Química: Alívio tributário melhorou resultados

Mas importações continuam a bater recordes - Perspectivas 2014

A exemplo dos caranguejos, a indústria química brasileira andou de lado em 2013, mantendo o faturamento líquido por volta de US$ 160 bilhões nos últimos três anos.

Esse valor compreende todos os segmentos da atividade, até os produtos finais.

Em sentido estrito, os produtos químicos de uso industrial tiveram o mesmo comportamento tímido, situando-se por volta de US$ 70 bilhões (veja gráfico com os números exatos nesta edição).

Esses dados foram apresentados pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), no seu encontro anual, realizado em dezembro.

Os indicadores setoriais de produção química em sentido estrito foram coerentes com a estagnação do faturamento, registrando variação de apenas 1,1% de 2011 a 2013.

A mesma entidade reuniu informações oficiais de comércio exterior químico (em sentido amplo), apurando um déficit de US$ 32 bilhões em 2013, com expansão de 13% sobre o saldo negativo registrado em 2012, de US$ 28,1 bilhões.

Associando as informações até aqui apresentadas, fica patente que o setor químico nacional não está conseguindo acompanhar a evolução da demanda interna, exigindo ampliar as importações.

Química e Derivados, Figueiredo: importações do setor equivalem ao mercado espanhol
Figueiredo: importações do setor equivalem ao mercado espanhol

“As importações químicas brasileiras somaram US$ 46,1 bilhões em 2013, isso é equivalente ao mercado químico da Espanha”, comparou Fernando Figueiredo, presidente executivo da Abiquim.

Esse dado serve como indício da pujança da economia brasileira e das oportunidades de investimentos por aqui disponíveis a quem se atrever a aproveitá-las.

Figueiredo ressaltou que a indústria química do Brasil ocupa a sexta posição no ranking mundial, sendo superada pela China, Estados Unidos, Japão, Alemanha e Coreia do Sul.

Mas, nos últimos anos, o setor está perdendo relevância, mesmo em âmbito nacional.

“Éramos o primeiro setor em termos de PIB industrial na década de 1970, porém agora estamos na quarta colocação, com 10,5% do PIB total”, informou.

O aumento das importações tem um lado mais sombrio:

“Esse déficit não agrega valor à cadeia produtiva, tanto é assim que a geração de empregos por aqui só cresceu 1,3%, ou seja, estamos criando postos de trabalho lá fora”, criticou.

Segundo estudos da Abiquim, cerca de dois terços dos produtos químicos importados poderiam ser fabricados no país.

“Temos tecnologia para tanto, além de um parque fabril com mais de 800 pequenas e médias companhias, algumas delas com mais de 50 anos de atuação”, afirmou.

É preciso avaliar com algum vagar esses números, a começar pelo fato de eles incluírem os produtos finais, entregues diretamente aos consumidores.

Os insumos para a fabricação de fertilizantes agrícolas estão entre os itens mais importados pelo país, uma potência agrícola que necessita deles.

“Esse setor tem condições de retomar os investimentos em capacidades produtivas, desde que a regulamentação da atividade mineradora seja atualizada e o preço do gás natural sofra uma grande redução”, comentou.

Cerca de dois terços do mercado de fertilizantes químicos são importados, gerando um déficit de US$ 7,88 bilhões, pelos cálculos da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).

Química e Derivados, Tabela---PRODUTOS-QUIMICOS-DE-USO-INDUSTRIAL

O setor agrícola demanda outros itens químicos de alto valor, quase todos fabricados fora do país. É o caso dos defensivos agrícolas, cujos princípios ativos são moléculas complexas e caras.

“Não se pode ter uma agricultura forte sem contar com um parque produtivo de defensivos, mas esse segmento ainda precisa de uma regulamentação adequada e tratamento específico para ganhar força por aqui”, disse Figueiredo.

Ele comentou que o governo federal criou no ano passado uma comissão interministerial para resolver os entraves para a produção local dessas moléculas.

De certa forma, o setor farmacêutico se assemelha ao de agroquímicos: ambos dependem da importação de princípios ativos, mas possuem estrutura de formulação local.

“A indústria farmacêutica apresenta um déficit comercial da ordem de US$ 6 bilhões”, salientou.

O setor de fibras artificiais e sintéticas está no centro de um dos maiores investimentos químicos do país: o polo têxtil de Suape-PE, onde será conduzida a cadeia completa das fibras PET, desde o ácido tereftálico até as resinas poliéster para garrafas e para uso têxtil, bem como as fibras sintéticas.

No entanto, as importações ainda dominam o cenário das fibras, atingindo perto de um bilhão de dólares, contra exportações de US$ 207 milhões em 2013. “Esse segmento depende muito do comportamento do mercado têxtil nacional, que não foi bem no ano passado”, considerou Figueiredo.

Química e Derivados, Tabela---FATURAMENTO-QUIMICO-POR-SEGMENTO-2013
De forma geral, como evidenciam os números apresentados pelas associações dos mercados a jusante, o déficit comercial é homogêneo, indicando ser necessário investir na recuperação da competitividade do setor químico.

Como explicou o dirigente da Abiquim, a indústria química apresenta um efeito multiplicador de seis vezes nas cadeias produtivas dela derivadas.

Ou seja, cada dólar faturado com produtos químicos se converte em seis dólares de faturamento nas indústrias de transformação subsequentes.

“É um setor muito relevante, vamos levar ao ministro Guido Mantega [Fazenda], com as cadeias produtivas coligadas, vários pleitos que ajudem o setor a avançar”, considerou.

Figueiredo comentou que o Brasil possui plenas condições para assumir maior relevância mundial no setor.

“Temos fontes de matérias-primas, a exemplo do pré-sal, pessoal qualificado e estruturas empresariais aptas para nos tornarmos exportadores químicos, mas nos falta uma política industrial adequada”, lamentou.

A indústria de produtos químicos de uso industrial realizou investimentos de US$ 3,4 bilhões em 2013, valor idêntico ao apresentado em 2012.

Segundo levantamento da Abiquim, estão programados até 2017 investimentos no total de US$ 21,7 bilhões . Esse ritmo é insuficiente para atender à demanda nacional.

Perdas e ganhos – O setor químico, embora ainda tenha muito a pedir, tem menos itens a reclamar do governo federal em 2013.

Depois de vários anos de tratativas, o setor conseguiu a desoneração da incidência de PIS/Cofins sobre a primeira e a segunda geração petroquímica.

Isso significou, em média, uma redução de custos entre 6% e 7%.

Além disso, o setor aproveitou até outubro a majoração da alíquota do imposto de importação sobre uma lista de cem itens.

Essas medidas permitiram ao setor químico garantir lucro no exercício, em escala bem superior à de 2012.

“Para nós, o preço das matérias-primas, como nafta e gás natural, é fundamental, mas não acredito que consigamos avançar nessa questão, pelo menos nas circunstâncias atuais”, comentou Pedro Wongtschowski, membro do conselho de administração da Ultrapar.

Ele informou que o setor possui uma agenda ampla para desoneração dos investimentos, mas ainda é preciso convencer o governo a adotá-la.

Apesar disso, Wongtschowski prevê uma evolução da indústria química, especialmente mediante a aplicação da agenda tecnológica setorial, que pretende apoiar empresas de médio porte a inovar e a diversificar as suas atividades.

Marcos De Marchi, presidente da Elekeiroz e 3º vice-presidente da Abiquim, da qual também coordena a comissão de economia, confirmou a relevância da desoneração de PIS/Cofins sobre a primeira e a segunda geração petroquímica para combater as crescentes importações brasileiras.

Química e Derivados,De Marchi: eletricidade ainda custa caro demais no Brasil
De Marchi: eletricidade ainda custa caro demais no Brasil

“Os benefícios obtidos foram repassados para as cadeias a jusante; podemos dizer que isso salvou o nosso ano”, comentou.

No entanto, ele criticou o fato de a agenda de reformas que restabeleceria a competitividade da indústria nacional “não ter andado”.

Essas propostas vêm sendo contínua e exaustivamente apresentadas ao governo federal desde dezembro de 2009, reunidas no Pacto Nacional da Indústria Química, criado com vistas a gerar resultados até 2020.

Química e Derivados, Tabela---EVOLUCAO-DO-FATURAMENTO-liquido-POR-SEGMENTO

Na avaliação de De Marchi, as mudanças introduzidas no sistema elétrico nacional, em 2013, não resultaram em uma redução sensível nos preços da eletricidade para consumo industrial.

“O Brasil continua pagando uma das mais altas tarifas de eletricidade industrial do mundo, fato inexplicável quando se sabe que nossa matriz geradora é essencialmente hidráulica, de baixo custo”, considerou.

Com isso, as indústrias eletrointensivas devem sofrer mais em 2014, a exemplo do setor de soda/cloro.

“A sociedade brasileira precisa definir se a atividade industrial é ou não é relevante para o país; nos países mais avançados, a tarifa industrial é bem mais baixa do que a residencial”, destacou De Marchi.

Além da eletricidade, há muitos entraves a prejudicar a competitividade nacional.

De Marchi cita o índice criado pela Escola de Negócios IMD, da Suíça, uma referência global, para comprovar que o Brasil está ficando para trás.

“Em 1997, data da criação do IMD, estávamos na 34ª posição, em 2013, caímos para a 51ª”, apontou.

O Brasil perdeu espaço nos itens relativos à infraestrutura, eficiência de negócios e eficiência governamental, segundo o relatório do IMD.

Os cinco países que superam o Brasil no ranking químico global têm posições muito melhores na avaliação do IMD.

“Até 2010, México e Rússia ficavam atrás do Brasil, hoje eles estão na nossa frente na lista do IMD”, lamentou.

Na sua análise, isso se reflete na balança comercial brasileira, em especial nos produtos químicos.

“O estímulo à demanda não está sendo capturado pelo setor, por isso o saldo negativo cresce a cada ano”, afirmou.

A indústria química parou de aumentar sua capacidade produtiva total em 2007, segundo informou.

De lá para cá, percebe-se que a curva de consumo se descolou totalmente da curva de produção nacional.

Planos de apoio – Os órgãos oficiais que mantêm relacionamento mais próximo com a indústria química são o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) e seu braço financeiro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Do diálogo entre eles, as empresas do setor e as universidades, espera-se que surja uma agenda comum, capaz de reverter o déficit comercial químico ou, ao menos, reduzi-lo.

Química e Derivados, Cabral: no futuro, gás terá preço próximo ao dos EUA
Cabral: no futuro, gás terá preço próximo ao dos EUA

“O governo federal entende como desafio manter a produção química local, diversificando-a para produzir produtos de maior valor, mediante o incentivo à pesquisa e desenvolvimento e a internacionalização das companhias brasileiras”, afirmou Alexandre Cabral, diretor do departamento de Indústrias de Base Tecnológica do Mdic.

Segundo informou, de 1991 a 2010, deixaram de ser fabricados no país 533 produtos químicos, muitos dos quais não voltarão a ser fabricados por aqui. Mas outros ainda podem voltar a ser atrativos.

Segundo Cabral, a indústria química brasileira já promoveu, na década passada, fortes movimentos de concentração empresarial e de modernização de sua estrutura acionária. Isso permitiu formar companhias de escala mundial de produção, que já investem no exterior.

“O mercado interno está crescendo, se pudermos atender o mercado com produtos feitos no Brasil, ainda que sejam mais caros, vale a pena, por manter empregos e distribuir renda”, avaliou.

