O embate das sacolas – Indústria do plástico acirra defesa contra pecha de vilã

 

Plástico, O embate das sacadas - Indústria do plástico acirra defesa contra pecha de vilã

 

O cabo de guerra travado pela erradicação das sacolas plásticas descartáveis ganhou um novo round neste início de ano, quando os supermercados de São Paulo as retiraram de circulação por conta de um acordo entre a Associação Paulista de Supermercados (Apas), o governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria do Meio Ambiente (SMA), e a prefeitura de São Paulo. Sob o mote “Vamos tirar o Planeta do sufoco”, elegeram 25 de janeiro para substituir o modelo condenado por similares biodegradáveis e opções retornáveis, comercializados pelos estabelecimentos.

Vendidas a R$ 0,19 a unidade, preço de custo, como alegam supermercados e fabricantes, as sacolas biodegradáveis encalharam. Instalou-se uma confusão e o Procon, órgão de defesa do consumidor, interveio. Resultado: a Apas assinou, em 4 de fevereiro, um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta (TAC), conferindo aos consumidores um prazo de sessenta dias para se adequarem à nova realidade. Nesse ínterim, os supermercados ficaram obrigados a informar ostensivamente os seus clientes que as sacolas descartáveis não serão mais fornecidas e a disponibilizar uma opção gratuita e apropriada para o transporte das mercadorias adquiridas, proibindo o repasse aos consumidores de embalagens que carregavam produtos perigosos ou substâncias químicas, como materiais de limpeza, para acondicionamento de alimentos.

Os supermercados decidiram, então, sumir com os modelos biodegradáveis, os quais, segundo a Apas, serviriam apenas para uma fase de transição para atingir o real objetivo da campanha promovida pela entidade, de adoção apenas de sacolas reutilizáveis. O diretor de sustentabilidade da entidade de classe, João Sanzovo, acredita que essas medidas se alinham à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e ao objetivo de acabar com a cultura do descarte.

A propósito, a PNRS impõe mudanças significativas no comportamento da sociedade, ao imputar ao governo, empresas e cidadãos uma responsabilidade compartilhada na destinação adequada dos resíduos sólidos. Para a indústria e o comércio, essa readequação se traduz em uma necessária logística reversa, já adotada há tempos em alguns segmentos da indústria do plástico, como a de embalagens de agroquímicos em trabalho capitaneado pelo Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inpEV) desde 2002 (ver PM nº 413, de março de 2009, pág. 9).

Como pipoca – A contenda em São Paulo se delonga desde o ano passado, quando a prefeitura tentou proibir a distribuição gratuita (leia-se: de custo diluído nos preços das mercadorias) ou mesmo a venda de sacolas plásticas em todos os estabelecimentos comerciais do município por força de lei, sancionada em maio (de nº 15.374). Foi barrada por liminar da Justiça. A Procuradoria Geral do Município entrou com recurso, mas ele foi recusado. Agora a PGM planeja recorrer ao Supremo Tribunal Federal, segundo informou a Secretaria de Meio Ambiente da prefeitura de São Paulo. Esse órgão informa apoiar a campanha da Apas por sua sintonia com a lei sancionada.

Situações semelhantes proliferam em várias localidades do país. Alguns municípios aboliram há algum tempo as sacolas plásticas convencionais, como Jundiaí e Belo Horizonte. Na capital mineira, até os sacos de lixo produzidos com resinas convencionais foram condenados. A lei nº 9.529, de 27 de fevereiro de 2008, obriga a substituição de ambos, sacos e sacolas, por produtos ecológicos.

Os efeitos colaterais da medida assustam. São Paulo concentra quase metade da indústria do modelo de sacola polemizado. E, de acordo com informações da assessoria de imprensa da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, a intenção do governo é estender para todo o estado a implantação das retornáveis, atrelada à erradicação das convencionais, as quais, no entender daquele órgão, impactam o meio ambiente tanto pelo seu processo produtivo como pelo descarte, afetando pessoas, sociedade e ecossistemas.

Se a medida emplacar, bastará pouco para se alastrar pelo país inteiro, com graves consequências para a sociedade. Os números do setor impressionam. De acordo com informações do Instituto Sócio-Ambiental do Plástico – Plastivida, as sacolas plásticas movimentam em todo o país cerca de R$ 500 milhões ao ano, dos quais R$ 200 milhões só no estado de São Paulo. A produção nacional, da ordem de 12,9 bilhões de unidades anuais (dados de 2011) – 40% desse volume referente ao estado de São Paulo (5,2 bilhões) –, gera 30 mil empregos diretos e 70 mil indiretos em todo o país, dos quais 6 mil diretos e 28 mil indiretos apenas no estado paulista.

