Plásticos conquistam mais aplicações, da água até óleo e gás

Plástico Moderno, Polietileno da Braskem forma tubos corrugados para durar 75 anos
Polietileno da Braskem forma tubos corrugados para durar 75 anos

Para aplicações as mais diversas, produzidos em commodities ou em materiais sofisticados de última geração. É impossível negar: os tubos são responsáveis por importante fatia dos negócios da indústria do plástico. O segmento movimenta empresas de todos os portes das áreas de transformação, matérias-primas e equipamentos. Em termos de peso de peças produzidas, os tubos destinados à construção civil respondem pela grande maioria da atividade. Os tubos de PVC, utilizados em praticamente todas as construções prediais, são os maiores exemplos.

Também muito importante é o nicho de mercado formado pelos tubos usados em obras públicas de infraestrutura, como os indicados para o transporte de água e esgoto. Existem diversos outros mercados significativos. Entre eles, por exemplo, os usados na irrigação de lavouras ou os indicados para a exploração de petróleo, esses últimos dotados com características muito especiais, necessárias para aguentar condições de trabalho bastante rigorosas.

Não existem estatísticas confiáveis específicas sobre a fabricação de tubos no Brasil. Um termômetro para o segmento é o desempenho do principal cliente das empresas ligadas ao setor, a indústria da construção civil. Números do Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo (Sinduscon-SP) mostram que o ano de 2017 fechou com queda de faturamento em torno de 5%. Não por acaso. Houve redução nos investimentos feitos tanto em habitação popular quanto nas obras promovidas pelos três níveis de governo. Para 2018, a expectativa do sindicato é de manutenção de resultados negativos na casa de um dígito.

As informações da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco) dão ideia de como anda o varejo ligado ao setor. O desempenho no mês de abril foi 4% superior ao do mesmo mês no ano passado, mas apresentou retração de 4% em relação ao mês de março de 2018. No acumulado do ano, de janeiro a abril, o setor apresenta alta de 4% sobre igual período de 2017.

Para a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) o mês de abril apresentou queda de faturamento deflacionado de 1,9% em relação a março. No acumulado do ano, a evolução é de 1,9% em relação ao mesmo período do ano passado. As estimativas para o ano das lideranças do setor é de crescimento moderado. Todas essas expectativas não levam em conta os efeitos da crise provocada pela greve dos caminhoneiros, cujos resultados ainda não foram bem digeridos pelos economistas.

Perfil do mercado – O mercado de tubos, em especial os de PVC para a construção civil, conta com bom número de transformadores. Dois deles são gigantes do setor. A líder é a Tigre, apontada como a maior transformadora de plásticos do Brasil. Sua concorrente principal é a multinacional de origem mexicana Mexichem, detentora das marcas Amanco e Plastubos. As demais representantes são de portes pequeno e médio, mas contam com fatia de mercado representativa.

“Atualmente, a marca Amanco corresponde a 71% dos negócios da Mexichem no País”, conta Adriano Andrade, diretor comercial do escritório brasileiro da empresa. Além de tubos e conexões, ela também oferece produtos geotêxteis não tecidos e para telecomunicações. De acordo com Andrade, a Mexichem é líder na América Latina e mundial no mercado de tubos e conexões. No Brasil, sua participação tem evoluído de forma importante. “Desde seu lançamento, a marca mais que dobrou sua participação de mercado, em 2006 era de 16% e hoje está em 34%”, diz, citando estimativas da própria companhia. “Ela cresceu seis vezes em Ebitda e é conhecida por 97% dos consumidores brasileiros”.

Andrade aponta o avanço captado pelo mercado nos primeiros meses do ano pelas principais entidades ligadas ao setor como o primeiro passo rumo à retomada. Ele faz ressalvas. “Ainda há muito a ser recuperado. É necessário retomar os investimentos em infraestrutura, retomar os índices de emprego, proporcionar redução dos juros para a compra de imóveis”. Apesar das dificuldades, a expectativa da empresa para 2018 não é pessimista. “Por se tratar de um ano atípico, com eleições, cenário de muita incerteza, e Copa do Mundo, a Amanco projeta crescer um dígito em 2018, mas bem acima do que o mercado vem sinalizando”.