A avaliação de Cabral sobre o mercado global químico aponta para a formação de excedentes globais de produção, oriundos de unidades fabris de elevadíssima escala, dotadas de matérias-primas de custo muito reduzido, a exemplo do Oriente Médio e do shale gas dos Estados Unidos.

A visão oficial sobre a diferença entre os preços do gás natural nos EUA e no Brasil aponta para tempos menos difíceis de concorrer.

Cabral salienta que a demanda pelo gás norte-americano está crescendo aceleradamente, com tendência a elevar seus preços.

No Brasil, a entrada em operação dos campos do pré-sal deverá aumentar muito a oferta do gás.

“Acreditamos que, em cerca de cinco a dez anos, o preço do gás nos EUA deixará o patamar atual dos US$ 4/milhão de BTU e chegará a US$ 6 até US$ 7.

Enquanto isso, o gás brasileiro ficará abundante e cairá dos atuais US$ 14/milhão de BTU para um valor mais próximo de US$ 8, equilibrando o jogo”, prognosticou.

Química e Derivados, Tabela---CRESCE-O-DEFICIT-COMERCIAL-QUIMICO-DO-BRASIL

Cabral salientou que o governo federal incluiu uma agenda para o setor químico dentro do Plano Brasil Maior, com medidas de curto e de médio prazos.

As decisões de alcance imediato – todas elas cumpridas total ou parcialmente – incluem a desoneração de matérias-primas e incentivos aos investimentos e à inovação.

Apenas o estabelecimento de uma política de uso do gás natural como insumo industrial ainda está em discussão. “Isso poderá ter efeitos estruturantes, mas é preciso lembrar que ainda falta ampliar a malha de dutos de distribuição e criar marcos legais para tanto”, considerou.

Também é preciso verificar se o aproveitamento industrial não colocará sob risco a operação das termelétricas.

As medidas de médio prazo envolvem a aquisição ou a criação de tecnologias de desenvolvimento sustentável, capacitação de recursos humanos, fortalecimento da infraestrutura nacional e a nova regulamentação para defensivos agrícolas.

“A inovação é a chave para agregar valor a uma cadeia produtiva; há oportunidades de negócios em todos os ramos da atividade econômica”, comentou. Para tanto, é preciso aproximar mais as empresas e as universidades e institutos de pesquisa.

Com base no estudo dos 533 produtos que tiveram descontinuada a sua produção local, o BNDES contratou um estudo amplo sobre o setor químico.

“Já estão prontas as fases de mapeamento e segmentação dos produtos, e de definição inicial de prioridades para segmentos.

“Em março de 2014, ficará pronto o relatório detalhado dos segmentos prioritários, com a participação da indústria nas discussões”, comentou Gabriel Gomes, chefe do departamento de química do BNDES.

A previsão do banco é de contar com o estudo completo em maio de 2014.

Com ele em mãos, será possível incentivar investimentos que tenham por meta diversificar o parque produtivo químico nacional.

“Não nos interessa ampliar a produção de commodities, mas atuar nas especialidades e produtos de química fina”, afirmou.

Gomes espera obter os dados sobre dez segmentos de mercado do setor. Esses segmentos serão divididos conforme o grau de prioridade, considerando o tamanho e o futuro da demanda e a disponibilidade dos fatores de produção no país.

De antemão, já se espera que a prioridade número 1 seja concedida aos defensivos agrícolas.

“É preciso mudar a regulamentação desses produtos, pois as licenças e autorizações demoram demais”, considerou.

Uma das linhas de financiamento mais ativas do setor químico no BNDES se relaciona com os combustíveis renováveis, em especial de etanol de segunda geração (feito do bagaço e das palhas da cana).

“A carteira de renováveis do banco era de R$ 114 milhões em 2010”, informou. Há 18 operações em etanol de segunda geração, 22 em químicos de etanol e uma para gaseificação de bagaço no portfólio do banco.

“Há mais propostas para químicos porque eles têm maior valor do que o combustível”, explicou Gomes.

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