Eleições e meio ambiente– Para os políticos, a aprovação de leis que os associem a posturas ecologicamente corretas é um marketing e tanto. Para a indústria e o comércio, idem. O inconsciente coletivo já se comove perante os apelos ambientais, mas, por falta de conhecimento técnico e esclarecimentos, o político se arrisca a criar leis que lesam

Alfredo Schmitt, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Flexíveis (Abief)
Schmitt atuou na implantação das sacolas plásticas no país

o meio ambiente, ao invés de protegê-lo, e o cidadão, que leva para casa gato em lugar de lebre, e ainda assume responsabilidades adicionais sobre o descarte de resíduos que ele não gerou, exemplo típico das caixas de papelão oferecidas pelos supermercados.

Esse é o quadro que as entidades ligadas à indústria do plástico querem reverter. Alfredo Schmitt e Miguel Bahiense, presidentes da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Flexíveis (Abief) e do Instituto Sócio-Ambiental do Plástico – Plastivida, nessa ordem, rechaçam a imposição considerada por eles arbitrária para acabar com a distribuição das sacolas plásticas convencionais. Arbitrária porque desconsidera consulta e discussão prévia com a indústria e os consumidores.

Para começar, desmentem alegações de que as sacolas convencionais estão em desuso mundo afora para justificar a sua retirada da cena nacional. Lembram que no mercado internacional há países com exigências, como no Brasil, de uma espessura mínima e produção em acordo com normas técnicas. Schmitt busca exemplos para comprovar sua defesa e lembra que diversas redes, como a DM, na Alemanha e em Portugal, e o Carrefour, na França, entregam aos clientes os modelos que ele denomina reaproveitáveis, ao invés de descartáveis. “O Walmart as distribui à vontade, nos Estados Unidos e no México, mas apoia o seu fim no Brasil”, provoca Schmitt, ressaltando a inexistência de desperdício nesses países.

Infelizmente ainda fora desse perfil, a falta de educação, de conscientização e de economia da sociedade brasileira gera um disparatado volume de lixo orgânico, ou seja, resíduos de alimentos: 65% da composição dos aterros sanitários. Lá

Plástico, Miguel Bahiense, presidente do Instituto Sócio-Ambiental do Plástico – Plastivida, O embate das sacadas - Indústria do plástico acirra defesa contra pecha de vilã
Bahiense desmente lotação de sacolas plásticas nos aterros

ainda se misturam resíduos diversos, entre os quais embalagens de materiais variados, além do plástico, que poderiam ter sido encaminhadas para a reciclagem mecânica se houvesse sistemas de coleta seletiva estruturados. “Os aterros sanitários não estão cheios de sacolas plásticas, é mentira!”, desmente Bahiense. As sacolas plásticas, afirma, equivalem a apenas 0,2% do lixo depositado nos aterros.

Ao menos por ora, o presidente da Plastivida desaprova os produtos degradáveis, sugeridos como alternativa ecológica às embalagens convencionais, pelo fato de que nem mesmo o lixo orgânico se decompõe nos aterros. E ele explica por quê. “Não existe ambiente propício, pois a temperatura é muito elevada e os micro-organismos, necessários à decomposição, não sobrevivem”, infere. Além de naquele meio faltar oxigênio, igualmente fundamental para a decomposição. Bahiense ainda alerta para a inexistência de usinas de compostagem no país, locais apropriados para a biodegradação (produtos ou material orgânico).

Com somente 8% dos municípios brasileiros cobertos por sistemas de coleta seletiva estruturada e apenas escalas de laboratório para compostagem, as embalagens biodegradáveis tendem a terminar nos aterros. Mesmo que uma parcela tenha por destino a revalorização, elas ainda correm o risco de inutilizar a reciclagem mecânica se misturadas às convencionais. Outro agravante das degradáveis fica por conta da geração de gases de efeito estufa, emissões controladas apenas nas usinas de compostagem. “Além disso, as usinas devem ser utilizadas para o lixo orgânico e não para produtos biodegradáveis”, opina Bahiense.

