Notícias – Itália desenvolve sistemas para combater pirataria

O que indústrias de diferentes segmentos como têxtil, alimentar, discográfico e farmacêutico têm em comum? Um problema transversal, que não conhece crises nem fronteiras: o fenômeno da falsificação.

Segundo os recentes dados divulgados pela Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), graças à pirataria, no ano passado o Brasil deixou de arrecadar US$ 24 bilhões em impostos, além dos prejuízos para as empresas nacionais. Estima-se que, em 2010, essa atividade ilegal tenha impedido a geração de 2 milhões de empregos formais no país.

No entanto, engana-se quem acredita que a pirataria provoque danos irreparáveis apenas nas economias das nações em via de desenvolvimento. De acordo com a Comissão Europeia, a indústria da falsificação fatura, anualmente, no mundo todo, cerca de 350 bilhões de euros.

Plástico Moderno, Notícias - Itália desenvolve sistemas para combater pirataria
Técnica produz polímeros com características de luminescência

A globalização e a expansão da União Europeia representam fatores decisivos nas estatísticas alarmantes sobre a pirataria e, no Velho Continente, estuda-se a criação de uma eventual agência única para combater a falsificação.

Entre os países europeus, quem lidera o ranking do mercado da falsificação comercial é a Itália, com 7,5 bilhões de euros, provenientes, sobretudo, de produtos de vestuário.

No território italiano, as principais vítimas do fenômeno não são as multinacionais, mas os 4 milhões de pequenas e médias empresas que, raramente, dispõem do know-how necessário para defender a própria marca.

Com a cumplicidade de organizações criminosas, a importação de produtos alimentares falsificados se tornou um negócio rentável para a máfia italiana e, recentemente, o site Wikileaks revelou, por exemplo, a preocupação do cônsul americano, em Nápoles, sobre as irregularidades nas etiquetas de alimentos como maçãs recobertas de pesticidas, importadas da Moldávia, e sal marroquino contaminado por bactérias.

Do ponto de vista legal, a Itália propôs, no final de janeiro, a adoção de uma nova norma que prevê a obrigatoriedade de uma etiqueta que revele, detalhadamente, a origem de todas as matérias-primas empregadas na produção e conservação dos produtos alimentares comercializados no país. No entanto, a medida – chamada pela imprensa de “decreto salva made in Italy” – ainda não foi colocada em prática e os comissários da saúde e agricultura da União Europeia, John Dalli e Dacian Ciolos, consideram “inoportuna” a iniciativa italiana.
Com a pressão dos lobistas de grandes multinacionais, o governo italiano teme que os líderes das instituições europeias possam dificultar a aplicação da normativa em nome da livre concorrência. “Sabemos que essa lei contrasta as normas europeias porque as etiquetas alimentares são uma competência da União Europeia, portanto não podemos excluir a hipótese de que a Itália seja sancionada”, explica Silvia Biasotto, responsável pela segurança alimentar do Movimento de Defesa do Cidadão (MDC).

Enquanto em âmbito institucional a luta contra a falsificação de rótulos e etiquetas gera conflitos, o mundo acadêmico estuda soluções tecnológicas para combater a indústria da pirataria, cada vez mais sofisticada.

Atualmente, o mercado dispõe de diferentes soluções para combater esse tipo de crime, como a identificação por radiofrequência, hologramas, tintas especiais como aquelas termocrômicas, etiquetas termossensíveis, tintas invisíveis UV, selos de segurança autodestrutíveis ou rótulos com uma imagem revelada somente com o uso de uma lente especial, entre outras inovações.
Nos últimos anos, uma das técnicas antifraude mais estudadas por pesquisadores europeus é a fluorescência de alguns materiais quando eles são expostos a radiações ultravioleta ou outros tipos de radiação. Essa propriedade sempre foi considerada estratégica no combate à falsificação e muitos produtos de uso comum como os cartões de crédito, selos, notas de dinheiro e passaportes empregam essa tecnologia.

Agora, para garantir o respeito ao conceito de propriedade industrial, o mundo acadêmico aposta em tecnologias e materiais ainda mais avançados. Algumas das mais renomadas universidades italianas, por exemplo, estão investindo no desenvolvimento de uma nova classe de aditivos para polímeros termoplásticos capazes de transformá-los em materiais altamente luminescentes.

Gianfranco Carotenuto, professor do Istituto per i Materiali Compositi e Biomedici do Centro Nazionale di Ricerca (CNR), de Nápoles, explica que, geralmente, as substâncias fluorescentes são imperceptíveis pelo olho humano. No entanto, se forem estimuladas por radiações de alta energia, emitem luz graças à presença de grupos funcionais chamados fluoforos.

Essa particularidade, obviamente, poderia desempenhar um papel central no mercado da autenticação se existisse a possibilidade de modular a frequência de emissão do material; garantir que as emissões de luz acontecessem somente quando o material fosse exposto a uma radiação UV de um específico comprimento de onda; e, enfim, obter uma emissão de luz cuja intensidade dependesse da força da radiação UV.

Para atender a essas exigências, os pesquisadores do CNR de Nápoles concentraram os próprios esforços no desenvolvimento de uma tecnologia baseada na utilização de quantum dots (pontos quânticos), também conhecidos como átomos artificiais ou nanocristais semicondutores, cuja luz, emitida por fluorescência, depende do tamanho da partícula.

Segundo os pesquisadores italianos, essas estruturas de dimensão nanométrica, mas extremamente avançadas, podem representar uma nova classe de aditivos para polímeros termoplásticos. A grande vantagem é que, se exposto à radiação ultravioleta, de uma frequência específica, o material libera uma fluorescência típica de semicondutores como o silício e o germânio, e dificilmente reproduzível.

Para obter esses resultados, os estudiosos concentraram as próprias pesquisas em um novo tipo de química coloidal baseada na utilização de dispersantes poliméricos e também no estudo de uma classe de compostos organometálicos pouco conhecida: a dos mercaptides metálicos. O professor Carotenuto comenta que se trata de compostos orgânicos de enxofre com capacidade de se decompor termicamente a baixas temperaturas de calor, provocando a formação de átomos e estruturas metálicas “quase atômicas” no interior de um material plástico.

A principal característica desse material inovador é a emissão de uma intensa luz colorida quando submetido à radiação ultravioleta de determinada frequência e uma grande vantagem é que a tonalidade cromática de tal luz pode ser controlada empregando ligas de ouro ou de prata em vez de partículas de metais puros. Isso porque existem técnicas capazes de gerar diretamente em matrizes poliméricas (síntese in situ) clusters de ouro luminescentes ou clusters semicondutores. “Assim, se eventualmente uma combinação de cores fosse interceptada, teríamos a oportunidade de criar uma nova imediatamente”, sublinha o professor. Em outras palavras, a composição das nanopartículas poderia ser alterada, assim como o proprietário de um cofre que decide adotar um novo segredo.

Na opinião de Carotenuto, o grande benefício desse sistema antifraude é a sua simplicidade e o fato de ele não ser sujeito à oxidação ou à contaminação superficial. “A cor emitida pelos quantum dots metálicos pode ser modificada continuamente, e para verificar a sua autenticidade, em vez de máquinas caras e complexas, basta utilizar uma simples luz UV de determinada frequência”, observa. “Além disso, os aditivos fluorescentes nanoestruturados englobados em qualquer polímero termoplástico produzem um material extremamente versátil, que pode ser processado de diversas maneiras ou aplicado diretamente sobre a superfície de uma etiqueta, impresso, fiado ou pulverizado”, completa.

Outra instituição acadêmica italiana que está estudando novas soluções para proteger a autenticidade de uma marca é o departamento de engenharia mecânica da universidade de Pádua, em colaboração com o Civen (Coordinamento interuniversitario Veneto per le Nanotecnologie) e a ISIA (Istituto Superiore per le Industrie Artistiche), de Florença.

Considerando que a tecnologia baseada nas propriedades de luminescência de alguns materiais é uma grande aliada contra a falsificação de uma marca, a universidade realizou, recentemente, uma atividade de experimentação com polímeros luminescentes obtidos com a dispersão de óxidos dopados com terras raras, um grupo de 17 elementos químicos conhecidos pelas suas propriedades ópticas de luminescência. Entre eles, o térbio, que emite luz de cor verde; o európio, de luz vermelha; e o túlio, da luz azul, estão entre os elementos mais usados pela indústria.
Segundo os estudiosos, com essa técnica é possível produzir polímeros que adquirem a característica de luminescência, mas sem perder suas propriedades originais e com a capacidade de gerar códigos complexos identificáveis somente através de uma lâmpada UV ou outra fonte de luz, devidamente regulada.

Uma das principais vantagens da luminescência proveniente de terras raras é a chamada persistência luminosa, ou seja, a capacidade de emitir luz por muitas horas após o período de exposição, e espera-se que o trabalho de pesquisa logo possa trazer benefícios para vários setores, entre eles o biomédico, de moda, design, automotivo e em todos os outros ramos nos quais a legitimidade de uma marca deve ser garantida.

Ainda na Itália, outra iniciativa análoga foi desenvolvida por pesquisadores do Consorzio Interuniversitario Nazionale per la Scienza e Tecnologia dei Materiali (INSTM) do polo de nanotecnologia da cidade de Terni, junto com a universidade de Perugia. Os estudiosos italianos desenvolveram os chamados Mpid (Materiali Plastici Informativi Decodificabili), ou seja, plásticos que possuem uma espécie de código genético único e inimitável em sua própria estrutura molecular.

De acordo com o professor José Maria Kenny, coordenador da pesquisa, essa tecnologia é o resultado da sinergia entre nanotecnologia e biotecnologia. O Mpid, explica, é obtido graças à inserção de moléculas inorgânicas e orgânicas complexas, ou ainda de micro-organismos não patógenos, como o fermento, em uma matriz polimérica. “A combinação desses elementos não altera as propriedades mecânicas e funcionais dos materiais plásticos, mas gera uma variação controlada e reproduzível do espectro eletromagnético do polímero usado como base do Mpid”.
Na prática, no espectro eletromagnético modificado ad hoc, as informações necessárias para identificar o material são codificadas. “A decodificação, por sua vez, é realizada através de algoritmos especiais que, de acordo com um ou mais parâmetros matemáticos revelados no momento da produção de Mpid, podem interpretar os espectros, produzindo uma sequência de números ou barra alfanumérica, um código, que é específico de Mpid e que permite identificar o material de forma única”, explica o professor.

A ideia agradou o mercado e para administrar essa patente foi fundada a MITES Srl (Materiais para a Informação, Rastreabilidade, Criptografia e Segurança), uma spin-off da Universidade de Perugia que visa a projetar e a produzir novos produtos e etiquetas antifalsificação, além de softwares e serviços para a introdução do Mpid nos produtos de futuros clientes.

No Brasil, produzir tecnologias como essas ainda faz parte de uma realidade distante, mas instituições como o Instituto de Química da Universidade de São Paulo têm realizado grandes passos na área de foto e eletroluminescência para dispositivos antifalsificação.

O que Brasil e Europa têm em comum, no entanto, é o desafio de superar as fronteiras do âmbito acadêmico, aplicando, na prática, os resultados das promissoras pesquisas.

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