Plástico nos automóveis: Indústria fomenta o uso de resina reciclada, em prol do menor impacto ambiental

Plástico Moderno, Plástico nos automóveis: Indústria fomenta o uso de resina reciclada, em prol do menor impacto ambientalO crescimento da frota de carros no país é vertiginoso e deve seguir assim nos próximos anos. Impelida a assegurar que os automóveis se tornem um meio de transporte sustentável neste século XXI, a cadeia automotiva foi buscar soluções. Seu interesse maior e recorrente é o de reduzir cada vez mais o peso dos veículos, mas essa premissa vai além. Hoje a indústria também considera a natureza dos próprios materiais como condição sine qua non para minimizar o impacto ambiental dos automóveis.

Na prática, há um aumento considerável da participação das resinas recicladas nos projetos automotivos. “O seu uso avançou nos últimos anos, e a tendência é a de crescer ainda mais”, atesta Edson Orikassa, diretor executivo da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). O caso notório e emblemático para este movimento da indústria é o do PET reciclado, hoje presente em praticamente 100% dos projetos das montadoras – a resina é aplicada nos carpetes e/ou tapetes dos veículos.

Para ele, este cenário só pôde ser desenhado desta forma porque a cadeia nacional da reciclagem melhorou. Em outras palavras, a indústria automotiva, exigente como é, só passou a considerar o plástico reciclado em seus desenvolvimentos quando foram comprovados o seu desempenho e a sua adequação. “Todos os componentes dos veículos são submetidos a vários testes de engenharia”, Orikassa faz questão de reforçar.

Os dados mais recentes sobre os índices nacionais de reciclagem mecânica dos plásticos são os da pesquisa realizada pela Plastivida em 2012 (ano base 2011). Segundo o monitoramento, a indústria automobilística consumiu 76 mil toneladas do material, algo em torno de 7% do total de plásticos reciclados no Brasil.

Dos quinze grupos de mercados consumidores de plásticos reciclados identificados na pesquisa, o setor automotivo está em sétimo lugar. “Consideramos uma posição importante”, ressalta Miguel Bahiense, presidente da Plastivida e do Instituto do PVC. O setor de utilidades domésticas responde por 16,43% do consumo. Neste ranking, logo atrás estão a indústria agropecuária (15,3%) e o setor que o instituto classifica como “industrial” (14,9%) – no caso, o segmento engloba diversos tipos de embalagens para este ramo de atividade.

Plástico Moderno, Knecht: aumentou a procura por resina com conteúdo pós-consumo
Knecht: aumentou a procura por resina com conteúdo pós-consumo

Entre as explicações para esta aceitação, segundo Bahiense, está o fato de que praticamente todos os plásticos são passíveis de serem reciclados, e seus produtos aplicados na indústria automotiva. No momento, a preferência recai sobre os polímeros mais conhecidos, entre eles PVC, PC, PE, PP, PET e PS. Estas resinas acabam se transformando em tampa de radiadores, para-choques, maçanetas de portas, peças de retrovisores, calotas, acessórios internos, peças de lanternas, tapetes, frisos e enchimentos, entre outros.

“Devemos destacar que não são produtos fabricados exclusivamente com material reciclado, eles podem ser produzidos com plástico virgem ou mesmo com outras matérias-primas, tudo depende do projeto do carro”, observa Bahiense. De qualquer maneira, o mercado de automóveis já identificou os benefícios dos plásticos, não somente sob a ótica ambiental. “O material agrega qualidade nas peças automobilísticas, tais como design, resistência, cores etc., a um custo extremamente competitivo”, finaliza.

A petroquímica Saudi Basic Industries Corporation (Sabic) acompanha de perto o estreitamento entre a indústria automotiva e a da reciclagem. “Na região, vemos um interesse crescente na utilização de materiais de PCR (reciclado pós-consumo)”, resume Ricardo Knecht, diretor presidente da unidade Innovative Plastics da Sabic na América do Sul.

Um exemplo vem da América do Norte. A petroquímica participou do projeto do Volvo Trucks, que adotou a resina Valox iQ (PBT) nos suportes do sistema de deflexão lateral de ar do Volvo VN 2012. Essa foi a primeira utilização de um material pós-consumo em caminhões pesados na região. Existem diversos outros exemplos, até mesmo da indústria local, mas, por razões de confidencialidade, eles não podem ser divulgados pela petroquímica.

Plástico Moderno, Volvo aposta na adoção de PET reciclado em linha de caminhão
Volvo aposta na adoção de PET reciclado em linha de caminhão

Aliás, a Sabic atua fortemente nestesentido. A empresa propôs um novo ciclo para o PET recuperado nos automóveis. A unidade Innovative Plastics desenvolveu uma tecnologia capaz de despolimerizar garrafas PET pós-consumo, obtendo etileno glicol e ácido tereftálico (ou dimetil tereftalato). O etileno glicol precisa ser convertido em butanodiol, que reage com o ácido orgânico anterior (ou seu sal) para produzir um novo poliéster, o polibutileno tereftalato (PBT).

Este é o conceito básico do portfólio de material pós-consumo reciclado da Sabic, em especial, das resinas Valox iQ e Xenoy iQ (PC/PBT). “Estes polímeros consomem menos energia e reduzem a emissão de CO2 na sua produção, quando comparados às resinas obtidas por processos tradicionais”, reforça Knecht. Os dois materiais podem substituir o PBT convencional e as resinas de PC/PBT em qualquer aplicação, e apresentam de 12% a 60% de conteúdo pós-consumo. O portfólio PCR inclui mais de 25 grades.

O PBT serve a aplicações que demandam resistência química e características de isolamento elétrico. Portanto, em geral, o material é incorporado a conectores, painéis de iluminação, para-choques e absorvedores de energia.

Resíduo nobre – “Estamos focados em ajudar as OEMs (fabricantes de peças originais) a atingirem suas metas de redução de peso nos veículos”, resume o executivo da Sabic. Prova dessa aliança é o novo projeto da Renault para os para-lamas da linha 2013 do Clio IV, onde adotou o grade PIR (pós-industrial reciclado) da família Noryl GTX, da Sabic. O material será expandido para uso no veículo elétrico ZOE, também da Renault.

Plástico Moderno, Clio produzido na Argentina usa material de resíduo industrial
Clio produzido na Argentina usa material de resíduo industrial

A resina, extraída dos descartes da produção, proporciona até 47% menos emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo de vida de um para-lama em comparação a uma mesma peça fabricada com aço. A petroquímica garante que as propriedades e o desempenho do PIR são semelhantes a um grade padrão da resina Noryl GTX, até porque a resina é composta em grande parte de material virgem. Aliás, a Noryl GTX, segundo a fabricante, é um material extremamente resistente quimicamente e com excelente rigidez, além de apresentar resistência ao impacto e ao calor necessários para os processos de pintura em linha.

Em tempo, a montadora francesa adotou o pós-industrial reciclado de Noryl GTX na sua produção na Europa. “Ainda não para o Brasil”, comenta Valdeni Lopes, chefe de meio ambiente da Renault. O material, além do Clio, está presente também no Symbol – ambos são fabricados na Argentina.

Esses desenvolvimentos não são made in Brasil, mas nem por isso a unidade da Renault instalada por aqui fica atrás na busca por soluções sustentáveis para os seus projetos. Herdou esta postura da matriz francesa. A assinatura da política Eco2, em meados de 2007, lá na França, estabeleceu um marco para a montadora, que se propôs a fabricar veículos mais econômicos e ecologicamente corretos. Na prática, esse acordo respingou nas plantas da América sob algumas frentes. Uma delas é por meio do compromisso de conceber veículos com 7% da massa total em plástico em material reciclado, e 95% do total a ser valorizado no fim da vida. “O Sandero foi o primeiro veículo com reconhecimento Eco2 nas Américas”, diz Lopes.

Plástico Moderno, Lopes: fornecedores de polímero recuperado estão em avaliação
Lopes: fornecedores de polímero recuperado estão em avaliação

A preocupação pelo menor impacto ambiental de seus veículos é tema recorrente dentro da montadora. “Estão sendo validados novos fornecedores de materiais reciclados para peças plásticas”, avisa Lopes. Outros exemplos de aplicações da Renault com o material reciclado respondem por medalhões de portas revestidos e protetor de roda (PP reciclado, sem reforço) e cárter do banco (PP reciclado, com reforço). “Dia a dia verificamos novas oportunidades para incrementar a porcentagem desses materiais”, diz Lopes. Obviamente, ressalta o chefe de meio ambiente da Renault, desde que cumpram com as especificações e assegurem a qualidade e a origem das matérias-primas.

Novas frentes para o reciclado – A montadora norte-americana General Motors segue a mesma toada. As peças plásticas fabricadas nas plantas de injeção da GM do Brasil possuem entre 5% e 8% de material reciclado. “A definição destes valores é obtida através de validações para assegurar que esta proporção não comprometa a qualidade do produto final”, ressalta a engenheira de materiais e elementos de fixação da GM do Brasil, Rita Binda. Segundo ela, uma novidade neste sentido é a adoção de uma especificação interna com a qual os seus fornecedores declaram o conteúdo de material reciclado contido nas peças produzidas e fornecidas à montadora.

