Braskem pede novo índice para nafta

Atual prioridade número um da Braskem, a celebração do novo contrato de longo prazo com a Petrobras para suprimento de nafta petroquímica para seus crackers nacionais segue em marcha lenta.

Vencerá em 30 de agosto o aditivo ao último contrato entre ambas, que vigorou entre 2009 e março de 2014.

Pelo andar da carruagem, um novo aditivo de 90 dias deve ser apresentado, esticando as tratativas até novembro.

Além da complexidade inerente a uma negociação desse porte há condições agravantes, a começar pela crise política e econômica nacional, passando pelas investigações da Operação Lava-Jato que levantaram suspeitas contra o contrato anterior.

A negociação atual está sendo conduzida por uma força-tarefa composta por membros dos Ministérios do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior (Mdic) e da Fazenda, de secretários dos estados nos quais há atividade petroquímica, de indústrias do setor e da Petrobras, todos estudando os impactos dos parâmetros em disputa sobre a atividade econômica, geração de empregos e exportações da cadeia produtiva. Isso evidencia o grau de envolvimento político com a questão.

Plástico Moderno, Fadigas: ARA não é o melhor padrão para preços no Brasil
Fadigas: ARA não é o melhor padrão para preços no Brasil

“Nós propusemos uma fórmula flexível de composição de preço da nafta, porém balizada pelas cotações internacionais mais relevantes para o nosso mercado”, afirmou Carlos Fadigas, presidente da Braskem.

Historicamente, a referência adotada para a negociação de cargas líquidas é o índice formado pelas cotações spot (livres de contrato) ARA – acrônimo formado pelas iniciais de Antuérpia, Roterdã e Amsterdã, ligadas ao mercado petroquímico europeu.

Porém, a indústria petroquímica europeia vem perdendo relevância desde os primeiros grandes projetos do ramo erguidos no Oriente Médio, há cerca de 20 anos, situação agravada pelo surto de investimentos em crackers de etano derivado do shale gas, nos Estados Unidos.

“O índice ARA não é o mais adequado para nortear o preço do insumo fundamental da petroquímica brasileira, entendemos que o ideal seria usar como parâmetro a média entre o ARA e a cotação das matérias-primas do setor em Mont Belvieu, no Texas, este mais próximo da nossa realidade de mercado”, salientou Fadigas.

A fórmula proposta pela Braskem prevê pagar pela nafta um valor equivalente ao índice ARA (ou à média citada acima) multiplicado por um fator situado entre 90% e 110%.

Quanto mais baixa for a cotação da nafta, maior o multiplicador, e vice-versa. Isso permitiria à Petrobras garantir uma remuneração atrativa mesmo em períodos de baixa do petróleo, mas também evitaria que a Braskem fosse ainda mais prejudicada quando as cotações se elevarem, oscilações possíveis (e prováveis) durante o prazo de dez anos esperado pela empresa privada para a duração do novo contrato, outro ponto em discussão.

Fadigas comentou que o prazo de dez anos já fora solicitado em 2009, na formação do contrato anterior de suprimento, mas a estatal o rejeitara, preferindo renová-lo em cinco anos.

“Em 2009, o mercado estava tão fraco que a nafta despencou da faixa de US$ 1.000/t para US$ 280/t, mas o Oriente Médio estava entrando com 9 milhões de t/ano de capacidade produtiva alimentada por gás natural barato; nessa circunstância a Quattor quebrou, a LyondellBasell apelou ao Chapter 11 [equivalente americano à recuperação judicial brasileira], e nós conseguimos comprar o negócio de polipropileno da Sunoco por um valor muito atrativo”, recordou-se.

Nesse ambiente deprimido, a Petrobras exportava 250 mil m³/ano de gasolina com preço baixo e o etanol alimentava 60% do consumo dos automóveis no Brasil.

Na época, a fórmula estabelecida para a nafta considerou que a estatal, no caso de exportar o insumo, receberia a cotação ARA descontada dos respectivos custos logísticos, avaliados em 8,8% desse valor, em média, ou seja, 91,2% do preço ARA.

Ao mesmo tempo, quando fosse necessário importar a nafta para vender à Braskem, a estatal seria remunerada pelo ARA acrescido de 5% de custos, chegando a 105% da cotação spot europeia.

Ressalte-se que, segundo Fadigas, grande parte das importações brasileiras de nafta tem origem na Argentina e na Venezuela, com cotações e custos logísticos mais baixos que a referência europeia.

Com alguma negociação, isso deu origem à fórmula 92,5% a 105% de ARA que valeu até março de 2014.

“A Petrobras jamais teve prejuízo algum com as operações de compra e venda de nafta por conta desse contrato”, enfatizou Fadigas.

“Não temos culpa se, a partir de 2010, o governo federal obrigou a estatal a segurar o preço da gasolina, acelerando a demanda, fato que obrigou a misturar mais nafta local na gasolina e a importar mais nafta para cumprir o contrato; e não se esqueça de que isso impactou negativamente a produção de etanol”, criticou.

A Braskem importa diretamente cerca de um terço das 10 milhões de toneladas de nafta que consume anualmente.

Os outros dois terços são supridos pela Petrobras, cuja capacidade de produção de nafta chega a 11 milhões de t/ano, segundo Fadigas.

Ou seja, seria possível suprir toda a demanda dos crackers locais sem importar uma gota sequer de nafta.

Fadigas também afirmou que existe outro contrato, este com validade até 2018, para remunerar os fluxos de retorno dos crackers para as refinarias da estatal. Isso abrange correntes gasosas e gasolina.

“Esse contrato segue parâmetros internacionais, também”, apontou.

Segundo o principal executivo da companhia, os seus clientes também se beneficiam da existência de um contrato de suprimento de nafta de longo prazo.

“Os clientes químicos da Braskem recebem seus insumos por meio de dutos ligados aos crackers e têm preços definidos igualmente com base no mercado internacional, isso é bom para a cadeia, garantindo previsibilidade e competitividade”, comentou.

Desde março de 2014, porém, com o término do contrato, têm sido firmados aditivos que estabelecem preços provisórios (de 100% do índice ARA) até a celebração de novo acordo, com o acerto das diferenças verificadas no período, para mais ou para menos.

A falta de um contrato de longo prazo gera uma incerteza muito grande quanto à manutenção da competitividade da petroquímica nacional, afetando novos investimentos.

“Temos um memorando de entendimento com a Styrolution para construirmos uma unidade de ABS na Bahia, da qual teríamos 30% de participação, mas esse projeto só sairá do papel se tivermos um bom contrato para a nafta”, exemplificou.

“O contrato de suprimento de propeno para a unidade de acrílicos da Basf, em Camaçari-BA, foi fechado antes de março de 2014, se ficasse para depois, nós não poderíamos firmá-lo.”

Outra prioridade teve melhor desfecho.

A companhia, ao lado de outros consumidores eletrointensivos, já acertou a renovação do contrato de fornecimento de eletricidade com a Chesf até 2037, com valor entre R$ 125 e R$ 130 por MWh. “O acordo está apalavrado, mas falta a formalização”, explicou Fadigas.

O contrato que venceu neste ano previa remuneração entre R$ 80 e R$ 130, porém a estatal queria receber valores próximos aos do mercado livre de eletricidade, que já ficaram acima de R$ 500/MWh, cotação impagável para as indústrias que se abastecem dessa fonte (e que contribuíram no passado para a construção desse parque gerador).

O acordo, segundo o executivo, prevê que o caixa adicional será usado para formar um fundo para ampliar a capacidade de geração elétrica da região.

Resultados recentes – Com a recuperação das margens de lucro do setor petroquímico no cenário global, a Braskem conseguiu obter um Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortizações) de R$ 2,6 bilhões no segundo trimestre de 2015, 76% acima do registrado no primeiro trimestre, apresentando a margem Ebitda de 22,5%, com lucro líquido de R$ 1,1 bilhão.

