Setor químico nacional precisa resolver questões

Além da matéria-prima - Entrevista: Perspectivas 2014

Vida mansa, nem pensar.

Há pouco mais de um ano, quando deixou a Presidência da Ultrapar para assumir um assento no conselho de administração da companhia, Pedro Wongtschowski esperava contar com mais tempo livre para sua vida pessoal.

Ledo engano.

Atualmente, ele atua em mais de dez  diferentes atividades, como os conselhos de empresas de grande porte ou instituições ligadas à pesquisa científica e universidades, além de consultorias.

Wongtschowski se formou em engenharia química pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, na qual obteve os graus de mestre e doutor.

Ingressou no grupo Ultra em 1970, desenvolvendo exitosa carreira, com participação ativa em todos os momentos relevantes da moderna petroquímica brasileira, com incursões pelas especialidades e química fina.

Do alto da sua experiência, ele acompanha com alguma preocupação os percalços da indústria química nacional, mas acredita ser possível recolocar o setor nos eixos e recuperar o ímpeto dos investidores em novas capacidades.

Seria realmente muito difícil vestir um pijama em uma personalidade tão ativa e irriquieta. Wongtschowski recebeu Química e Derivados na sede da Ultrapar, no centro de São Paulo, onde mantém um escritório.

Plástico Moderno, Wongtschowski: cenário macroeconômico ruim leva companhias a investir no exterior
Wongtschowski: cenário macroeconômico ruim leva companhias a investir no exterior

Química e Derivados – Há um grande temor de que o shale gas americano provoque a morte por asfixia da indústria química brasileira. Esse temor tem fundamento?

Pedro Wongtschowski – É um exagero. O shale gas traz uma grande vantagem para a petroquímica norte-americana, vários projetos estão sendo lá desenvolvidos tendo por base a disponibilidade de gás natural barato.

Mas ninguém sabe ao certo por quanto tempo essa euforia vai durar!

Há uma série de questões a esclarecer, como as questões ambientais dessa exploração, o imenso consumo de água, o tamanho e a duração das reservas.

Além disso, no médio prazo, os preços do gás natural norte-americano tendem a chegar a um ponto de equilíbrio mais próximo da média mundial.

Os especialistas afirmam que o shale gas terá cotações entre US$ 5 a US$ 6 por milhão de BTUs, que ainda é muito bom, mas é mais caro que US$ 3.

QD – Ainda assim, é bem mais barato que o gás natural brasileiro.

PW – Sim, de fato é. Mas a política de preços do gás natural no Brasil precisa ser reexaminada.

Acredito que a meta de preços de longo prazo teria de ser próxima dessa faixa prevista para os Estados Unidos.

QD – Considerando que os projetos de exploração do pré-sal sejam efetivamente desenvolvidos, no cronograma previsto, seria possível estimular as discussões dessa nova política de preços para o gás?

PW – Havendo grande disponibilidade de gás, os preços precisam se ajustar a essa realidade.

Preços altos inibirão a demanda e não me parece interessante ter sobra de gás sem remuneração.

Mas seria necessário pensar um pouco mais a longo prazo.

Por exemplo: se existe a expectativa de contar com o gás do pré-sal em 2019 ou 2020, a Petrobras deveria estar fechando agora os contratos de suprimento de longo prazo com clientes industriais, já com um preço adequado, talvez referenciado ao de Mont Belvieu [Texas, EUA].

Investimentos petroquímicos levam pelo menos cinco anos para serem construídos, a contar da sua concepção inicial.

Se isso não for feito, teremos demanda de produtos petroquímicos e disponibilidade de gás, mas os clientes não estarão prontos para recebê-lo.

QD – Matéria-prima é o calcanhar de Aquiles do setor? É o que falta para a petroquímica nacional deslanchar?

PW – Acho que a questão vai muito além disso.

Na verdade, o cenário macroeconômico brasileiro é desanimador para qualquer atividade industrial.

Há muitas incertezas. A inflação está recrudescendo, crescem os déficits comercial e fiscal, os juros voltaram a subir. Isso não anima ninguém a investir.

As indústrias que já fizeram grandes investimentos até conseguem ser competitivas em alguns segmentos, as demais apenas sobrevivem.

QD – A química sofre ainda mais que as outras indústrias?

PW – Além dos problemas gerais, a indústria química tem seus problemas clássicos: matéria-prima, energia elétrica e mão de obra especializada.

A matéria-prima, gás ou nafta, representa mais de 60% do custo variável de produção, portanto gera um impacto muito relevante na tomada de decisões.

O setor precisa ter garantia de suprimento para poder investir com segurança, mas a Petrobras não assina contratos de longo prazo com ninguém.

A insegurança é muito grande.

A eletricidade também impacta pesadamente o setor.

Houve uma redução de preço por volta de 15% em meados do ano passado, mas o uso contínuo das usinas termelétricas para compensar a seca nos reservatórios das hidrelétricas vai engolir esse benefício.

Quanto à mão de obra especializada, seu custo até baixou em dólares em 2013, mas ainda é escassa e cara para o setor químico.

QD – Isso esgota as dificuldades?

PW – Não. Um dos fatores que mais assusta os investidores é a falta de estabilidade das regras e políticas oficiais. Grandes projetos, como os petroquímicos, têm maturação lenta, não convivem com mudanças bruscas.

No caso dos tributos, há mudanças quase todos os dias.

Aspectos regulatórios das atividades empresariais também são modificados com muita frequência. Isso gera instabilidade e incerteza. Investidores não gostam disso.

QD – As mudanças nos tributos podem ser positivas. O alívio no PIS/Pasep e Cofins na primeira e segunda gerações foi considerada a redenção do setor em 2013.

PW – O setor precisava realmente disso, mas observe que esse benefício é transitório.

A norma que instituiu a redução do PIS/Pasep e da Confins [Medida Provisória 613, de maio de 2013, convertida na Lei 12.859, de setembro do mesmo ano] prevê a redução desses tributos para 0,18% e 0,82%, respectivamente, até 2015.

Em 2016, eles subirão para 0,54% e 2,46%.

No ano seguinte: 0,90% e 4,10%, chegando em 2018 a 1% e 4,6%.

O benefício acaba aqui.

Seu efeito é apenas anestésico, melhora os resultados por algum tempo, mas não resolve os problemas da indústria nacional.

QD – O tamanho do mercado brasileiro não serve de contrapeso para atrair investidores?

PW – Temos uma demanda significativa em âmbito mundial. Mas ela não é garantida, depende da evolução do PIB.

Há uma capacidade de atração, mas é preciso lembrar que a Europa ainda está em crise e as companhias transnacionais possuem muita capacidade ociosa por lá.

É mais econômico ocupar essas plantas, mesmo vendendo os volumes adicionais pelo custo variável, do que construir novas fábricas em outros países.

QD – O governo federal contratou um estudo setorial para direcionar investimentos no setor químico. O sr. espera resultados extraordinários?

PW – Esse estudo é muito sério, está sendo executado por um consórcio de instituições importantes, como a Bain e a Gas Energy.

É bom que estudos como esse sejam feitos.

A ideia é estudar oportunidades de investimento pelo lado da demanda, a partir da análise das importações e de 533 produtos que deixaram de ser fabricados no país.

Esse estudo deve ficar pronto em alguns meses.

A etapa seguinte será induzir investimentos nos produtos que se revelarem mais importantes para o país, mediante a atração de companhias que os fabricam em outros países, fazendo um road show e oferecendo incentivos, creio.

Mas, para ser sincero, quem já é do ramo não deverá encontrar grandes novidades.

QD – O discurso do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic) dá prioridade aos projetos de especialidades e de química fina. Parece que voltamos aos anos 1980, ou não?

PW – É um déjà vu. Estamos repetindo o passado, espero que sem os mesmos erros.

QD – No passado, a culpa de os projetos de química fina não terem deslanchado foi atribuída à falta de intermediários feitos no país. O sr. participou desses esforços. Foi essa a razão determinante do fracasso?

PW – A química fina requer uma escala de produção ótima.

Não é em qualquer país que se encontram os intermediários.

Eles são fabricados onde há motivos para isso: matérias-primas, tecnologia ou uma demanda muito grande.

De lá são exportados para os demais.

Fazer intermediários aqui só para suprir o mercado interno não dá certo.

É preciso exportar para alcançar a escala mínima de operação.

Também se deve considerar que a química fina possui um fator de insegurança típico: o cliente altera a rota de produção dele a qualquer momento, sem prévio aviso, e deixa de consumir o produto rapidamente.

Quando isso acontece, não há mais para quem vender. É um risco permanente.

QD – Quando se tentou impulsionar a química fina no Brasil, nos anos 1980, essas questões já eram conhecidas?

PW – Sim. Mas aquele modelo tinha por suporte a política de substituição de importações e a possibilidade de impor tarifas muito altas de importação para proteger a produção local. Esse tempo acabou. Ainda bem.

QD – Nas condições atuais, o setor deve entrar em desespero?

PW – De jeito nenhum. Apesar de todas as dificuldades que mencionei, algumas companhias químicas vão muito bem, obrigado.

Entre elas estão, sem dúvida, a Oxiteno, a Lanxess e a Basf.

Esta, aliás, está fazendo o maior investimento petroquímico em curso no país, o projeto de ácido acrílico e acrilatos, em Camaçari-BA.

QD – Mas a Oxiteno e a Braskem, por exemplo, estão investindo mais no exterior.

PW – São companhias brasileiras com estratégias mundiais de negócios.

A Oxiteno, por exemplo, depois do projeto de álcoois graxos, tem investido mais no exterior.

No México e nos Estados Unidos, por exemplo, as oportunidades são muito boas e precisam ser aproveitadas.

QD – Quais seriam as mudanças prioritárias para recuperar o ânimo dos investidores no setor químico?

PW – É preciso resolver as questões que travam todas as atividades industriais.

Especificamente para o setor, seria importante definir preços mais competitivos de matérias-primas e de energia.

Além disso, a produção mineral, fundamental para a química inorgânica, também precisa de uma regulamentação melhor para avançar.

QD – Como fica a Petrobras nessa visão?

PW – Temos aí um problema conceitual.

A Petrobras é sócia da Petrocoque, da Deten, da Braskem e de uma série de outras companhias.

Por quê? Os tempos mudaram.

O governo, a sociedade e a companhia precisam decidir se essa é a melhor configuração. Talvez seja necessário repensar o modelo petroquímico atual.

QD – Mas foi tão complicado montar o modelo atual, com uma empresa com musculatura para disputar o mercado global. E a participação societária da Petrobras nesse caso foi até desejada pelos acionistas.

PW – Esse modelo não está mais funcionando a contento.

A Braskem é uma companhia com estratégia internacional, mas a Petrobras tem o foco no Brasil.

Há divergências, a começar pela definição do preço da nafta petroquímica.

Houve uma sugestão recente, do Otto Perrone, para separar as partes.

A Petrobras ficaria com as centrais de matérias-primas e as aproximaria do parque de refino, enquanto a Braskem se concentraria nos polímeros.

Pode ser uma saída, desde que os contratos de suprimento de insumos a longo prazo fiquem adequadamente ajustados, é claro.

QD – Mudando de assunto, a química verde tem espaço após a chegada do shale gas?

PW – O Bndes está apoiando alguns projetos nesse sentido, em especial para o aproveitamento do bagaço de cana.

Faz bem. Há iniciativas interessantes para desenvolvimento de tecnologia nessa área no Brasil. Mas o cenário está mudando por causa do shale gas.

O uso dos chamados combustíveis verdes, por exemplo, está perdendo força, principalmente na Europa e nos Estados Unidos.

Desenvolver rotas químicas com produtos de origem natural renovável pode ser a melhor alternativa.

Leia Mais: 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios