Infraestrutura: Volume de investimentos previstos é elevado, mas sua execução sofre longos atrasos

Perspectivas

Brasil tem investimentos previstos da ordem de R$ 1,169 trilhão em obras de infraestrutura a serem executadas até 2019.

O montante em andamento, no mesmo período, está estimado em R$ 458,862 bilhões.

Nesse segmento, a maior participação setorial é a de óleo e gás, com 46,7% ou R$ 214,490 bilhões.

Esses números fazem parte da pesquisa “Principais investimentos em infraestrutura no Brasil até 2019”, encomendada pela Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema) à consultoria Criactive.

Esta pesquisa, atualizada anualmente desde 2009, mostra que a Petrobras responde por 80% dos R$ 214 bilhões. Longe de ser um alento, essa informação desperta preocupações.

“É pouco provável que a Petrobras mantenha o seu nível de investimentos”, afirma

Plástico Moderno, Marques: transmissão atrasada exige operar térmicas ao máximo
Marques: transmissão atrasada exige operar térmicas ao máximo

Mário Humberto Marques, vice-presidente da Sobratema.

Diante das graves denúncias de desvio de verbas nos contratos da estatal, entre outras irregularidades, que começaram a se tornar públicas no segundo semestre de 2014, Marques acredita que em 2015 a prioridade será outra:

“A Petrobras terá que se reorganizar como empresa”.

Há receios, portanto, de que não haja condições de se tocar todos os investimentos previstos.

Na conta devedora da Petrobras também pesa uma dura realidade para os seus fornecedores: há atrasos nos pagamentos que, em alguns casos, chegam a dois anos, revela Marques.

O executivo também avalia que a Petrobras terá de voltar a ter “altos níveis de produção” para não “ferir de morte a balança de pagamentos do país”.

Em 2009, a projeção da empresa para 2013 era de obter 3.655 mil barris de petróleo/dia.

Plástico Moderno, Perspectivas 2015 - Infraestrutura: Volume de investimentos previstos é elevado, mas sua execução sofre longos atrasos

Em 2013, a produção média ficou em 2.539 mil bpd, 30,5% abaixo da expectativa.

Foram apresentadas, então, as seguintes justificativas pela estatal: atrasos das entregas de sondas contratadas no exterior; atrasos nas licitações motivadas por sobrepreço; maior tempo gasto com licenciamentos ambientais; e redução da produção da Bacia de Campos em 10%.

Tabela com Principais Investimentos em Infraestrutura no Brasil até 2019 incluindo investimentos em transporte, óleo e gás, energia, indústria, saneamento, infraestrutura de habitação, infraestrutura esportiva, separado por região e estados Sobratema - Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração

Assim, o crescimento da produção, entre 2011 e 2014, foi de 0,1%, expôs o executivo.

Em contrapartida, as reservas cresceram significativamente, de 15 bilhões de barris em 2006 para 31 bilhões de barris em 2014.

“A expectativa é que 2014 tenha se encerrado com produção 7,5% superior a 2013”, ressaltou Marques. O pré-sal atingiu a marca de 500 mil barris/dia, o que equivale a 25% da produção do país.

O levantamento da Sobratema, apresentado em meados de novembro, em São Paulo, monitora 6.068 obras em andamento, projeto e intenção no período 2014-2019, abrangendo oito setores da economia: óleo e gás, transporte, energia, saneamento, indústria, infraestrutura de habitação, infraestrutura esportiva e outros (shoppings, hospitais, hotéis e resorts, etc).

O valor de R$ 1,169 trilhão é resultado de R$ 458,862 bilhões referentes a obras em andamento – há 7% em obras paralisadas; R$ 429 bilhões de obras em projeto e intenção, com previsão de data de início; e R$ 281,4 bilhões de obras em projeto e intenção, sem previsão de data de início.

De acordo com Marques, a maior fatia de investimentos cabe à área de transportes: R$ 438,4 bilhões no período 2014-2019, ou 37,49% do total previsto.

A maior obra, em visibilidade e valor, continua sendo o Trem de Alta Velocidade (TAV), que ligará Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro, e exigirá aportes de cerca de R$ 35,6 bilhões. Depois, aparece o superporto do Espírito Santo, com investimentos de R$ 20,7 bilhões. Os modais que concentram os maiores montantes são as ferrovias, com 38,3%, os portos e hidrovias, com 21,1%, e as rodovias, com 17,6%.

Infraestrutura – Obras previstas para a Copa do Mundo, que ainda não foram concluídas:

  • VLT de Cuiabá: deveria ter sido entregue em março de 2014. O consórcio CR Almeida, CAF e Santa Bárbara realizou somente 40% do projeto total de R$ 1,477 bilhão.
  • BRT (transporte rápido por ônibus) de Recife: deveria ter ficado pronto em março de 2014. Apenas 4 das 29 estações previstas no eixo Norte-Sul estão em operação. No Corredor Leste-Oeste, 10 das 16 estações planejadas estão operando. Prevê-se para 2015 a entrada em operação de todas as estações. Questões ambientais, interferências e interdições do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) são apontadas como causas para os atrasos.
  • Aeroportos de Manaus e Cuiabá: datas de conclusões indefinidas.
  • VLT e aeroporto de Fortaleza: estão sob a responsabilidade do consórcio Consbem, Passareli e Engexata. Os trabalhos foram abandonados a dois meses do início da Copa do Mundo. Desde junho de 2013, o ramal de 12,7 km que ligaria Parangaba e Mucuripe deveria estar pronto, mas tem somente 50% de execução. Outro consórcio apresentou preços para a conclusão no processo de RDC, mas o preço foi considerado alto.

Durante 2013, o Governo Federal conduziu diversos processos de licitações de infraestrutura de transporte, transferindo para a iniciativa privada cerca de 4,3 mil km de rodovias federais e dois aeroportos internacionais – Galeão (Rio de Janeiro) e Confins (Belo Horizonte).

Tabela com as Obras em andamento em Infraestrutura no Brasil incluindo investimentos em transporte, óleo e gás, energia, indústria, saneamento, infraestrutura de habitação, infraestrutura esportiva Sobratema R$ 458,8 Bilhões

Óleo e Gás

O setor de óleo e gás aparece em segundo lugar, na classificação geral, com R$ 319,4 bilhões ou 27,32% do total.

O Plano de Negócios e Gestão da Petrobras (PNG 2014-2018) tem por meta um investimento de US$ 220,6 bilhões por parte da estatal e mais US$ 63 bilhões das empresas parceiras.

A exploração e produção representam 82,2% do montante geral, seguido pelo refino, com 12,6%.

No período de 2014-2018, 28 novas unidades de produção entrarão em operação.

Entre os anos de 2017 e 2018, a maioria dos projetos do pré-sal e da Cessão Onerosa entrarão em operação, resultando em aceleração do crescimento da curva de óleo.

Estima-se que o pré-sal representará 52% da produção total de petróleo em 2018.

Quer saber saber mais o setor de Petróleo

Principais obras de produção em andamento, com previsão de conclusão até 2020:

    • Exploração e produção de petróleo ‘123458790=na Bacia de Santos: R$ 277,3 bilhões;
  • Exploração e produção de petróleo em Macaé: R$ 96,6 bilhões;
  • Exploração e produção de petróleo no Espírito Santo: R$ 51,3 bilhões;
  • Exploração e produção de petróleo no Rio de Janeiro: R$ 28,8 bilhões;
  • 8 unidades de produção Tipo FPSO (Casco) – P-66/P-67/P-68/P-69/P-70/P-71/P-72/P-73 em Rio Grande (RS): R$ 23,7 bilhões;
  • Sondas de perfuração – Jurong, em Aracruz (ES): R$ 12,6 bilhões;
  • Sondas de perfuração – KeppelFels, em Angra dos Reis (RJ): R$ 10,8 bilhões;
  • Área offshore de Lula (Lula Alto) – FPSO Cidade de Maricá (RJ): R$ 8,8 bilhões;
  • Área offshore de Lula (Lula Central) – FPSO Cidade de Saquarema (RJ): R$ 7,9 bilhões.
  • Principais obras em projeto e intenção:
  • Refinaria Premium I – 1ª e 2ª fases, em Macabeira (MA): R$ 40,2 bilhões;
  • Refinaria Premium II, em Caucaia (CE): R$ 22 bilhões;
  • Sondas de perfuração – Atlântico Sul, em Ipojuca (PE): R$ 10,8 bilhões;
  • Sondas de perfuração – Enseada do Paraguaçu, em Maragogipe (BA): R$ 10,8 bilhões;
  • Sondas de perfuração – Rio Grande, em Rio Grande (RS): R$ 5,4 bilhões;
  • Alcoolduto Itumbiara/Guarujá, em Goiás/SP: R$ 2,9 bilhões;
  • Gasoduto Meio Norte – Caucaia/Teresina/São Luís (CE, PI e MA): R$ 2,3 bilhões;
  • Poliduto Cuiabá/Paranaguá (alcoolduto, MT, PR): R$ 2 bilhões;
  • Gasoduto do Brasil Central – São Carlos (SP)/Brasília (DF): R$ 1,9 bilhões;
  • Usina de biodiesel da Vale em Moju (PA): R$ 1,2 bilhão.

Para a área de energia estão previstos investimentos de R$ 191,6 bilhões, com destaque para obras de geração de energia elétrica (84,4% do montante).

A evolução da relação entre as fontes renováveis (41%) e não renováveis (59%) continua relativamente estável, com destaque para o aumento da oferta de biomassa da cana-de-açúcar (9,3%) e de gás natural (15,9%), em relação a 2012. A oferta interna de energia cresceu 4,5% em 2013.

As obras com maior valor de investimento são as usinas hidrelétricas de Belo Monte e São Luiz do Tapajós, no Pará, e Jirau e Santo Antônio, em Rondônia.

De acordo com Marques, levantamento realizado pelo TCU identificou:

  • Usinas hidrelétricas: 79% não cumpriram o cronograma inicial de entrada em operação; o atraso médio é de 8 meses;
  • Usinas eólicas: 88% das obras estão fora do cronograma, com atraso médio de 10 meses;
  • Pequenas centrais hidrelétricas: 62% das obras não cumpriram o cronograma; o atraso médio é de 14 meses;
  • Linhas de transmissão: 83% dos empreendimentos atrasaram, em média, 14 meses. “Esta é uma das razões pelas quais as térmicas estão funcionando a pleno valor, prejudicando a balança comercial (maior consumo de derivados de petróleo), o meio ambiente (queima de combustíveis fósseis) e o bolso dos consumidores”, destacou Marques.

Ano após ano, a demanda energética do país tem superado o PIB (2,3% em 2013). A matriz elétrica brasileira ainda tem a energia hidráulica como a sua principal fonte geradora (71%).

O setor industrial responde por 8,72% dos investimentos, com R$ 101,9 bilhões.

As obras mais caras estão nas áreas de mineração e siderurgia. Também se destacam os segmentos de papel e celulose, fertilizantes e automóveis.

A produção industrial ficou praticamente estagnada no primeiro semestre de 2014: variação de 0,3% em relação ao mesmo espaço de tempo de 2013.

A indústria de material de construção revisou as suas projeções para 2014 e espera registrar queda de até 3%.

A piora se deve ao desempenho dos segmentos imobiliário e de infraestrutura. O ano foi prejudicado por vendas mais baixas no primeiro semestre.

Os investimentos em saneamento, de vital importância, são de apenas R$ 35,7 bilhões. Em compensação, o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) prevê a aplicação de R$ 508,4 bilhões, entre 2014 e 2033, sendo 59% de recursos federais e 41% de outros agentes (governos estaduais e municipais, prestadores de serviços de saneamento, iniciativa privada etc). Esse plano contempla a cobertura de 100% no abastecimento de água potável e 93% na rede de esgotos nas áreas urbanas.

Marques informou que a maioria das prefeituras não têm sido capazes de implantar o programa Saneamento para Todos, que prevê a adoção de aterros sanitários em substituição aos lixões.

De 138 obras de saneamento acompanhadas pelo Instituto Trata Brasil, em 2012, apenas 28 tinham andamento normal; 18 não foram iniciadas no prazo; 25 estavam atrasadas e 47, paralisadas.

Plástico Moderno, Consumo aparente mensal de máquinas por ano em corrente MM3 - R$ bilhões constantes*

Em habitação, o destaque é o programa Minha Casa Minha Vida, que ostenta a maior taxa de realização do PAC 2 – Programa de Aceleração do Crescimento. Até abril de 2014, esse programa contratou 3,4 milhões de moradias e entregou 1,7 milhão de unidades, beneficiando 6,4 milhões de pessoas.

Até 2019, estão previstos investimentos de R$ 7,8 bilhões apenas para a infraestrutura de habitação.

Segundo estudo do Ministério das Cidades, apresentado no final de 2013, esse programa representou 32,1% do total das construções de moradias do país no ano.

O segmento formado por hotéis e resorts, shopping centers, hospitais, universidades, teatros e edifícios públicos deverá receber R$ 70,2 bilhões.

Avalia-se que o cenário é ligeiramente favorável para hotéis e resorts na região Nordeste.

Aparentemente, o mercado para shopping centers, após ter se deslocado das capitais para as cidades médias, atingiu o seu ápice e deverá ser um segmento declinante de oportunidades.

A infraestrutura esportiva ficará com cerca de R$ 4,1 bilhões no período 2014-2019.

O Governo Federal destinou, desde 2007, R$ 143 bilhões para investimentos em mobilidade, sendo que R$ 102 bilhões (71,3%) foram para obras nas cidades-sede da Copa do Mundo.

Cerca de 50% dos projetos previstos para a Copa ficaram para trás. De um conjunto de 74 obras de mobilidade e 13 aeroportos, 30 foram entregues; 15 foram entregues incompletas; 10 foram prorrogadas; e 32 foram descartadas.

Para as Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, estão previstos investimentos de R$ 22,6 bilhões, sendo R$ 9,9 bilhões em reforma e construção de instalações olímpicas e R$ 12,7 bilhões em infraestrutura e turismo.

Plástico Moderno, Obras em projeto e intenção distribuição divido por setores transporte e vias urbanas, energia, óleo e gás, industrial, outros, saneamento, habitação, infraestrutura esportiva

Considerando apenas as obras em andamento apontadas na pesquisa, o valor de R$ 458,8 bilhões previsto para 2014-2019 equivale à média anual de R$ 76,48 bilhões.

Dividindo-se pelo valor estimado do PIB de 2014, de R$ 4,86 trilhões, o investimento médio do país em infraestrutura é de apenas 1,57% do PIB, índice considerado baixo até mesmo em comparação com alguns países da América Latina.

A região Sudeste, a mais rica do país, é a que concentra os maiores investimentos em andamento: 57,4% do total ou R$ 263,4 bilhões.

O Nordeste surge em segundo lugar, com 15,5% (R$ 71,1 bilhões), seguido da região Norte, com 11% (R$ 50,5 bilhões). Sul, 7,5% (R$ 34,4 bilhões). Centro-Oeste, 2% (R$ 9,1 bilhões). Outras regiões, 6,6% (R$ 30 bilhões).

Preocupações – Infraestrutura

Sobratema - Foto de Afonso Mamede: bons resultados podem reaparecer no segundo semestre
Mamede: bons resultados podem reaparecer no segundo semestre

O presidente da Sobratema, Afonso Mamede, declarou que os empresários do setor estão apreensivos com relação a 2015.

“A realidade não foi boa em 2014, ano de Copa do Mundo de futebol e eleições”, diz.

A sua aposta é que o primeiro semestre será difícil e que, no segundo, poderá haver uma retomada no ritmo dos negócios: “A situação tem que mudar. A economia tem que voltar a crescer.”

O vice-presidente da entidade, Eurimilson Daniel, preferiu salientar que vê uma luz no final do túnel:

“A médio e longo prazos, a expectativa é positiva, porque a mudança do país passa pelas obras de infraestrutura.”

Ao longo de 2014 houve uma queda nas expectativas de desempenho da economia.

“O setor foi ficando mais pessimista”, ponderou Brian Nicholson, consultor da Sobratema. Houve queda nas compras do governo e o mercado de equipamentos para construção caiu 6% em relação a 2013.

O Estudo Sobratema do Mercado Brasileiro de Equipamentos para Construção contabilizou mais de 67,7 mil máquinas vendidas ante as mais de 72 mil comercializadas no exercício anterior.

A chamada “linha amarela”, que contempla equipamentos de movimentação de terra, como restroescavadeiras, motoniveladoras e pás carregadeiras, sofreu uma diminuição de 12,7% nas vendas em 2014.

Foto: Brian Nicholson, consultor da Sobratema: números de 2014 geraram pessimismo no setor
Brian Nicholson, consultor da Sobratema

A desaceleração da economia, as políticas públicas dos investimentos em infraestrutura e o período eleitoral foram apontados pelo consultor como os principais fatores para o atual desempenho negativo.

Ele comentou que, para os empresários, o pior problema é o atraso nas obras e sua causa, o licenciamento ambiental.

Uma sondagem realizada com empresas compradoras revelou quais devem ser as prioridades do país: reforma tributária, investimentos em infraestrutura e estímulo ao crescimento econômico.

“Se não houver uma mudança política no sentido de aumentar o volume de obras em infraestrutura, o cenário é pessimista”, advertiu Rubens Sawaya, professor de economia da PUC-SP e também consultor da Sobratema. Para Sawaya, a economia brasileira teve, desde 2011, um movimento errático:

“Foram anos de tentativas e erros. O cenário atual é desabonador e a indústria é quem mais sofreu”.

Ele vê espaços para a economia voltar a crescer, embora considere que a retomada deverá ser lenta.

Segundo a pesquisa com empresas citada por Marques, 50% delas têm a percepção de que o desempenho de 2014 foi similar ao de 2013. E que 2015 será “muito bom” se repetir o desempenho de 2014.

Marques concluiu sua palestra dizendo que a pesquisa da Criactive demonstra o enorme potencial de oportunidades existente no Brasil, mas há um descompasso entre as necessidades do país pela modernização e obras de infraestrutura, o ritmo prometido pelo governo e a ação combinada entre o setor privado e o governo nesse processo de investimentos.

No seu entendimento, “há um longo caminho a ser percorrido para que o país possa superar seus históricos déficits habitacional e de infraestrutura”.

Seria, portanto, “fundamental a existência de interesses comuns e ações que possibilitem a participação de agentes públicos e privados nesta perspectiva”.

Abimaq – Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos

O desempenho da indústria de bens de capital mecânicos não foi bom em 2014.

O consumo aparente de máquinas e equipamentos somou R$ 108,25 bilhões, uma queda de 15% em comparação com o ano anterior. Descontando-se a variação cambial, o tombo foi ainda maior: 18,9%.

Em consequência, o faturamento real da indústria caiu para R$ 71,19 bilhões no espaço de tempo analisado, o que representou um declínio de 13,7% no confronto com os dados de 2013.

Mário Bernardini, diretor de competitividade da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq): vendas de máquinas seguem em queda há três anos
Mário Bernardini – Abimaq: vendas de máquinas seguem em queda há três anos

“O desempenho é ruim porque se registra queda pelo terceiro ano consecutivo”, explicou Mário Bernardini, diretor de competitividade da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Nessa realidade, o executivo traça um panorama sombrio:

“O Brasil está condenado a crescer pouco nos próximos anos.”

A perspectiva é que as coisas não melhorem pelo menos até o final do primeiro semestre de 2015.

Os empresários do setor acreditam que nos primeiros meses do novo governo Dilma Rousseff haverá continuidade na recessão e algum ajuste nas contas públicas.

E que a economia só deverá melhorar no segundo semestre, ficando a retomada do crescimento para 2016.

O setor industrial representado pela Abimaq vem perdendo market share progressivamente, no consumo interno.

A média anual da participação da importação no consumo brasileiro de máquinas e equipamentos saltou de 49%, em 2008, para 71%, em 2014.

Plástico Moderno, Eurimilson Daniel: no médio e longo prazos, economia local voltará a crescer
Eurimilson Daniel: no médio e longo prazos, economia local voltará a crescer

Mesmo com a melhora registrada nos últimos meses de 2014, avalia-se que o nível de participação continua sendo um dos menores da série histórica.

Os níveis de preços também não foram animadores: os preços das máquinas e equipamentos passaram a crescer menos do que a variação dos custos, reduzindo as margens do setor.

Em meio a tantas estatísticas negativas, o número azul ficou com as vendas externas.

As exportações acumularam US$ 13,40 bilhões FOB em 2014, ou 7,4% a mais do que o contabilizado no exercício de 2013.

Responderam por 45% do faturamento total do setor, um índice bem acima da média histórica, de 32%. Para 2015, caso o real continue o processo de depreciação, a expectativa é que as exportações se mantenham em crescimento.

A América Latina (34,1%), os Estados Unidos (28,7%) e a Europa (19,4%) foram os principais destinos das mercadorias brasileiras. As vendas para a América Latina, incluindo o Mercosul, apresentam, porém, uma queda relativa “preocupante” a partir de 2011.

O segmento que mais contribuiu para o crescimento total foi o de máquinas para infraestrutura e indústria de base, com uma expansão de 20,6% (23% das exportações totais).

O maior percentual de crescimento ficou, no entanto, com as máquinas para petróleo e energia renovável – 53,5%; 9,5% das vendas externas totais.

As máquinas para a indústria de transformação ostentaram um recuo de 1,6%; 6% das exportações totais.

Segundo Bernardini, as máquinas para a indústria de óleo e gás tiveram um “péssimo ano” em 2014.

Já as máquinas para as indústrias do setor plástico enfrentaram dificuldades, mas “sofreram menos” do que outras áreas, auxiliadas pelas operações Finame.

As importações, por outro lado, tiveram desempenho negativo, reproduzindo o contexto geral.

Alcançaram o montante de US$ 28,67 bilhões de janeiro a dezembro de 2014, ou 12,1% inferior ao apurado no mesmo período de 2013.

Observou-se queda nas importações de todos os tipos de máquinas, confirmando o baixo investimento no país no ano passado.

Os Estados Unidos responderam pela maior parte do volume importado (25,5% do total em 2014).

A China ocupa a segunda posição (18%) e mantém ritmo de crescimento anual – a sua participação era de apenas 8,2% em 2007.

A balança comercial no período fechou, portanto, com déficit de US$ 15,276 bilhões, registrando uma redução de 24,2%, comparativamente.

Plástico Moderno, Ocupação da capacidade (NUCI) % / Carteira de pedidos (em meses para o atendimento)

“A taxa de câmbio a R$ 2,50 não é competitiva para a indústria nacional”, afirmou Bernardini. “Com o câmbio a R$ 3,00 dá para competir lá fora.”

Os produtos made in China estão presentes no setor há quase 15 anos e custam, em média, 50% menos que o similar nacional. “É uma vantagem comparativa pesada. O Brasil precisa de taxas de juros civilizadas (ele acha que a Selic ficará acima de 12%, em 2015) e de um ambiente favorável aos investimentos para poder competir melhor.

A competição começa com a taxa de câmbio”, acrescentou. Produzir no Brasil custa, em média, 37% mais do que fabricar o mesmo produto nos principais países desenvolvidos, revela estudo da Abimaq usando como referência a Alemanha e os Estados Unidos.

A indústria de máquinas e equipamentos mecânicos utilizou cerca de 75,4% da sua capacidade instalada, em 2014. A Abimaq calcula que 13.098 empregos foram cortados ao longo do ano, que encerrou com 242.238 pessoas empregadas.

Este é menor quadro desde maio de 2010. “O nível de emprego vai continuar piorando porque as empresas farão ajustes”, previu Bernardini.

Abimei – Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais

Após 2013 ter sido um ano ruim e 2014 pior ainda, os empresários da área de importação de bens de capital estão repletos de incertezas com relação a 2015.

Para começo de conversa, não se espera nada melhor no primeiro semestre do novo ano, que coincide com o início do segundo mandato da presidente Dilma.

O presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei), Ennio Crispino, acredita que o governo terá pela frente a missão de recuperar a sua credibilidade e, ao mesmo tempo, tentar reverter a tendência recessiva da economia.

Crispino é a favor de uma reforma tributária que considere a desoneração dos investimentos em bens de capital: o fim da cobrança do ICMS e o retorno do Imposto de Importação, que chega a 25% em alguns tipos de máquinas e equipamentos industriais, para o patamar anterior, de 14%.

“O Brasil é um dos poucos países do mundo que tributam investimentos em meios de produção. Não há como pensar em aumentar a produtividade e a capacidade competitiva do produto manufaturado brasileiro no mercado internacional com uma carga tributária como esta.”

A Abimei trabalha com um cenário de que o PIB poderá não crescer além de 1%, em 2015 (desempenho semelhante ao de 2014). Isso se o Governo não promover as reformas econômicas necessárias.

Plástico Moderno, Balança comercial - US$ Bilhões FOB

BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social

Estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançado, no início de dezembro, prevê investimentos de R$ 4,1 trilhões na economia brasileira no quadriênio 2015-2018 nos seguintes setores: indústria, infraestrutura, residências e agricultura & serviços.

Os números estimados representam crescimento de 17,1% frente ao realizado no quadriênio 2010-2013. O maior crescimento previsto é no setor de infraestrutura, no qual devem ser investidos R$ 598 bilhões, frente aos R$ 457 bilhões efetuados no período anterior, um aumento de 30%.

O destaque nessa área fica com portos e ferrovias, com crescimentos previstos de, respectivamente, 141% e 99%, segundo o boletim.

O investimento nos demais setores deve crescer 19% (residências), 18,5% (indústria) e 11% (agricultura & serviços).

Na infraestrutura, estão mapeados investimentos feitos por meio de concessões e parcerias público–privadas, contempladas pelo Programa de Investimento em Logística (PIL).

Outro destaque na infraestrutura é a área de telecomunicações, com o novo ciclo de investimentos resultantes da introdução do 4G.

Para a indústria química brasileira, espera-se um volume de investimentos da ordem de R$ 22 bilhões entre 2015 e 2018: “A elevação desses investimentos dependerá de uma articulação bem-sucedida entre os agentes privados e públicos que permita a adição de valor ao petróleo e gás do pré-sal com seu uso em novos projetos petroquímicos locais, da redução de entraves regulatórios e da melhoria na infraestrutura local, especialmente de transportes.”

Outra conclusão do estudo é que, “apesar de sua importância, a indústria química brasileira necessita aumentar sua competitividade a fim de enfrentar a concorrência acirrada com os produtos importados, que tem resultado em déficits crescentes na balança comercial do setor”.

Na área de petróleo e gás, espera-se que haja investimentos de R$ 509 bilhões no horizonte 2015-2018, redundando em crescimento de 42,1% em relação ao realizado de 2010 a 2013.

A Petrobras será a principal realizadora de tais investimentos. Elaborado pela Área de Pesquisa e Acompanhamento Econômico do Banco, o boletim Perspectivas do Investimento chega ao nono ano consecutivo.

O mapeamento abrange projetos e planos estratégicos de investimento de empresas, não restritos àqueles apoiados pelo BNDES.

Inclui projetos identificados pela equipe de especialistas setoriais do BNDES (39% do total do investimento); levantamento do investimento em residências, considerando programas do governo e projeções para o restante do setor (23%); e estimativas para os demais setores da economia (38%).

Leia Mais sobre Infraestrutura:

Memória – Revista Plástico Moderno

 

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