Couro – Mercado externo surge como alternativa para empresas nacionais saírem da crise

Perspectivas 2016

A Lâmpada Cerimonial, que faz parte do ritual indiano de purificação e sabedoria, foi solenemente acesa durante a abertura do seminário “Oportunidades de Negócios Emergentes na Índia”, realizado em 12 de janeiro, em São Paulo, com objetivo de incrementar o comércio bilateral com o Brasil.

O evento reuniu cerca de cem participantes, entre empresários, investidores e profissionais do setor de couro e calçados que estão em busca de novos mercados para seus produtos.

Enquanto para os indianos as velas acesas simbolizam sorte e perseverança, para os brasileiros podem ser uma luz no horizonte, indicando o caminho para fugir da recessão brasileira.

O evento, promovido pela Câmara de Comércio Brasil-Índia; pelo Departamento da Promoção e Política Industrial da Índia e pelo Conselho das Exportações de Couro, foi o pontapé inicial de uma estratégia que visa atrair empresas brasileiras do setor de couro para produzirem naquele país.

O principal atrativo é aproveitar o crescimento da economia indiana que, entre os chamados Brics, tem apresentado crescimento do Produto Interno Bruto superior a 7% ao ano, enquanto o PIB brasileiro, segundo projeções do FMI, deve sofrer queda de 3,5% em 2016.

Na cadeia produtiva do couro, entre 2012 e 2014, cerca de 300 empresas do ramo calçadista fecharam as portas e, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o setor encerrou 2015 com a perda de 25 mil postos de trabalho.

Química e Derivados, Perspectivas 2016 - Couro: Mercado externo surge como alternativa para empresas nacionais saírem da crise

Dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior) também mostram que o ano de 2015 fechou com o total de US$ 2,265 bilhões de peles bovinas exportadas pelo Brasil, equivalente a menos 23,2% em relação a 2014.

A cadeia produtiva nacional do couro – curtimento, artefatos e calçados –, segundo dados oficiais, emprega aproximadamente 300 mil pessoas.

Talvez por conta destes dados, a maioria dos empresários brasileiros prefira manter cautela nos investimentos e não arriscar num ambiente de incertezas.

Fernando Bellese, gerente de marketing e sustentabilidade da Divisão de Couro da JBS, um dos executivos presentes no evento, reconheceu as vantagens de se produzir no exterior.

Dentre os benefícios, ele destacou o acesso a novos mercados e a oportunidade de reduzir custos. Mas também advertiu para os desafios como o entendimento da legislação local e a limitação de acesso ao crédito e sistema bancário.

“O processamento da matéria-prima deve ser feito na origem, com manufatura e prestação de serviços próximos ao cliente. Os negócios só acontecem com forte conhecimento da cultura local”, disse.

É de se destacar que, apesar do progresso dos últimos anos, a Índia é um país de desigualdades.

Estima-se que apenas 6% da mão-de-obra possui emprego formal.

Além disso, a baixa produtividade e a precária infraestrutura de transportes são entraves a serem superados no segundo país mais populoso do mundo.

Química e Derivados, Lâmpada cerimonial permaneceu acesa durante o encontro
Lâmpada cerimonial permaneceu acesa durante o encontro

Potencial – Couro

O empresário indiano, Panaruna Aqeel Ahmed, da Florence Shoes Company, destacou a importância estratégica da indústria do couro indiana, que fatura cerca de US$ 12 bilhões por ano, com perspectiva de crescimento da ordem de 25% nos próximos cinco anos.

Segundo ele, o setor emprega 3 milhões de trabalhadores, sendo 30% mulheres.

O embaixador da Índia no Brasil, Sunil Lal, por sua vez, enfatizou que o país tem o segundo maior mercado consumidor do mundo e que, nos últimos cinco anos, a classe média indiana cresceu e já representa 35% da população, estimada em 1,25 bilhão de habitantes.

“Hoje, cerca de 450 milhões de pessoas estão na faixa etária entre zero e 14 anos, indicando o enorme potencial de consumo do país. Estimamos que o mercado consumidor indiano alcance US$ 3,5 trilhões em 2020”.

O diplomata reconheceu a qualidade e criatividade do design brasileiro, bem como o esforço das indústrias em manter uma produção sustentável.

“O Brasil exporta para mercados que desejamos, como a América Latina, onde a participação dos produtos de couro indiano é de apenas 1%.

As boas práticas como a reciclagem da água industrial e o tratamento de efluentes também são exemplos do que podemos aprender com os brasileiros. Sem dúvida este é o momento correto para gerar sinergia”, afirmou.

Rafeeque Ahmed, presidente do CLE – Concil of Leather Exports, acrescentou que 78% das exportações de calçados da Índia vão para a União Europeia, que absorve 56% delas, e para os Estados Unidos, China e Hong Kong.

“A Índia quer comprar couro do Brasil, pois nossa produção é insuficiente para atender toda demanda interna, mas também estamos de portas abertas para que as empresas se instalem em nosso país”, disse o executivo, acrescentando que o governo oferece todas as condições para que a indústria de produtos manufaturados cresça e se desenvolva na Índia.

Lançado em setembro de 2014, o projeto “Make in India” visa facilitar o investimento e promover a inovação em 25 setores produtivos indianos, para transformar o país em um centro de design e fabricação global. O objetivo do programa governamental é aumentar a participação do setor manufatureiro para 25% do PIB da Índia nos próximos três anos.

Couro – Mercado doméstico é fundamental para setor calçadista

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Repercussão – Couro – José Fernando Bello, presidente executivo Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB)

Avalia como positiva a missão indiana ao Brasil. “Os curtumes brasileiros têm muito interesse no mercado indiano de manufatura em couro pela sua dimensão e pela previsão de forte crescimento”.

Mas quanto à possibilidade de alguma empresa se estabelecer na Índia, ele considera ainda muito prematuro para tomar essa decisão: “certamente, algumas empresas avaliarão a possibilidade”, completa.

Bello informa que o CICB, com o Projeto Brazilian Leather, já realizou uma missão comercial à Índia e já recebeu aqui uma delegação de empresários indianos.

“Além disso, participamos da IILF, maior feira de couros e artefatos em Chennai (realizada em fevereiro, no sul da Índia), com exposição de oito curtumes brasileiros, cujas perspectivas de incrementos nos negócios são muito fortes”.

Para o presidente-executivo da Abicalçados, Heitor Klein, o governo indiano identificou as debilidades da economia brasileira, especificamente do setor calçadista, e está buscando oportunidades de negócio.

“Dentro de uma economia de mercado globalizada, é perfeitamente compreensível esse tipo de assédio, e também não seria surpresa o interesse de empresas brasileiras que buscam condições mais competitivas de produção”.

Mas ele faz ressalvas:

“De nossa parte, o calçadista brasileiro pode ter a certeza de que seguiremos lutando por condições mais favoráveis à produção de calçados em território nacional, de forma a aproveitar não somente a mão de obra qualificada que temos no país, mas também a criatividade inerente do brasileiro e a organização de uma cadeia de fornecedores que data do final do século XIX.”

Klein destaca que a Abicalçados continuará reivindicando menor carga tributária, legislação trabalhista atualizada e melhor infraestrutura para que a indústria do setor não sofra mais perdas de postos de trabalho. “Temos que seguir gerando riqueza econômica e social para o país”, completa.

Calçados de poliuretano predominante em solados a resina pode usada com vantagens também em outros componentes

Perfil de mercado de Couro

O ano de 2015 encerrou negativo tanto para os curtumes quanto para a indústria brasileira de manufaturados de couro.

José Fernando Bello aponta que houve uma forte redução nos preços internacionais do couro, que afetou o desempenho em dólares.

Porém, em moeda nacional, o balanço foi satisfatório. “Em reais, o resultado foi positivo devido à taxa cambial mais favorável.

Apesar de graves problemas de aumento de custos internos, como energia elétrica, juros, transporte, mão de obra, e da retirada do Reintegra (Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as empresas exportadoras), esperamos crescer de 10% a 12% em dólares em 2016.

Atualmente exportamos aproximadamente 77% de nossa produção de couro bovino.

Os principais clientes são China, Itália, Estados Unidos e Vietnã.”

De acordo com a Abicalçados, o avanço dos materiais sintéticos, tanto pela questão do preço mais competitivo como pela inovação tecnológica, tem sido substancial nos últimos anos.

Ao mesmo tempo, o consumo de couro pelo setor automotivo tem apresentado forte crescimento, principalmente no mercado internacional, e já representa cerca de 20% da produção mundial do produto.

Meio ambiente

A indústria brasileira de couro possui aproximadamente de 400 curtumes, sendo que cerca de 80% são considerados de pequeno porte.

O processo de transformação de peles em couros é normalmente dividido em três etapas principais: ribeira, curtimento e acabamento.

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Em todas elas há grande consumo de insumos, sendo a água um dos mais importantes. Segundo informações do Centro Tecnológico do Couro do Senai Rio Grande do Sul (publicado na Série P+L da Cetesb em 2005), o consumo total médio do setor brasileiro está estimado em cerca de 630 litros água por pele salgada.

O consumo de produtos químicos pela cadeia do couro é um fluxo intersetorial importante, porém, apesar da indústria química nacional atender à demanda dos curtumes, grande parte dos insumos para o beneficiamento do couro é importada, com apoio do sistema drawback (importação para exportação futura).

José Fernando Bello explica que os curtumes no Brasil estão atentos às mais novas tecnologias existentes no mundo do couro.

“São feitos muitos investimentos em capacitação técnica e uso de processos de reciclo de águas alinhados com as questões ambientais e de substâncias restritas, além de investimentos em novos equipamentos. Vale lembrar que nosso setor é pioneiro na criação da Certificação de Sustentabilidade do Couro Brasileiro (CSCB), que está em vias de ser finalizado.

Trata-se do primeiro selo que inclui parâmetros econômicos, ambientais e de responsabilidade social para o segmento de produção de couros e peles.

A partir do CSCB, os compradores de couro de todo o país e até do exterior terão uma garantia da procedência do produto, que respeita critérios de uma produção equilibrada”.

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