Energia – Infraestrutura – Edição Perspectivas 2017

Nos últimos anos, oferta insuficiente e escassez de recursos hídricos colaboraram para alçar o custo da energia fornecida no Brasil a patamares que o inserem incisivamente no rol de fatores que – no campo das deficiências de infraestrutura – prejudicam a competitividade da indústria nacional.

E tal problema pode aumentar em 2017, pela necessidade de o governo federal indenizar em quase R$ 65 bilhões as concessionárias responsáveis pela transmissão da energia, valor a ser repassado aos usuários.

Essa indenização, diz a legislação, deve ser feita em prazo de oito anos; mas seus efeitos devem ser bem mais imediatos:

A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) divulgou estimativas recentes de um aumento médio, ainda este ano, entre 8% e 9% nas tarifas de energia (esses índices ainda não são definitivos, pois o processo do pagamento ainda está sendo elaborado).

Para a atividade industrial, especificamente, os impactos podes ser ainda mais intensos:

Plástico Moderno, Camila: indústrias pagarão até 30% a mais por eletricidade
Camila Schoti – Abrace “indústrias pagarão até 30% a mais por eletricidade”

“Dependendo de fatores como tensão e carga que consome, uma indústria poderá pagar de 20% a 30% mais pela energia”,

avalia Camila Schoti, gerente de energia da Abrace (Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres).

“Esse impacto deve ser sentido no máximo até o mês de julho”, ela prevê.

A Abrace vem conversando com as autoridades responsáveis pelo setor energético na tentativa de evitar aumento tão danoso para o setor industrial, mas não descarta ingressar com ações judiciais caso não seja bem sucedida nessa tarefa. “Em nosso entendimento, o montante a ser pago é questionável e terá impacto expressivo na competitividade da indústria”, alega a representante da entidade.

A tendência de alta nos preços da energia aparece também nas previsões de variação do PLD – Preço de Liquidação de Diferenças do Mercado de Curto Prazo (MCP), utilizado como referência no Mercado Livre de Energia, no qual as empresas negociam livremente com as geradoras e comercializadoras desse insumo (ver tabelas e gráficos com os números do setor nesta edição).

Aliás, no ano passado, uma quantidade recorde de empresas – cerca de 2,3 mil – migrou para o mercado livre, que agora tem mais de 4 mil associados em sua Câmara de Comercialização. Este ano, até agora, já há aproximadamente 1,1 mil empresas inscritas para completar essa migração.

Plástico Moderno, Perspectivas 2017 - Infraestrutura: Energia
Tabela com Geração e Consumo de Energia

Transmissão e microdistribuição de energia

Na área de geração de energia, não devem surgir novos projetos em 2017, afirma Newton Duarte, diretor da área de GTD (Geração, Transmissão e Distribuição de Energia Elétrica) da Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica); nem mesmo no segmento da energia eólica, até há pouco tempo em acelerada expansão. Afinal, lembra Duarte, há três anos cai a demanda nacional por esse insumo, e as concessionárias agora têm excesso de oferta.

“Mas, em minha opinião, seria necessário um pouco mais de folga na capacidade de geração, pois há apenas dois anos, temendo que ela faltasse, o governo até se dispunha a comprar qualquer quantidade de energia disponível”, argumenta Duarte.

Na área de transmissão, além de muitos projetos recém-findos, há outros grandiosos em andamento ou em fase de elaboração, por exemplo: o chamado linhão 1 da Usina de Belo Monte, com cerca de 2,1 mil quilômetros, e o segundo linhão das Usinas de Santo Antonio e Jirau, com aproximadamente 2,4 mil quilômetros, além de várias linhas menores em diversas regiões do país.

Existe a certeza de novos projetos nessa área.

“No ano passado foram leiloados no Brasil quase 12 mil km de linhas de transmissão, e este ano deve ficar entre 14 mil e 17 mil km”, projeta Duarte.

Mesmo assim, não parece próximo o ponto de saturação da rede nacional: “O Brasil ainda tem grande deficiência tanto em transmissão quanto em capacidade de transformação: enquanto nos Estados Unidos há uma relação de 6 para 1 entre geração e transformação, ou seja, cada gigawatt gerado se transforma em seis para transmissão, no Brasil, esse índice está em 3,5 “, ele compara.

No ano passado, conta Duarte, o investimento total em GTD no Brasil reduziu-se cerca 9%. “Mas partir do segundo semestre deste ano espera-se uma leve retomada dos investimentos, fruto de leilões de energia de reserva com foco nas áreas eólica, solar e PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas), bem como dos significativos investimentos em transmissão”, ele detalha.

Na visão de Duarte, no mercado da energia devem agora se expandir mais aceleradamente vertentes como a cogeração de energia através de biomassa – como bagaço de cana, cavaco de madeira e licor negro, entre outras possibilidades – e de gás natural.

Também crescerão “exponencialmente” os sistemas de mini e microgeração distribuídas, como aquele já instalado na cidade de São Paulo em locais como o condomínio comercial Rochaverá, que usa gás natural tanto para aquecer e resfriar água para suas utilidades, a exemplo do sistema de ar condicionado, além de gerar energia para uso próprio e, caso necessário, para distribuição na rede da concessionária da cidade: a AES Eletropaulo.

Diversas vezes, relata Duarte, a Eletropaulo já recorreu a esse projeto quando necessitou de energia adicional nas imediações do Rochaverá. “Os projetos de mini e microgeração distribuída reduzem custos, pois diminuem a necessidade da transportar energia de lugares distantes, agregam confiabilidade ao sistema, e ajudam as distribuidoras nos locais onde elas mais necessitam”, ressalta.

Plástico Moderno, Projeção de PLD (preço do Mercado de Curto Prazo) Fonte: CCEE - Câmara de Comercialização de Energia Elétrica
Projeção de PLD (preço do Mercado de Curto Prazo) Fonte: CCEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica

A Abrace trabalha em uma solução denominada Produto de Resposta da Demanda, com a qual o acionamento de uma usina termelétrica para a geração de energia adicional necessária em determinado momento pode ser substituído pela ação de uma empresa que será remunerada caso reduza seu consumo nessa mesma quantidade.

“Temos associadas que já trabalham com esse produto em outros países nos quais atuam”, afirma Camila.

 

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