. A preocupação com o desenvolvimento de novas formulações é unânime. Outro consenso se dá quando o assunto recai sobre as consequências econômicas da pandemia. As vendas das empresas para esse nicho de atuação caíram de forma importante no primeiro semestre.

Todas as fabricantes de resinas informam que as vendas começaram a melhorar a partir de junho, depois de dias bem difíceis nos meses de abril e maio. Há expectativa de retomada, desde que ocorra recuperação das vendas das montadoras. Projetos em andamento de lançamentos de novos modelos de automóveis colaboram com a evolução dos negócios.

De acordo com informações de Karen Pallone, responsável pelo segmento automotivo da Braskem, esse nicho de mercado é muito importante e representa 4% dos negócios da companhia. Entre os produtos oferecidos, o polietileno é muito utilizado na fabricação de tanques de combustível, reservatórios e dutos, entre outras peças. O polipropileno está presente nos painéis, para-choques e outros componentes.

A Braskem também oferece EVA em grades inovadores, com propriedades elastoméricas adaptáveis a diferentes aplicações, casos de tapetes, defletores aerodinâmicos e em vedações. O PVC tem sido utilizado na produção de laminados presentes no revestimento dos bancos e interiores do veículo e também em fios e cabos elétricos, carrocerias e pisos de ônibus e caminhões. Entre as formulações mais recentes da empresa, um dos destaques é o polipropileno TI2900C.

“A resina tem propriedades anti tiger stripes. Quando adicionada à formulação do composto, elimina a formação de marcas de fluxo em peças grandes de espessuras finas”. Outro grade de polipropileno inovador é o F1000HC. “Ele possibilita a entrega de compostos com melhor balanço de propriedades, auxiliando em projetos que buscam a redução de peso em peças”.

Jefferson Schiavon, diretor para negócios Transportation da divisão de Performance Materials©QD Foto: Divulgação
Jefferson Schiavon, diretor para negócios Transportation da divisão de Performance Materials

Os destaques da Basf para a indústria automotiva são as poliamidas Ultramid e os sistemas de poliuretano Elastofoam, Elastoflex e Cellasto. A linha Ultramid, também oferecida com fibras de reforço longas com maiores propriedades mecânicas, são voltadas para aplicações que demandam elevada rigidez e resistência às altas temperaturas.

“Com este produto fabricamos as primeiras rodas totalmente de plástico, tão estáveis quanto as de metal e com redução de peso em até 30%”, explica Jefferson Schiavon, diretor para negócios Transportation da divisão de Performance Materials.

Os sistemas de poliuretanos e espumas funcionais estão presentes nos volantes, tetos, bancos, painéis, encosto de cabeça e outros componentes. Destaque para o Cellastol, elastômero de poliuretano microcelular utilizado em soluções de absorção de energia, caso dos sistemas de suspensão. “A solução atende a uma das grandes tendências automotivas de melhorar a dirigibilidade e segurança nos veículos”.

A Basf lançou recentemente dois produtos indicados para peças que entram em contato com óleo quente. “A polietersulfona Ultrason E0510 C2TR pode ser aproveitada em bombas de óleo, pistões de controle de óleo, válvulas de pressão e componentes de alta velocidade em caixas de câmbio automáticas ou manuais. A poliamida Ultramid Advanced N5H UM apresenta propriedades tribológicas excepcionais, alta resistência ao óleo e excelente estabilidade dimensional com amplas faixas de flutuações de temperatura”.

Uso de plástico nos automóveis: policarbonatos, poliamidas…

No segmento automotivo a Covestro oferece uma série de produtos voltados para a produção de conjuntos de iluminação. Eles vão de policarbonatos transparentes para a lentes de faróis a blendas de ABS e policarbonato para carcaças de lanternas. A empresa também oferece uma gama de soluções para aplicações no conjunto exterior dos veículos, como blendas ABS/PC para grades frontais e spoilers que depois serão pintados e blendas ASA/PC para grades frontais injetadas já na cor do automóvel. Algumas formulações de blendas ABS/PC são usadas no interior dos carros como peças para painéis de instrumentos, entre outras.

Jéssica Martendal, head da área de policarbonatos da Covestro Latam. ©QD Foto: Divulgação
Jéssica Martendal, head da área de policarbonatos da Covestro Latam

“O segmento automotivo tem grande relevância para a empresa, representou 20% do total de vendas mundiais no ano passado, informa Jéssica Martendal, head da área de policarbonatos da Covestro Latam. A executiva cita, como exemplo de exemplo de aplicação inovadora no qual a empresa segue dedicada, o desenvolvimento de um glazing feito de policarbonato, indicado para a substituição dos vidros laterais e traseiros, além de tetos solares dos veículos. Não há dúvidas de que esse se trata de mercado para lá de atraente.

Os compostos de PA 6 reforçados com fibra de vidro são os produtos da Lanxess mais procurados pela indústria automobilística. De acordo com Anderson Maróstica, gerente técnico da multinacional, isso se dá devido à alta resistência mecânica e rigidez desses produtos, além de sua alta competitividade no mercado. “Somos os únicos no mercado de plásticos de engenharia a fabricar também a fibra de vidro”, ressalta.

O destaque fica para a linha Durethan XTS (Xtreme Thermal Stabilization), oferecida nas versões XTS1 (disponíveis em compostos de PA 6 e PA 6.6) e a XTS2 (compostos de PA 6.6). Ambas apresentam resistência à temperatura de aplicação contínua até 230º Celsius por 3 mil horas. Um exemplo de aplicação da XTS1 se encontra na fabricação de coletores de admissão de motores turbo.

“Como o espaço livre no motor turbo é menor, a temperatura dentro do compartimento do motor é mais elevada. Por isso é necessária a aplicação de materiais com maior resistência térmica”.

Uma novidade recente da empresa é a linha Durethan de compostos de PA 6 com conteúdo reciclável. Os grades disponíveis são os ECOBKV30H2.0 (30% em peso de fibra de vidro), ECOBKV35H2.0 (35%) e ECOBKV60XF (60%).

“Eles utilizam fibras de vidro recicladas obtidas de vidro residual remanescente da produção de fibras de vidro. Esses materiais têm exatamente as mesmas propriedades do material com fibra virgem e atendem o apelo ecológico, auxiliando a economia circular”.

André Savioli, gerente do mercado automotivo da Solvay Specialty Polymers na América do Sul ©QD Foto: Divulgação
André Savioli, gerente do mercado automotivo da Solvay Specialty Polymers na América do Sul

Polímeros especiais

O grupo Solvay, que no Brasil também atua com a marca Rhodia, é mais um dos que consideram o setor automotivo muito relevante para seus negócios. Para esse segmento, a empresa dispõe de uma série de polímeros especiais (plásticos de alto desempenho), especialidades químicas (inclusive algumas utilizadas em baterias de veículos elétricos), além de solventes oxigenados para tintas automotivas e sílicas de alta dispersão aplicadas em pneus.

André Savioli, gerente do mercado automotivo da Solvay Specialty Polymers na América do Sul, avalia que do ponto de vista da tecnologia, o mercado automotivo nacional vem adotando inovações todos os dias.

“A demanda de polímeros especiais, que possuem propriedades diferenciadas e são aplicados na fabricação de conectores e sensores automotivos, está cada dia maior”. Ele também aponta que, com o dólar em forte alta, muitas empresas estão considerando a produção local de alguns itens antes importados.

Plásticos nos automóveis - Aplicações automotivas crescem ©QD Foto: DivulgaçãoQuatro linhas de polímeros são indicadas pelo gerente. A linha Veradel é formada por polietersulfonas. “Esse produto apresenta alta resistência térmica e mecânica, além de ser um material metalizável. Tem sido utilizada em componentes de iluminação automotiva”. As marcas Amodel, composta por poliftalamidas, e Ryton, de sulfeto de polifenileno, apresentam alta resistência térmica, química e mecânica.

“Esses polímeros podem ser aproveitados em peças para motores”. Os produtos da marca Tecnoflon são fluorelastômeros para selantes de alto desempenho. “Apresentam ótima capacidade de resistência térmica e química”.

Savioli cita um exemplo de aplicação recente dos produtos Solvay pela indústria nacional. Ele envolve o uso das polietersulfonas para fabricar componentes de sistemas de iluminação dos veículos.

“Com as lâmpadas dos faróis cada dia mais potentes, as temperaturas estão cada vez mais altas”. O polímero especial surge como opção nessas aplicações extremamente exigentes. “Materiais como os policarbonatos não atendem as especificações técnicas dessas peças”.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios