Injetoras – Cresce procura por máquinas para fabricar peças multicores

Nos países avançados, a injeção de peças com duas ou mais cores é usada há mais de trinta anos, tornou-se corriqueira. Lá fora, em algumas aplicações, chega-se a utilizar até oito cores por peça. No Brasil, alguns transformadores adotam a tecnologia há mais de dez anos. Seu uso por aqui, no entanto, pode ser considerado bastante tímido. Poucas são as fábricas capacitadas para essa operação. Entre elas, a maioria absoluta se utiliza de duas cores.

Apesar de ser ainda pífio, o interesse por trabalhos do gênero vem crescendo de forma moderada, em especial nos últimos dois anos. Alguns fornecedores de injetoras atestam que são procurados com maior intensidade por interessados em equipamentos com mais de uma unidade de injeção. O mesmo sentimento está presente entre os poucos transformadores e fabricantes de moldes prestadores de serviços para esse nicho de mercado.

O crescimento da demanda tem ocorrido com maior intensidade por parte de representantes de alguns segmentos econômicos. Um exemplo: os setores de cosméticos e de produtos de higiene pessoal. A aparência dos produtos nas prateleiras dos pontos de venda, para essas indústrias, faz parte da estratégia de marketing. O uso de peças coloridas nas embalagens incentiva as vendas, ajuda a cativar os consumidores em lojas, supermercados e demais representantes do varejo. O mesmo apelo pode ser mencionado em outros itens cuja questão estética favorece os negócios. São os casos dos aparelhos eletrodomésticos e eletroeletrônicos.

O aumento da procura não se dá apenas por questão estética, ocorre também por funcionalidade. As lanternas traseiras dos automóveis são compostas por plástico transparente e vermelho. Injetar as lanternas com duas cores em apenas um ciclo se mostra operação econômica e vantajosa, quando comparada com a produção independente dos componentes de cada cor. Outros exemplos se encontram na fabricação de produtos como aparelhos de barbear ou de escovas de dente. Recobrir os cabos desses produtos, normalmente injetados em EVA, com uma camada de TPE, um tipo de borracha, permite melhor manuseio por parte dos usuários, além de torná-los com aparência mais sofisticada.

Aplicações como essas proporcionam bom potencial de crescimento do uso da tecnologia nos próximos anos. Alguns fatores, porém, não ajudam. Para investir na aquisição de equipamento do gênero, o uso dedicado das máquinas é quesito quase obrigatório. E o preço das injetoras é “salgado”. O maior obstáculo, no entanto, se encontra no valor dos moldes. Muito complexos, eles custam, em média, mais de meio milhão de dólares. Mesmo levando-se em conta a relação custo/benefício, muitas vezes vantajosa, o investimento assusta os industriais.

Encontrar no Brasil ferramentarias preparadas para esse tipo de encomenda é outro desafio. Os dedos de uma mão talvez sejam suficientes para contar as empresas do ramo capacitadas. A importação é a forma de contornar o problema. Não por acaso, fornecedores internacionais de injetoras costumam oferecer aos clientes projetos completos, que incluem, além das máquinas, moldes fabricados por parceiros internacionais e até periféricos e acessórios de automação.

Plástico Moderno, Franco Magno, Gerente técnico da Plastek, Injetoras - Cresce procura por máquinas para fabricar peças multicores
Magno: injetoras comuns podem ser adaptadas para realizar operação

Os “segredos” das injetoras – A injeção bicolor exige uma série de cuidados, adotados de acordo com as características das peças a serem produzidas. Um dos dilemas se encontra na escolha da injetora. Existem vários fornecedores de máquinas com duas ou mais unidades de injeção. Essas unidades podem ser montadas em paralelo, na vertical ou na horizontal, na lateral dos equipamentos. A seleção é feita caso a caso. “A escolha da melhor combinação depende das características dos moldes”, explica Christoph Rieker, gerente-geral da Sumitomo Demag, multinacional com participação marcante no mercado mundial de equipamentos multicomponentes.

Um dos diferenciais dessas máquinas se encontra em seu controle, dotado com softwares mais sofisticados do que os presentes em modelos convencionais. Esses controles precisam garantir com grande precisão a execução de todas as operações, permitindo as temperaturas e pressões corretas de etapas como plastificação das resinas em cada unidade de injeção durante o preenchimento do molde.

Franco Magno, gerente técnico da Plastek, multinacional especializada em transformação e ferramentaria e uma das pioneiras na fabricação de peças bicolores no Brasil, revela ser possível adaptar injetoras comuns para a operação. “Quando for vantajoso, podemos montar uma segunda unidade de injeção com controle independente”, conta. No parque gráfico da empresa no Brasil, a opção já foi adotada. “Usamos tanto máquinas especializadas quanto adaptadas e todas funcionam bem”, garante.

Os “segredos” dos moldes – Não são poucos os atributos dos moldes necessários para o bom funcionamento dos ciclos de injeção de peças plásticas bicolores. Eles exigem enorme precisão, muitos de seus componentes contam com dimensões projetadas na casa dos milésimos de milímetros. “Um mínimo desajuste provoca problemas durante o preenchimento das cavidades e aparição de rebarbas”, lembra Magno, da Plastek.

Essas matrizes podem ser divididas em dois grandes grupos. No primeiro, encontram-se as projetadas para sofrer uma rotação dentro das máquinas após a conclusão de cada ciclo. A rotação, comandada por sistemas de engrenagem, pode ocorrer no sentido vertical ou horizontal, conforme as características das peças a serem fabricadas e das máquinas a serem utilizadas. Nesse caso, os moldes têm o dobro de cavidades em relação ao número de peças a serem produzidas.

A operação de preenchimento do molde, para as ferramentas desse tipo, ocorre da seguinte forma: enquanto uma unidade de injeção injeta o plástico da primeira cor, a segunda unidade, de forma simultânea, complementa o preenchimento com a outra matéria-prima. Findo o ciclo, a ferramenta abre e as peças prontas são ejetadas. O molde, então, faz o movimento de rotação, com a finalidade de localizar as cavidades vazias junto ao canhão onde será injetada a primeira cor e as cavidades preenchidas com o plástico da primeira cor junto ao canhão de onde sairá o segundo material.

Plástico Moderno, Injetoras - Cresce procura por máquinas para fabricar peças multicores
Molde dotado com lâminas produz tampas bicolores

O outro grupo é formado por moldes dotados em cada cavidade com uma espécie de lâmina. Nos ciclos, antes da etapa em que é injetado o primeiro material, essas lâminas são acionadas de modo que impeçam o preenchimento completo das cavidades. Em seguida, a unidade de injeção da primeira cor introduz a quantidade prevista de plástico. As lâminas, então, são recolhidas e a segunda unidade de injeção preenche o espaço vazio restante com a outra matéria-prima. Nesse caso, o número de cavidades do molde coincide com o número de peças produzidas por ciclo.

Para Magno, a escolha do tipo de molde, entre os que atuam com base na rotação (vertical ou horizontal) e os dotados com lâminas, deve ser feita caso a caso. Tudo depende de parâmetros como os materiais utilizados, a quantidade de cada material presente nas peças, o design das peças e as medidas entre colunas das injetoras, entre outros. “Os moldes dotados com lâminas são menos caros, pois contam com número de cavidades menor. Nem por isso, são sempre os mais indicados”, ressalta.

Nos dois grupos, a sincronia dos movimentos tem de ser perfeita. Uma das maiores dificuldades se encontra na realização do processo de resfriamento, o qual tem de funcionar com extrema precisão. No caso dos moldes do segundo grupo, a dificuldade é maior. Durante o ciclo, antes da lâmina se recolher, o material da primeira cor precisa atingir temperatura adequada, nem fria para dificultar a adesão do segundo material, e nem quente para que essa adesão se transforme em indesejável fusão. Cada cavidade, nos moldes dos dois grupos, precisa contar com seu canal quente. Nos que atuam com base no movimento de rotação, portanto, o número de canais quentes é o dobro do número de peças fabricadas por ciclo.

Uma exigência, qualquer que seja o tipo da ferramenta, é a robustez. Por isso, os projetistas precisam estar atentos à exigência mecânica das ferramentas durante a seleção dos aços. Em geral, são usadas matérias-primas sofisticadas, com desempenho acima da média das aproveitadas em matrizes convencionais. Além disso, elas precisam passar por tratamentos térmicos feitos sob rigorosos parâmetros de qualidade. “Por se tratarem de moldes de elevado valor, o preço do aço não é tão relevante, não vale a pena economizar nessa hora”, avalia o gerente da Plastek.

Plástico Moderno, Injetoras - Cresce procura por máquinas para fabricar peças multicores
Molde com rotação produz aparelhos de barbear

Palavra de transformador – Os transformadores interessados em investir na injeção bicolor precisam de capital significativo para montar a estrutura necessária para a operação. Caso consigam contornar essa “indigesta” dificuldade, a chance de obter bom retorno é expressiva. Um exemplo se encontra na Plastek. A empresa foi criada nos Estados Unidos em meados do século passado. Nasceu como fabricante de moldes e, nas últimas décadas, agregou a transformação aos seus serviços. No Brasil, tem fábrica localizada no município de Indaiatuba-SP. No exterior, mantém três fábricas no território norte-americano, além de unidades de produção na Inglaterra e Venezuela.

Por aqui, a Plastek está completando dez anos de atuação e se especializou na produção de embalagens de cosméticos, alimentos, produtos farmacêuticos e de limpeza. Conta com clientes de porte, nomes como Unilever, Pepsico e L’Oréal, entre outros gigantes fabricantes de bens de consumo. Em Indaiatuba, opera com 51 injetoras, das quais quatro são dedicadas à injeção bicolor. Nestas máquinas produz tampas de embalagens de cosméticos e corpos de aparelhos de barbear.

Prova dos bons resultados obtidos com o nicho se encontra nos investimentos em curso realizados pela empresa. Até meados do ano, ela deve ampliar sua capacidade produtiva com a inauguração de espaço em seu galpão industrial onde serão instaladas dez injetoras recém-adquiridas. Entre as novas máquinas, duas serão

totalmente dedicadas à injeção de peças bicolores. “Tem havido aumento de demanda por esse tipo de serviço”, justifica o gerente técnico Franco Magno.

Em paralelo às linhas de produção, a empresa mantém por aqui ferramentaria equipada com equipamentos de usinagem de aço de última geração. Lá são fabricados os complexos moldes de bi-injeção usados pela empresa e também para terceiros. “Os projetos dos moldes são desenvolvidos nos Estados Unidos. No Brasil, usinamos todos os componentes das ferramentas”, diz o gerente.

Palavra de ferramenteiro – Não é fácil encontrar ferramentarias nacionais capazes de projetar e construir moldes para injeção bicolor. Uma delas é a Btomec, localizada em Joinville-SC. Com 65 funcionários e há 25 anos no mercado, a empresa tem como foco principal de atuação a produção de matrizes de múltiplas cavidades. “Fazemos moldes de 16, 24 e até 96 cavidades”, informa o diretor Wiland Tiergarten.

De acordo com o dirigente, a iniciativa de investir na injeção bicolor se deveu ao fato de a tecnologia estar começando a ganhar força no Brasil. “Empresas do setor automotivo, de linha branca e de embalagens e, em especial, de cosméticos estão intensificando os pedidos”, revela. Até pouco tempo, esses moldes eram todos feitos no exterior. “Sempre procuramos nos inovar, buscamos um diferencial perante os concorrentes. Por isso, há três anos resolvemos investir em estudos e pesquisas para nos capacitarmos para esse mercado”, conta.

Para por em prática a estratégia, a Btomec contratou a assessoria de uma ferramentaria alemã. O acordo foi necessário para capacitar os profissionais da empresa, fazer com que eles começassem a ter contato com diferenciais da construção dessas ferramentas. “Esses projetos apresentam dificuldades singulares, exigem engenharia especial. A necessidade de ajustes muito bem sintonizados nos sistemas de fechamento é um exemplo”, revela o diretor. Em tempo: a ferramentaria já fabricou um molde do gênero. “Ele está instalado no cliente e em pleno funcionamento”, orgulha-se.

Para Tiergarten, o fato de ser uma das poucas empresas do mercado a dominar a técnica é muito positivo. Por isso, os investimentos na capacitação devem prosseguir. Um novo e importante passo nesse sentido foi dado recentemente. “Nós adquirimos uma injetora com três unidades de injeção, capacitada para a adoção de uma quarta, para aprofundar nossas pesquisas”, revela. A máquina será instalada no parque industrial da empresa em algumas semanas e ajudará os técnicos da Btomec a adquirir experiência com trabalhos do gênero. “Espero que as empresas brasileiras continuem a acreditar em situações novas, procurem embelezar suas embalagens e tornem seus produtos mais eficazes”, analisa.

Máquinas nacionais – A Romi, fabricante nacional líder na venda de injetoras, participa desse mercado. E a perspectiva do nicho, para a direção da empresa, é positiva. “A injeção de bicolores ou multicomponentes é um caminho que está se abrindo cada vez mais no processo de injeção”, avalia Hermes Lago, diretor de comercialização de máquinas. Os segmentos automotivo, eletroeletrônico e de utilidades domésticas são os destaques, de acordo com o executivo.

Para Lago, exemplos de aplicação vêm da indústria automotiva. A indústria de autopeças aproveita o processo muitas vezes para unir material plástico mais rígido com elastômero. O diretor também se lembra da utilização da técnica em conjuntos ópticos, caso das lanternas traseiras. As lanternas talvez sejam os únicos exemplos de aplicação onde são utilizadas três cores no Brasil.

A fabricante de injetoras tem uma linha completa de máquinas multicomponentes. A linha de equipamentos Primax R, dotada com dez modelos com forças de fechamento de 150 a 1.500 toneladas, permite a inserção de uma ou duas unidades secundárias. Nos modelos da série Primax DP, com 1.300 e 1.500 toneladas de força de fechamento, é possível acoplar uma ou mais unidades secundárias. Estas podem ser posicionadas em paralelo, de forma transversal ou vertical em relação ao cilindro de injeção. “As máquinas Primax DP atendem às necessidades dos transformadores deste segmento”, ressalta o diretor.

Plástico Moderno, Hercules Piazzo, Gerente-comercial, Injetoras - Cresce procura por máquinas para fabricar peças multicores
Piazzo: procura está em alta nos últimos dois anos

Máquinas importadas – Para os importadores de injetoras, o mercado de máquinas multicomponentes vem apresentando aquecimento moderado nos últimos anos. Nada muito expressivo. Entre os mais otimistas se encontram os representantes brasileiros do grupo Milacron. Hercules Piazzo, gerente-comercial do escritório local da multinacional, acredita no bom potencial desse nicho pela necessidade dos clientes de alguns segmentos econômicos de usar artifícios diferenciados para atrair os consumidores. “De dois anos para cá, temos sido mais procurados por fornecedores de peças, em especial por fabricantes de tampas para embalagens de cosméticos e produtos de higiene pessoal”, revela.

Para os interessados, a empresa fornece as máquinas da série K-TEC, composta por modelos de 40 a 450 toneladas de força de fechamento. Elas podem ser compradas com unidades de injeção que permitem o uso simultâneo de duas até seis cores. “No Brasil, as consultas são sempre sobre equipamentos de duas cores”, ressalta o gerente. As injetoras levam a marca Ferromatik-Milacron. “Em 1993, a Milacron adquiriu a fábrica alemã Ferromatic”, justifica.

Os modelos da empresa para operações multicores são oferecidos com tecnologia hidráulica ou híbrida. “O comando é diferenciado, conta com softwares capazes de realizar as regulagens necessárias nas diferentes unidades de injeção”, explica. Para facilitar a vida dos clientes, a Milacron prepara pacotes nos quais podem ser incluídos os moldes necessários para a fabricação das peças. “Eles são produzidos pela ferramentaria alemã Foboha”, diz. Se for o caso, também projeta e fornece, com a ajuda de parceiros, os equipamentos necessários para a automação.

Marcos Cardenal, engenheiro de vendas da fabricante de injetoras alemã Battenfeld, mostra otimismo moderado em relação a esse mercado. Para ele, as consultas não têm crescido de forma significativa. “Nos dois últimos anos antes da crise, eu diria que a procura por esses equipamentos estava crescendo 15% ao ano. O ano passado não foi bom”, revela. A empresa vendeu algumas unidades para aplicações altamente técnicas. “Nossos clientes são fornecedores de peças para a indústria automotiva e de eletroeletrônicos”, relata.

As injetoras multicomponentes da Battenfeld são desenhadas para injetar até quatro materiais. “No Brasil, a procura se concentra nas máquinas de duas cores”, informa o engenheiro. De linha, a empresa oferece modelos de até 600 toneladas de força de fechamento. Sob encomenda, pode fabricar unidades com até 1.800 toneladas de força de fechamento. “A máquina conta com softwares diferenciados no comando e outros detalhes, como maior robustez do chassi”, diz.

“Não vejo grande crescimento na procura por esses equipamentos no Brasil”, informa Rieker, da Sumitomo Demag. Para ele, o problema se encontra no investimento necessário para a instalação de linhas de produção. “Os preços dos moldes são muito elevados”, acredita. De acordo com o executivo, a marca Demag conta com participação importante nesse segmento de mercado internacional. “Em sua história, na área bicolor, a empresa conta com de 15% a 20% do mercado da Europa e mantém participação semelhante em todo o mundo”, revela.

Por aqui, entre os clientes, destaque para a Gillette, empresa que utiliza a tecnologia na fabricação de modelos de aparelhos descartáveis para barbear na unidade industrial localizada na Zona Franca de Manaus. Produtores de tampas para embalagens de cosméticos e produtos de higiene pessoal e de peças automotivas também se encontram entre os compradores.

Para esse segmento, a empresa oferece máquinas com a marca Demag, nos tamanhos de 100 a 650 toneladas de força de fechamento. Como quem adquire injetoras multicores utiliza as máquinas de forma dedicada para determinada aplicação, a Demag conta com estratégia de marketing também adotada por concorrentes para esse tipo de equipamento. Ela oferece projetos “chave na mão”. “Podemos incluir no pedido os moldes e todos os periféricos, nos responsabilizamos pelo funcionamento do conjunto como um todo”, informa. Todos os componentes desses projetos são desenvolvidos e fabricados na Europa.

 

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