Braskem: Vendas crescem, mas lucro líquido cai

Os números do terceiro trimestre mostram que a Braskem conseguiu elevar a produção e aumentar as suas receitas, chegando a R$ 12 bilhões líquidos.

Porém, embora tenha rodado suas unidades a 90% da capacidade nominal, a companhia registrou lucro líquido de R$ 230 milhões, 42% menor que o obtido no mesmo trimestre de 2013.

Em uma visão geral, o panorama de negócios mudou para melhor.

A queda das cotações internacionais do petróleo e, consequentemente, da nafta petroquímica, permitiu recuperar a rentabilidade das resinas (spread), situação melhorada com o aumento da produção e das vendas. Isso se refletiu na geração de caixa, com o Ebitda do terceiro trimestre somando R$ 1,5 bilhão (US$ 660 milhões).

A alavancagem (dívida líquida/Ebitda) teve ligeira queda, apresentando-se agora em 2,71.

A produção petroquímica da Braskem cresceu no trimestre, fato evidenciado pelo aumento de seis pontos percentuais na taxa de ocupação de capacidade, que alcançou o índice de 90%.

Em 2014, a Braskem realizou paradas gerais de manutenção nos complexos de Triunfo-RS e Santo André-SP.

A parada gaúcha afetou os números do segundo trimestre, enquanto a da unidade paulista foi menos sentida, pois ficou fora de produção entre setembro e outubro, mas o índice de ocupação total aumentou.

“Enquanto o polo paulista estava parado, as instalações de Triunfo já estavam rodando a plena carga e conseguimos aumentar a ocupação das plantas do Rio de Janeiro mediante a importação de gás natural liquefeito, uma operação de ocasião”, explicou Carlos Fadigas, presidente da Braskem.

Herdado da RioPolímeros, o conjunto gás-químico fluminense tem capacidade nominal para 500 mil t/ano de polietilenos, mas não conseguiu ainda atingir a plena operação por problemas de suprimento de etano por parte da Petrobras.

Plástico Moderno, Fadigas: produção cresceu com a retomada do polo de Triunfo
Fadigas: produção cresceu com a retomada do polo de Triunfo

“Em média, as unidades do Rio rodam com 70% a 80% da sua capacidade, como conseguimos gás com preço atraente, elevamos a taxa de ocupação, mas esse movimento não será permanente”, afirmou.

Como explicou, trata-se de operação complexa. O gás entra no país por navios, na forma líquida, e precisa passar por regaseificação, sendo introduzido nas linhas de transporte da Petrobrás em Cabiúnas-RJ, para ser encaminhado à Baixada Fluminense.

Tudo isso agrega custos. Fadigas comentou que a companhia poderá repetir essa importação desde que as contas fechem, ou seja, o preço e volume adicional de venda das resinas compense o investimento.

A nafta, ainda o principal insumo consumido pela Braskem, passou por um ponto de inflexão da curva de preços.

Nos primeiros meses do ano, as cotações internacionais apontavam para mais de US$ 950/t, mas durante o terceiro trimestre esses valores recuaram para US$ 650/t, ainda longe dos históricos US$ 450/t, mas bem mais confortáveis para o setor.

“O preço da nafta ajuda, mas não resolve o problema da competitividade da indústria brasileira”, salientou Fadigas.

O preço da nafta caiu, mas também regrediram os preços internacionais das resinas termoplásticas. E o shale gas dos Estados Unidos tem um custo equivalente a 40% da nafta.

Há uma grande ameaça no horizonte, representada pela entrada em operação de grandes projetos gás-químicos norte-americanos, com data de partida esperada para meados de 2017. São unidades de grande escala, alimentadas com gás barato.

A negociação do preço da nafta petroquímica com a Petrobrás segue em banho maria.

Desde junho, as compras do insumo estão sendo feitas com base num acordo de extensão de contrato, mediante o qual a Braskem aceitou pagar pela nafta com base na média móvel dos últimos três meses anteriores.

O acordo definitivo com a estatal deverá ser firmado até fevereiro de 2015. “E o preço que ficar definido terá aplicação retroativa, exigindo a compensação de eventuais diferenças”, explicou.

A Braskem importa diretamente cerca de um terço de todas as 10 milhões de t/ano de nafta que consome no Brasil. A queda no preço da nafta ajuda a reduzir custos, mas também tem um impacto financeiro.

Como explicou Fadigas, a empresa mantém estoques de matéria-prima, intermediários e resinas.

“O que estava no estoque antes da variação dos preços foi comprado ou produzido a um preço mais elevado, há um reflexo nas margens”, considerou.

No entanto, ele mesmo admitiu que a queda de preços da nafta não repercute imediatamente e na mesma proporção nas cotações das resinas.

Mercado fraco – O consumo nacional de resinas termoplásticas (PE, PP e PVC) acumulou 1,4 milhões de toneladas no terceiro trimestre do ano, com aumento de 5% sobre o período anterior.

As vendas da Braskem no mercado interno cresceram 7% na mesma base de comparação, evidenciando uma pequena (1%) retomada de market share.

As unidades de polipropileno da companhia instaladas nos EUA e na Europa colocaram no mercado 470 mil t, quantidade 2% abaixo do trimestre anterior, indicando os efeitos da aproximação do inverno.

Considerando os nove primeiros meses deste ano, o mercado nacional de resinas ficou estável em relação aos primeiros três trimestres de 2013.

“Em termos de crescimento, foi um ano perdido”, avaliou Fadigas. As vendas acumuladas pela companhia de janeiro a setembro deste ano ficaram 2% abaixo do mesmo período ano passado.

No caso do PVC, caminham lentamente as ações para completar a aquisição da Solvay Indupa. No momento, o Cade avalia o movimento de concentração de negócios, etapa necessária para avançar no processo.

O órgão de defesa da concorrência da Argentina também precisa se manifestar, mas a prioridade é obter o sinal verde do Cade.

Depois de obtidas as aprovações oficiais, a Braskem ainda precisará concluir a oferta pública para a compra das ações em poder dos acionistas minoritários argentinos.

Enquanto isso, o mercado de PVC anda de lado. “O PVC sentiu a queda dos investimentos em infraestrutura e da construção civil”, comentou Fadigas.

Para ele, os resultados da resina neste ano serão iguais ao do não passado, com crescimento zero de vendas.

Nas resinas, percebe-se o avanço da demanda por polietilenos lineares de baixa densidade, a ponto de estimular a companhia a converter uma de suas unidades de produção de PEAD para essa modalidade linear (veja box).

Depois de resolver o contrato da nafta, a Braskem tem outra negociação difícil, agora com a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), sobre o suprimento de eletricidade.

A Braskem e outras sete companhias formam o conjunto dos consumidores intensivos de eletricidade na Região Nordeste.

“Somos abastecidos pela Chesf há mais de trinta anos, contribuímos nesse período para a construção do parque gerador, pagando preços mais elevados que no exterior”, comentou Fadigas, ante as declarações oficiais de impossibilidade de manter o suprimento depois de junho de 2015, quando termina o contrato atual.

Como explicou Fadigas, as eletrointensivas querem renovar o contrato com os preços atuais, na faixa de R$ 105 a R$ 110 por MWh. “Poderíamos pleitear R$ 35, apenas, mas preferimos manter os valores”, comentou.

Investimentos – A desvalorização do real e a queda no preço da nafta trouxeram algum alento para a Braskem no terceiro trimestre deste ano. A companhia manteve o ritmo de investimentos, totalizando R$ 2,7 bilhões aplicados entre janeiro e setembro.

Desse valor, R$ 700 milhões foram alocados no projeto Etileno XXI, que constrói no México, em parceria com o grupo Idesa.

“A obra já está com 82% de avanço físico, estamos intensificando o pré-marketing e já temos 276 clientes ativos”, informou Fadigas. A produção mexicana de polietilenos da joint venture começará nos últimos meses de 2015.

Quase R$ 1,5 bilhões foram destinados a investimentos no Brasil, a maior parte do valor referente às paradas de manutenção de Triunfo e Santo André, além da conversão da unidade de PEAD para PELBD.

O projeto Ascent, para produção de polietilenos com shale gas nos Estados Unidos, segue seu curso, mas ainda está longe da decisão final de investimento, prevista para meados de 2016.

“Investimentos petroquímicos serão feitos onde houver ambiente propício para isso; o México e os Estados Unidos criaram condições favoráveis para tanto, mas o Brasil ainda não, infelizmente”, concluiu.

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