Embora responsabilize o município pela coleta seletiva, assim como pela destinação do lixo, a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo informa que o avanço da coleta seletiva é uma das prioridades do governo do estado na gestão de resíduos sólidos. Entre as medidas, destaca o incentivo aos municípios com recursos financeiros do Fundo Estadual de Prevenção e Controle da Poluição (Fecop), que já despendeu mais de R$ 25 milhões para a aquisição de equipamentos e a construção de centros adequados. Também menciona o projeto Município Verde Azul, outro programa de incentivo, com descentralização da gestão ambiental e mais injeção de recursos (do Fecop), quando necessários.

A SMA também considera um importante avanço na gestão de resíduos sólidos, com perspectivas de ampliar os limites de atuação, a assinatura de protocolo de intenções com a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais para futura cooperação técnica no desenvolvimento da logística reversa.

A Secretaria de Meio Ambiente evoca a lei estadual 12.300, de 2006, que instituiu a Política Estadual de Resíduos Sólidos para situar a questão da compostagem, considerada pelo governo uma das atividades que contribuem para diminuir a quantidade de lixo nos aterros no estado. A PERS prevê o extermínio dos lixões e aterros controlados, além de botas-foras e demais destinações inadequadas. Entre as metas propostas no plano e contempladas na lei constam a erradicação da destinação final de resíduos em aterros até 2014, com sua utilização apenas para dejetos. A SMA nada comenta, porém, sobre projetos de implantação de sistemas de compostagem.

Eu também quero – A onda contra as sacolas ganhou força em 2007 com uma sacola de lona e alças de corda com a estampa “I’m not a plastic bag” (Eu não sou uma sacola plástica), produzida pela designer inglesa Anya Hindmarch. O acessório virou moda ao ser adotado por estrelas de Hollywood e disseminou uma aversão às embalagens plásticas.

Veterano na indústria do plástico, Alfredo Schmitt participou da implantação das sacolas plásticas no país, há cerca de trinta anos. “Havia três requisitos para o seu desenvolvimento e substituição dos cartuchos de papel: precisavam ser leves, baratas e não provocar o desmatamento”, recorda o presidente da Abief.

As sacolas plásticas revolucionaram o transporte de produtos do comércio, mas, por conta da persecutória e desenfreada redução de custos, perderam a sua qualidade pelo caminho. Afinaram a sua espessura a ponto de deixar de servir ao propósito de suportar o peso a que se propunham. O estrago estava feito: “O descontentamento pela falta de resistência da embalagem começou a gerar um inconsciente coletivo”, testemunha Schmitt.

Foi quando a Abief, o Instituto Nacional do Plástico (INP) e a Plastivida criaram o Programa de Qualidade e Consumo Responsável das Sacolas Plásticas, assinado por algumas redes de supermercados com o compromisso de dispor de sacolas dentro das normas ditadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), as quais especificam espessura mínima e capacidade para suportar peso até seis quilos. Assim, o consumidor passaria a utilizar apenas uma sacola, em vez de duas ou três, para carregar suas compras sem o risco de derrubá-las pelo caminho. Desde a sua introdução, em 2008, o consumo despencou de 17,9 bilhões para 12,9 bilhões no ano passado, apenas pelo uso racional, resultado de uma premissa simples: maior qualidade, menor quantidade.

O início do Programa de Qualidade e Consumo Responsável das Sacolas Plásticas coincide com movimentos da Apas de “estimular o debate sobre como o setor de supermercados poderia contribuir de forma efetiva com a preservação ambiental”, como descreve sobre a campanha em seu site. Em 2008, a Apas adotou o tema “Sustentabilidade em nome do consumidor.”

Desde então, vários municípios paulistas tiveram projetos de lei sancionados em favor da substituição das tradicionais sacolas plásticas por modelos retornáveis ou biodegradáveis, a maioria derrubados por inconstitucionalidade. Também pesou contra os projetos legislativos o desconhecimento técnico neles implícito, apontado pelas indústrias e entidades representativas do segmento plástico.