O diretor explica que a Mexichem investe em pesquisa e desenvolvimento para obter produtos com desempenho superior. Para exemplificar, lembra que o município de Sumaré-SP conta com o primeiro Centro de Inovação do grupo na América Latina. A empresa também tem aplicado recursos para adotar práticas relativas à indústria 4.0.

“Em relação a novos produtos, lançou recentemente o Super CPVC, que permite a obtenção de tubos com resistência 25% superior a pressão e temperatura quando comparados com produtos da concorrência”. Também chegou ao mercado a linha CPVC Fire, de tubos voltados para combater incêndio em obras comerciais de risco leve, única do mercado com a certificação internacional UL FM. Outra novidade, esta prevista para o meio deste ano, é o início da produção no Brasil da linha Industrial CPVC Corzan, voltada para a condução de produtos químicos e industriais.

Plástico Moderno, Rodolfo: PVC domina o mercado de tubos, mas há novidades
Rodolfo: PVC domina o mercado de tubos, mas há novidades

Commodities – O desempenho dos fornecedores de materiais commodities acompanha os rumos tomados pela economia. A brasileira Braskem não foge à regra. “Como uma das maiores produtoras de resinas plásticas do mundo, o setor de tubos é relevante para a companhia e representa parte considerável de nossas vendas”, explica Antonio Rodolfo Junior, responsável pela área de engenharia de aplicação e desenvolvimento de mercado.

O executivo informa que no primeiro trimestre do ano a demanda no mercado brasileiro das resinas fornecidas pela empresa – polietileno, polipropileno e PVC – foi de 1,3 milhão de toneladas, com crescimento de 7% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. O mercado do PVC, material mais utilizado para essa aplicação, quando avaliado de forma isolada se manteve equilibrado no período. No caso desta matéria-prima, a empresa trabalhou nos três primeiros meses do ano com 40% de capacidade ociosa, sua capacidade de produção anual de PVC é de 710 mil toneladas e seu market share alcança 46% do mercado nacional.

“Para o setor de tubos, o PVC é a matéria-prima mais utilizada, mas não podemos afirmar que é a mais importante. Cada aplicação requer um estudo de necessidades e especificidades, podendo exigir diferentes materiais”, ressalta. Para justificar, ele lembra que a Braskem passou a fornecer polietileno para a fabricação de tubos corrugados construídos, cuja aplicação é focada em obras pesadas, presentes em aeroportos, rodovias, ferrovias e aterros sanitários. “Capaz de durar até 75 anos, o produto garante benefícios como leveza, facilidade de transporte e instalação do material”.

Outras novidades podem surgir a qualquer momento, pois a política da empresa é investir em pesquisa e desenvolvimento de novas soluções, com ou sem a parceria dos clientes. “A empresa possui dois centros de desenvolvimento, um em Triunfo-RS e outro em Pittsburgh (EUA)”.

Lançamento mundial – O grupo de origem árabe Sabic, um dos gigantes do setor químico mundial, lançou na feira NPE, realizada nos Estados Unidos no início do mês de maio, cinco novas formulações indicadas para os transformadores de tubulações. Os novos produtos são voltados para aplicações na agricultura, aquicultura, construção civil e obras públicas, entre outras. “A necessidade de soluções de tubulação confiáveis e de alta qualidade é ainda maior do que antes, pois as mudanças na população, na urbanização e no clima causam pressão sobre os recursos hídricos, energéticos e agrícolas disponíveis”, explica Abdulrahman Al-Fageeh, vice-presidente executivo para petroquímicos.

A nova linha HDPE P6006NA utiliza resinas de polietileno multimodais. Foi criada para aplicações de alta pressão por oferecer propriedades de resistência a fissuras por pressão combinadas com resistência hidrostática de longo prazo. Ela é indicada para tubulações industriais voltadas para o transporte de água e gás. Para aplicações de infraestrutura subterrânea, o novo polietileno de alta densidade Vestolen A RELY 5933RD, é indicado para a distribuição de água potável. Uma de suas características é a resistência elevada aos desinfetantes à base de cloro.

