Notícias – Reciclagem energética é debatida no sul do país

Por iniciativa do Comitê de Reciclagem do Sindicato das Indústrias de Material Plástico no Estado do Rio Grande do Sul (Sinplast), foi realizado, no final de setembro, no Salão de Convenções da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), o segundo Fórum Brasileiro de Reciclagem Energética de Resíduos Sólidos com Ênfase em Plásticos – Energiplast 2011. O evento é organizado pelo segundo ano consecutivo pelas lideranças da cadeia produtiva do plástico no sul do país, que acreditam na iniciativa para ajudar o país a implantar usinas de geração energética acionadas por calor proveniente dos resíduos sólidos urbanos, a exemplo do que ocorre nos países de economia e tecnologia avançadas – Japão e União Europeia, principalmente.

Conforme o coordenador do Comitê de Reciclagem do Sinplast e também do Fórum, Luiz Henrique Hartmann, a reciclagem energética dos resíduos sólidos urbanos é uma das melhores soluções técnicas, econômicas e ambientais que muitas nações encontraram para solucionar a questão do lixo urbano. Ele destacou que 35% dos países utilizam essa tecnologia, principalmente na Europa e no Japão, processando 150 milhões de toneladas diárias.

Segundo Hartmann, a reciclagem energética pode ser feita em áreas inferiores às dos atuais aterros sanitários, citando como exemplo o caso de Porto Alegre, que envia o seu lixo (1.200 toneladas/dia) para a cidade de Minas do Leão, 91 quilômetros distante da capital gaúcha, situação geradora de uma alta despesa de transporte e logística. Ele apontou ainda como vantagens do processo a redução da emissão de gás, minimização dos problemas de lixões e aterros, e a correta destinação de todos os resíduos, ressaltando que a tecnologia atual supera em muito os antigos incineradores de lixo.

Para o presidente do Sinplast, Alfredo Schmitt, a reciclagem energética é um complemento da reciclagem mecânica. Ele ressaltou a importância do consumo responsável, observando que apesar de os plásticos representarem uma parcela muito pequena do resíduo sólido urbano, o setor é consciente e pratica o triple bottom line da sustentabilidade, ou seja, responsabilidade econômica, social e ambiental.

Entre os palestrantes do Energiplast 2011, Marcelo Spohr, especialista em tecnologia da Braskem, afirmou que não existe solução simples nem única para o problema do lixo. Na opinião dele, elas variam conforme o tempo, e de local para local, sendo as melhores alternativas compostas de diversas medidas. Spohr considera a coleta seletiva fundamental para o cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), pois 43% dos resíduos urbanos coletados têm destinação inadequada. A reciclagem energética, disse, está contemplada entre as formas de tratamentos dos resíduos no PNRS, mas com pouca ênfase.

Ele estimou em 900 mil os catadores no Brasil, muitos deles trabalhando em condições indignas. Na Europa, a própria população segrega o lixo por material e o classifica. No Japão, a legislação é ainda mais rígida e complexa, chegando a ponto de algumas cidades não terem cestas de lixo nas ruas.

O especialista da Braskem apontou uma série de vantagens da reciclagem energética em comparação ao aterro sanitário, como o aproveitamento de uma energia que seria desperdiçada, a eliminação da decomposição natural que ocorre nos aterros, redução do volume depositado nesses locais e a diminuição da geração de gases de efeito estufa, além de propiciar à atividade dos catadores condições mais dignas de trabalho. Spohr lembrou, ainda, que os países líderes na reciclagem energética são os que mais utilizam o processo mecânico.

A implantação de usina de reciclagem energética, porém, enfrenta dificuldades que precisam ser superadas. Spohr apontou entre as principais, o alto valor do investimento e o baixo valor pago pela energia elétrica nos últimos leilões realizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Para o especialista, a viabilidade ocorrerá com a construção de usinas de médio porte, desde que oferecidos incentivos fiscais, como ocorre na Europa e no Japão, entre outras medidas conjuntas.

O prefeito de São Bernardo do Campo-SP, Luiz Marinho, apresentou no Energiplast proposta de implantação de uma parceria público-privada (PPP) que objetiva oferecer ao município um sistema integrado de limpeza urbana, com qualidade e eficiência. Pela licitação da prefeitura paulista, a empresa vencedora do processo deverá implantar programa de coleta seletiva e de gestão de resíduos de construção civil, implementar e operar o Sistema de Processamento e Aproveitamento de Resíduos e Unidade de Recuperação de Energia (SPAR-URE-SBC), bem como remediar a área do antigo lixão do Alvarenga, com a construção de uma praça.

Segundo Marinho, 42 grupos solicitaram o edital para a licitação. O vencedor terá um contrato de 30 anos para a prestação do serviço. O prefeito acredita que até o final do ano será conhecido o vencedor do certame, ressaltando tratar-se de um processo totalmente inovador no país, com remuneração paga num percentual de 80% pelos serviços prestados e uma variável de 20%, de acordo com a avaliação da qualidade da sua prestação.

O prefeito destacou que a implantação do sistema de processamento e reaproveitamento de resíduos e a unidade de recuperação de energia permitirão o tratamento de todo o resíduo gerado no município, recuperando os materiais recicláveis, tratando a fração orgânica e gerando energia por meio da incineração. Ele acrescentou que o local terá monitoramento on-line de controle de emissão de gases, com investimentos estimados entre R$ 450 milhões e R$ 600 milhões para a instalação da usina, que deverá estar em operação até 2015. A expectativa de geração de energia pela URE é de 30 MW, suficiente para a iluminação de todas as ruas e prédios públicos da cidade de mais de 800 mil habitantes.

A engenheira Adriana Ziemer Garcia Ferreira, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), apresentou um panorama dos resíduos sólidos no Brasil em 2010, quando foram coletados 54 milhões de toneladas de lixo, 7,7% acima de 2009 (50 milhões), apesar de a população ter crescido apenas 1% no ano, com uma geração per capita de 378 kg por
habitante/ano.

Adriana lamentou que, da destinação final do lixo, 23 milhões de toneladas (42,4%) têm destino inadequado e 31 milhões são controladas (57,6%), com envio para aterros sanitários licenciados. Sobre a coleta seletiva, a engenheira mencionou: 3.207 municípios possuem (57,6%) e 2.358 não prestam o serviço (42,4%), enquanto muitas cidades que dizem oferecer a coleta seletiva prestam o serviço parcialmente ou de forma incipiente. A engenheira estima em R$ 9,95 por mês o valor gasto por habitante no país.

O segmento todo gera 298 mil empregos diretamente e em 2010 teve um faturamento total de R$ 19 bilhões. Ela aponta como propostas para a melhoria do setor a redução dos resíduos gerados, o uso racional dos produtos e recursos, e a escolha de práticas de gestão minimizadoras dos riscos de poluição e danos à saúde pública.
O presidente da Nova Energia e Desenvolvimento Energético S/A, Luciano Costa Coimbra, apresentou no fórum seu case do plástico transformado em petróleo sintético, desenvolvido por sua empresa, dedicada à pesquisa e exploração de tecnologias inovadoras para a produção de energia utilizando resíduos industriais e/ou domésticos. O projeto visa a construir 20 unidades industriais de plantas, extração, peletização e conversão térmica de resíduo plástico em derivados de petróleo ou a produção de combustíveis obtidos da fonte de energia alternativa e renovável, com reflexos positivos no meio ambiente.

De acordo com Coimbra, a empresa pretende produzir principalmente diesel, nafta e óleo combustível. Para tanto, as fontes de matéria-prima utilizadas serão os resíduos sólidos urbanos dos aterros públicos e privados, componentes das indústrias de embalagens, de óleos e produtos automotivos, cosméticos, remédios, alimentos e bebidas, além de produtos provenientes da indústria automobilística e resíduos industriais de embalagens e peças, entre outros.

O presidente da Nova Energia busca parceiros para implantar seus empreendimentos em diversos estados do país. Ele fechou negociações para implantar usina na Bahia e em Alagoas. Em Salvador será a primeira operação, numa associação com a Vega Engenharia Ambiental. As operações, prevê, devem se iniciar em dez meses. A outra usina, em Maceió, tem parceria com a Viva Ambiental, num negócio de R$ 43 milhões, com inauguração prevista para o final de 2012.

A Nova Energia utilizará nas suas operações tecnologia da empresa norte-americana Agilyx Corporation, localizada no Estado de Oregon. Coimbra espera retorno do investimento em 30 meses. O empresário aponta como fundamental para a implantação do empreendimento a parceria feita com a Braskem, que já assinou contrato de compra de todos os combustíveis que serão produzidos pelas usinas.

Também participaram do seminário como palestrantes, o vice-presidente da Sil Soluções Ambientais, o engenheiro Fernando Hartmann, que abordou o case do metano do lixo transformado em energia elétrica, que ocorre no aterro sanitário de Minas do Leão, cuja operação se iniciou em 2001 e tem capacidade de recebimento de 90 mil toneladas/mês, e o responsável pela área técnica da Usina Verde (localizada no Campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro), Jorge Pesce, que falou sobre o desenvolvimento da tecnologia da empresa e seu modelo de negócio.

[toggle_simple title=”Pesquisa mostra perfil da indústria gaúcha de reciclagem mecânica de plásticos” width=”Width of toggle box”]

Em paralelo ao Energiplast 2011, foi apresentada uma análise do perfil da indústria de reciclagem mecânica de plásticos no RS, com o objetivo de demonstrar o atual estágio da cadeia produtiva do setor, a fim de subsidiar futuras ações das entidades e empresas envolvidas no fomento e desenvolvimento de todos os elos desta cadeia de valor.

Na pesquisa, elaborada pela empresa de consultoria Maxiquim, as empresas recicladoras foram divididas em quatro grupos: recicladoras verticalizadas em triagem (além do produto plástico reciclado, também vendem o resíduo plástico triado); recicladoras (comercializam apenas o produto plástico reciclado); recicladoras verticalizadas em transformação (transformam o produto plástico triado em produto final e o comercializam); e recicladoras verticalizadas em triagem e transformação (comercializam tanto o resíduo plástico triado quanto o produto final produzido com o reciclado).

Conforme Solange Stumpf, da Maxiquim, das 110 empresas em operação no Rio Grande do Sul, 52% são recicladoras, 27% são recicladoras verticalizadas em transformação, 17% são recicladoras verticalizadas em triagem e 4% recicladoras verticalizadas em transformação. Essas empresas se concentram na região metropolitana de Porto Alegre, Vale dos Sinos e Serra Gaúcha.

Quanto ao faturamento do setor, os dados de 2010 indicam que as indústrias recicladoras faturaram R$ 275,2 milhões, empregando 2,5 mil trabalhadores, com uma capacidade instalada de 154,4 mil toneladas e uma produção de 106,1 mil toneladas, atuando com um nível operacional de 69%.

O levantamento da Maxiquim mostra, ainda, o volume total de resíduo consumido no Rio Grande do Sul no ano passado: 122 mil toneladas, a maior parte industrial (68,9 mil toneladas ou 56%). O pós-consumo atingiu 53,2 mil toneladas, cerca de 44%. Em relação às resinas mais recicladas pela indústria de reciclagem mecânica de plásticos no RS (IRmP-RS), destacam-se os polietilenos (PEBD/PEBDL e PEAD), que somaram 43% da produção total do plástico reciclado. Também aparecem com relevância o PET (35,9%) e o PP (15,5%).

De acordo com Solange, a principal forma de produção do material reciclado é o flake, com 63,7 mil toneladas, enquanto na forma pellet (granulado) foram 40,2 mil toneladas em 2010.

A pesquisa também fez um comparativo da IRmP-RS com o Brasil. Segundo o levantamento, o estado do Rio Grande do Sul, que representa aproximadamente 3% em área do Brasil, possui uma indústria de reciclagem de plásticos equivalente a cerca de 14% do faturamento total do setor no país. O RS, apesar de representar apenas 6% do Brasil em população, produz 11% do total de material plástico reciclado do país, com o índice de reciclagem mecânica de material plástico pós-consumo da IRmP-RS tendo sido de 24% em 2010, acima do observado no Brasil.

Em relação à Região Sul, a IRmP apontou 275 empresas na atividade, sendo 110 gaúchas (40%), 105 catarinenses (38%) e 60 paranaenses (22%). Em termos de faturamento, a IRmP-RS corresponde a 39% do total do setor na Região Sul. Quanto ao tipo de empresa, as recicladoras especializadas na atividade são, em sua maioria, do estado do Rio Grande do Sul, representando 52% sobre o total. Também o RS registrou a menor quantidade de empresas verticalizadas em triagem proporcionalmente.

O estudo da consultoria elaborado para os três sindicatos da indústria plástica gaúcha (Sinplast-RS, Simplás e Simplavi) revela que os principais resíduos reciclados são os mesmos nos três estados do Sul: polietilenos, polipropileno e PET.

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