Notícias – Velho continente expande debates sobre biopolímeros

Ainda é muito prematuro afirmar, incondicionalmente, que a indústria química europeia está imune às consequências provocadas pela crise econômica mundial. Ainda vulneráveis e com receio de sucumbir à recessão, as empresas do Velho Continente, em especial aquelas sediadas na Itália, Grécia e Espanha – que sofrem com o redimensionamento de seus respectivos mercados internos –, acreditam que expandir seus negócios em países emergentes e apostar em pesquisa e desenvolvimento podem ser uma boa alternativa para escapar da turbulência financeira global.

Plástico Moderno, Notícias - Velho continente expande debates sobre biopolímeros
Poliamida de cadeia alifática longa, o EcoPaXX consiste 70% de óleo de rícino

Tudo indica que, apesar do substancial aumento dos custos de matérias-primas e da necessidade de reduzir seus estoques, a cultura empresarial europeia, apostando na renovação, ganhou ainda mais força nos últimos meses. Uma pesquisa realizada em junho de 2011 pela Federchimica (Federazione Nazionale dell’Industria Chimica) demonstrou por exemplo que, entre 75 empresas químicas italianas, 79% delas declararam ter aumentado recentemente os próprios investimentos em pesquisas para introduzir no mercado produtos até então inéditos na concorrência.

Nesse cenário, os bioplásticos conquistaram o status de a “bola da vez”. Com expansão em ritmo acelerado, em 2020 o consumo de bioplásticos para embalagens deverá atingir 900 mil toneladas anuais.

De acordo com o relatório intitulado The Future of Bioplastics for Packaging to 2020: Global Market Forecasts, publicado pela consultoria britânica Pira International, até 2015 o segmento crescerá cerca de 24,9% ao ano; um percentual que sofrerá uma redução e deverá se estabilizar por volta de 18,3% nos cinco anos seguintes.

Os pesquisadores ingleses sustentam que os responsáveis por um grande avanço tecnológico no setor serão os PHAs ou polihidroxialcanoatos, bioplásticos obtidos de organismos geneticamente modificados, e também o chamado “polietileno verde”, polímero não biodegradável, mas produzido com eteno obtido de recursos agrícolas renováveis. Juntos, estima-se que esses materiais possam cobrir um quarto da produção total de biopolímeros para embalagens na próxima década, enquanto, por outro lado, também é previsto um decréscimo para as bioplásticos à base de amidos, celulose ou poliéster.

A Europa continua sendo a maior porta de entrada para o setor. Fatores como prioridade na questão da sustentabilidade, políticas que desencorajam a exposição de resíduos no ambiente, a existência de entidades fiscalizadoras e a manutenção de usinas para a compostagem industrial transformaram o Velho Continente na região responsável pela metade do consumo mundial de biopolímeros para embalagens.

Uma prova concreta de que o interesse pelos biopolímeros cresce cada vez mais no continente europeu é o número de eventos dedicados ao setor. No último dia 21 de setembro, por exemplo, a cidade industrial de Turim, no norte da Itália, foi sede da Bioplastics Conference e, na mesma data, Bruxelas hospedou a conferência Plastics and the Bio-Economy – The Evolution of Plastics. Já no mês de novembro, entre os dias 22 e 23, a cidade de Berlim será palco da European Bioplastics Conference, que reunirá mais de 350 expositores.

O que antes era um nicho de mercado, hoje almeja transformar-se no core business de muitas empresas europeias. Consciente dos grandes progressos alcançados em termos de propriedades e funcionalidades, a indústria de bioplásticos espera desempenhar um papel significativo na economia do Velho Continente. “Os biopolímeros são materiais variados, eficientes e prontos para acelerar o desenvolvimento do segmento de plásticos e o crescimento de uma sociedade baseada na sustentabilidade”, acredita Lambert van Nistelrooij, membro do Parlamento Europeu. Para ele, é vital que a política da União Europeia se esforce para implementar medidas de apoio aos bioplásticos no curto e médio prazo.