Para os setores de agricultura e aquicultura a Sabic lança a LLDPE P438J, voltada para a obtenção de componentes com paredes finas utilizados na irrigação por gotejamento. O produto incorpora aditivos que evitam a necessidade de misturar materiais diferentes e proporcionam rigidez e alta resistência. De acordo com a empresa, por suas propriedades de fluxo, permite melhor processabilidade do que os materiais concorrentes.

A Sabic também apresenta duas novas soluções para tubulações domésticas. Ambas podem ser utilizadas para sistemas de aquecimento sob o piso ou de encanamento e aquecimento. A empresa afirma que a linha HDPE P4200RT tem alta viscosidade de fusão para a extrusão de tubos com uma ampla variedade de diâmetros, com paredes de finas a espessas. O produto oferece resistência a fissuras por pressão e estabilidade hidrostáticas mesmo quando submetido a calor intenso.

A outra novidade é a linha SUPEER P8200RT, criada para permitir maior flexibilidade aos tubos com resistência à pressão. O produto é adequado para sistemas de tubulação flexível e permite menor número de conexões, com instalação mais rápida. Suas características proporcionam resistência hidrostática, acabamento de superfície e processabilidade.Petróleo e gás – Para determinadas aplicações, a indústria de transformação necessita de materiais sofisticados para produzir os tubos. Entre os usuários, talvez os que exigem características mais rigorosas sejam os do setor de petróleo e gás. Grandes multinacionais da indústria química investem pesado na pesquisa e desenvolvimento de formulações que atendam esse nicho para lá de atraente no Brasil, país com tecnologia e conhecimento únicos no mundo na exploração e produção offshore. E esse segmento tende a ganhar importância por aqui com o desenvolvimento da exploração do pré-sal.

Plástico Moderno, Produção de óleo e gás impõe condições severas de operação
Produção de óleo e gás impõe condições severas de operação

“O segmento de petróleo e gás é um dos mais relevantes para os negócios de polímeros especiais da Solvay”, explica Andreas Saavides, diretor de marketing e vendas da Solvay Specialty Polymers na América do Sul. O portfólio do grupo inclui ampla gama de polímeros de alto desempenho, com propriedades como elevada resistência térmica, mecânica e química, e baixa permeabilidade.

Plástico Moderno, Saavides: polímeros especiais suportam condições agressivas
Saavides: polímeros especiais suportam condições agressivas

Um dos destaques é a linha Solef PVDF, com resistência a temperaturas de até 150ºC. “O produto, usado como camada de barreira em linhas flexíveis (risers) e mangueiras umbilicais, representa um grande avanço tecnológico no setor de extração de petróleo, uma vez que a temperatura máxima suportada por polímeros tradicionalmente usados na indústria do setor é de até 130ºC”. O Solef PVDF também pode ser empregado em revestimentos internos e externos, fios e cabos.

Um lançamento recente da empresa é o Evolite F1050, primeiro compósito termoplástico de alto desempenho do mercado, com reforço contínuo de fibra de carbono. “Esse compósito é uma fita unidirecional que combina alta resistência química e a temperatura do Solef PVDF com a alta resistência da fibra de carbono”. As aplicações típicas incluem tubos flexíveis híbridos offshore e tubos de compostos termoplásticos.

“O segmento de petróleo e gás é bastante importante para os negócios da Evonik em todo o mundo”, define Camila Farias, coordenadora de negócios. O grupo multinacional de especialidades químicas conta com vários polímeros de alto desempenho. Um deles é a linha de poliamidas 12 Vestamid, indicada para aplicação em camadas de barreira e em camadas externas de tubos de grande diâmetro para a distribuição de gás, entre outras aplicações. Um grade de destaque é o Vestamid NRG 1001, poliamida 12 plastificada muito empregada na produção de dutos flexíveis em campos de exploração offshore.

O sistema multicamadas para mangueiras umbilicais é outra solução de destaque da marca. “Devido à baixa permeabilidade dos fluorpolímeros este sistema é composto por duas camadas, uma de PA 12 e outra de fluorpolímero. Ele dá maior segurança aos umbilicais uma vez que reduz a contaminação cruzada de um fluido com outro”. Nesta solução se destaca o fato da adesão entre camadas ser feita por ligações químicas, o que elimina qualquer chance de delaminação.

Outro produto da Evonik, este adequado para aplicações que requerem exigências químicas, mecânicas e térmicas extremamente elevadas, como as dos campos de exploração offshore, é o poliéter-éter-cetona (PEEK) Vestakeep. Mais leve do que o aço, é indicado principalmente na produção de anéis de vedação, válvulas e peças de compressão.

Equipamentos – Uma constatação norteia os fabricantes de equipamentos. O setor é o primeiro a sofrer com o surgimento das crises econômicas e o último a ser beneficiado quando os rumos da economia voltam a tomar períodos favoráveis. Os fornecedores nacionais de extrusoras se enquadram nessa constatação. Eles estão sendo muito impactados pelas dificuldades da economia nos últimos anos. A crise econômica, em particular, tem afetado em cheio as vendas para o nicho de mercado formado pelos fabricantes de tubos para a construção civil.

Plástico Moderno, Linha completa de produção de tubos plásticos fornecida pela Extrusão Brasil
Linha completa de produção de tubos plásticos fornecida pela Extrusão Brasil

“O mercado de bens de capital ainda está muito fraco”, resume Renato Rocha Borges, diretor comercial da Extrusão Brasil, especializada na produção de extrusoras e periféricos para linhas completas de produção de peças termoplásticas. Neste nicho de mercado, a Extrusão Brasil tem como compradores os fabricantes de tubos de portes pequeno e médio. “As duas grandes empresas do mercado costumam compram equipamentos importados, de maior porte”, justifica o diretor.Borges explica que o início do ano trouxe um alento, mas os negócios ainda não decolaram. “Os clientes têm nos procurado, o número de consultas aumentou”. Por enquanto é só. “Na hora de fechar o negócio eles estão reticentes, estamos concretizando poucas vendas”. O mau desempenho da construção civil é o problema. “Os fabricantes de tubos que têm cinco linhas de produção e, destas, duas ou três estão paradas perdem o interesse em investir”, exemplifica.

Plástico Moderno, Borges: construção civil fraca inibe a venda de equipamentos
Borges: construção civil fraca inibe a venda de equipamentos

A linha da empresa é bastante completa, conta com extrusoras de rosca simples, duplas co-rotantes ou contra rotantes. Também são oferecidos misturadores e demais periféricos, como puxadores, rosqueadeiras e todo o ferramental necessário. “Para o mercado de tubos as máquinas mais recomendadas são as de rosca dupla. Nessa categoria temos modelos para a produção de 80 a 1000 kg/h”, diz Borges. A máquina mais recente da empresa é a com duplas roscas cônicas. “Ela apresenta produtividade em torno de 20% superior à dos modelos com roscas paralelas”.

“O ano começou com sinais de melhora, mas a retomada ainda não está muito forte”, revela Enrico Miotto, presidente da fabricante de extrusoras Miotto. Em relação ao nicho representado pelos transformadores especializados em tubos, a situação é mais grave. “Esse segmento é o que está mais fraco, o setor da construção civil está passando por muitas dificuldades”.

Para fazer frente ao baixo nível das vendas, a empresa investe na reformulação dos equipamentos. “Demos uma enxugada, uma remanejada nos projetos e conseguimos reduzir o custo das extrusoras em 20%. Nem assim houve a melhora nos negócios”. Um efeito colateral positivo anima um pouco o dirigente. “A procura por peças de reposição está boa, as pessoas estão operando com máquinas antigas e é preciso fazer a manutenção”.

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