Notícias – Processo converte plástico pós-consumo em petróleo

Converter diariamente 37 toneladas de polietilenos (PE), polipropilenos (PP) e poliestirenos (PS) usados, extraídos de 450 t de lixo, em 31 toneladas de petróleo sintético leve (45º API) será a principal atividade da planta industrial que a Nova Energia instalará no aterro sanitário de Salvador-BA, com partida prevista para 2013.

O petróleo sintético, obtido pela tecnologia de processamento térmico, licenciada por uma empresa dos Estados Unidos, depois de refinado por terceiros, resultará em nafta petroquímica (23%), óleo diesel (46%) e óleo combustível (31%), como informa o presidente da Nova Energia, Luciano Coimbra.

A conversão dos plásticos em petróleo sintético, por termólise, será conduzida em reatores nos quais esses três termoplásticos, previamente reduzidos a pellets, serão aquecidos indiretamente, a baixas temperaturas, até a fusão, e desse estado à gaseificação. Na sequência, os gases chegam a um condensador de contato direto, contendo água gelada. O condensado é o petróleo sintético, depois separado por decantação simples, centrifugado e entancado. Sobre os reatores, Coimbra acrescenta que apresentam um “desenho especial”.

Plástico Moderno, Luciano Coimbra, Presidente da Nova Energia, Notícias - Processo converte plástico pós-consumo em petróleo
Coimbra assegura retirada de todas as impurezas

Os gases não condensados – o segmento C1 a C4 – são filtrados e voltam como combustível para os reatores. “O processo é termicamente autossuficiente”, salienta. A destilação será feita por uma pequena refinaria, instalada no Polo Industrial de Camaçari, a Dax Oil, e as três frações resultantes serão devolvidas à Nova Energia.

A nafta, com produção prevista de 2,5 milhões de litros/ano, será integralmente comprada pela Braskem Insumos Básicos, para ser transformada nas matérias-primas da cadeia petroquímica (olefinas e aromáticos), nos seus fornos de pirólise de Camaçari-BA.

O uso dessa nafta eleva o compromisso corporativo a favor da “sustentabilidade da cadeia produtiva do plástico”, enfatiza o diretor de supply chain da Braskem, Hardi Schuck. Ele elogia o projeto da Nova Energia: “Contribui para a reciclagem pós-consumo nas grandes cidades, o que ainda é um desafio no Brasil.” Coimbra retribui: “O contrato com a Braskem é muito importante, pois atesta a credibilidade do processo que utilizaremos e a qualidade do produto final.”

Os outros dois produtos – o diesel e o óleo combustível – serão comercializados diretamente no mercado; o diesel com a marca Liesel e o selo ambiental, que garante conter menos de 10 ppm de enxofre.

Em princípio, na planta de conversão que a Nova Energia instalará no aterro de Salvador, todos os termoplásticos poderão ser convertidos em petróleo sintético, mas os três mencionados são os que oferecem o maior rendimento, acima de 90%. Para melhor esclarecimento, o empreendedor informa que embalagens descartadas de polipropileno biorientado, essas brilhantes que acondicionam batatas fritas e salgadinhos, valem tanto quanto outras sucatas do mesmo termoplástico, como acessórios de automóveis ou revestimentos de geladeiras.

O maior rendimento do PE, PP e PS é atribuído ao fato de esses termoplásticos apresentarem cadeias puras, formadas exclusivamente por moléculas de hidrogênio e carbono. Dois outros plásticos, o PVC e o PET, que apresentam baixa conversão no processamento térmico, também serão separados das 450 t/dia de lixo, mas apenas para venda a empresas de reciclagem.

A corporação dos Estados Unidos que transferiu a tecnologia para a Nova Energia, “com direito de exclusividade no Brasil”, é a Agilyx, de Oregon, apresentada por Luciano Coimbra como a única do mundo que diariamente produz e envia petróleo sintético para refinarias. Ele enfatiza que recentemente a Agilyx recebeu subscrição acionária de três grandes corporações, dentre as quais a petrolífera Total. “Engenheiros da Braskem já foram a Oregon conhecer a tecnologia”, ressalta. E comunica que a viabilidade do negócio é plenamente assegurada com o barril do petróleo a mais de US$ 70.

A Nova Energia esclarece que optou pelo método mais eficaz de extrair do lixo urbano os três plásticos preferenciais, método este procedente da França e da Alemanha, com instalações totalmente automatizadas. O ponto alto são os sensores óticos, combinados por raios na faixa do infravermelho que incidem sobre o lixo conduzido por uma esteira transportadora e são refletidos, com uma refração que é medida pelo sistema e usada para identificar com precisão os materiais presentes, em especial os três termoplásticos citados.

Feita essa identificação, um jato de ar é automaticamente direcionado, com força e precisão suficientes para deslocar o material escolhido para um recipiente coletor. O passo seguinte é submeter o produto dessa coleta a um processo de lavagem, baseado na exposição a jatos de ar comprimido, de pressões variadas, e à centrifugação, método que, por dispensar água, reafirma o sentimento ambiental e ecológico que permeia o projeto. “Todas as impurezas são removidas”, garante Coimbra. Na sequência, há a transformação da massa plástica em pellets com densidade de 400 kg/m³, condição em que o PE, o PP e o PS chegam aos reatores do processo.

Processamento do lixo – O processamento de todo o lixo começa com a chegada do caminhão coletor. Em vez de conduzir o conteúdo para o aterro sanitário propriamente dito, esse caminhão o descarregará em uma área da Nova Energia, onde imediatamente três funcionários separam “as peças maiores”, como geladeiras, aparelhos de ar-condicionado, sofás etc,

Quase paralelamente a isso, uma máquina abre os sacos plásticos que contêm a maior parte do lixo e, por ação mecânica, direciona o conteúdo já exposto para a esteira transportadora. Após essa operação, descreve Coimbra, o lixo atravessa uma sucessão de separadores magnéticos, peneiras rotativas e sensores óticos – as peneiras removem a parcela orgânica do lixo, equivalente no peso a 45% de todo o lixo processado.

No decorrer desse trajeto pela esteira, fora as grandes peças logo removidas manualmente, são extraídos da corrente de lixo os resíduos que geram receita, como os metais ferrosos e os não ferrosos, o PET, o PVC e outros plásticos, incluindo os três a serem convertidos em petróleo; e ainda: madeira, borracha, têxteis, fraldas, papéis e outros restos que depois de moídos e prensados se transformam em combustível de resíduo (CDR) que alimenta fábricas de cimento.

Sobra, ainda, a possibilidade de usar o material orgânico na produção de gás metano em biodigestores aeróbicos e anaeróbicos, atividade que juntamente com a reciclagem já descrita reduziria o material depositado nos aterros sanitários a 10%, avalia Coimbra. “O apelo ecológico é o mais forte possível”, enfatiza.

O empresário ressalta que a opção pelo aproveitamento do plástico contido no lixo considera o impacto ambiental positivo e a abundância desse material no resíduo sólido urbano. Também conta a favor a circunstância de o plástico reciclado encontrado no mercado, e que seria uma matéria-prima alternativa, estar valorizado no Brasil. “Custa o dobro do preço que se paga nos Estados Unidos e na Europa”, revela.

Histórico – A Nova Energia foi formada pela Wastech, empresa especializada em consultoria em engenharia ambiental e operações de pré-tratamento, transporte e destruição de resíduos perigosos (classe 1). A Wastech nos últimos anos concentrou suas atividades na indústria de alumínio primário, principalmente na destruição térmica do SPL, como são denominados os resíduos originados na desmontagem das cubas eletrolíticas (fornos estáticos). Também coprocessa outros resíduos industriais, a maioria nos fornos de clínquer da indústria do cimento. A Wastech está presente nos seguintes estados: Amazonas, Pará, Maranhão, Espírito Santo, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e na Bahia.

Desejosa por se diversificar, “sair um pouco do nicho dos resíduos perigosos”, mas sem sair do ambiente de negócios associado à questão ecológica e ambiental, a Wastech avaliou durante quatro anos as “amplas perspectivas” oferecidas pelos resíduos sólidos urbanos, até optar pelo projeto que está executando. Coimbra revela que os planos apontam para a instalação de cerca de vinte unidades de produção de petróleo sintético em cinco anos, financiadas principalmente por fundos e investidores privados, nacionais e estrangeiros, ao custo unitário médio de R$ 26 milhões.

Esse projeto passou a ser cogitado depois de visitas de Coimbra a algumas feiras europeias, entre elas a Pollutec, na França (Lyon), e a Ifat, na Alemanha (Munique), onde ouviu palestras sobre a conversão térmica de resíduos plásticos em hidrocarbonetos.

A Nova Energia pretende construir outras plantas industriais, a segunda também na Bahia e provavelmente no mesmo aterro, onde diariamente chegam três mil toneladas de lixo. As seguintes devem ser construídas em outros estados do Norte e Nordeste, São Paulo e Rio Grande do Sul, nestes dois a parceira Braskem também está presente, e existem refinarias para o petróleo sintético. As futuras plantas industriais poderão ser menores ou maiores do que a primeira, essa projetada para a Bahia. “Não há um padrão determinado”, esclarece o empreendedor.

 

Saiba mais:[box_light]Notícias – Chinês compra fábrica local da Owens Corning[/box_light]

[box_light]Notícias – Estudo afere expansão na reciclagem de PVC[/box_light]

[box_light]Notícias – Município gaúcho lança parada de ônibus ecológica[/box_light]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios