Petrobras – Estatal quer ficar mais enxuta e eficiente para atingir metas financeiras e operacionais

Perspectivas

A Petrobras faz ajustes em seus negócios e estruturas internas com o objetivo de reduzir o endividamento, aumentar a produtividade e a rentabilidade das suas operações.

Isso inclui a venda de ativos considerados não-vitais, a exemplo de participações em empresas petroquímicas, de fertilizantes e produtoras de biocombustíveis (etanol e biodiesel).

A diretoria da estatal, sob o comando do respeitado executivo Pedro Parente, adotou essa postura como resposta à difícil situação em que a companhia foi colocada, após administrações pródigas e ruinosas havidas nos últimos 13 anos.

A ilusória – porque temporária e cíclica – situação de preços elevados do petróleo no mercado global, beirando US$ 150 por barril em 2008, levou o país todo a acreditar na fábula do Eldorado do Ouro Negro, representado por campos de elevada produção, porém situados muito longe da costa e a profundidades extremas, sem mencionar a complexidade operacional. A região do pré-sal seria a redenção econômica do Brasil, um cheque especial que começou a ser aproveitado antes mesmo de o primeiro óleo ter chegado às plataformas de exploração.

A ilusão de riqueza se mostrou mais deletéria do que cair no golpe do bilhete premiado. Maximizado pelas bazófias de líderes políticos e turbinado pela corrupção em escala gigante, grande parte do parque industrial metalmecânico e de construção naval local voltou seus esforços e capitais para atender à demanda futura alardeada pelo setor petroleiro, jamais efetivada na escala prometida. Com essa frustração, essas indústrias foram arrastadas para uma crise profunda.

Nos tempos do eldorado petroleiro, a Petrobras ampliou irresponsavelmente seu endividamento, desde os US$ 20 bilhões de 2010, até ostentar a dívida bruta de US$ 132 bilhões em 2015, para uma geração de caixa operacional próxima de US$ 20 bilhões. Nesse ano, a alavancagem da companhia (dívida líquida/Ebitda) chegou a 5,3.

Enquanto isso, por determinação do governo federal de então, interessado em manter elevada popularidade, os preços dos principais derivados de refino foi congelado em valor abaixo do custo de obtenção, gerando um déficit de caixa considerável – atualmente, os preços de derivados são apontados com base no custo de substituição por importados. Além disso, por força do binômio corrupção-ineficiência, a companhia calcula que apenas um terço do endividamento daquela época será capaz de gerar resultados. Os dois terços restantes foram desviados ou aplicados em obras que não estão concluídas (e talvez não venham a ser).

O sonho começou a se tornar um pesadelo com o sucesso da exploração de petróleo e gás natural de fontes não-convencionais nos Estados Unidos, englobando o shale gas e o tight oil. O baixo custo de extração de óleo e gás revelado nessa atividade tornou-a atraente para o setor petroleiro, ganhando impulso e escala a partir de 2010. Com isso, a cotação do petróleo leve despencou para a faixa dos US$ 60/barril, até o mínimo de US$ 30/barril, em meados de 2016. Os projetos da estatal brasileira, elaborados em um quadro mais risonho, começaram a adernar.

Pedro Parente observa que a chegada do shale gas e de outras fontes não-convencionais derrubou os investimentos globais do setor petroleiro desde então.

Plástico Moderno, Parente: parque de refino só crescerá mediante parcerias
Pedro Parente – Presidente da Petrobras

É preciso considerar também os esforços mundiais para redução das emissões de carbono, que reduziram o consumo de derivados de petróleo, embora, como afirma Parente

“a grande mudança no setor foi provocada na curva de oferta. As companhias petroleiras de atuação internacional estão emagrecendo”, afirmou o presidente da Petrobras.

Os grandes nomes do ramo estão vendendo ativos, reduzindo e otimizando investimentos, aprimorando suas operações e adotando rígida disciplina financeira. “A Petrobras também estaria fazendo isso mesmo que não fosse por conta da corrupção da qual foi vítima”, avaliou.

Aliás, Parente enfatiza a condição de vítima da companhia, ressaltando que a Petrobras só obteve prejuízos com a corrupção, chegando a um ponto crítico, a ponto de afetar o moral dos colaboradores. Essa posição é sustentada na Class Action (ação coletiva) contra ela movida por investidores nos Estados Unidos, onde a corte de apelação de Nova York acolheu o recurso apresentado pela estatal.

Quase a metade das ações movidas nessa corte contra ela já foram extintas mediante acordo entre as partes. Em relação aos processos movidos por órgãos do governo americano, como o Departamento de Justiça (DOJ) e a SEC (a CVM de lá), a Petrobras declara estar colaborando com as investigações.

Ao todo, a companhia aprovisionou mais de US$ 360 milhões para cobrir essas indenizações. Cabe lembrar que investidores e outras origens iniciaram a abertura de processos em outras localidades, a exemplo da Holanda.

A baixa dos preços do óleo e do gás assustou os produtores do Oriente Médio, mas também freou o ímpeto da expansão de novos campos nos Estados Unidos. Segundo Parente, a exploração do óleo e gás de xisto americano é viável a menos de US$ 40/barril, mas só começa a incentivar investimentos de vulto quando ultrapassa os US$ 50/bbl.

Como houve um excedente de oferta global de petróleo estimado em 2,3 milhões de barris/dia, ao final de 2015, maior que a produção brasileira, os preços seguiram pressionados para baixo em 2016. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) conseguiu firmar um acordo entre seus membros para reduzir em 2 milhões de bbl/dia a sua oferta, de modo a recuperar rentabilidade. As cotações globais começaram a reagir em janeiro, apontando US$ 50/bbl para o tipo Brent. “É preciso verificar qual será a reação dos produtores americanos”, afirmou Parente.

O quadro de incertezas mundiais e nacionais sobre a atividade econômica em geral e sobre a petroleira em particular segue robusto. Na escala internacional, a reposta do mercado às medidas prometidas pelo recém-empossado presidente Donald Trump ainda oscila muito. O comportamento da economia da China, outro motor global, se mostra errático, com uma tentativa do governo de lá para impulsionar a atividade empresarial mediante a injeção de recursos.

No campo nacional, as incertezas permanecem, embora tenha havido algum alívio com o recuo do índice inflacionário e da taxa primária de juros. A política ainda permanece em terreno movediço. Tudo isso afeta o humor dos investidores e protela o avanço de projetos.

A Petrobras pretende obter cerca de US$ 40 bilhões mediante desinvestimentos e formação de parcerias, com as quais aliviaria o consumo de capital. Na área internacional, vendeu em dezembro a Petrobras Chile Distribuición (para o fundo Southern Cross Group, por US$ 470 milhões) e a refinaria japonesa Nansei Sekiyu (para a Tayo Oil Company, por US$ 165 milhões).

Plástico Moderno, Unidade de destilação atmosférica da Rnest, em Pernambuco
Unidade de destilação atmosférica da Rnest, em Pernambuco

No Brasil, alienou o complexo de poliésteres/PET da Petroquímica Suape e Citepe para subsidiária da mexicana Alpek, por US$ 385 milhões. A subsidiária de biocombustíveis (PBio) vendeu sua participação de 45,97% na produtora de açúcar e etanol Guarani S/A para a Tereos Participations (do grupo francês Tereos), por US$ 202 milhões, que detinha o restante do capital.

Antes disso, a PBio já celebrara acordo para incorporar à Usina São Martinho a sua participação de 49% na Nova Fronteira Energia, joint venture mantida por ambas. Com isso, a PBio receberá ações da São Martinho no valor aproximado de US$ 130 milhões, que poderão ser alienadas ao mercado, sem restrições.

A companhia tem buscando para desenvolver e explorar campos de petróleo, reduzindo sua necessidade de inversão de capital e futuros endividamentos.

Apesar dos esforços, a companhia não atingiu a meta de US$ 15 bilhões de desinvestimentos e parcerias estipulada para 2016, ficando em US$ 13,6 bilhões. Até 2018, as alienações e parcerias devem representar um aporte de US$ 19,5 bilhões à estatal.

Plástico Moderno, Perspectivas 2017 - Petrobras: Estatal quer ficar mais enxuta e eficiente para atingir metas financeiras e operacionais
Comparativo de investimentos totais – E&P – RGN – Petrobras

Apesar das incertezas, a Petrobras obteve êxito na colocação de US$ 4 bilhões em títulos no mercado internacional com vencimentos em cinco e dez anos, com taxas de retorno de 6,125% e 7,345%, respectivamente. A ideia é usar esses recursos para resgatar papéis de emissões anteriores, de modo a alongar o perfil de vencimentos da dívida, além de reduzir o pagamento de juros.

 

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