Plásticos de engenharia: Linhas de polímeros ganham reforços

Apesar da queda do setor automotivo

Aliados às habituais dificuldades da economia nacional, fatores circunstanciais impedem a visualização de um cenário mais promissor para o mercado brasileiro de plásticos de engenharia.

Um deles, a aproximação da eleição presidencial, geradora de incertezas que sempre refreiam investimentos (este ano talvez até mais que em ocasiões anteriores).

Outro, a guerra na Ucrânia, que elevou os custos de energia na Europa, grande polo de produção dessas resinas, que mantém assim – não apenas por esse motivo – trajetória ascendente de preços.

Sem contar que a escassez de componentes, especialmente os semicondutores, segue prejudicando muito um mercado fundamental para essas resinas: a indústria automobilística, que nos primeiros seis meses deste ano reduziu em 5% sua produção no Brasil, em comparação com período idêntico do ano passado.

Apenas no primeiro semestre de 2023 deve se normalizar o abastecimento de semicondutores, projeta Luís Baruque, gerente de marketing e desenvolvimento automotivo na América do Sul da Radici.

Plásticos de engenharia: Linhas de polímeros ganham reforços ©QD Foto: Divulgação
Luís Baruque, gerente de marketing e desenvolvimento automotivo na América do Sul da Radici

“Por causa principalmente dessa queda na produção de automóveis, baixou o volume comercializado no primeiro semestre deste ano”, relata Baruque, referindo-se às vendas realizadas por sua empresa no mercado brasileiro.

No total do ano, “se tudo correr bem”, a Radici pode realizar volume de negócios similar ao do ano passado, calcula Jane Campos, CEO da empresa na América do Sul.

Resultado que, segundo ela, deve considerar que foram muito boas as vendas registradas em 2021.

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Jane Campos, CEO da Radici na América do Sul

“Mas o que houve no ano passado foi uma bolha de consumo, as coisas hoje estão mais caras, no Brasil e em todo o mundo”, pondera.

Multinacional de origem italiana cujo portfólio inclui PA 6, 6.6, 6.10 e 6.12, PPA, PPS, POM, entre outros itens, a Radici atua em diversos mercados, como componentes elétricos, eletrodomésticos, embalagens, entre outros, além da produção de autoveículos, foco de seus mais recentes lançamentos, como a linha Radilon Mixloy, composta por blendas de PA e ABS.

“Ela combina a resistência da poliamida com o bom acabamento do ABS e é interessante para aplicações como retrovisores e maçanetas”, ressalta Jane.

“Também desenvolvemos uma nova linha de PA 6 com maior resistência térmica e uma linha de produtos para veículos elétricos com propriedades V0 (indicador de resistência máxima à propagação do fogo)”, complementa Baruque.

Na UBE, as novidades abrangem grades de poliamida mais rapidamente biodegradáveis e soluções para a produção, em três camadas, de tubos automotivos (normalmente feitos em cinco camadas).

Incluem também uma linha na qual Edgar Veloso, supervisor de vendas da UBE América Latina, projeta grande potencial de negócios, pois permite tanto produzir soluções monocamadas para filmes que podem ir para o forno com os alimentos, quanto embalagens multimateriais mais facilmente recicláveis.

Essa nova linha, explica Veloso, é composta por grades de poliamidas com baixa temperatura de fusão e cristalização.

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Edgar Veloso, supervisor de vendas da UBE América Latina da UBE

“Isso amplia as taxas de reciclagem, pois as temperaturas mais próximas às das poliolefinas permitem o envio das embalagens pós-consumo para reciclagem mecânica, além de consumir menor quantidade de material na produção”, explica.

“Alguns de nossos clientes já demonstram interesse em testar essas soluções, que podem ser utilizadas em embalagens termoformadas e termoencolhíveis de carnes e queijos fracionados”, acrescenta.

Compõem o portfólio da UBE resinas de PA 6, CoPA 6/6.6, CoPA 6/12, TerPA 6/6.6/12, PA 12, utilizadas em aplicações como filmes para embalagens de alimentos e produtos de limpeza e higiene pessoal, peças industriais, componentes elétricos, tubos automotivos.

No decorrer deste ano, suas vendas no Brasil devem ser “um pouco superiores” às de 2021, projeta Veloso. Mas no primeiro semestre, ressalta, suas vendas na América do Sul mais que duplicaram em relação ao mesmo período de 2021.