Plástico Moderno, Lampert van Nistelrooij, Membro do parlamento europeu, Notícias - Velho continente expande debates sobre biopolímeros
Nistelrooij pede política de apoio para os bioplásticos

Segundo a associação European Bioplastics, com sede na Alemanha, atualmente não existe, em nível europeu, uma legislação específica a favor dos bioplásticos, mas há muitas iniciativas políticas que influem indiretamente sobre esse segmento. É o caso da estratégia chamada Europa 2020 – cujo objetivo é transformar a União Europeia em uma economia inteligente, sustentável e inclusiva –, além do suporte à “bioeconomia” e da atividade Lead Market Initiative for Europe, idealizada para incentivar a inovação em seis mercados-chave, incluindo aquele dos bioprodutos (bio-based products).

Em nível prático, por exemplo, em muitos países o programa Green Public Procurement, que estimula entidades públicas a selecionar fornecedores de produtos amigos do meio ambiente, já é uma realidade consolidada. O que ainda falta é coordenação entre os diversos protagonistas do setor, assim como evidenciado durante o encontro Bioplastics Conference, em Turim. O evento promovido pelo Consórcio Proplast antecipou alguns dos temas que, provavelmente, em novembro, serão colocados novamente em pauta na próxima edição da renomada European Bioplastics Conference.

Durante o evento italiano, Kristy Barbara Lange, assessora de imprensa da European Bioplastics, lembrou que, para a associação, são considerados bioplásticos os polímeros produzidos com matérias-primas renováveis e também os plásticos biodegradáveis e compostáveis de acordo com a normativa UNI EN 13423.

Atualmente, a Europa ainda é um dos principais fabricantes de bioplásticos, mas para que, até 2015, o continente não sofra com a concorrência de novas indústrias americanas e, sobretudo, asiáticas, os seus líderes políticos deverão acelerar o debate sobre legislações comunitárias a favor das biomassas e de seu emprego em âmbito industrial, além de discutir normativas sempre mais rigorosas em matéria de proteção ambiental que, ao mesmo tempo, não prejudiquem a indústria.

Bioshoppers ou sacolinhas convencionais? – Durante o encontro em Turim, alguns produtores associados à European Bioplastics se declararam contrários à introdução de leis que proíbem a venda de sacolas plásticas, consideradas uma alavanca indireta para a estagnação do mercado. Para alguns produtores, a medida mais sensata seria a adoção de uma taxa ad hoc para as shoppers de plástico, da qual estariam isentas as bioshoppers.

Os produtores da Itália, onde recentemente foi proibida a utilização das sacolinhas de plástico tradicionais, aceitaram as críticas e continuam acreditando que o país possui todas as características necessárias para tornar-se um dos protagonistas europeus do segmento de bioplásticos: excelentes fornecedores de matérias-primas, empresas com grande know-how e capacidade produtiva, renomados construtores de máquinas e equipamentos e uma indústria de embalagens e de design sólida e criativa.

Nesse sentido, o evento italiano representou uma vitrine importante para demonstrar esse potencial. Marco Polenghi, da Polenghi Group spa, apresentou um dos produtos mais interessantes do encontro: a eccobottle, ou seja, uma embalagem de 125 ml para suco de limão obtida por extrusão-sopragem, biodegradável e compostável de acordo com o regulamento EN 13432. O material utilizado para a sua confecção é um composto à base de PLAs (ácido poliláctico) e copoliéster alifático aromático biodegradável. Segundo Polenghi, o produto já é comercializado na França e na Bulgária e o objetivo da empresa é atingir, até 2015, 10 milhões de exemplares por ano, evitando a dispersão de 150 mil kg de CO2.

Outro produto foi apresentado pela Synbra Technology, líder europeia no setor de EPS (poliestireno expandido). A empresa foi uma das pioneiras na utilização de uma nova técnica de polimerização do PLA que deu origem ao BioFoam, biopolímero à base de açúcar que depois de utilizado pode ser totalmente biodegradado, compostado ou utilizado como matéria-prima para reciclagem. Recentemente, a mesma empresa lançou o Synterra PLA, uma nova geração de PLA baseada em ácido lático isenta de OGMs, ou seja, 100% de base biológica e resistente a altas temperaturas. A ambição da Synbra Technology é produzir diversas variedades comerciais de PLA e tornar-se o principal fornecedor de polímeros biodegradáveis de fontes renováveis.

A apresentação de produtos obtidos de polímeros bio-based também suscitou um debate sobre o emprego de matérias-primas agrícolas que poderiam ser destinadas ao uso alimentar. Michael Carus, consultor da empresa alemã Nova-Institut Gmbh especializado no segmento de biomassas para uso energético e industrial, colocou em evidencia um tema polêmico: se é melhor produzir bioplásticos com biomassas que poderiam ser reservadas ao setor alimentício ou com matérias-primas como lenha e celulose.

Para Carus, trata-se de um falso problema. “O impacto dos biomateriais sobre a produção agrícola é irrisório, porque o setor utiliza somente 4% de seus recursos, contra os 18% destinados à alimentação humana e 74% reservados à produção de alimentos para animais”, observa.

PHAs, um mercado de grande potencial – Além dos PLAs, os PHAs (polihidroxialcanoatos) não ficaram em segundo plano durante o evento italiano. Apesar de tratar-se de uma família de biopolímeros pouco difundida por causa de seus altos custos de produção, os PHAs prometem conquistar cada vez mais espaço no mercado graças à capacidade de biodegradar-se em ambiente aeróbio e anaeróbio e à possibilidade de processamento em diferentes maneiras, principalmente de acordo com a sua composição química e peso molecular.

Por esses motivos, o protagonista do evento foi o composto 100% bio-based chamado Iosononatura. Fabricado pela empresa Maip, o material, que pode ser submetido a processos de extrusão ou moldagem, deu origem a uma linha de produtos para jardinagem e utensílios domésticos 100% naturais, nos quais as cores e os aditivos são de origem natural e não derivados da indústria petroquímica.

Para as indústrias automotiva e elétrica, a novidade foi o EcoPaXX, uma poliamida de cadeia alifática longa, de alto desempenho e com excelentes propriedades mecânicas. Produzida pela DSM Engineering Plastics com cerca de 70% de óleo de rícino, trata-se de um bioplástico com baixa absorção de umidade e grande resistência à hidrólise e a sais como o cloreto de cálcio; e por isso é capaz de manter a sua força e rigidez mesmo após o processo de condicionamento.

No âmbito da produção de filmes, três renomadas empresas italianas – Novamont, Costruzioni Meccaniche Luigi Bandera e Industria Plastica Toscana – demonstraram como a sinergia entre um fornecedor de matérias-primas, um construtor de plataformas de processamento e uma indústria de transformação pode gerar resultados inesperados na fabricação de filmes biodegradáveis para embalagens.

Paolo Ceol, diretor da Luigi Bandera Construção Mecânica SpA, afirmou que, com as devidas adaptações, as biorresinas para a produção de filmes em matriz tubular (blown film) podem ser processadas por plantas convencionais para PEBD e PEAD. “Desenvolvemos uma linha completa de máquinas para extrusão de uma ou três camadas em matriz tubular capaz de otimizar o processo de transformação das biorresinas”, comenta. “Considerando as características reológicas desses materiais, reprojetamos elementos fundamentais da matriz de extrusão como o anel de refrigeração, que foi redesenhado para evitar a tendência de formação de dobras difíceis de serem eliminadas”, completa.

A inovação foi aprovada por Graziano Chini, diretor da Industria Plastica Toscana Soc. Coop, que apostou na conversão de sua empresa. “A conversão da indústria de filmes para embalagens não só é possível como serve para impulsionar um setor em crise e em busca de um processo de inovação sustentável”, avalia.

Ainda durante o evento, o último destaque envolveu os setores de embalagens de bens duráveis, com a apresentação da gama de compostos da empresa alemã FKuR Kunststoff, que recentemente assinou um acordo com a Braskem para a produção de compostos baseados no polietileno verde (BioPe – Green PE) produzido no Brasil com o bioetanol proveniente da cana-de-açúcar.

“Este acordo é um passo significativo para aumentarmos a nossa gama de plásticos com base em fontes renováveis”, declarou Edmund Dolfen, CEO da FkuR. “O Green PE é a evolução lógica de nossa forte expansão global e reflete a filosofia do nosso negócio, que pode ser resumida com o termo ‘plástica feita pela natureza’”, completa.
A Bioplastics Conference italiana funcionou como uma espécie de termômetro para a indústria de bioplásticos europeia e tudo indica que a crise econômica que ainda ronda o Velho Continente não será capaz de frear o aquecimento desse mercado e a “fome” por inovações no setor. De qualquer maneira, a próxima European Bioplastics Conference, em Berlim, será uma nova oportunidade para confirmar se os biopolímeros serão os protagonistas de 2012.

 

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