Algumas amostras dessa postura nos carros da GM dão conta do uso de PET reciclado oriundo de garrafas na composição dos carpetes, e do uso de PU 100% reciclado (espuma flocada) na isolação acústica e em peças para absorção de impacto. “Em nossas plantas de injeção de peças plásticas, foi feito um trabalho de desenvolvimento para viabilizar o reaproveitamento das sobras, com o uso de peças de set up de máquina, reaproveitamento de galhos de injeção e outras sobras de produção”, completa Rita.

Plástico Moderno, PU e PET reciclados entram em isolamento e carpete
PU e PET reciclados entram em isolamento e carpete

Outro exemplo é o uso da cinza da casca do arroz em substituição ao talco, como carga em poliamidas. O material compõe a cobertura da correia dentada. A montadora adotou ainda nas pedaleiras dos veículos poliamida e polipropileno, ambos reforçados com fibra de vidro no lugar do aço. O mesmo ocorreu na carcaça de coxins de moto, com a troca do metal pela PA reforçada.

Fim de vida – Apesar de não existir uma legislação nacional no sentido de promover a reciclagem dos componentes dos veículos no fim de vida, as plantas brasileiras da GM seguem as determinações da engenharia global da montadora. Uma iniciativa se refere à marcação das peças plásticas, para facilitar a separação e a posterior reciclagem das mesmas. “Também temos o desenho do projeto seguindo normas que orientam para a facilidade de desmontagem das peças e dos componentes, favorecendo a reciclagem”, diz Rita.

A União Europeia segue uma diretiva relativa aos veículos em fim de vida. Em linhas gerais, estimula-se a utilização de materiais reciclados e a recuperação dos veículos e seus respectivos componentes. Países mais desenvolvidos já possuem estratégias e ações bem definidas para a reciclagem. No Brasil, o cenário é outro. “Nosso mercado (Mercosul) encontra-se um pouco atrasado nesta questão”, argumenta Marcio Tiraboschi, da gerência de engenharia avançada e materiais da Plascar.

Edson Orikassa, além de executivo da AEA, também é gerente de engenharia de produto divisão II da Toyota do Brasil. Ele conta que, de alguma maneira, a Toyota, ao desenvolver um novo projeto, sempre vislumbra a viabilidade técnica da reciclagem do veículo no fim da vida. Esta prática está atrelada à cultura do Japão, país em que o consumidor é responsável pelo descarte do seu automóvel – ou seja, paga para que seu bem tenha um destino apropriado e suas peças sejam todas recicladas. “O foco é que 100% do nosso produto seja 100% reciclável”, reforça.

Mas antes mesmo de dialogar sobre mecanismos para promover a reciclagem dos automóveis em fim de vida, a indústria nacional tem outras necessidades. Na opinião de Lopes, da Renault, apesar de avanços promovidos no país, o material reciclado ainda não é viável economicamente. “O preço é volátil”, destaca. A história por trás desse entrave revela um problema ainda maior: a cadeia da reciclagem no país ainda não está organizada de maneira a atender o mercado com primazia.

Bahiense, da Plastivida, concorda. Para ele, a participação dos plásticos reciclados nos automóveis tende a seguir na direção do consumo da resina virgem, em alta, mas o caminho a ser trilhado é longo, e passa por mais incentivos. “Inicialmente, devemos elaborar novas normas, promover essas e as já existentes dentro do setor industrial reciclador, para que sigam os padrões de qualidade exigidos pela indústria automotiva”, comenta.

O crescimento do reciclado pela indústria automotiva, como ocorre em outros setores, esbarra em velhos problemas, como a falta de coleta seletiva. A Plastivida revela que 8% dos municípios brasileiros têm algum tipo de coleta seletiva e na maioria dos casos são ineficientes. “Isso leva o setor de reciclagem a apresentar elevado índice de ociosidade, em torno de 35%”, atesta Bahiense. No entanto, o prognóstico é positivo.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) foi implantada há dois anos, em meio à promessa do início de uma nova era na indústria nacional da reciclagem. Embrionária, a medida, no entanto, ainda se firma em tentativas do setor para dar uma resposta à altura da legislação e na busca de sua viabilidade técnica e econômica. Mas, de qualquer maneira, o caminho está aberto e amplia as possibilidades de uso do reciclado no mercado automotivo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios