Importações assombram o setor de bens de capital

A indústria brasileira de bens de capital mecânicos prossegue navegando em águas turbulentas.

Em julho, o consumo aparente de máquinas e equipamentos no país somou R$ 10,561 bilhões, valor 2% inferior ao registrado no mês anterior.

Esse resultado interrompeu uma tendência de recuperação setorial iniciado em janeiro deste ano.

A demanda acumulada desses bens de janeiro a julho chegou a R$ 69,162 bilhões, 5% acima do valor referente ao período idêntico de 2012.

“Quando se elimina o efeito cambial, atitude necessária, o resultado dessa comparação fica negativo em 0,6%”, explicou Luiz Aubert Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

Ao mesmo tempo em que a procura interna por bens de capital mecânicos encolheu, aumentou a participação dos produtos importados nesse mercado, chegando a 66% em julho.

Como 16% do consumo aparente se refere a itens importados, porém faturados por empresas nacionais, a venda de máquinas e equipamentos genuinamente feitos no Brasil atendeu a apenas 18% da demanda brasileira em julho.

Plástico Moderno, Aubert teme que este ano seja ainda pior que 2012
Aubert teme que este ano seja ainda pior que 2012

“Somando tudo isso, talvez 2013 nos traga resultados piores do que os de 2012”, lamentou Aubert.

O dirigente setorial aponta o “tripé do mal” como responsável pelo péssimo desempenho da indústria.

O termo se refere a uma combinação de câmbio defasado, juros elevados e tributos escorchantes.

“O câmbio é o pior desses fatores, tanto que a importação vem assumindo participação maior no nosso mercado desde 2007”, criticou.

Na avaliação da Abimaq, a desvalorização do real em relação ao dólar de R$ 2,00 para R$ 2,40 ajudará um pouco a recuperar a produção local daqui a alguns meses.

“Porém, ninguém consegue dizer se o dólar vai ficar mesmo em R$ 2,40, vai subir ou vai cair, e essa instabilidade bloqueia investimentos na produção”, considerou Aubert.

Ele também comentou que a cotação do dólar a R$ 2,40 é a mesma de há quatros anos, mas nesse intervalo os custos de produção subiram muito. Isso fica claro quando se compara o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor no Atacado) e o IPP (Índice de Preços do Produtor) de máquinas.

Como a economia global ainda se recupera dos abalos de 2008, a demanda total permanece fraca, havendo ampla oferta para suprir eventuais surtos de aquisições em qualquer parte do mundo. Daí a importância capital de ser competitivo para garantir a sobrevivência do setor.

Mas isso é difícil para a indústria brasileira.

“O chamado custo Brasil torna qualquer produto feito aqui 37% mais caro que outro idêntico fabricado na Europa e nos Estados Unidos”, apontou Mário Bernardini, diretor de competitividade da Abimaq, que liderou um estudo amplo sobre isso.

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A cotação ideal do dólar para estimular a produção nacional ficaria situada entre R$ 2,60 e R$ 2,70 e, mesmo assim, não seria capaz de brecar a entrada dos produtos asiáticos.

Aubert salienta que a valorização do real entre 2010 e 2011 conteve o reajuste dos preços dos bens de capital, mas a atual desvalorização ainda é insuficiente para compensar os prejuízos havidos.

“Além disso, o dólar está se valorizando mundialmente, quase todas as moedas ficaram mais fracas, ou seja, não houve vantagem cambial relativa entre o Brasil e esses nossos concorrentes”, salientou.

Ele também relata a elevação dos preços internos dos principais insumos consumidos pela cadeia produtiva metal-mecânica.

“O aço brasileiro chega a ser 30% a 40% mais caro que o alemão, por exemplo”, comparou.

Importações crescem – O resultado da conjugação desses fatores aparece na balança comercial do setor. De janeiro a julho deste ano, as importações cresceram 20,6%, em comparação com jan-jul de 2012, formando um déficit de US$ 12,379 bilhões.

As importações no período registraram aumento de 7%, alcançando o total de US$ 19,027 bilhões, enquanto as exportações, nesses mesmos termos de comparação, sofreram queda de 11,6%, com um total de US$ 6,648 bilhões.

Apesar disso, a Abimaq considera que o resultado de julho, com vendas ao exterior de US$ 1,118 bilhão, confirma a tendência de recuperação, chegando perto da média histórica de um terço do faturamento setorial.

Os maiores clientes dos bens de capital brasileiros são os países da América Latina, seguidos pela Europa e Estados Unidos.

Nossos maiores fornecedores internacionais continuam sendo os EUA, com a China em segundo lugar. “Em tonelagem, as importações chinesas já superam com folga as provenientes dos Estados Unidos”, disse Aubert.

Plástico Moderno, Notícias: Importações assombram o setor de bens de capitalO presidente da Abimaq teme as medidas que o governo federal possa vir a adotar para conter a desvalorização do real, com a justificativa de que esse movimento exerceria impacto sobre os índices oficiais de inflação.

“Elevar os juros só prejudica o setor produtivo e não traz efeitos benéficos, porque os países centrais também elevaram suas taxas de juros e inverteram o fluxo de capitais que nos beneficiou no passado”, avaliou.

Aubert salienta que os preços das commodities minerais tendem a cair, enquanto os produtos agrícolas apenas manterão seu valor atual.

“Não dá para segurar o câmbio com swaps nem com a venda de divisas, e o déficit de conta-corrente já passa de 4% do PIB e afugenta investidores”, comentou.

Como 2014 é ano eleitoral, o dirigente não espera mudanças nas políticas fiscal, tributária e trabalhista antes de 2015.

Mesmo assim, a entidade consegue enxergar raios de luz atrás das nuvens escuras.

“Caso o real se desvalorize um pouco mais e as concessões públicas saiam do papel, a área de infraestrutura será a grande locomotiva do crescimento brasileiro para os próximos dez anos”, apontou Aubert.

Como o modelo de crescimento com base no consumo das famílias está esgotado e o mercado internacional está em crise, incapaz de absorver produtos feitos aqui, a construção civil e os grandes projetos estruturais são a única alternativa.

Mas será preciso vencer a maratona dos certames de licitação, da obtenção das devidas licenças e alguns entraves políticos.

Porém, segundo o dirigente setorial, os investidores globais buscam sofregamente projetos em áreas produtivas e lucrativas para aplicar seus capitais.

“A infraestrutura brasileira é um bom negócio, mas as normas de conteúdo local precisam ser respeitadas”, salientou.

Ele teme a desnacionalização das atividades produtivas no país.

“De usinas de açúcar e álcool a faculdades, os grupos estrangeiros estão comprando tudo o que podem, mas isso tira do Brasil os centros de tomada de decisões, o que é muito ruim”, avaliou.

Ele também recomenda ao BNDES estabelecer limites para a liberação de benefícios por setores e por porte dos solicitantes.

“Como está, as pequenas e médias empresas não conseguem pegar os recursos mais baratos”, criticou.

Plástico Moderno, Notícias: Importações assombram o setor de bens de capitalPetrobras – A poderosa estatal do petróleo e gás natural é uma grande compradora de bens de capital feitos no Brasil.

“Nosso relacionamento com a estatal é muito bom, embora ela tenha dado um cavalo de pau no seu planejamento e brecado alguns investimentos”, afirmou.

As dificuldades com o segmento petroleiro se ligam ao comportamento de alguns epecistas, que reiteradamente atrasam os pagamentos aos seus fornecedores.

Além disso, Aubert reclamou que, até o momento, não foi resolvida a questão do conteúdo local nos projetos de exploração e produção de petróleo.

“A Petrobras considera produto nacional tudo aquilo que ela compra no Brasil, mesmo que o item tenha sido fabricado no exterior; gostaríamos de mostrar para a estatal que isso não pode ser visto como conteúdo local”, finalizou.

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