Mercado italiano aposta em masterbatches verdes

Não é de hoje que a Itália ocupa uma posição de destaque no mercado mundial da chamada “química verde”, estimulando a expansão de uma cultura industrial particularmente sensível à preservação do meio ambiente.

Em 2007, por exemplo, Catia Bastioli recebeu o título de “Inventor Europeu do Ano” graças à criação do Mater-bi, um tipo de bioplástico totalmente biodegradável produzido com amido de milho, trigo e batata.

Mais recentemente, a empresa italiana Bio-on consagrou-se como uma das grandes revelações de 2011.

Minerv, um dos seus principais produtos, é um polihidroxialcanoato (PHA) obtido por meio da fermentação bacteriana do açúcar e capaz de biodegradar-se na água em menos de 40 dias.

O crescente incentivo das instituições europeias à sustentabilidade econômica e ambiental alavanca o desenvolvimento

de bioplásticos obtidos de matérias-primas renováveis.

O que antes era um incipiente nicho de mercado, baseado em dispersos projetos piloto, hoje é considerado por muitos especialistas como um negócio cada vez mais maduro e pronto para superar aquele das resinas convencionais.

Graças a uma maior capacitação tecnológica e um sistema integrado vertical ou alianças com o setor agrícola, o segmento da “química verde” é sempre mais competitivo e a ideia de transformar a cadeia de produção dos plásticos em uma realidade sustentável já é considerada algo tangível.

Plástico, Notícias - Mercado italiano aposta em Masterbatches verdes
Catia (esq.) e Ferrari: apoio à inovação tecnológica

Vilões ou amigos? – Atualmente, a variedade de materiais desenhados com uma matriz polimérica compostável e biodegradável é significativa.

O desenvolvimento de biopolímeros – sobretudo aqueles realizados com um carboidrato derivado de plantios comerciais de larga escala – é uma realidade consolidada, mas o grande entrave do setor produtivo que privilegia o uso exclusivo de polímeros naturais são os aditivos convencionais.

Um novo composto polimérico desenvolvido com matéria-prima renovável pode perder grande parte de seu valor agregado se o mesmo conter concentrados de colorantes e aditivos tradicionais ou a mistura de ambos.

Em geral, os principais “inimigos” da manufatura de materiais plásticos ecologicamente mais amigáveis são aditivos como pigmentos e corantes, compostos tensoativos para estabilizar polímeros em emulsão, lubrificantes para reduzir a fricção e facilitar a sua manuseabilidade, plastificantes para aumentar a sua flexibilidade, além de estabilizantes, agentes antiestáticos, nucleantes e modificadores de impacto, entre outros.

Nos últimos anos, no entanto, cresce a demanda por produtos ecologicamente corretos e por esse motivo algumas empresas de masterbatches começaram a apostar na busca de soluções inovadoras, oferecendo aos transformadores concentrados de cores e aditivos que respeitem o critério de sustentabilidade.

Internacionalmente, por exemplo, com as linhas Renol-compostable e Cesa-compostable, a renomada indústria Clariant foi uma das pioneiras, em 2010, no lançamento de concentrados de cores e aditivos compostáveis para aplicações nos biopolímeros.

Outra multinacional que investiu no setor foi a norte-americana PolyOne, empresa que colocou no mercado o On Color Bio e o OnCap, ambos produtos que respeitam os rigorosos critérios de compostabilidade de normativas como EN 13432 (União Europeia), ASTM D6400 (EUA), BPS Greenpla (Japão) e DIN Certco (Alemanha).

A Behn Meyer Polymers Manufacturing também desenvolveu um masterbatch ecológico chamado Eco-Degradant PD04 para aplicações em filmes de poliolefinas para embalagens, enquanto no Brasil o número de exemplos de empresas que investem em concentrados de cores e aditivos biodegradáveis também começa a crescer.

O futuro – Os masterbatches são onipresentes em todos os processos da indústria de plásticos e, de acordo com as previsões da consultoria Global Industries Analysts Inc. (GIA), esse mercado movimentará cerca de US$ 8,25 bilhões até 2017.

Segundo o documento intitulado “Masterbatch: A Global Strategic Business Report”, o futuro crescimento do setor dependerá, em grande parte, de economias em desenvolvimento como aquelas das regiões da Ásia-Pacífico, América Latina, Europa Oriental e do leste africano.

De acordo com os analistas da GIA, com o aumento de investimentos estrangeiros e a multiplicação de novas plantas industriais em nações como a China e a Índia, o continente asiático deverá representar um arranque prometedor para o segmento de masterbatches.

O mesmo estudo também revela que as táticas de fusões e aquisições de pequenas e médias empresas por parte de grandes conglomerados não evitaram a baixa demanda mundial por masterbatches nos últimos anos.

Obviamente, a estabilidade do setor depende diretamente da saúde financeira de utilizadores finais como as indústrias automotiva, de construção, embalagens, utensílios domésticos e as indústrias eletroeletrônicas – segmentos que enfrentaram dificuldades no último biênio.

Problemas estruturais nos sistemas financeiros de diversos países do mundo pressionaram o setor, mas mercados como a América do Norte e a Europa, que representam uma grande fatia do segmento de masterbatches, começam a mostrar sinais de recuperação.

O estudo da GIA prevê um crescimento de 6% na demanda global por masterbatches até 2017 e por isso alguns fabricantes europeus continuam investindo em pesquisas para oferecer novas soluções aos transformadores.

Pesquisa é fundamental – Em 2010, a China ocupou o vértice do ranking mundial dos maiores produtores químicos, movimentando 575 bilhões de euros.

Contudo, de acordo com a associação Federchimica (Federazione Nazionale dell’Industria Chimica), a Europa ainda possui um papel de destaque, sendo responsável por 21% da produção química global e ocupando a liderança mundial em termos de pesquisas e desenvolvimento (37%).

Nesse cenário, a Itália é o nono produtor químico no mundo, o terceiro no continente europeu e um dos países que tenta incrementar o próprio portfólio de masterbatches pensados para biopolímeros apesar da expansão desse mercado ainda ser incipiente por causa dos altos custos desse tipo de resina.

A empresa Viba Group, por exemplo, anunciou o lançamento de uma linha de masterbatches que promete melhorar as propriedades mecânicas do ácido polilático (PLA) na extrusão e moldagem por injeção e sopro.

De acordo com a Viba Group, apesar do desempenho dos bioplásticos ser qualitativamente comparável àquele dos polímeros de origem petroquímica, muitas vezes as suas propriedades físicas e mecânicas não permitem a sua utilização em todos os tipos de aplicações e, consequentemente, a substituição definitiva dos polímeros tradicionais.

No caso específico do ácido polilático, os principais obstáculos para o seu emprego são a sua baixa resistência térmica e a impactos. Tratando-se de um material bioderivado, o PLA é amplamente empregado pela indústria de embalagens, principalmente na confecção de bandejas e clamshells para alimentos refrigerados e bebidas.

Entretanto, por conta da tendência a deformar-se quando submetido a temperaturas iguais ou superiores a 55ºC, o mesmo biopolímero não poderia ser utilizado em tantas outras aplicações e também na confecção de sacolas plásticas. Isso porque essas poderiam rasgar com mais facilidade do que aquelas produzidas com outros polímeros.

Motivos como esses – que aparentemente representam obstáculos – incentivaram a empresa italiana a desenvolver aditivos inovadores capazes de preservar as melhores características dos biopolímeros, além de aprimorar as suas propriedades mecânicas.

Novos aditivos – A principal novidade é o Vibatan PLA Modifier 03925, um produto que contém um princípio ativo que garante maior resiliência ao PLA moldado por injeção, além da transparência superior do manufaturado, sobretudo se comparado a outros modificadores de impacto.

Já o Vibatan PLA Strengthener 04075 é uma preparação que contém uma alta concentração de um aditivo especial capaz de aumentar significativamente a resistência da massa fundida sobre um suporte ácido polilático.

O produto foi especialmente idealizado para a produção de frascos e garrafas e para a extrusão de lâminas de ácido polilático.

Segundo a direção da empresa, “trata-se de um lançamento inovador que, fortalecendo a resistência da massa fundida, reduz o derretimento durante a extrusão das lâminas e compensa a perda de viscosidade na ausência de secagem do PLA ou em presença de PLA reciclado”.

Além desses dois modificadores, a Viba lançou o Vibatan Enhancer 03834, um masterbatch que promete melhorar a performance do PLA na sua processabilidade e durabilidade e também auxilia o processo de transformação (extrusão, termoformagem e impressão), melhorando até mesmo a estabilidade do material fundido e o seu comportamento durante a fase de corte.

Química verde – Além da Viba Group, a “química verde” também será o principal negócio da Matrìca, uma nova empresa italiana que é o resultado da fusão entre Polimeri Europa, controlada pelo grupo ENI, e a Novamont, líder mundial no setor de bioplásticos.

Essa nova realidade industrial deverá ser construída em Porto Torrers, na região da Sardenha, e prevê investimentos de aproximadamente 500 milhões de euros, além de um centro de pesquisas especializado na química amiga do meio ambiente.

Segundo Daniele Ferrari, diretor executivo da Polimeri Europa, “a ideia é incentivar o crescimento de um setor chave para a economia italiana, criando um círculo virtuoso baseado na inovação tecnológica, na fabricação de produtos sustentáveis com baixo impacto ambiental e na integração com o território circunstante”.

Empregando matérias-primas renováveis de origem vegetal, o novo polo produtivo investirá em lançamentos inovadores e, sobretudo, em intermediários para bioplásticos, além de biolubrificantes e bioaditivos para elastômeros.

“Tenho certeza de que esse modelo industrial será um sucesso exportável em outras partes do mundo”, completa Ferrari.

Já Catia Bastioli, presidente da Novamont, sublinha que “o projeto conjunto com a Polimeri Europa pretende funcionar em sintonia com a realidade agrícola, institucional, industrial e também com o mundo acadêmico”.

O anúncio da nova indústria, no entanto, não agradou os representantes de pequenas e médias empresas italianas que contestam a suposta posição dominante da Novamont na fabricação dos chamados bio-shoppers, ou seja, sacolas plásticas biodegradáveis.

Nas últimas semanas, diversos produtores de plásticos italianos se reuniram para criar a AssoEcoPlast, uma associação que defende o uso das sacolas biodegradáveis e compostáveis somente para o lixo orgânico e que é a favor da produção de plásticos recicláveis e aditivados, em vez daqueles realizados diretamente com matérias-primas renováveis.

A mesma posição é compartilhada por Vincenzo Pepe, presidente do movimento europeu chamado Fare Ambiente.

“Na Itália não existem estruturas idôneas para tratar resíduos compostáveis; e, ao obrigar os cidadãos ao uso exclusivo dos bioplásticos, colocamos em risco diversos empregos e protegemos um oligopólio”, sustenta.

Segundo o Fare Ambiente, existem no país cerca de 2.400 empresas químicas que empregam 36 mil pessoas e que poderiam utilizar aditivos ecocompatíveis certificados para entrar no mercado da química verde.

As preocupações das associações estimularam um debate sobre o tema e o novo governo italiano, liderado pelo premiê Mario Monti, anunciou no final de janeiro que já estuda a possibilidade de emanar uma nova normativa em matéria de biodegradabilidade e compostabilidade.

Leia Mais:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios