Indústria química – Matérias-Primas baratas – Perspectivas

Matérias-primas baratas e taxa cambial ajudam, mas incertezas locais travam novos projetos

Indústria Química – O ano novo ainda é uma criança, mas carrega um fardo pesado de más perspectivas, herdado de seus antecessores.

Isso é verdade no caso do Brasil, enquanto os Estados Unidos ainda ostentam crescimento econômico, a Europa volta a levantar o nariz, depois de vários anos fracos, e a sempre emergente China registrou crescimento de 6% no seu PIB, percentual considerado aquém de suas necessidades.

O cenário nacional segue obscurecido pela névoa da infindável crise política que retira do Poder Executivo sua capacidade de comando.

Em um país absolutamente dependente das decisões de Brasília, isso se traduz em completo imobilismo, obrigando a postergar decisões de investimentos e o planejamento de atividades em todos os setores da vida econômica.

O setor químico não está imune a essa paralisia. Ao menos, poucos dias antes do Natal de 2015, a Petrobras assinou o novo contrato quinquenal de fornecimento de 7 milhões de t/ano de nafta petroquímica para a Braskem, encerrando uma infeliz novela que se arrastou por três anos.

Mas, ao remunerar o derivado de refino em exatos 102,1% da cotação ARA (Amsterdã, Roterdã e Antuérpia), o acordo não trouxe grandes estímulos aos investimentos do setor. Ressalte-se que o acordo poderá ser revisto depois de três anos, uma condição inusitada nesse ramo.

Pode-se dizer que foi o melhor acordo possível, no momento.

Plástico Moderno, Fadigas: Brasil precisa definir se quer ter indústria química
Carlos Fadigas – Presidente da Braskem

“Dados o esfacelamento das condições macroeconômicas, as dificuldades enfrentadas dos nossos clientes e os problemas da Petrobras, decidimos formar esse acordo, embora consideremos o índice ARA inadequado e o prazo oferecido curto demais”, explicou Carlos Fadigas, presidente da Braskem.

Ele informou que as companhias internacionais que pretendiam investir em unidades de produção de estirênicos (Styrolution) e borracha sintética (Synthos) foram avisadas sobre o novo acordo para a retomada de entendimentos sobre essas projetos.

A queda vertiginosa da cotação do petróleo permitiu aos crackers de nafta (e outras cargas líquidas) recuperar grande parte da vantagem conquistada pelas unidades alimentadas por etano (gás).

Com as matérias-primas em baixa, a rentabilidade da indústria petroquímica mundial disparou e voltou a atrair investidores.

Nos Estados Unidos, país antes considerado um cemitério de plantas petroquímicas, a reativação de unidades e a proliferação de projetos de novos crackers e linhas de polimerização de eteno já aponta para o início de uma fase de excesso de oferta de resinas e corte de lucros a começar em 2018.

Saliente-se que o Oriente Médio também está construindo novas capacidades, alimentadas por gás natural ainda mais econômico que o shale gas dos EUA.

Analistas internacionais consideram a América Latina como alvo óbvio para receber excedentes de produção de polietilenos de baixo preço daqui a alguns anos.

Apesar da propalada “renaissance” petroquímica americana, analistas apontam que a produção de eteno dos EUA ainda não voltou ao volume anual anterior à crise de 2008, com picos acima de 25 milhões de t/ano verificados em 2004 e 2007.

Em 2013, a maior produção pós-crise, foi atingida a marca de 25 milhões de t, segundo Paul Hodges, presidente da International eChem e consultor da Icis.

Ele considera preocupante em termos estratégicos a manutenção de taxas baixas de ocupação de capacidades químicas em todo o mundo.

No período de 1987 e 2008, a taxa média de ocupação mundial chegou a 91,3%, caindo para 82,8% entre 2009 e 2015. “Percebe-se que a utilização da capacidade instalada vem diminuindo, em outubro passado, esse índice foi a 81,4%, isso é um mau sinal para 2016”, salientou.

O risco de superprodução de olefinas, tanto C2 quanto C3, é iminente, segundo o especialista.

Com isso, a competição entre resinas plásticas está ficando mais agressiva, com os derivados de eteno levando vantagem por serem obtidos de gás natural. “Houve uma sensível redução dos preços do petróleo e seus derivados de uso petroquímico.

O petróleo está voltando para a média de longo prazo de US$ 26 por barril, mas ainda assim o gás natural é mais econômico para a produção de eteno”, explicou.

Porém, a abundância de óleo barato pode comprometer os investimentos necessários para manter a produção de gás nos Estados Unidos e isso poderá prejudicar a expansão das capacidades de eteno.

Na sua avaliação, a China deixou de estimular práticas de crescimento agressivo de produção, preferindo concentrar esforços em alcançar a autossuficiência em materiais e na contenção de impactos ambientais.

O tigre asiático agora se preocupa com a qualidade de vida da população.

Dessa forma, Hodges não espera que a China seja responsável por uma nova bolha de commodities, porém ele aponta investimentos daquele país para ter suprimento próprio de propeno, lançando mão de tecnologias diversas, entre elas a desidrogenação de propano e aproveitamento do carvão para geração de hidrocarbonetos líquidos (CTL, carbon to liquids). “Prevemos que a China deixará de importar propeno a partir de 2020 e as importações de derivados de C2 começarão a se estabilizar em 2016”, afirmou.

Dificuldades locais – Indústria Química

Com um parque petroquímico consolidado (e amortizado), com três polos produtores com crackers de nafta e um de gás natural, além de algumas unidades isoladas, o Brasil poderia enfrentar o desafio de competir com gigantes internacionais, talvez com o auxílio já conhecido do Imposto de Importação.

A nafta local cara (o índice ARA é caro, em termos mundiais) não ajuda. Além disso, cumpre reconhecer que o país não fez a “lição de casa” prescrita há décadas.

Continuamos com um sistema tributário caótico e perverso, com relação capital/trabalho ultrapassada, logística deficiente, educação e saúde de baixa qualidade, entre outros. Somados, esses fatores desestimulam investimentos e contribuem para o encolhimento da produção existente.

Dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) apresentados em dezembro, durante o Enaiq (o encontro anual do setor), evidenciam a elevação de faturamento líquido da indústria, em sentido amplo, de R$ 43 bilhões em 1996 para R$ 367,7 bilhões em 2015, enquanto o déficit comercial químico pulou de US$ 5,4 bilhões para US$ 26,5 bilhões.

O maior déficit foi registrado em 2014: US$ 30 bilhões – ele não cresceu mais porque a crise econômica nacional fez a demanda encolher.

“No período considerado, a indústria química brasileira perdeu relevância no PIB, caindo do segundo para o quarto lugar no ranking”, comentou Carlos Fadigas, também presidente da Abiquim.

Ele prevê a continuidade dessa tendência, mesmo com o novo acordo para a nafta petroquímica.

“As mudanças necessárias para a retomada de investimentos já foram apontadas pela Abiquim há muitos anos, sem uma resposta adequada, pelo contrário, agora tivemos a elevação dos custos de eletricidade e gás natual, além do corte pela metade do Regime Especial da Indústria Química (Reiq – que alivia a carga tributária de PIS/Cofins sobre matérias-primas do setor) e da redução do Reintegra (programa para reduzir impostos sobre exportações), que vão onerar ainda mais o setor”, criticou Fadigas.

Os números apoiam a expectativa do presidente da Abiquim. O consumo aparente de produtos químicos registrou queda de 6,8% em 2015, em relação a 2014.

O déficit comercial até regrediu, somando US$ 26,5 bilhões, contra os US$ 31,2 bilhões de 2014. As importações recuaram 21,6% em volume, enquanto as exportações físicas cresceram 10,6%.

Segundo Fátima Giovanna Coviello Ferreira, diretora de economia e estatística da Abiquim, os fabricantes locais recuperaram 5,4 pontos percentuais de participação no mercado doméstico. “As companhias que operam no Brasil buscaram ampliar suas exportações para manter a produção e a ocupação de suas instalações”, afirmou.

Falta ao país definir uma agenda clara sobre o futuro da produção industrial. “O Brasil precisa dizer o que quer”, cobrou Fadigas.

Como observou, há países que produzem petróleo apenas para exportação, a exemplo de Angola, enquanto outros proíbem a venda de óleo e gás para outros países, obrigando a industrialização, como se verifica nos Estados Unidos, Índia e China.

Também há países que adotam posicionamento intermediário, como o México, que industrializa parte de sua matéria-prima e exporta outra. O Brasil segue essa diretriz, exportando 13% da sua produção de óleo e gás, segundo o presidente da entidade.

Cabe aos representantes eleitos definir os rumos do país. “Temos a sexta maior indústria química do mundo, um mercado consumidor amplo e grandes possibilidades de desenvolvimento do setor, que gera empregos de alta qualidade e incentiva a geração de ciência e tecnologia, seria muito ruim deixar tudo isso se perder”, avaliou Fadigas.

Como os analistas já apontam um ciclo de baixa na remuneração dos investimentos petroquímicos a partir de 2020, ele entende que o momento para construir novas capacidades é agora. “Se perdermos o timing, será preciso esperar uma nova reversão de ciclo que pode demorar dez anos ou mais”, disse.

Plástico Moderno, Balança comercial de produtos químicos (em us$ bilhões)
Balança comercial de produtos químicos (em US$ Bilhões) – Abiquim-Enaiq

 

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