“Além de termos implementado boas ações comerciais, conseguimos contornar as dificuldades logísticas, bem como os aumentos sucessivos nos custos de produção decorrentes da guerra na Ucrânia”, justifica Veloso.

Resinas estirênicas – A Toray registrará este ano um volume de negócios similar ao de 2021, prevê Luiz Rocha, gerente de vendas e marketing da operação brasileira dessa multinacional de origem japonesa, fornecedora de ABS, SAN, ASA, MABS, PA 6 e 6.6, PPS, PBT e compostos, aqui demandados em maior escala pelas indústrias automobilística e de eletroeletrônicos, mas também por dispositivos e equipamentos médicos, e embalagens de cosméticos, entre outras aplicações.

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Luiz Rocha, gerente de vendas e marketing da operação brasileira da Toray

“Difícil prever como será o segundo semestre, há muitos fatores a avaliar: eleições, Covid na China, inflação; já sentimos uma retomada da demanda, mas acho que teremos um ano parecido com 2021”, avalia Rocha.

ABS, ASA, SAN são os produtos da Toray mais consumidos no Brasil, onde a empresa está lançando dois novos produtos, destinados ao setor automotivo.

Um deles, um ABS fosco para chapas extrudadas para fabricar painéis de ônibus e de ambulâncias, entre outros gêneros de veículos; outro, um conjunto de grades de ABS e de blendas de ABS/PC com características antirruídos, que dispensa a necessidade de uso de feltro, TNT ou outra solução para reduzir os ruídos gerados pelo atrito em peças feitas com mais de uma resina, como painéis e molduras de som de carros. “Esses produtos, já estão em testes em alguns clientes”, afirma Rocha.

Também Fabio Bordin, diretor da operação da Ineos na América do Sul, não crê na realização, no decorrer deste ano, de volume de negócio superior ao de 2021.

Não apenas em decorrência dos problemas no setor automobilístico, mas também pela retração da demanda da indústria de eletroeletrônicos, relevante consumidora de ASA e ABS.

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Fabio Bordin, diretor da operação da Ineos na América do Sul da Toray

“As pessoas já investiram bastante em eletrodomésticos no ano passado, quando estavam mais isoladas em casa. E esse mercado de bens duráveis é muito impactado pela inflação”, justifica Bordin.

Em compensação, ele ressalta, com o retorno da movimentação nos espaços urbanos, expandiu-se a demanda do setor calçadista, para o qual a Ineos fornece resinas do tipo SBS, copolímeros elastoméricos de estireno e butadieno utilizados em solados de calçados.

Há também a possibilidade de realização de mais negócios com a NAS, marca de resinas de SMMA (estireno-metilmetacrilato), que a empresa tenta introduzir no Brasil.

As resinas NAS, diz Bordin, têm muitas similaridades com os SAN, polímeros transparentes muito utilizados em copos de liquidificadores; propiciam, porém, melhor acabamento, e são muito aproveitadas na fabricação de jarros e outras utilidades domésticas na Europa.

No Brasil, a Ineos está posicionando-a como agente de modificação do fluxo de PVC. “Estamos realizando alguns testes com clientes, e a aceitação está sendo muito boa”, afirma.

Mais poliamidas – Ainda incipiente no Brasil, embora expressiva em outros países, a produção de veículos elétricos compõe mercado atentamente considerado pelos fornecedores de plásticos de engenharia, caso da Lanxess, que divulga soluções como a Durethan BKV30FN04, poliamida antichamas reforçada com fibra de vidro, para baterias.

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Anderson Marostica, gerente de desenvolvimento de aplicações e serviços técnicos de materiais de alta performance da Lanxess

“É um material de fácil processabilidade e permite a integração das funções necessárias aos componentes do alojamento, resultando em menor número de peças e processo de montagem simplificado, assim como em menor peso”, ressalta Anderson Marostica, gerente de desenvolvimento de aplicações e serviços técnicos de materiais de alta performance da empresa.

“Essa tecnologia ainda está distante do mercado brasileiro, mas já é realidade na Europa”, acrescenta.

Provedora de PA 6, PA 6.6 e PA 6/6.6, PBT e blendas, além de chapas de compósitos dessas resinas reforçadas com fibra de vidro e outros materiais, a Lanxess aposta também em outro segmento da indústria automobilística.

“Com a crescente utilização de motores turbinados, novas aplicações surgiram para nossos materiais: por exemplo, dutos de ar quente que retroalimentam o motor”, destaca Marostica.

A empresa vem realizando no Brasil bons volumes de negócios com os produtores de ferramentas elétricas.

“Outro mercado que supre parte da queda do setor automotivo é o agronegócio, que apesar demandar volume ainda pequeno de peças técnicas, representa um mercado diferente e com novas oportunidades”, enfatiza o profissional da Lanxess.

E, se há dificuldades no mercado automobilístico, setores como óleo e gás (O&G) e peças industriais mantêm um ritmo satisfatório de demanda, ao menos, pelas resinas da Arkema, afirma Fabio Paganini, gerente de vendas e desenvolvimentos de polímeros de engenharia da empresa. O&G e peças industriais constituem os maiores mercados da Arkema no Brasil.

“Este ano nosso volume de vendas no Brasil será superior ao do ano passado”, projeta Paganini.

Especializada em poliamidas de cadeia longa (PA 11, 12, 6.10, 6.12, PPA), além de poliamidas elastoméricas e adesivas, a Arkema disponibiliza, para esses mercados de óleo e gás, bem como para produção de cabos, indústria química e automotiva, tintas e revestimentos, entre outras aplicações, também polímeros fluorados PVDF, comercializados com as marcas Kynar e Kynar Flex.

Recentemente, desenvolveu uma versão desses polímeros, Kynar Aquatec, com a resina fluorada fornecida na forma de látex, para formulações de tintas base água. “Outro mercado muito interessante é o uso de polímeros fluorados na produção de fibras ocas (hollow fibers) para ultrafiltração de água”, ressalta Paganini.

A Arkema também colocou há pouco tempo no mercado a linha Kepstan, de polímeros PEKK, definidos por ele como “primos” das já conhecidas resinas PEEK, mas que apresentam maior temperatura de trabalho e maior versatilidade de aplicações, podendo ser processada das mais diversas formas, como injeção, extrusão, termoformagem, revestimento por spray coating, manufatura aditiva a laser.

“Um segmento importante para esse produto é o aeroespacial, no Brasil hoje muito concentrado na Embraer, que ainda não usa muito os compósitos. Estamos tentando desenvolver esse uso”, diz Paganini.

Policarbonatos – No segmento dos policarbonatos, um campo de negócios promissor no mercado nacional é a produção de equipamentos e dispositivos médicos, como oxigenadores sanguíneos, aplicadores de insulina, seringas, entre outros, observa Jéssica Martendal, head de Plásticos de Engenharia da Covestro Latam.

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Jéssica Martendal, head de Plásticos de Engenharia da Covestro Latam

“Esse mercado é ainda pouco explorado no Brasil, que importa dispositivos médicos e hospitalares feitos de policarbonato”, destaca.

Atualmente, os grades de PC e as blendas com essa resina integrantes do portfólio da Covestro são demandados em maior escala por setores como a produção de eletroeletrônicos e o mercado denominando mobility, que além de automóveis inclui outros tipos de veículos, entre eles as motos, segmento que, de acordo com Jéssica, “vem crescendo bem”.

Entre os eletroeletrônicos, a empresa tem presença mais intensa no segmento ‘eletro’, ao qual disponibiliza resinas para a produção de itens como carcaças de tomadas e caixas de distribuição de energia.

E mesmo a indústria automobilística brasileira deve se valer mais do PC, crê Alexandre Macedo, representante técnico-comercial responsável pelo segmento mobilidade da Covestro na América Latina.

“Fora do Brasil, utiliza-se muito mais PC/ABS em veículos, mas aqui sempre prevaleceram os veículos populares, que utilizaram muito mais o PP”, observa.

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Alexandre Macedo, representante técnico-comercial responsável pelo segmento mobilidade da Covestro na América Latina

“Mas agora as SUVs ganham cada dia mais participação no mercado brasileiro e com isso ganha espaço também PC/ABS, seja no interior – em molduras, grades, console –, seja no exterior, em grades frontais e aerofólios”, complementa Macedo.

Entre as novidades exploradas pela Covestro nesse mercado automotivo, aparece um policarbontato termocondutivo da linha Makrolon, passível de utilização em dissipadores de calor de faróis, hoje feitos de alumínio.

Esse PC, reconhece Macedo, tem condutividade térmica inferior à desse metal, embora superior à de outros plásticos, sendo porém possível compensar essa deficiência no design da peça. “Já estamos participando de um projeto desse tipo de uso”, afirma Macedo, destacando que essa mesma solução pode ser empregada também em luminárias e outros artigos de iluminação.

Preços e disponibilidade – Quem compete no mercado brasileiro de plásticos de engenharia precisa lidar também com a complexa tarefa de equacionar a demanda não exatamente aquecida – até mesmo pelo baixo volume de negócios com o importantíssimo setor automobilístico –, com uma constante pressão sobre os preços de seus produtos, e mesmo com dificuldades no abastecimento de alguns deles.

Há, é certo, alguma possibilidade de uma contenção nesses preços, mas por um motivo que talvez não seja muito comemorado.

“A economia do mundo está algo desaquecida e isso gera uma tendência de queda nos preços de resinas”, lembra Bordin, da Ineos.

“Mas também há fatores pressionando para cima esses preços, como a elevação dos custos de energia na Europa e as dificuldades da logística internacional”, ressalva.

Paganini, da Arkema, cita a elevação nos custos matérias-primas, insumos e energia, como causas dos aumentos dos preços das resinas.

Agravadas, ele complementa, por problemas na logística global que, com a demanda ainda aquecida da China, gera alguns problemas no abastecimento de resinas.

“Nesse momento, estamos com limitação de fornecimento para o segundo semestre, temos porém temos uma nova fábrica de Rilsan PA 11 entrando em operação comercial no fim do ano, e isso deve ajudar muito a oferta de PA 11”, destaca.

Por dificuldades logísticas e pelo encarecimento de matérias-primas, a exemplo do benzeno, a UBE já majorou este ano os preços de suas resinas em duas ocasiões (uma delas, em abril, na faixa entre 20% e 30%). E permanece, observa Veloso, a tendência de aumentos nos preços das poliamidas.

“Os principais fabricantes globais estão sofrendo algumas limitações na capacidade de produção devido ao cenário geopolítico, com alta nos custos do gás natural e das matérias-primas, e problemas técnicos que geram situações pontuais de força maior, além de paradas para manutenção”, justifica.

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PC predomina na produção de faróis e lanternas

“De maneira geral, os principais impactos ocorrem nas cadeias de produção da PA 6 e PA 12”, acrescenta.

Na Covestro, relata Macedo, não há problemas de disponibilidade de produtos, mas também as resinas e blendas de PC da empresa tiveram seus preços reajustados no primeiro semestre, em um patamar de aproximadamente 10%.

“Na verdade, já na parte final do ano passado havia um movimento de elevação dos preços”, pondera.

A Radici, comenta Jane, vem conseguindo minimizar os impactos nos preços das resinas por dispor de fábricas em várias partes do mundo, podendo recorrer àquela que lhe apresentar condições mais favoráveis em cada momento.

Mesmo assim, ainda enfrenta alguns problemas de abastecimento, especialmente de PA 6.6, cuja escassez vem sendo minorada porque aplicações que antes utilizavam essa resina migraram para PA 6.

Migração, aliás, que não deve ter retorno.

“O PA 6 pode ter menor resistência térmica, mas tem resistência mecânica equivalente à do PA 6.6, sendo também bem mais flexível em termos de aplicações, além de permitir mais aditivações; e seu preço é muito mais interessante”, avalia.

“O PA 6 veio para ficar, talvez o PA 6.6 fique mais restrito às peças mais próximas dos motores, que exigem elevada resistência térmica.”

A Toray, afirma Rocha, enfrentou alguns problemas na disponibilidade de resinas no decorrer do ano passado, mas essa situação não se prolongou até este ano, quando os preços de suas resinas até agora permaneceram estáveis.

“Mas talvez subam um pouco na segunda metade do ano, com a retomada da demanda da China”, ressalva.

A Lanxess, relata Marostica, ainda encontra problemas logísticos relacionados à disponibilidade tanto de navios quanto de contêineres, que têm atrasado alguns embarques.

“Mas isso não chega a impactar significativamente o fornecimento aos clientes no Brasil”, afirma.

“O mercado enfrentou dificuldades na importação de fibra de vidro, cuja demanda global aumentou significativamente, porém, como a Lanxess é a única fabricante de compostos que também produz a fibra, não sofremos com a falta dessa matéria-prima”, conclui.

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