Distribuição: mercado quer serviços mais sofisticados, mas elevação dos custos exige controle apurado

Perspectivas 2016

 

A distribuição de produtos químicos atravessou, a duras penas, 2015 e se prepara para novas turbulências neste ano. O panorama não é dos melhores.

A confusa situação política nacional, colocando em risco o mandato presidencial, e a falta de clareza nas decisões econômicas do atual governo aumentam a insegurança dos investidores e empreendedores, retardando (ou impedindo) novos projetos produtivos no país.

“Os empresários nacionais estão na defensiva, com ânimo muito abalado, ante a falta de autoridade e de respeito pelas lideranças políticas. O clima é ruim, com alto grau de incerteza, que não é bom para os negócios”, avaliou Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim).

Plástico Moderno,
Medrano: distribuídas querem compartilhar mais informações

O dirigente setorial sempre se declarou como “otimista moderado”, mas sente dificuldade de manter essa posição nos tempos atuais.

Para ele, 2016 registrará nova retração do PIB, como apontam os analistas de mercado, e isso se refletirá em mais dificuldades para os distribuidores.

“Ainda não é possível fazer prognósticos para 2016, até pode ser que melhore no segundo semestre, mas por enquanto a tendência é de enfrentarmos muitas dificuldades”, afirmou.

Essa perspectiva apenas mantém a trajetória iniciada em 2015.

A combinação de enfraquecimento do real e queda dos preços internacionais do petróleo e derivados – gerando efeitos que se compensaram apenas em parte – acabou por resultar em faturamento anual menor para o setor.

“Em moeda forte, dólares, o faturamento da distribuição deve ter caído mais de 10% em 2015, vamos saber exatamente quando terminarmos o levantamento anual”, comentou. O efeito do câmbio foi preponderante.

“O preço dos produtos no exterior foi reduzido, mas a variação cambial foi muito maior, embora nossos custos fixos tenham sido majorados significativamente, ou seja: houve compressão das margens de lucro”, salientou.

Além da queda dos preços, Medrano também apontou uma redução do grau de sofisticação da demanda. Interessados em reduzir custos, muitos clientes passaram a buscar alternativas mais econômicas de insumos químicos, amplificando a redução do valor comercializado.

Essas dificuldades se verificaram em todos os ramos da atividade.

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Mesmo nas áreas mais sofisticadas, como o setor farmacêutico e o de cosméticos, houve queda de demanda.

“Todo o setor produtivo busca mais performance com menores custos, e estão aceitando sugestões nesse sentido, abrindo oportunidades de negócios, por exemplo, na construção civil”, mencionou.

Há mais de quarenta anos atuando no comércio químico, Medrano recomenda aos empresários do ramo aprimorar seus controles operacionais e financeiros, buscando fazer o mesmo serviço com menor custo.

“O Brasil é muito diferente dos países desenvolvidos com os quais estamos acostumados a dialogar. Por aqui, somos obrigados a carregar um Estado perdulário e ineficiente que cobra impostos elevados para nos proporcionar portos ruins e transportes caros, por exemplo”, criticou.

Além disso, o custo do capital em terras nacionais supera em larga distância as taxas de juros cobradas em outros países, inviabilizando muitas iniciativas.

Mesmo assim, Medrano ainda vê futuro na distribuição química brasileira.

“Somos a sexta indústria química mundial, temos 200 milhões de habitantes vivendo em uma democracia, com ambiente pacífico, e estamos próximos do maior mercado do mundo, os Estados Unidos”, apontou.

A dinâmica dos negócios, embora tenha perdido impulso com a retração da economia, ainda segue a mesma tendência: aumentar a prestação de serviços aos clientes e aos fabricantes.

“O distribuidor precisa agregar valor ao produto, não é só olhar a diferença de preços de compra e de venda, mas oferecer serviços, qualidade e atendimento qualificado”, ressaltou.

A prestação de serviços cada vez mais exigente impõe investimentos na chamada tecnologia da informação (TI), além de implantar laboratórios próprios, contratar pessoal especializado.

Tudo isso redunda em custos, que precisam ser remunerados adequadamente.

Medrano também aponta que é preciso compartilhar mais informações com fabricantes e clientes para prestar serviços mais apurados.

“É preciso ter mais confiança entre todos os elos da cadeia para poder implantar, por exemplo, sistemas de telemetria para acompanhamento dos estoques em tempo real”, afirmou. A capilaridade de atuação dos distribuidores permite aos fabricantes conhecer rapidamente as demandas regionais e preparar respostas para elas.

Como exemplo, ele aponta a evolução da distribuição química nos Estados Unidos e na Europa.

Nesses mercados, convivem grandes e pequenas empresas comerciais, ambas com bons resultados. “A distribuição é muito respeitada nessas regiões”, comentou.

Custos operacionais – Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos

Há alguns anos a Associquim vem chamando a atenção de suas associadas para a necessidade de observar a evolução dos custos de operação no setor.

Historicamente, o setor viveu uma fase de grandes investimentos em estruturas físicas, cuja manutenção se revelou dispendiosa. “Cada base precisa ter suas próprias licenças, isso acaba saindo caro”, explicou.

Em tempos bicudos, como os atuais, a tendência é atuar com estoques mínimos, evitando comprometer capital de giro.

O uso mais intensivo de operadores logísticos especializados para cuidar de transporte e armazenamento de produtos se apresenta como alternativa viável.

“Essa deve ser uma opção para o futuro, evitando novos investimentos, mas atualmente o setor ainda tem capacidade ociosa em suas instalações”, avaliou Medrano. “No exterior, o uso de operadores é muito difundido”.

O dirigente setorial também reconhece que houve avanços no tratamento das importações.

“O Siscomex melhorou muito, agora todo o processo é eletrônico e a liberação é mais eficiente e rápida, a Polícia Federal e o Ministério do Desenvolvimento estão apoiando muito bem as operações internacionais”, afirmou. Porém, ainda há espaço para melhorar.

A atuação dos órgãos anuentes nos procedimentos de importação, como Anvisa e Ibama, ainda é instável. Segundo Medrano, quando todos os anuentes estão funcionando adequadamente, tudo se resolve facilmente. Mas quando algum deles enfrenta dificuldades, como operações tartaruga ou greves, a máquina emperra.

A Associquim tem oferecido ferramentas para melhorar o desempenho, a qualidade e a segurança das atividades comerciais químicas, a exemplo do Programa de Distribuição Responsável (Prodir), que está sendo ampliado para também para atividades complementares, como o armazenamento de insumos por empresas independentes.

Também o Encontro Brasileiro da Distribuição Química (Ebdquim) permite aos participantes conhecer os avanços do mercado internacional do setor e discutir alternativas para problemas locais.

“O papel do distribuidor está sempre em transformação, precisamos estar atentos às mudanças para não sermos surpreendidos”, comentou Medrano. Neste ano, o EBDQuim será realizado de 9 a 11 de março, no Club Med de Trancoso, na Bahia, contando com a presença dos principais executivos de gigantes globais como Univar (Paul Henderson), IMCD (Frank Schneider) e Brenntag (Steve Holland).

“O mercado mundial está muito instável, a queda do preço do petróleo se reflete diretamente no preço dos derivados, mas, apesar disso, a venda de solventes hidrocarbonetos continua caindo, por razões ambientais e de saúde humana”, considerou. “Isso exige adaptação.”

Com o advento das fontes não-convencionais de hidrocarbonetos – o shale gas e o tight oil, por exemplo – a economia dos Estados Unidos ganhou forte impulso, atraindo para lá os olhares dos investidores. “As empresas europeias estão investido mais nos EUA, por exemplo”, comentou.

Esse cenário favorece os movimentos de consolidação empresarial, mediante fusões e aquisições. Segundo Medrano, há dois caminhos que levam à concentração de negócios.

O primeiro resulta da iniciativa de grandes grupos mundiais, interessados em obter crescimento.

A segunda via resulta da pressão dos fabricantes de produtos químicos, com grau cada vez mais elevado de concentração – Dow e DuPont acabaram de anunciar sua consolidação –, no sentido de contar com distribuidores de alcance global, com os quais possam alinhar melhor suas estratégias comerciais. E o Brasil não está fora desse tabuleiro.

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