Os crackers de nafta da Braskem no Brasil operaram com ocupação média de 97% no segundo trimestre, enquanto o cracker de etano do Rio de Janeiro ficou próximo de 70%, apenas, prejudicado por suprimento insuficiente do gás. Na média geral, a ocupação ficou em 93%.

No mesmo trimestre, as unidades produtoras de polipropileno da companhia nos Estados Unidos e na Europa rodaram a 101% da sua capacidade nominal, gerando o recorde de 506 mil t no período. As vendas de PP cresceram 7%, em especial nos EUA.

No Brasil, a demanda por resinas termoplásticas (polietilenos, PP e PVC) acusaram a retração do consumo local, totalizando 1,2 milhão de t, uma queda de 15% em comparação com o período anterior (e de 8% contra o mesmo trimestre do ano anterior).

Os três primeiros meses de 2015, por sua vez, foram afetados positivamente pela recomposição de estoques e antecipação de encomendas de clientes, prevendo elevação de cotações internacionais das resinas.

As vendas da Braskem no país sofreram retração de 17% no segundo trimestre, caindo para 792 mil t.

“Conseguimos manter nossa posição de mercado, pois perdemos apenas 1% do market share para os fornecedores internacionais”, avaliou Fadigas.

Em compensação, as exportações de resinas da companhia cresceram 46%, somando 373 mil t no segundo trimestre deste ano.

Destaque para as vendas de PP para EUA e Europa. O continente europeu importou mais PP e também polietilenos de origem brasileira no período.

“O nosso foco para exportações é a América do Sul, região na qual somos mais competitivos”, comentou.

A onda do shale gas está impulsionando a cadeia produtiva do eteno, ou seja dos polietilenos e, em menor escala, do PVC.

Os crackers de gás não geram propeno suficiente para alimentar unidades de polimerização.

Dessa forma, os preços de PP estão mais atrativos, por escassez de oferta, em relação aos dos polietilenos.

“Mesmo assim, as margens de PE ainda estão muito boas no mercado internacional e isso vai perdurar até a entrada em operação dos novos crackers de gás nos EUA, prevista para acontecer até 2017, caso dos projetos da Exxon, Dow e Chevron”, considerou Fadigas.

A Braskem e a Idesa finalizam a construção do projeto Etileno XXI, complexo para produção integrada de um milhão de t/ano de polietilenos em Vera Cruz, México, com partida prevista para o terceiro trimestre deste ano.

“Esse projeto terá altíssima eficiência, tem o dobro da capacidade de nossa unidade do Rio, porém com a metade do número de fornos de pirólise”, apontou.

A produção mexicana deverá suprir a demanda local, com algumas exportações para o mercado dos EUA.

Aliás, no México, a produção petroquímica não conta com imposto de importação protetivo, ao contrário do que se dá no mercado brasileiro, no qual a proteção pode chegar a 25%, somando impostos e direitos concorrenciais.

“Imposto de importação existe para proteger a indústria local, e é preciso compreender que as condições aqui no Brasil são diferentes das do México, os custos de produção, as deficiências estruturais e os tributos incidentes não são os mesmos”, defendeu.

“Entendo que o mercado deve ser mais aberto, com menos impostos, porém não se pode ser ingênuo no comércio internacional, atividade em que todo mundo se protege de alguma forma.”

Os investimentos da Braskem no primeiro semestre de 2015 somaram R$ 789 milhões (sem incluir os juros e o project financing do complexo mexicano), dos quais R$ 516 milhões foram alocados no Etileno XXI e o restante na construção de uma fábrica de polietileno de ultra-alto peso molecular (PEUAPM), em La Porte (Texas, EUA).

“Esse polímero tem aplicações de engenharia e está em fase de aumento de demanda nos EUA”, justificou.

A companhia também desenvolve planos para criar uma fonte própria de propeno para suas unidades de PP nos Estados Unidos, mediante a aplicação da tecnologia de desidrogenação de propano.

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