Indagado se a proposta de substituição se baseia em algum estudo técnico, ou se a análise comparativa do ciclo de vida entre os vários modelos de sacolas foi considerada, Sanzovo alega que “as informações disponíveis sobre os danos ambientais causados pelo descarte de sacolas foram suficientes.” Leia-se: apontamentos divulgados pelo Greenpeace, segundo os quais os sacos plásticos causam a morte de 100 mil animais por ano, além de outros danos ao meio ambiente. Ele sugere aos interessados assistir ao filme “Lixão do Pacífico” e destaca uma grande área entre o Havaí e o Japão, onde uma parcela de 27% do lixo acumulado é de sacola plástica. O documentário “An Inconvenient Truth” (Uma verdade inconveniente) sobre as mudanças climáticas e os efeitos do aquecimento global também entra na lista de argumentos da Apas (mencionado em seu site) para justificar a campanha contra as sacolas plásticas.

“Artefatos plásticos não têm pernas, asas ou nadadeiras. Só estão em local indevido porque algum ser humano os deixou lá”, rebate o presidente da Abief, ressaltando que o caminho para a sustentabilidade é a educação ambiental.

Para o presidente da Plastivida, a Apas impôs aos seus associados a adesão ao movimento. Ele não acredita na aversão generalizada das redes de supermercados ao uso das sacolas pelo simples fato de muitos deles, grandes redes inclusive, serem signatários do programa de consumo responsável de sacolas e normas de qualidade. “E não foram pressionados pela Apas.” Nem todos seguiram as determinações à risca, é fato. Mas a maioria sim.

Proselitismo ambiental oportunista – É essa a acusação dos representantes da indústria do plástico contra a Apas e outras associações congêneres ao se lastrearem na sustentabilidade para a reivindicação do fim das sacolas plásticas, porquanto o conceito, abrangente, envolve responsabilidades sociais, econômicas e ambientais. Duvidam da boa intenção e replicam: onde está a sustentabilidade ao importar sacolas retornáveis (em geral, da Ásia) para vender aos seus consumidores e gerar desemprego no país? Ou ao repassar aos clientes sua responsabilidade, segundo a PNRS, de dar uma destinação final adequada aos seus resíduos sólidos? “Os supermercados passam para o consumidor as caixas usadas e se livram da logística desse descarte”, recrimina o presidente da Plastivida.

Questionado sobre as medidas adotadas em relação à logística reversa, prevista na PNRS, para recolhimento e destinação de outros tipos de embalagens, além das sacolas, o diretor da Apas responde que haverá uma responsabilidade compartilhada entre a indústria e o varejo e ressalta o desenvolvimento de ações alinhadas à PNRS de vários segmentos da indústria, com a parceria dos supermercados. Não especifica, no entanto, essas ações.

“A medida contra as sacolas está transferindo renda de um setor da economia para outro sem que seja oferecido nada em troca. A indústria nunca foi consultada tecnicamente sobre o assunto, por isso o argumento ambiental é falso”, rechaça indignado o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Flexíveis, com o endosso de Miguel Bahiense.

O presidente da Plastivida ainda critica o fato de nem a Associação Paulista de Supermercados ou a Secretaria de Meio Ambiente ter tido a preocupação de elaborar ou solicitar qualquer estudo para se certificar qual seria a melhor solução para o meio ambiente. “Então, como tomar uma atitude de banir as sacolas?” E desafia as entidades a comprovarem as suas impressões a respeito da questão ambiental apresentando estudos que apontem as sacolas retornáveis como a melhor solução.

Base científica – Duas pesquisas alicerçam as críticas da indústria do plástico à imposição do fim da distribuição das sacolas tipo camiseta de PEAD, uma britânica e outra nacional. Ambas concluem que esses modelos são os mais ecoeficientes. “O estudo de ciclo de vida considera todos os tipos de sacolas e comprova que as plásticas comuns têm o melhor desempenho ambiental em oito de nove categorias, com destaque para a menor emissão de CO2 e menor consumo de matéria-prima”, comenta Bahiense.

A investigação britânica traz a assinatura da Environment Agency, principal órgão público de proteção e melhora ao meio ambiente na Inglaterra e no País de Gales. A pesquisa avalia os impactos ambientais do ciclo de vida da produção, uso e descarte de sete tipos diferentes de sacolas (convencional, leve, de PEAD; leve, de PEAD com aditivo pró-degradante, para quebrar o plástico em partes menores; biodegradável, produzida com uma mistura de amido e poliéster; de papel; mais espessa, tipo reutilizável de PEBD; mais pesada e mais durável, geralmente com encartes rígidos, de PP não tecido; e de algodão) para transporte de compras no Reino Unido.

O estudo atenta para o fato de que cada sacola é desenhada para uma quantidade de utilização. Também pondera que as mais duráveis requerem mais recursos em sua produção, sinônimo de maior impacto ambiental. De acordo com a consultoria, para um resultado justo, sua pesquisa julga o impacto da quantidade de sacolas necessárias para carregar as compras de um mês. O levantamento calcula quantas vezes cada tipo diferente de sacola deveria ser utilizado para reduzir seu potencial de aquecimento global a um número inferior ao das sacolas convencionais de PEAD, considerando que cerca de 40% destas (vale ressaltar que no Brasil essa porcentagem mais que dobra) foram reutilizadas em cestos de lixo. A pesquisa compara também outros impactos: esgotamento de recursos, acidificação, eutroficação, toxicidade humana, ecotoxicidades aquáticas de água doce e marinha, ecotoxicidade terrestre e oxidação fotoquímica (formação de neblina por fumaça).

“Seja qual for o tipo de sacola utilizada, a chave para reduzir os impactos é reutilizá-la tantas vezes quanto possível; e, não sendo possível sua reutilização para fazer compras, é benéfico reutilizar a sacola de outras formas, como, por exemplo, para substituir sacos de lixo. A reutilização de sacolas de PEAD convencional e de outras sacolas leves para compras e/ou para forrar cestos de lixo é essencial para seu desempenho ambiental e a reutilização como saco de lixo produz maiores benefícios do que reciclar as sacolas”, revela o estudo.

Outro aspecto levantado pesa contra as sacolas de biodegradáveis de amido/poliéster, consideradas de maior potencial de aquecimento global e depleção abiótica, comparadas às de polímero convencional, por causa do maior peso do material daquelas, além de impactos mais elevados de produção.

Só para se ter uma ideia dos resultados, para garantir um potencial de aquecimento inferior ao da sacola convencional de PEAD, considerando 40,3% de sua reutilização para forrar cestos de lixo, a de algodão precisaria ser reempregada ao menos 173 vezes; se a de PEAD for 100% reutilizada para forrar cestos de lixo, esse número sobe para 327.

O estudo “Ecoeficiência de Sacolas de Supermercado”, elaborado pela Fundação Espaço Eco, um centro de excelência para a ecoeficiência aplicada na América Latina, localizado em São Bernardo do Campo-SP, parte de premissas para a realidade brasileira e compara oito tipos de sacolas: descartáveis de PE verde, de PE convencional, com aditivo oxidegradável; de papel; de TNT; retornável de PE tradicional; de tecido; e de ráfia. Considera o período de um ano e se embasa no comportamento do brasileiro em relação às compras. A pesquisa analisa um caso base (106 quilos mensais, equivalente a aproximadamente quatro cestas básicas) e outros dois cenários, de muita compra (212 kg/mês) e de pouca compra (26,5 kg/mês = uma cesta básica).

Os quesitos estudados envolveram os recursos utilizados na produção das sacolas; a capacidade de carga de cada uma; o custo de cada sacola; a quantidade de vezes que o modelo retornável é utilizado; a disposição do resíduo, considerando a frequência no descarte (determinante para o uso de sacos de lixo); a utilização das descartáveis como sacos de lixo e o nível de reciclagem das sacolas. O estudo ressalta o fato de que a frequência de compras pode não aumentar o consumo, mas pode elevar o uso e o acúmulo de sacolas.

O levantamento concluiu que para deslocar a ecoeficiência para as sacolas retornáveis de plástico o consumidor precisa se encaixar no perfil de comprar altas quantidades de produtos e descartar pouco lixo. “Apenas nessa condição as retornáveis apresentam melhor eficiência ecológica”, ressalta o presidente da Plastivida. Segundo ele, esse não é o comportamento do consumidor brasileiro, mais afeito a ir pouco ao supermercado, a descartar muito lixo orgânico e habituado a reutilizar a sacola plástica para forrar as lixeiras. A propósito, todos os estudos apontam para a necessidade de reutilizar qualquer que seja a variedade de sacola o maior número de vezes possível para atingir a ecoeficiência.

Mais empregos… no exterior– Ao optar pela importação das sacolas retornáveis, os supermercados pecam, no entender do presidente da Abief, no quesito social, um dos pilares da sustentabilidade, pois incentivam a produção e aumentam a oferta de trabalho em outros países, particularmente da Ásia. “Deixamos de produzir aqui para gerar emprego lá.” Ele se diz apreensivo com os reflexos da queda na produção das sacolas plásticas convencionais, já

Plástico, Wilson Carnevalli, diretor da Carnevalli, O embate das sacadas - Indústria do plástico acirra defesa contra pecha de vilã
Carnevalli: mercado de extrusão já sentiu choque nos negócios

constatados na forma de dispensa de funcionários, sobretudo no segmento da transformação.

Mas também a ala das máquinas sentiu o impacto, notadamente nas indústrias fabricantes de sacoleiras. “As vendas caíram 80% e não existe reaproveitamento para esses equipamentos”, testemunha o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Acessórios para a Indústria do Plástico da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (CSMAIP/Abimaq), Wilson Carnevalli, também diretor da Carnevalli, tradicional fabricante de extrusoras.

Este mercado igualmente sentiu o choque nos negócios: queda de 50%. Os números se referem à Carnevalli, mas “a média de 50% a 60% é proporcional aos fabricantes brasileiros”, confirma.

Bem estabelecido, o mercado de extrusão voltado ao segmento de sacolas crescia pouco nos últimos anos e se movimentava mais na base de reposição, na substituição por máquinas mais produtivas, de menor consumo energético e melhor custo/benefício. Para os fabricantes desses equipamentos, reforçar a atuação em outros segmentos de mercado é uma opção.

Já para a transformação, o redirecionamento de produção não é tão simples. “Para quem só fabrica sacolas, é complicado, envolve questões como impressão, uma estrutura já montada, equipes de vendas e outros aspectos”, pondera o diretor da Carnevalli, Wilson Carnevalli Filho.

No entanto, para as empresas que além das sacolas produziam sacos de lixo esse segmento é uma boa proposta de redirecionamento, face à franca expansão das vendas desses produtos, constatada pelo aumento de consultas de máquinas envolvendo a produção dessas embalagens. “Mas ainda não se sabe se chega a compensar as perdas”, avalia.

Reduzir, reutilizar, reciclar– As sacolas, embalagens para transporte, estão contempladas dentro da Política Nacional de Resíduos Sólidos. “Só precisam de uma destinação adequada. A vigilância sanitária recomenda que o lixo

Plástico, Wilson Carnevalli Filho, diretor da Carnevalli, O embate das sacadas - Indústria do plástico acirra defesa contra pecha de vilã
Carnevalli Filho: para quem só faz sacolas a situação é crítica

seja disposto em embalagens plásticas, sacolas ou sacos de lixo”, defende Schmitt.

Ele e Bahiense frisam os incômodos adicionais resultantes do uso de alternativas como caixas de papelão e da falta das sacolas plásticas convencionais: problemas de saúde pública. As caixas de papelão e também as sacolas de pano levadas pelos consumidores de casa pecam pela elevada possibilidade de contaminação por coliformes (totais, fecais) e E.coli (Escherichia coli). As afirmações se baseiam em estudo elaborado pela Microbiotécnica, empresa especializada em higiene ambiental com 25 anos na atividade, disponível no site da Plastivida.

Na falta de sacolas, é imposto novo gasto ao consumidor para a compra de sacos plásticos destinados a acondicionar o lixo. Bahiense observa que em cidades como

Jundiaí, onde as sacolas saíram de circulação, houve um aumento significativo no consumo de sacos pretos para lixo. Lei da oferta e demanda, os preços dos sacos de lixo subiram além dos 100% nesses locais.

É fato. O brasileiro reaproveita as sacolas plásticas para acondicionar o lixo caseiro e destinar os seus resíduos. Nas estimativas da Plastivida, essa rotina alcança quase 90% da população. Para as famílias com condições financeiras, a despensa adicional com sacos de lixo fará pouca diferença.

Nos lares de baixa renda, no entanto, os representantes da cadeia do plástico temem que a falta das sacolas possa se transformar em caso de saúde pública. “As classes C, D e E têm condições para esse gasto?”, pergunta o presidente da Abief. Entidades ambientalistas sugerem uma embalagem feita com jornal. Mas, quem não tem condição de pagar por sacos de lixo, compra jornal? Jornal suporta o peso do lixo orgânico? O presidente da Plastivida enfatiza que o meio mais democrático, correto e eficiente para o descarte do lixo é a sacola plástica.

 

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