Braskem avança no México com PE

Contratempos empacam os projetos da Braskem na Bolívia e na Venezuela.

A situação é muito melhor no México, onde firmou parceria com o grupo local Idesa (35%) para erguer um cracker de gás e três unidades de polietilenos, sob as bênçãos da Pemex, a estatal que lhes fornecerá 66 mil barris por dia de etano pelos próximos vinte anos.

Mediante investimento estimado em US$ 2,5 bilhões, o Projeto Etileno XXI, a ser instalado em Coatzacoalcos, no estado de Veracruz, está em fase de detalhamento de engenharia, com previsão de partida para janeiro de 2015, segundo Roberto Bischoff, CEO da Braskem-Idesa, que lidera os trabalhos de construção.

“Para tanto, devemos começar a quebrar o chão nos últimos meses de 2011”, afirmou.

A demanda mexicana por polietilenos chega a 1,8 milhão de t/ano, dos quais 70% são supridos por importações.

O projeto contará com duas linhas para polietileno de alta densidade, com capacidade combinada de 750 mil t/ano.

Além delas, será erguida uma linha de 300 mil t/ano de polietileno de baixa densidade convencional (alta pressão).

Em novembro do ano passado a Braskem assinou um contrato de licenciamento tecnológico com a Ineos, pelo qual poderá usar a sua avançada tecnologia de produção e catálise para as unidades de PEAD.

“Poderemos usar a tecnologia Ineos para erguer até o limite de 4 milhões de t/ano de capacidade produtiva nas Américas, Angola e Moçambique”, comentou Roberto Ramos, vice-presidente de negócios internacionais da companhia.

As duas plantas de polietileno que estão sendo projetadas para a Venezuela também usarão a mesma tecnologia.

Ele justificou a escolha do fornecedor pela sua adequação para gerar os tipos de polímeros que são mais demandados no México, em especial os voltados para a confecção de tubos, contêineres soprados, peças injetadas, tanques rotomoldados e filmes.

Além disso, ela permite operar com mais flexibilidade as unidades, reduzindo o custo de produção.

Por fim, a Ineos apresentou a melhor proposta econômica para o projeto.

A Braskem não usa essa tecnologia em nenhuma de suas unidades atuais.

Curiosamente, a seleção do licenciador do cracker ainda não foi definida.

“Trata-se de tecnologia mais corriqueira, que pode ser contratada depois”, explicou Ramos.

O diretor comercial e de desenvolvimento de negócios da Braskem-Idesa, Cleantho Paiva Leite, saudou a escolha pela Ineos.

“A tecnologia deles para produção de polietilenos em slurry em grandes loops é imbatível”, avaliou.

Plástico Moderno, Cleantho Paiva Leite, Diretor comercial e de desenvolvimento de negócios da Braskem-Idesa, Notícias - Braskem avança no México com PE
Leite elogia tecnologia adotada pela Ineos na produção de polietilenos

“Com ela poderemos fazer até bimodais para injeção, sopro e extrusão de filmes.”

Ele pede para não compará-la com o antigo conceito de slurry em tanque, considerado adequado apenas para a obtenção de grades especiais, mas ultrapassado para os tipos mais usados da resina.

O processo da Ineos também prevê a aplicação de um solvente de processo muito leve, que é removido por efeito flash sem exigir altas temperaturas.

A terceira unidade do Projeto XXI, para o PEBD convencional, usará a tecnologia Lupotech T, da holandesa LyondellBasell.

A escolha agregará à joint venture extensa gama de polietilenos, comdiversos índices de fluidez e excelentes propriedades ópticas e mecânicas.

Na opinião de Bischoff,  essa tecnologia também irá conferir à empresa melhores condições de competição no mercado norte-americano.

“Com ela seremos líderes em custos de produção e teremos um portfólio de produtos mais amplo.” Será a primeira licença para planta tubular de PEBD nas Américas em mais de 20 anos.

Os trabalhos de engenharia básica para a planta de PEBD começaram no início de março, na Alemanha e na Itália. Quando entrar em operação, será a maior do gênero em capacidade nas Américas.

Embora seja considerado um produto tradicional, o PEBD apresenta capacidades únicas de estiramento e adesividade, não alcançadas pelos polímeros lineares mais modernos.

A planta mexicana contará com um reator de alta pressão tubular, mais atualizado que as antigas linhas de autoclave, muitas das quais ainda em operação, inclusive no Brasil.

A situação dos projetos de polietileno e de polipropileno na Venezuela não é muito animadora. A Braskem não conseguiu contratar com a PDVSA o suprimento necessário de gás natural para fazer o eteno.

No PP, a situação é aparentemente mais confortável, com fôlego para retomada dos trabalhos da Propilsur em 2011. “O governo venezuelano já aprovou o suprimento necessário de propeno”, afirmou Roberto Ramos.

O vice-presidente de negócios internacionais explicou que nenhum equipamento para esses projetos foi ainda contratado com fornecedores.

“Nunca iniciamos o procurement antes de assinarmos o contrato de fornecimento de matéria-prima, mas os projetos das plantas já estão completamente detalhados”, comentou.

Dificuldades para garantir o suprimento de gás natural também estão retardando o anúncio de projetos petroquímicos no Peru e na Bolívia.

“Em ambos os casos, é preciso que eles comprovem suas reservas de gás e firmem contratos de longo prazo, mas continuamos dispostos a investir nesses países”, explicou Ramos.

Ao mesmo tempo, a companhia estuda a possibilidade de expandir suas fronteiras para o continente africano.

Plástico Moderno, Roberto Ramos, Vice-presidente de negócios internacionais, Notícias - Braskem avança no México com PE
Ramos aposta na atuação globalizada

“Angola tem muito petróleo e gás, mas já está comprometida com o suprimento de gás natural liquefeito para os Estados Unidos”, disse Ramos.

Com a entrada em cena do shale gas, pode ser que esse gás fique disponível e será possível pensar em extrair dele o etano para alimentar um cracker, com o intuito de suprir o mercado africano e a região do Mediterrâneo. Em Moçambique, a ideia é aproveitar as grandes reservas de carvão para produzir metanol. “Há tecnologia para converter metanol em olefinas”, salientou.

Os esforços para a globalização da produção da Braskem têm por objetivo aproveitar as oportunidades futuras de mercado, em melhores condições competitivas.

“Em resumo, a petroquímica mundial vai se desenvolver e os Estados Unidos ficarão curtos em polímeros até 2017 e tendem a aproveitar o shale gas para implantar novas unidades. Na América do Sul, o crédito é muito caro em relação a outras regiões, como o Oriente Médio e a Ásia, portanto é preciso atuar de forma global”, concluiu Ramos.

Polímeros verdes – A Braskem inaugurou há alguns meses a primeira fábrica de polietilenos obtidos de fonte natural renovável, no caso o etanol de cana-de-açúcar.

A unidade de polimerização não precisou ser construída, bastando dedicar exclusivamente para isso uma das várias linhas de alta densidade existentes no antigo polo gaúcho. Foi preciso construir uma unidade de desidratação de etanol, capaz de converter o álcool em eteno verde.

A produção do polímero está totalmente vendida para vários clientes, interessados em conferir aos seus produtos – geralmente embalagens sofisticadas ou autopeças – um toque ambientalmente correto, ainda que pagando um premium price. Isso está motivando a Braskem a estudar a possibilidade de investir em ampliações.

No momento, a companhia está interessada no mercado do polipropileno verde, tendo anunciado durante a feira K, em Düsseldorf (Alemanha), em outubro, a conclusão do projeto conceitual para esse fim.

Seria preciso investir cerca de US$ 100 milhões para produzir propeno verde e polimerizá-lo, obtendo, ao menos, 30 mil t/ano da resina.

Embora a localização dessas unidades não tenha sido ainda anunciada, parece provável que elas fiquem mesmo em Triunfo.

“Nesse caso, usaremos o eteno de álcool para produzir o propeno, por meio de trimerização e metathesys”, explicou Edmundo Aires, vice-presidente de tecnologia e inovação da Braskem.

Trocando em miúdos, trata-se de unir três moléculas de eteno em uma cadeia de seis carbonos que, na etapa seguinte, será quebrada em duas moléculas de três carbonos, o propeno. Essa olefina vai para polimerização.

Embora pareça extravagante, esse processo é comprovado e confiável. “Ele é usado para fazer propeno e também o gas to liquids no Oriente Médio há anos, sem problemas”, confirmou Aires.

A Braskem poderia dispor de outras alternativas para obter o propeno verde, por exemplo, com modificações na fermentação da sacarose para aproveitar o ácido pirúvico formado quase no final desse processo.

Além disso, a Quattor (em fase final de incorporação) desenvolveu um processo próprio para fazer propeno com glicerina residual de biodiesel.

“Essas alternativas ainda estão sendo desenvolvidas e aprimoradas e, no caso da glicerina, há dúvidas quanto à garantia do suprimento para uma planta comercial de propeno”, avaliou.

“Com certeza continuaremos esses estudos para aproveitamento futuro, mas nosso plano atual é começar com uma tecnologia mais conhecida, aproveitando ao máximo a sinergia com os ativos existentes.”

A química verde deixou de ser uma utopia, como afirma o consultor Marcos Nogueira Cesar, vice-presidente de operações na América Latina da SRI Consulting, agora pertencente ao grupo IHS.

“Basicamente, os consumidores querem contar com essa alternativa, aproveitando as vantagens regulatórias e o aprimoramento tecnológico desses processos”, comentou.

Ele aponta que os produtos ditos verdes representavam 1,8% das vendas mundiais em 2005 e devem ficar com uma fatia entre 22% e 28%, em 2025. “Nas especialidades químicas, essa fatia pode chegar a 50%”, advertiu.

Ele aponta para o etanol como a mais importante plataforma química verde. Dele podem ser feitos o eteno, com uso similar ao de origem petroquímica, a exemplo da Braskem.

Também pode ser usado para gerar acetaldeído e, consequentemente, ácido acético e acetatos, como faz a Rhodia, em Paulínia-SP. “A produção de propeno pode ser feita diretamente com zeólitas, ou passando pela etapa de propanol”, exemplificou.

Fora essa plataforma bem conhecida dos brasileiros, aliás, os mais eficientes do mundo na produção do álcool, Nogueira cita outras plataformas viáveis para a produção química ou petroquímica: glucose/sucrose (fonte para os polilactatos), glicerina (epicloridrina e propilenoglicol, por exemplo) e até os óleos vegetais, já usados como polióis.

Há outras tecnologias que devem ser viáveis no longo prazo, como o aproveitamento de compostos lignocelulósicos.

“A química verde faz parte da equação de oferta e demanda, embora dependa do comportamento futuro dos preços do petróleo, da recuperação da economia global e das restrições legislativas aos produtos sintéticos”, concluiu.

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